FORJANDO UM GUERREIRO - GERAÇÃO SEGUNDA PARTE

Olá povo, depois de muita demora finalmente está ai o quarto capítulo do meu conto. Me desculpem ela demora, mas esse foi o capítulo mais complicado de ser escrito. Espero que gostem!

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RÉQUIEM DO INVERNO


O outono nunca foi uma estação muito equilibrada, às vezes era muito quente, na maioria das vezes era uma estação muito fria, mas esse outono era diferente, o frio era muito mais rigoroso do que se podia prever. As geadas da manhã se tornaram mais constantes do que o de comum e como se isso não fosse suficiente, as tempestades ficaram mais fortes e freqüentes. Os aldeões da vila Telessar ficaram preocupados, pois nunca haviam visto um outono tão rigoroso, isso era sinal de que os deuses não estavam satisfeitos com algo, ou que alguma coisa muito importante estaria por vir.
As oferendas e sacrifícios aos deuses tornaram-se rituais quase diários, principalmente a Behemot, o deus bestial, um dos mais venerados no continente. Behemot não era conhecido por ser um deus benevolente, muito pelo contrário, costumava ser muito vingativo caso algo não o agradasse. Alguns nobres contam que já o viram já outros muito poucos, dizem até terem conversado com ele, mas nada que se possa realmente ser comprovado.
Araia talvez fosse a única que não partilhava dos rituais comuns, ela preferia fazer os seus próprios, mas ao invés de reverenciar, blasfemava, amaldiçoava os deuses por sua má sorte. Estava farte de sustentar aquela barriga e carregar aquela criança, a qual chamava de demônio. Estava fatigada por tantas limitações, tantos mal-estares, tantos olhares, estava farta de tudo. Nada do que fizera até o momento apara abortar a gestação tinha dado certo, absolutamente nada. Uma de suas últimas tentativas foi ir até uma taverna e beber o mais que agüentou, quando foi questionada, sobre como pagaria disse cuspindo na cara do taverneiro que não pagaria. O taverneiro furioso pegou uma faca e avançou em direção a jovem, que prontamente reagiu. Para a surpresa de todos os presentes, Araia venceu o embate, com certa facilidade, embora embriagada, levou alguns golpes e dos cortes no braço esquerdo, mas nada que fosse realmente sério. O taverneiro depois de ver todas as suas frustradas tentativas, começou a visar à barriga da moça. Atingiu a várias vezes com chutes, mas em momento algum ela tombou. A cada golpe que levava na barriga, Araia parecia ser tomada por um êxtase insano, ficando cada vez mais alerta e envolta na contenda, até que com o golpe certeiro na lateral da cabeça do taverneiro o fez ir ao chão desacordado.
Ela saiu correndo assustada com o que acabara de fazer, pois só quando tudo acabou, se dera conta do que realmente fez. Mais uma vez amaldiçoou a criança que carregava em seu ventre, bradou ao vento que era culpa dela o que estava acontecendo, esmurrou várias e várias vezes a barriga, cada vez com mais violência, mas a única coisa que conseguiu foi sentir algumas dores.


