CAPITULO IV – PINGA NI MIM




“Vamos Necrosar por aqui
Bebendo tudo até cair
Na árvore da montanha O-Le-Igaho!
Vamos beber tudo”


Sabe aqueles dias que você tem certeza que não deveria ter saído da cama? Então, esse era um desses dias.
Tratei de me afastar da ferrugem que era agora era o trem. Andando um pouco vi que a cidade era mais vazia do que eu pensava, parecia até uma daquelas cidadezinhas de filme de faroeste. Andei por ai sem rumo por quase meia hora, só para conhecer a cidade, mas fiquei mais perdido do que quando cheguei. Todas as casas eram muito parecidas, sem falar das ruas, que também eram idênticas.
Dei sorte de encontrar um barzinho aberto (talvez o único existente). Dentro dele havia, dos senhores meio maltrapilhos tomando a famosa pinga. Tinha um cara com cara de zumbi do outro lado do balcão que parecia estar olhando para ontem. O lugar era o típico “pé-sujo”, tinha uns salgados beeeem velhos, com cara de que tinham sido feitos há um mês atrás, no mínimo. Assim que entrei, todos instantaneamente olharam para mim como se eu fosse uma assombração. Sentei-me num banco próximo ao balcão e o mais distante possível dos dois senhores que bebiam sua “branquinha”.
– Tarde... – disse o cara do balcão com aquele típico sotaque carregado no erre, que todo o interiorano possuía.
– Boa tarde, me vê ai um refrigerante. – pedi meio sem jeito.
– Ih seu moço, tem não. – respondeu-me o bom homem com toda a calma do mundo.
– Ta legal, então me da um suco de laranja.
– “Tombem” não tem laranja não.
– Cerveja?
– Xi... Acabo agorinha há pouco.
– Caramba, tem algo pra beber aqui?
– Tem sim “sinhô”. Pinga!
– Deixa pra lá..
– “Óia” só seu moço, aqui num pode ficar sem comprar nada.
– Olha só meu amigo, eu não quero comprar nada, eu só quero saber onde é que eu estou.
– Ah... “Entonsi” por que o “sinhô” não “preguntou” antes? Aqui Cafundozinho do Noroeste Sul.
– O que? Deixa pra lá. Mas agora me diz uma coisa, você sabe onde fica a Taverna do Joe?
– Ih seu moço, to muito “alembrado” não, num sabe. – respondeu o homem com o ar mais falso que já vi. – “Perque” o “sinhô” num toma uma pinga, ai quem sabe eu num me “alembre”.
– Ta legal, me da uma dose ai. – disse vendo que não haveria outro jeito.
O homem foi se arrastando até o outro canto do balcão e, tirou uma garrafa que estava completamente coberta de pó e teias de aranhas. O copo, bom... Achei melhor nem olhar para onde ele tirou o copo. Quando ele pôs a pinga dentro do copo, rapidamente peguei o copo e virei garganta a baixo, de um gole só. Eu nunca senti minha garganta queimar tanto quanto aquela vez, essa era “marvada”! Quando terminei, bati o copo no balcão e olhei para a cara do dono do bar, ainda com a garganta queimando, mas tentei me forçar a não demonstrar isso.
– E então? – Perguntei forçando a voz esperando uma resposta.
– Pois é seu moço, acabei de me “alembrar”, eu sei onde fica o tal lugar que “ocê” falou.
– E onde é? – perguntei mais uma vez esperando uma resposta concreta.
– Ih seu moço, toma mais outra pinga ai, “perque” eu num to muito “alembrado”.
O cara me serviu mais outra dose e eu já sem paciência alguma, tomei o copo da mão dele e virei esse mais rápido que o primeiro, e esse pareceu que queimou ainda mais que o outro, mas resisti bravamente. Bati esse copo, ainda mais forte que o outro e esse quase quebrou.
– Agora o senhor se lembrou? – Perguntei com os olhos esbugalhados e a garganta em chamas.
– Me “alembrei” sim, fica ali no outro quarteirão, no fim do beco.
Fui pra lá o mais rápido que pude, depois de ser “assaltado” em dez reais que o dono do bar me cobrou pelas doses, com a desculpa esfarrapada de a cachaça era envelhecida... ¬ ¬”
Cheguei à frente da tal taverna e me deparei com uma “simpática” placa, que já preparava quem fosse chegar perto ou até mesmo adentrar no bar. “Taverna do Joe – Pague e saia inteiro”.
Não entendi muito bem o que aquele cartaz queria dizer, mas logo logo descobri. Um homem foi arremessado para fora do bar, afundando a cara no chão. Vi que o infeliz estava mais arrebentado que o trem que eu vim, mas antes que meu cérebro pudesse pensar em algo, um grandalhão barbudo, com cara de pouquíssimos amigos, surgiu de braços cruzados na porta do bar e olhou direto para mim, com cara de quem ia me moer todo.
E eu fiquei imaginando: por que justo hoje o meu anjo da guarda achou de fazer greve?

Um comentário:

  1. Vai postando...

    E vai e vai...

    Está chegando a parte boa. =D

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