FORJANDO UM GUERREIRO - GERAÇÃO

ALIMENTO DA ALMA


Dizem que o legado de uma pessoa se da pelas coisas que ela fez, seus ensinamentos, seus atos em geral e principalmente seus filhos, onde muitos dizem, estar o reflexo de sua essência. A chegada de um herdeiro é sempre muito bem vista pela maioria, pela maioria, mas não por todos e a pobre Araia fazia parte dessa minoria a quem a idéia de alguém para perpetuar seu legado não agradava. Mas que legado deixaria ela? Que legado deixaria uma simples camponesa, desacreditada pelos que a rodeiam e odiada por alguns? Que futuro teria o primogênito de uma mulher a quem chamaram de mentirosa, na frente de todos e todos acreditaram?
Essas talvez fossem as coisas que se passavam pela sua cabeça, mas nem de longe refletiam a confusão que se tornou a sua mente. O oráculo que outro dia profetizou sua gravidez estava certo, mas como poderia essa criança ser algo importante, como?
Quando sua tia olhou em seus olhos e lhe disse que estava grávida, o choque foi evidente. Seus olhos arregalaram, uma lágrima escorreu de um deles, levou as mãos a boa e conteve o grito de pavor que a notícia lhe causara. Sem saber o que fazer, imersa em grande desespero, ela correu, abriu a porta com violência e correu sem rumo. Atravessou todo o vilarejo com uma velocidade considerável, todos pararam para observá-la, enquanto ela desaparecia da vista de todos em questão de poucos segundos. Sem rumo ela vagou por um tempo que ela não notou nem soube estimar, correu o máximo que pode, até suas pernas finalmente cederem ao cansaço. Ela tombou soluçando próxima a uma árvore de tronco fino, mas que providenciava bastante sombra, lá ficou por mais tempo ainda chorando, desolada e sozinha.
Quando finalmente deu por si, notou que não sabia onde estava, nem a que distância estava a vila, mas isso era a menor de suas preocupações. Sua tia nunca havia falhado em predizer uma gravidez antes, certamente não estaria desta vez, além do mais, ela mesma sabia os sintomas e algumas vezes auxiliou sua tia, agora que refletia um pouco mais claramente sabia que seus sintomas só poderiam indicar tal coisa.
Talvez em qualquer outra ocasião futura, sua gravidez seria muito mais bem aceita, mas nessas circunstâncias? Ter um filho fruto de uma violência? Fruto de um ato forçado? Nunca! Nunca poderia deixar que essa criança nascesse nunca iria permitir que ela viesse ao mundo. Mas como faria para impedir o seu nascimento? Nunca soube nem conhecia nem um método para impedir gravidez, quanto mais interromper uma.


Enquanto ficava perdida em seus pensamentos, Araia mal percebeu que uma pessoa se aproximava dela. Ele trajava um longo manto preto de viagem, carregava uma mochila e mais nada. Ao ver a jovem jogada próxima a árvore e constatar que ela não estava bem decidiu ver o que acontecia com ela.
– Olá minha jovem, meu nome é Haldar, vinha passando por aqui quando lhe vi e percebo que não está bem, o que lhe aflige? – Perguntou calmamente enquanto se agachava para poder observá-la melhor.
– Nada, nada. Obrigado por sua preocupação. – Respondeu ela de imediato enxugando os olhos.
– Não é o que parece. Vamos venha comigo, minha casa não é tão longe daqui.
– Mas eu nem sei direito aonde estou...
– Você deve ser do vilarejo de Telessar, certo? Bom se pegar essa trilha – indicou uma trilha que estava à esquerda deles – e seguir nesse sentido, em alguns minutos de caminhada, chegará nela.
– Como sabe que sou de Telessar? – Perguntou impressionada com o viajante que acertará com precisão.
– Está com cara de quem correu e fugiu para ficar só, pois estava confusa, Telessar não é tão longe daqui, logo deve ter vindo de lá.
– Bom, obrigada pelo convite, mas acho melhor voltar para casa, logo vai ficar tarde...
– Tudo bem, boa sorte garota, acho que vai precisar.
Araia se despediu de Haldar e caminhou para casa sem muita pressa, mas ainda pensando no que fazer quanto a sua indesejada gravidez. Pensou em inúmeras coisas, mas nada que a levasse a uma solução prática e rápida para solucionar seus problemas.


