FORJANDO UM GUERREIRO - CONCEPÇÃO SEGUNDA PARTE

SEMENTE DO MAL


Após a tempestade sempre vem a bonança, diz o provérbio, mas não passa de mais um provérbio sem significado prático algum, ainda mais agora para a pobre Araia. A manhã após a tempestade não lhe trouxe nenhuma calmaria, muito pelo contrário, trouxe-lhe mais sofrimento do que a noite anterior. Aos primeiros raios de Kioran mostraram o estrago da noite passado, mas nem todos poderiam ser vistos assim tão facilmente. Tronix percebeu que sua filha Araia não estava em casa pela manhã, a preocupação de que algo de ruim poderia ter acontecido a sua filhe era evidente, mesmo em um mundo onde amor e compaixão eram coisas desconhecidas, um e pai e uma mãe ainda se importavam com seus filhos, mesmo que superficialmente.
Tronix saiu de sua casa que não fora muito danificada pela tempestade, para procurar sua filha. Todos a quem via na rua parava para perguntar se a tinham visto, mas as respostas eram sempre negativas. De um lado a outro ele ia sem saber nada, sem obter nenhuma informação útil. Depois de muitos minutos andando sem obter nada, ele chegou até o galpão. Havia algumas pessoas a sua volta, pensou Tronix, mas era estranho, aparentemente o galpão estava inteiro, apenas com alguns galhos quebrados e algumas folhas no topo, mas nenhuma avaria séria, que justificasse tanta gente a volta dele, mal fazia idéia de que logo saberia o porquê do tumulto.
Ao se embrenhar entre as pessoas viu inicialmente algumas coisas reviradas, muitas coisas quebradas e pedaços de roupas rasgadas. Mas o que todos olhavam não era a balburdia, nem, a desordem das coisas, mas sim a jovem que jazia no chão, com alguns trapos rasgados que mal cobriam seu corpo, estava suja e com muitas e nítidas escoriações por todo o corpo. Tronix não pensou duas vezes, saiu em abrindo caminho entre as pessoas par a ver o que já sabia, era sua fila que estava lá. Ela estava acordada, mas em choque, tremendo constantemente, seus olhos arregalados, estavam profundos e escuros em volta, lágrimas ainda escorriam-lhe pelo rosto, que exibia o horror do que lhe foi feito. Seu belo, alvo e jovem corpo estava quase todo exposto, porém Tronix ficou mais chocado não com as marcas de golpes que havia em seu corpo, mas com o sangue que escorria por entre suas pernas.
Em meio aos olhares de maliciosos de muitos homens que lá se encontravam quem sempre desejaram conhecer a intimidade da bela Araia que agora, de alguma forma tinham tal oportunidade, Tronix carregou sua filha nos braços, enquanto todos olhavam e imaginavam o que tinham acontecido e outros, gostariam de terem sido eles a terem possuído a bela jovem.

Dois dias se passaram, mas no vilarejo ainda se falava do ocorrido, todos se perguntavam que teria feito tal coisa e porque, enquanto outros tinham a resposta na ponta da língua. Araia agora falava pouco, mas chorava muito. Seus pais sempre a questionavam sobre o que acontecera, mas ele dizia coisas desencontradas, nada que fizesse muito sentido. Confinada em casa, sua dor foi dando lugar ao ódio, profundo e esmagador.
No quarto dia após uma das noites mais excitantes de sua vida, Raiarath apareceu na cidade para cobrar os impostos, com um vigor e uma alegria nunca vistos pelos moradores da vila, todos obviamente estranharam. Seu pai que estava com ele nesse dia, demonstrando grande orgulho do seu filho, mas com um olhar arrogante e pomposo que sempre emoldurava sua face gorda.

Ao ouvir a notícia, Araia tomada pela fúria saiu de sua casa em disparada, muitos se assustaram ao ver a jovem depois de tanto tempo, muitos acreditavam que ela havia morrido, mas lá estava ela, bela como sempre, correndo pelas ruas, mas no lugar de sua jovial beleza, havia uma beleza diferente. Seu olhar era de ódio, sua boca se contorcia de fúria e cada passo que dava era carregado de rancor, seus punhos serrados segurando o vestido, pareciam esmagar alguma coisa com muita violência.