Suas noites de sono tranqüilo eram cada vez mais raras, muitas vezes acordava no meio da noite se sentindo mal ou suando muito. Pesadelos eram também uma constante nos últimos dias, ela não suportava mais aquilo. Os pesadelos eram sempre coisas indistintas, mas um lhe chamou a atenção, pois de todos, foi o único que fez sentido, o mais real e acima de tudo, o mais assustador:
Ela estava no alto de uma colina, de onde podia-se perfeitamente ver todo o reino e as montanhas distantes. Uma delas era muito peculiar, não por ser a maior, mas por aparentemente ser um vulcão ativo e pela imensa coluna de fumaça que saia dele. Araia notou que em meio à fumaça havia nitidamente a silhueta de um imenso palácio, mas como seria possível haver um palácio em plena boca de um vulcão, pensou ela. Na face da montanha que estava voltada em direção a uma cidade não muito distante exibia as formas de um crânio, com metros de altura, mas aparentemente não havia sido esculpido, parecia muito natural.
Perdida na observação da montanha não notou que algo se aproximava dela, ainda jogada no chão quando tentou se levantar ouviu um tropel forte, provavelmente um cavalo estava vindo e muito rápido. Assim que levantou os olhos, surgiu a sua frente um imenso e corpulento cavalo negro. Ao ver a jovem o cavalo parou abruptamente e levantou as patas dianteiras, mas ao invés de cascos ele possuía afiadas garras como uma ave de rapina. Ela notou em sua boca imensas presas, seus olhos eram de um vermelho vivo e sua cabeça possuía dois chifres, como chifres de carneiro enrolados para trás. Ele tinha proteções em sua cabeça e seu dorso, como um cavalo de guerra. Assim que suas patas dianteiras atingiram o chão, fazendo Araia sentir um forte tremor, ela viu as grossas patas cobertos na parte inferior de uma grossa camada de pelos, quando levantou os olhos viu o cavalo bufar e de suas narinas saíram uma fumaça densa e amarelada cheirando a enxofre. Ela mal teve tempo de sequer pensar em levantar, quando ouviu o tilintar de ferros e viu alguém desmontar do imenso cavalo que seguramente era muito maior e mais forte do que qualquer cavalo que ela já vira até o momento. O cavaleiro trajava uma armadura negra com alguns adornos em azul escuro, nas partes aparentemente desprotegidas havia uma malha de metal, o elmo era completamente fechado e com chifres laterais, sua única abertura na frente tinha um formato de um “T” onde apenas podiam-se ver os olhos do cavaleiro e um pouco da boca. O cavaleiro era bem alto e sua constituição física parecia ser também grandiosa.
– Levanta-te mulher! – Ordenou com voz trovejante o cavaleiro diante de Araia. – O que faz atirada a relva e qual é o teu nome?
– Aria senhor, – disse enquanto se levantava e tirava com tapinhas a sujeira da roupa – me chamo Araia.
– E o que fazes aqui? – Perguntou mais uma vez com tom imperioso.
– Eu... Eu não sei senhor...
– Essas não são terras seguras para uma jovem, ainda mais grávida. Se preza pela vida tua e de teu futuro rebento, saia daqui e retorne para segurança de teu lar.
– Não me importo com esse monstro que está aqui, eu quero que ele morra, por causa dele minha vida se tornou um martírio diário. Eu não pedi para gerar esse demônio, eu nunca o quis, ele NUNCA IRÁ NASCER! – vociferava a jovem em meio a lágrimas que o cavaleiro notou serem de puro ódio, enquanto ela mais uma vez esmurrava com violência a própria barriga.
– Odeia o fruto de teu próprio ventre tanto assim mulher? – perguntou o cavaleiro demonstrando certa satisfação na voz.
– Meu ódio só é maior pelo homem que me fez ficar dessa forma. Por causa dele carrego essa coisa em mim e da do que fiz até hoje, fez com que ele morresse, carrego esse fardo dia após dia, faria de tudo para matá-lo e me vingar desse maldito homem.
– Se quer tanto matar a criança, por que não o fez antes?
– Mas eu fiz de tudo, mas esse demônio persiste em viver e crescer dentro de mim. Mas ele não irá nascer, ele nunca verá a luz do dia, eu o matarei antes.
– Se quer tanto matá-lo de verdade use isto. – Falou o cavaleiro retirando sua espada da bainha e atirando-a aos pés de Araia.
Ela observou a espada por um instante, era bela, sua lâmina extremamente polida refletia o céu, antes de chegar aos seus pés a espada deslizou um pouco cortando a grama, mostrando que estava bem afiada. Ela pegou o cabo que mais parecia ser o corpo de uma serpente que terminava com a cabeça de boca aberta e presas a mostra. Ela levantou a longa espada com muito esforço, era pesada demais, não imaginava como alguém conseguia suportar o peso de tal arma. Devido ao peso e ao tamanho da arma, viu que não teria condições de usá-la contra si própria. Decepcionada com a própria fraqueza jogou a arma no chão com raiva. O cavaleiro caminhou calmamente e pegou sua espada de volta, guardando-a em seguida após limpar a sujeira da lâmina.
– Por favor, cavaleiro, me ajude, use sua lâmina, destrua essa coisa que há dentro de mim...
– Que tipo de covarde pensa que sou? – Trovejou mais uma vez a voz do cavaleiro – esse ser que carrega em teu ventre não é culpado de teus erros, é apenas um ser que mal foi gerado, não sou um covarde que mata seres que não podem ao menos reclamar pela sua existência.
– Seu maldito, você...
– Cala-te! Conviva com teus próprios demônios e pague por teus erros, cada uma é responsável por seus próprios atos, não culpe a criança por algo que ela não fez.
Dizendo isso o cavaleiro com um salto montou em seu cavalo, puxou as rédeas a fez menção de partir, mas Araia o interrompeu e como último ato pediu para ver o rosto daquele que segundo ela, a impunha tal castigo de permanecer com aquela indesejada gravidez. Mas assim que ele retirou o elmo e olhou em sua direção, Araia saltou gritando intensamente, desperta do sonho que acabará de ter. Seu pai e mais dois homens tentavam contê-la na cama, estava em sua casa, a salvo e segura, mas demorou em compreender tal coisa. Ela estava coberta de suor e respirava com dificuldade, seu corpo ainda tremia, ela se esforçou e lembrou-se do sonho, mas por mais que tentasse não se lembrava do rosto do cavaleiro, mas tinha certeza de que o virá se assustara ao ver. Ela ainda estava muito agitada e se contorcia tentando se livrar dos apertos de seu pai e dos outros homens que o ajudavam.
Assim que se recuperou completamente pode reconhecer os homens, reconheceu-os como sendo os ajudantes do oráculo, olhou para o lado e viu o próprio sentado em uma cadeira próximo de sua cama. Sua mãe lhe explicou que ela estava falando muito e estava muito agitada enquanto dormia, mas começou a se preocupar muito quando ela começou a gritar. Quando foi buscar por ajuda, se deparou com a comitiva do oráculo que por acaso estava passando pela cidade. Sua mãe lhe pediu ajuda e ele prontamente foi a socorro da jovem, chamando seus ajudantes para irem junto e pedindo que levassem um pouco de chá para acalmar-lhe os nervos. Araia estava muito agitada, tentava a todo o custo se desvencilhar dos homens que a seguravam, berrava para que fosse solta, sua mãe pedia para que se acalmasse por conta da gravidez, mas ela vociferava devota dizendo que a criança nunca iria nascer, que ela não permitiria isso. O oráculo pediu que um de seus ajudantes pegasse um pouco de chá para dar à jovem, para que ela se acalmasse um pouco. Relutante Araia tomou o chá em um único gole, que em questão de instantes acalmou-se. O oráculo pediu para que La mantivesse a calma e se virasse para ele, que logo em seguida pediu para que soltassem a jovem. Ela parecia extremamente calma e não havia nem sombra daquela que até a pouco, se debatia e gritava desesperada e em fúria.
Ao ser questionado sobre seu milagroso chá, o oráculo apenas respondeu que era um tipo de erva calmante que estava cultivando e que só agora, resolverá por a prova sua eficácia, que pelo visto funcionava muito bem. Araia respondia a todos os pedidos do oráculo e falava com extrema calma, como se nada tivesse acontecido. Vendo que tudo estava resolvido o oráculo anunciou sua partida, os pais de Araia gratos pela ajuda, ofereceram um pouco de dinheiro ao oráculo, que recusou amistosamente. A um pedido de seu pai, Araia obedientemente agradeceu ao oráculo, que logo em seguida se despediu e partiu.