Os meses se passaram, a gravidez de Araia ficou evidente, todas as pessoas da vila já haviam notado, mas isso não era necessário, pois poucas semanas depois de sua tia ter descoberto, a notícia se espalhou como um rastilho de pólvora. O fato de sua barriga já estar visível, era apenas a confirmação da notícia que todos já sabiam e de alguma forma esperavam.
Seus pais viram que cada dia que passava ela ficava mais e mais descontente, pensaram que com o passar do tempo ela fosse aceitar melhor a idéia, muito pelo contrário. Cada dia ela parecia mais irritada, muitas vezes viram-na socar com grande violência a própria barriga, na tentativa de abortar a gestação indesejada, porém seus esforços foram todos em vão. Sua gestação ia normalmente, pelo que podiam presumir seus pais, embora as cenas de auto-agressão fossem cada vez mais constantes. Sempre que viam tentavam impedir, mas nunca surtia efeito, ela sempre voltava a se agredir.
Mesmo sendo uma gravidez indesejada, mesmo sempre com um semblante de raiva no rosto, muitos juravam que Araia estava até mais bonita, se é que tal coisa era possível. Mas ela não se sentia satisfeita com isso, muito menos notara tal coisa.
O que mais estranhara, era o fato de ela estar trabalhando cada vez mais e com mais afinco, parecia até mesmo um homem. Levantava antes de seu pai, era sempre uma das primeiras a chegar ao campo, carregava mais peso que o habitual e ficava até mais tarde. Sempre se esforçava mais do que o necessário, quase sempre a exaustão. Não eram raras as vezes que a encontravam esgotada jogada no chão, mas mesmo assim, quando recuperava mesmo que um pouco de suas forças, levantava-se e voltava a trabalhar com mais empenho que antes.