Quando avistou Raiarath em cima de seu cavalo em frente a uma casa, acelerou mais ainda seus passos, quando chegou bem próxima, com um impulso voou em seu pescoço, sua mão apertando-lhe a garganta o mais forte que podia seus olhos arregalados, a fúria latente em seu rosto. Ela era apenas uma mulher, por mais forte que apertasse, por mais que tentasse, Raiarath era um homem, um homem muito mais forte do que ela. Rapidamente ele se livrou dela com um golpe certeiro no rosto da moça, mas ela não se deu por vencida, levantou rapidamente e investiu contra ele mais uma vez, mas os reflexos dele eram muito mais apurados do que a fúria de uma mulher e ele a deteve, derrubando-a no chão com um chute em seu abdômen.

Todos ficaram chocados com a cena, pois nunca haviam vista a bela Araia daquela forma, ela que sempre fora um jovem doce, uma dama digna de estar em qualquer corte, agora estava transformada em um animal selvagem, nunca imaginaram vê-la daquela forma.


– Diga mulher, por que me ataca? – Perguntou furioso Raiarath – Por acaso esta louca?

– Louca? LOUCA!? – Berrou Araia em resposta.

– Sim, só pode estar louca, pois nada lhe fiz, então por que me ataca de modo tão baixo mulher histérica? – Falou em tom claro de zombaria, exibindo seu típico olhar de sínico.

– Ainda tem coragem de me perguntar o por quê? Por acaso não lembra o que fizeste a mim?

– Sinceramente, não. – Mentiu.

– MALDITO, MENTIROSO!

Mais uma vez a jovem tomada por uma fúria cegante, jamais vista por nenhum morador do vilarejo, investiu Cintra o filho do cobrador de impostos. Mais uma vez sua investida foi frustrada, mas dessa vez foram as pessoas que estavam por perto que tentaram aplacar sua irá segurando-a, aproveitando-se disso o cobrador de impostos em defesa de seu filho acertou um tapa com as costas da mão no rosto da jovem. A violência do golpe fez com que sua boca se cortasse e o sangue não tratou a brotar.

– Como ousa uma aldeã maltrapilha atacar o meu filho sem nenhum motivo? – Perguntou repleto de raiva.

– Ele me atacou, estuprou-me e agora estou desonrada!

Ela repetiu três vezes, com a sua raiva aumentando cada vez mais. Lágrimas brotaram de seus olhos, mas eram lágrimas de ódio. Toda a vila parou para ver o que acontecia, os pais de Araia também observavam atônitos a tudo, mas não saiam de onde estavam, eram apena meros espectadores. Todos ficaram igualmente chocados com a declaração da jovem, que abertamente acusava o filho do cobrador de impostos de tê-la desonrado. Estupros não eram incomuns, mas a desonra, mesmo naquele mundo era algo grave e acusar alguém de tal coisa, era algo muito sério.
– Isso é verdade meu filho? Desonraste está mulher?
– Obviamente que não meu pai, está mulher mente!
– NÃO! O que digo é a verdade! Ele mente! Ele me forçou há quatro dias atrás, ele me enganou! – Vociferava Araia, tentando se livrar dos que a seguravam.
– Isso é verdade meu filho? Realmente fizeste isso a essa mulher? Perguntou mais uma vez o cobrador de impostos a seu filho, com grande impaciência.
– Meu pai, por que mentiria? Olhe para ela, é uma louca. Ela que me seduziu e implorou para que eu a possuísse na noite da tempestade, disse que não via a hora de sentir o meu corpo no dela. Parecia uma meretriz, tamanha era a sua volúpia. – Mentiu rindo por dentro e por fora.
Mas seu pai não se deu conta da farsa, ou fingiu não notar o engôdo e tomando de ira, mandou levarem a mulher dali, disse que por causa disso os impostos seriam triplicados, o que considerou um castigo mais do que justo para que todos aprendessem a não proferir mentiras por ai. Em meio aos muitos lamentos e reclamações, os dois recolheram o restante dos impostos e saíram com um sorriso triunfante no rosto, com a pompa de alguém que fez algo maravilhoso.

