FORJANDO UM GUERREIRO - BATISMO DE FOGO SEGUNDA PARTE

O CAMINHO DO GUERREIRO

O dia mal acabara de começar e Haldar já estava acordado observando Ignus treinar, nem parecia a mesma criança que conhecera dois anos atrás. O garoto estava mais alto, sua massa muscular havia se desenvolvido bastante, podendo ser facilmente confundido com um adulto. Seus cabelos estavam bem mais compridos, chegando quase no meio de suas costas e tinham o mesmo brilho e o tom azulado do da mãe. Estava treinando estocadas num estreito toco de árvore, Haldar o observava com atenção, seus movimentos eram precisos, embora errasse muitas vezes o alvo no centro, cada vez que acertava crava mais fundo a ponta da espada.

Enquanto observava o garoto treinar com afinco, antes de começar seus afazeres diários, Haldar começou a se relembrar de muitas coisas. Haldar sempre fora um exímio guerreiro e se tornou mestre muito cedo. Participou de uma guerra, não muito longa, mas que lhe rendeu muita fama. Com o término da guerra, seu dever para com o reino ficou um pouco em segundo plano, o que lhe deu liberdade para arrumar outros serviços, foi quando foi contratado pelo Lorde Izac, para chefiar e coordenar sua guarda pessoal em troca de uma boa quantia em dinheiro e moradia.

Mesmo com esses dois compromissos Haldar viajava com certa freqüência, algumas por conta de sua profissão, outras por vontade própria. Em uma dessas viagens conheceu a jovem Araia, que na época estava grávida de Ignus. Estranho o fato de aquela bela jovem rejeitar com tanta insistência, o filho que viria, mas nada pode fazer. Encontrou com ela muitas vezes e num desses encontros conheceu o homem que a havia engravidado, o filho do cobrador de impostos, Raiarath, que praticamente havia tomado o posto do pai. Então descobriu que a jovem Araia havia sido brutalmente estuprada, por isso rejeitava tanto a criança, a ponto de golpear a própria barriga para abortá-la.

Seus encontros se tornaram mais constantes do que ele planejara o que culminou, no surgimento de uma grande afeição pela moça. Nem sempre podia vê-la quando tinha vontade, passava semanas sem por conversar com ela o que lhe causas certa angustia. Porém numa dessas lacunas inevitáveis teve a trágica notícia, de que Araia havia morrido momentos após dar a luz ao seu filho. Triste e desolado, Haldar resolveu retornar o mais rápido possível e passou os anos que se seguiram, treinando futuros cavaleiros reais, capacitando e armando a guarda de Lorde Izac.

Mas oito anos mais tarde o destino lhe pregou uma peça, pois justamente quando retornava de uma de suas viagens se deparou com a cena do castigo do menino. Aquele rosto lhe era muito familiar, mas não conseguiu se lembrar de onde conhecia o menino, só quando teve conhecimento de seu nome, lembrou-se de Araia, que ela havia dado a luz a um menino de mesmo nome. Para sua surpresa ainda maior, descobri que aquele garoto era realmente o filho de Araia. O menino lhe contou que fora vendido pelo avô e tudo o que havia passado até ali. Após receber a missão de treiná-lo com o intuito de refrear seus impulsos, Haldar percebeu o talento que o garoto possuía. Sua evolução foi rápida e muito visível, pois em poucas semanas, já era o melhor cortador de lenha que já vira, ainda mais para alguém de sua idade.


Após a morte de Olaf a mãe de Madalena e a própria assumiram o papel de cozinheiras, o que agradou a maioria. Madalena havia se tornado uma bela jovem, mesmo para sua pouca idade, sua beleza já era notável, assim como sua grande proximidade com Ignus. No mesmo período, souberam que uma guerra havia começado entre alguns reinos não muito distantes, todos ficaram apreensivos, mas não era esperado que ela se alastrasse até o reino em que moravam.

Mesmo depois de tanto tempo Alur nunca esqueceu o que aconteceu a Olaf, ainda achava que Ignus deveria ter sido punido com mais severidade e expulso de lá. Sempre que tinha motivo, por mais banal que fosse, castigava Ignus com mais severidade que o necessário. O garoto já não se importava tanto, mas a cada surra que levava seu ódio por Alur aumentava ainda mais, entretanto voltava tal sentimento para seus treinos e isso lhe deu bons frutos.

Todos estavam fazendo os preparativos para a comemoração de Ezequiel, filhos de Izac, que em breve faria dois anos. Ignus faria onze anos em poucas semanas, mas isso somente ele, Madalena e Haldar sabiam. Muitos convidados eram esperados, dentre eles alguns muito poderosos ou de grande influência, por isso tudo tinha que sair perfeito.


Logo após o desjejum e a distribuição de tarefas do dia, Izac chamou Alur e Ignus e pediu-lhes que fossem até a cidade e comprassem algumas coisas. Mesmo desgostoso Alur não teve nenhuma opção, a não ser arrumar a carroça e seguir com o garoto. Até mesmo ele estava admirado com a forma como o garoto evoluíra, nunca vira alguém como ele, mas isso não mudava o fato de ele ainda ser a pessoa que tinha matado Olaf a sangue frio.