No último dia do outono, a manhã nasceu gélida, com uma brisa cortante, muitos juraram que o inverno já havia chegado e a qualquer momento a neve cairia. Como de costume Araia foi a primeira a se levantar e ir trabalhar, antes mesmo até de seu pai. Mas naquela manhã, enquanto ambos trabalhavam lado a lado, Araia se sentiu mal, uma forte dor em seu ventre a fez contorcer-se no chão e gritar de dor. Seu pai logo percebeu o que estava acontecendo, o filho que ela carregava estava para nascer. Rapidamente ela a levou para casa, alguns os ajudaram, mas outros indiferentes apenas olhavam curiosos. Ao chegar em casa Tronix pediu para que chamassem sua irmã, para ajudar a fazer o parto. Minutos depois ela chegou trazendo seu aparato de parteira, arrumou as coisas, solicitou algumas outras e começou a preparar Araia para a hora derradeira.
As horas se passaram, mas a criança não veio, a cada nova contração Araia gritava de dor e raiva, em seguida proferia insultos para a criança que relutava em não nascer. A noite avançava, uma forte tempestade com muitos ventos e trovões castigava os arredores, somando ainda mais desespero aos que estava dentro da humilde casa de madeira que sacudia a cada pancada de vento. O chão estava encharcado pela chuva, o telhado frágil, suportava bem a tempestade, mas mesmo assim não impediram que a água entrasse. As contrações se tornaram mais constantes e violentas, fazendo com que Araia quase fosse expulsa da cama.
Um relógio de pêndulo próximo da porta do quarto marcava quase a virada para o próximo do dia, que seria o primeiro do inverno. Exatamente quando o relógio marcou a meia-noite, com um grito que seria capaz de romper os tímpanos de qualquer pessoa, Araia teve sua última contração, mas seu grito fora ofuscado pelo som de um relâmpago que cortou a escuridão da noite e iluminou todo o quarto. Seu filho finalmente nascera. No primeiro dia do inverno depois de muito esforço, nascia seu tão odiado fruto.
Mas Aria não teve nem a chance de odiar seu filho em vida, após olhar para ele uma única vez e pronunciar o que seria seu nome, Araia tombou para trás. O esforço que fizera durante todo o dia, as dores das contrações, finalmente a venceram. Jazia estirada na cama após meses de sofrimento e auto flagelação. Araia morreu.