A família de Araia conheceu toda a revolta das pessoas do seu vilarejo, humilhados, xingados, apedrejados... Eles foram alvo de toda a revolta e a ira que as pessoas do vilarejo vinham guardando até aquele momento. À volta para a casa daquele dia foi a mais longa e dolorosa possível. Ao entrar em casa, Tronix, tomado de raiva descontou em sua filha o que as pessoas fizeram a ele antes de chegar a sua casa. A surra foi pior do que ela imaginava, mas as agressões verbais eram mais pesadas e muito mais violentas, cada golpe era seguido de algum xingamento, ou algum tipo de humilhação. Sua mãe apenas observava, enquanto a jovem lhe pedia ajuda, mas esta negava e dizia que seu pai tinha razão, que ela não deveria ter mentido de tal forma, muito menos agido de maneira tão insana.
Ela gritava e implorava pelo perdão, dizia que não tinha mentido que só falara a verdade, queria vingança, mas nada do que ela dizia aplacava a fúria de seu pai. Cada vez que ela falava, parecia que a fúria de seu progenitor aumentava. Ele disse que ela era muito nova para agir como ágil, mas mesmo que ela tivesse razão e fora realmente o filho do cobrador de impostos que a violentou que ela tivesse ficado quieta, pois não se podia medir forças com pessoas assim sem sair prejudicado. Agora todo o vilarejo fora prejudicado por causa de sua loucura, que agora todos iriam odiá-los por isso e perderiam o favor dos seus amigos, para sempre.


Os dias passaram, o ódio da vila foi abrandando, mas não foi extinto, sempre alvo de alguma demonstração de revolta, mas mesmo assim, tentaram levar suas vidas da melhor forma que puderam. Algumas poucas semanas após os fatos que abalaram suas vidas, algo ainda abalaria suas vidas, mais do que tudo o que já tinha acontecido.

À tarde, enquanto ajudava sua mãe a lavar as roupas em um riacho não muito distante do vilarejo, Araia começou a se sentir mal, uma forte tonteira fez tudo girar a sua volta e tombou para dentro d’água, sua mãe rapidamente foi acolhe-lha, mas além de estar completamente molhada, aparentemente não passou de um mal estar repentino. Possivelmente por causa do sol forte, mas mesmo assim continuou a trabalhar por ordem de sua mãe.

Quando terminaram seus afazeres voltaram para casa, mas mais uma vez Araia não se sentiu bem, o mundo girou novamente a sua volta, ela sentiu o chão sumir de seus pés e ela tombou para frente. Sua mãe correu para ela mais uma vez, mas ao invés de ajudá-la, ralhou com ela por ser desastrada e sujar toda a roupa, puxou-a pelo braço com violência para levantá-la, jogou as roupas em cima dela e ordenou que continuasse. Ao chegar em casa, depois de organizar tudo, foi tomar um chá para tentar se sentir melhor, mas o odor do chá deixo-a enjoada, sua boca começou a salivar forte, sentiu seu estomago revirar, mas não teve tempo de qualquer reação e vomitou.

Seus pais ficaram chocados ao saber do que se passava com ela, tentaram encontrar na vila alguém que pudesse ajudá-la, mas o único curandeiro local se recusou a ver a jovem, justificando que fora muito prejudicado pelas mentiras dela e não seria um simples mal estar a mataria, já que ninguém morria por nenhum tipo de doença.


A irmã de Tronix era a parteira local, mesmo com muito rancor de Araia, se ofereceu para ver a garota, pois tinha uma suspeita do que poderia ser segundo os relatos de seu irmão. Assim que viu a garota e fez algumas perguntas, examinou seu vomito só para ter certeza. Suas suspeitas estavam corretas... Araia estava grávida.

Um comentário:

  1. Bom, muito bom.

    Aguardo pelo banho de sangue... Esse espero que tenha =p

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