Certo dia enquanto voltava para casa se deparou com uma coisa que a deixou com sua ira mais elevada do que normalmente estava, Raiarath estava mais uma vez na vila cobrando impostos acompanhando de seus comparsas, esqueceu a fome que sentia e foi o mais depressa que pode para de encontro a ele. Raiarath nem nenhum de seus amigos notaram a aproximação dela, mas quando notaram o choque foi evidente, principalmente quando viram a barriga.
– Olha só o que temos aqui, a louca! E pelo visto engordou um bocado! – Zombou Raiarath, enquanto seus amigos gargalhavam sonoramente.
– Seu imundo, mentiroso! – Vociferou Araia tomada pela raiva – Se estou assim é por sua culpa!
– Minha culpa? Que culpa tenho, se não controla o seu apetite?
– Estou grávida.
– Grávida? Grávida? E o que tenho com isso?
– Você fez isso! A culpa é sua pelo que fez comigo aquela noite!
– Minha culpa? Olhe aqui sua estúpida, a culpa é toda sua.
– Minha? Como ousa?
– Óbvio que é sua, se não tivesse negado meu humilde pedido e principalmente, não tivesse feito aquele escândalo meses atrás, quem sabe as coisas não seriam outras...
– Você é o ser mais abominável que conheço...
– Olhe aqui, - interrompeu Raiarath - se o que quer é me chantagear com essa gravidez que diz que é culpa minha, é melhor pensar duas vezes antes de sair por ai contando mentiras outra vez.
– Não se preocupe com isso, essa coisa maldita que está dentro de mim, nunca vai conhecer este mundo, mas saiba eu você vai pagar pelo que me fez.
– Por acaso me ameaçando? HAHAHAHAHAHAHA! Isso só pode ser piada o que uma mulher pode fazer contra mim?
– Você verá!
Raiarath inflou-se de raiva, com podia aquela mulher ousar ameaçá-lo de algo? Isso para ele era um insulto maior do que qualquer coisa, enquanto seus amigos riam, ele ergueu o punho e golpeou Araia no rosto, mas ela desviou da investida com facilidade, ele se espantou, pois não esperava que ela fosse se esquivar. Com sua ira ainda maior, pela ousadia de ter desviado, ele atacou-a mais uma vez e mais uma vez ela escapou, mas desta vez ela reagiu, assim que esquivou, desferiu um soco visando o abdome dele. Raiarath fez questão de não sair da frente, pois que mal poderia fazer-lhe um soco de uma mulher, ainda mais grávida? O golpe acertou em cheio, mas para a surpresa de todos principalmente a de Raiarath, o soco foi muito mais forte de que imaginava, assim que recebeu o golpe recuou um passo, doía aonde o golpe atingiu.
Sua fúria se inflamou instantaneamente, sua vontade era de matar a mulher por sua ousadia, mirou a barriga e golpeou o mais rápido e forte que pode, mas seu golpe foi bloqueado antes de atingir o alvo. Haldar que estava passando por ali vira a cena e foi ver o que realmente estava acontecendo, chegou a tempo de impedir que o ataque fosse bem sucedido. Raiarath olhou-o tomado de ódio, tentou soltar a mão que Haldar segurava com força, mas não conseguiu. Seus amigos tentaram investir contra Haldar, mas este os fintou e pôs Raiarath a sua frente como escudo.
– Me largue! – Vociferou Raiarath – Por acaso sabe quem sou?
– Sei muito bem, é apenas o filho do cobrador de impostos, que está fazendo o trabalho do pai.
– Pelo visto sabe quem sou, então sabe que é melhor não se intrometer...
– E você por acaso sabe quem sou? – Perguntou Haldar interrompendo bruscamente.
– E deveria saberia?
– Sou Haldar, trabalho com o chefe da guarda real. Conheço bem o sue pai e o trabalho dele. Então sabe que é melhor não se intrometer comigo! – Disse bem alto, logo em seguida largando-o.
Raiarath não ficou satisfeito em saber quem era o defensor de Araia, mas não teve outra alternativa a não ser ir embora com mais raiva do que já estava. Ele conhecia a fama de Haldar, era um treinador de guerreiros, um mestre de combate, não seria capaz de encará-lo assim de mãos vazias. Mas o fato de trabalhar para o chefe da guarda real era o maior problema, com certeza ele sabia de muitas coisas e era influente demais, por isso decidiu engolir o orgulho e ir embora resmungando.
Araia ainda está muito furiosa, mesmo estando em parte agradecida pela ajuda repentina de Haldar, teria gostado de levar o golpe que Raiarath desferiu contra sua barriga, talvez, pensou ela, a potência de soco a ferisse de tal modo que ela viesse a abortar a criança. Tomada pela raiva de não ter conseguido fazer nada, Araia começou a socar a própria barriga com ódio. Haldar ao vera cena ficou chocado, tentou segurar o braço da jovem, mas ela estava completamente fora de si, até para ele, que era um homem forte, fora difícil contê-la. Por final conseguiu apaziguá-la, mas não sem muita luta, levou-a até em casa e partiu, desejando-lhe melhoras.


Os dias se passaram e Araia apenas piorava, os espancamentos a própria barriga era cada vez mais constantes e mais violentos, mas nada que ela fazia parecia sequer afetar a criança que ela gerava. Um dia seu pai a viu tomando uma bebida de odor estranho, que logo identificou como um tipo de veneno. Preocupado ele correu para arrancar o copo de suas mãos, mas ela resistiu bravamente, até que ele conseguiu derrubá-la com um golpe em seu resto, fazendo que a bebida se espalhasse por todos os lados. Com raiva e berrando que a criança nunca deveria nascer, ela avançou e lutou contra seu pai. Ele conseguiu depois de algum tempo desmaiá-la, mas mesmo assim estranhou o modo com ela lutou e como ela estava forte, forte até demais para uma jovem de sua idade, ainda mais sendo uma mulher.