Seu único ato para com seu filho que a olhava como se compreendesse o que se passava, foi olhar para ele e cuspir em sua face com raiva, com ódio, tentando expurgar toda a fúria e o rancor que havia cultivado durante esses meses. Após cuspir lhe o rosto, disse o que seria seu nome e depois morreu, deixando para ele como único presente materno o nome.


Seu nome, seria Ignus.

7 comentários:

  1. parabens pelo blog,bons textos e com muita informação.abraço

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  2. Muito bem escrito, porém muito longo. No seu lugar optaria por postagens menores. O tamanho do texto pode desestimular ou estimular a leitura.

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  3. Caro Amigo.

    Primeiramente, gostaria de pedir desculpas por respoder seu comentário no blog Contos Ancestrais aqui. É que vc me fez uma pergunta e não deixou e-mail para contato. Nem localizei link no seu perfil e no blog. Por isso, te pesso para apagar depois de ler esta postagem.

    Sua resposta:

    Uso o rss disponibilizado pelo Blogger. Pude perceber que para fazer comentários é necessário clicar no título da postagem e ser enviado a página do blog; e lá, deixar o comentário. Como não domino a programação, não sei se há possibilidade de alteração desta configuração. Caso conheça uma forma, agradeceria a dica.
    Também achei muito interessante o seu blog e pode contar com mais visitas minhas. Um abraço.

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  4. Olá meu caro amigo

    Seu conto é perfeito.
    Gostei muito do que li.
    Deu-me vontade de ler seu blog inteiro de uma vez.

    Muito bom mesmo, continue escrevendo sempre, que sempre haverá pessoas como eu para apreciar seus escritos.

    Parabéns.

    L.Sakssida

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  5. Ela deve ter morrido seca de tanto cuspir. =p

    - Vai cuspir assim no Inferno! - Diz Letaran.
    - Sim senhor. - Obedece Araia sob efeito do chá.

    =p

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  6. Marca um dia nesse mês ainda para podermos jogar *_*

    se possivel final do mês =)
    Que vontade deu de bater no Letaran hauhauha

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  7. Nossa depois disso me deu até pena do Ignus...

    Ai o texto está realmente muito bom. Muito bom mesmo.
    pk \o\ pk /o/
    ¬¬
    hauahuahaua

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