Mas em algum lugar muito longe dali, não havia tristeza muito menos raiva, havia sim certa alegria. Sentado a beira de sua mesa examinando vários papéis e fazendo anotações, em um grande livro que se encontrava aberto a sua frente, estava o oráculo, seu sorriso sínico como sempre emoldurado seu rosto retangular a magro. A sala onde se encontrava era bem espaçosa e bem iluminada, uma imensa janela estava aberta a sua esquerda, mostrando o mundo lá fora que estava nublado. Livros e rolos de pergaminho se espalhavam pela sala, formando uma grande bagunça. A porta estava entre aberta, alguém o observava pela fresta, com um olhar atento e um tanto reprovador.
– No que anda trabalhando desta vez, oráculo! – Falou zombando o homem que estava do outro lado da porta.
– Ah é você! Entre e sinta-se em casa. – Respondeu com mais cinismo ainda.
– Como se mais alguém viesse visitá-lo, além de mim irmão.
– Quer um chá?
– Não obrigado, vim aqui tratar de um assunto importante contigo. – Falou o irmão do oráculo, enquanto observava atentamente a bagunça e arrumava um lugar para se sentar.
– E sobre o que seria? – Perguntou se virando para seu irmão, apoiando as mãos sobre suas pernas e exibindo uma expressão de felicidade.
– Sabe muito bem do que falo, sabe que não podemos interferir nas coisas que acontecem, somos apenas meros espectadores. Não podemos nem devemos interferir de forma alguma na vida das pessoas.
– Já conheço essa estória muito bem, maninho. Ou você se esquece que eu ajudei a criar essa regra?
– Todos nós criamos juntos, mas acho que você não anda cumprindo ela muito bem.
– Por que? – Perguntou fingindo surpresa.
– Não se faça de idiota, sabe muito bem do que estou falando, se eu fosse parava com essa estória de ficar bancando o “oráculo”, antes que você interfira mais na vida das pessoas do que já anda se interferindo.
– Veja dessa forma, já que sou apenas um “mero espectador”, estou vendo os fatos por um outro ponto de vista, além do mais, não há mal algum em dar um “empurrãozinho” nas pessoas. Tem certeza de que não quer chá? – Perguntou oferecendo-lhe uma a xícara que subitamente surgiu em cima da escrivaninha.
– Não, não quero. Bom faça como quiser, mas pare de interferir nos fatos. Você não pode e não deve interferir na vida das pessoas. Deixe a garota em paz, já interferiu bastante na vida dela.
– Eu não fiz absolutamente nada. – Respondeu com ainda mais cinismo e sorvendo um gole de chá.
– Falou a ela de seu filho, você acelerou as coisas...
– Sabe muito bem que isso ia acontecer de uma forma ou de outra, - interrompeu bruscamente, mas com ar irônico – além disso, meu mundo é diferente do seu, as coisas ocorrem de forma diferente em ambos, ou por acaso gostaria que fosse diferente? – terminou enfatizando bem a pergunta.
– Você te razão, mas eu não posso alterar as coisas, muito menos desejo que tudo seja igual. Mas tome cuidado com o que anda fazendo.
– Ele irá nascer, você sabe disso, sabe do que ele será capaz, sabe o que ele fará. Nem que você tente, irá mudar nem amenizar as coisas.
– Fale por você, sei o que me aguarda, só espero que você não esteja se deixando cegar pela soberba e ela vaidade.

– Um bom dia para você também, Senhor do Tempo.

4 comentários:

  1. Obviamente que desejo chá.

    De preferência com biscoitos e algumas gueixas.

    Ficou massa o capítulo... =D

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  2. Adorei, até pq meu "desafeto" revelou o seu verdadeiro nome =p

    Temos que jogar, tenho que bater em alguém (ou apanhar que é mais provável hauhauha)

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  3. Muito legal!
    Parabéns!

    www.h4ck3rik.blogspot.com

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