Não teriam muito trabalho na cidade, pois teriam que trazer apenas algumas caixas de frutas, algumas verduras e algum animal que pudesse ser assado, mas que não fosse muito caro. Quando chegaram lá, ambos se separaram e foram buscar cada um uma coisa, para agilizar o serviço. Ignus gostou de ter recebido essa tarefa, pois eram poucas as vezes que podia ir à cidade. Lembrava bem daquele lugar, pois fora ali que havia sido vendido há alguns anos atrás, mas mesmo com essa lembrança ruim, gostava de ir até lá, gostava de ver a variedade de coisas e pessoas que sempre perambulavam de lá para cá, sempre parecendo curiosas e indecisas. As barracas que mais lhe chamavam a atenção eram as de tapeçarias e artesanatos em geral, gostava de olhar e admirar a variedade de cores e formas que via.

Retornaram pouco depois do almoço, a carroça repleta de coisas balançando pelo caminho de terra. Quando passaram por um buraco no meio da estrada, uma das caixas caiu, derrubando as verduras no chão, Ignus rapidamente foi arrumar tudo. Alur veio em seguida dizendo imprecações contra Ignus, culpando-o do ocorrido. O garoto ficou indignado e disse que a culpa não era sua, mas antes que pudesse terminar, Alur deu-lhe um tapa no rosto. Ignus tinha a mesma altura que Alur e olhou nos olhos, o que deixou o homem furioso. Quando foi dar o próximo golpe, o menino segurou o braço de Alur, que se surpreendeu com o reflexo do garoto e com a força que o garoto tinha.

- Me largue! - Ordenou Alur.

O garoto ainda segurou o braço de Alur com mais força que antes, mas soltou logo em seguida. Seu pulso estava roxo e doía bastante, nunca imaginara que o menino franzino de alguns anos atrás, pudesse ter ficado tão forte. Encarou-o nos olhos e viu em seus olhos a mesma expressão de fúria que observou anos atrás, no dia em que havia lhe castigado pela morte de Olaf.

- Por que está me olhando assim?
- Nunca mais faça isso Alur. - Respondeu o garoto com sua voz grave, que mais parecia a voz de um adolescente quase adulto.
- Quem você pensa que é para falar assim comigo?
- Alguém que está cansado de seus insultos e castigos injustos!
- Você ainda é só uma criança! - Vociferou Alur - Agora termine de arrumar essas coisas e suba nessa carroça.

Assim que chegaram colocaram as coisas na cozinha, Alur foi guardar a carroça e Ignus ficou para ajudar a cortar a carne. Haviam comprado um grande javali que foi abatido na hora, para não dar trabalho no transporte. Madalena justificou a presença de Ignus para a mãe, pois ele era maios forte que elas e poderia cortas as partes mais duras com mais facilidade.

Assim que terminou de ajudar na cozinha, Ignus foi terminar seus outros afazeres que não eram muitos para poder treinar um pouco. Em menos de uma hora terminou tudo, pegou suas coisas no alojamento e partiu para o campo onde treinava. Quando chegou lá, viu Haldar dando algumas lições para os guardas que ficariam de plantão no dia da comemoração. Ignus observava atentamente, tentando apanhar algo compreender coisas que ainda eram difíceis para ele. Pela primeira vez viu o que era uma ordem unida, ficou maravilhado em ver a sincronia dos movimentos e a precisão como eram executados. Ficou se imaginando no lugar de algum daqueles soldados, fazendo o que eles faziam, uniformizado, com uma armadura... Melhor, se imaginou no lugar de Haldar, imponente, comandando altivo sua própria legião.

Logo que o treino deles se encerrou, o garoto saiu de onde estava e foi em direção a Haldar, que se espantou ao descobrir que o garoto estava observando tudo há algum tempo. Decidiram que hoje treinariam cavalgadas, pois se um dia, Ignus quisesse ser um guerreiro deveria saber cavalgar e bem. O garoto já sabia montar de forma elementar, não foi difícil fazê-lo cavalgar de forma mais complexa, parecia que de alguma forma ele se entendia com o animal. Ao final do dia, era impossível não dizer que o garoto não cavalgava há mais tempo.

- Haldar, me fale um pouco sobre minha mãe. - Pediu Ignus, enquanto descansava sentado em uma pedra contemplando o horizonte.
- Já te contei quase tudo que sei dela. Até hoje fico pensando sobre a sorte que tive de encontrá-lo, justo você, tanto tempo após a morte dela.
- Como ela era? Meu avô nunca falava muito dela.
- Ela era linda, sinceramente a mais bela que já conheci. - Falou enquanto vislumbrava em sua mente a imagem de Araia - Você lembra muito ela, principalmente os olhos e o cabelo. O dela era só um pouco mais azulado que o seu.
- Meu avô me dizia que ela não me queria e fez de tudo para eu não nascer, é verdade? - Perguntou deixando escapar uma lágrima.
- Quando a conheci, ela estava sentada a beira de uma árvore chorando e socando a barriga... - Olhou para o lado e notou a lagrima de Ignus quando disse isso - Mas não era exatamente por sua causa, era por causa do homem que fez aquilo com ela, seu pai.
- Quer dizer que eu sou "aquilo"? - Perguntou com raiva.
- Não era de você que falava, quis dizer que ela foi estuprada, ela não ficou grávida porque quis. - Explicou Haldar tentando concertar a bobagem que dissera.
- Estuprada? Eu nunca soube disso! - Falou Ignus imensamente surpreso.
- Pela que ela me contou, ela havia se apaixonado por um homem, que ela pensava que gostava dela também. Na noite anterior ao seu aniversário, ele a convidou para passarem uma noite juntos, foi ai que ele a estuprou. O fim da história... Acho que você conhece.
- Pelo visto meu avô tinha razão é tudo culpa dele...
- Você sabe quem ele é?
- Não. Meu avô nunca falava dele, só o xingava. Sempre que perguntava dele eu apanhava, até que desisti.
- Seu nome é Raiarath, mas não lembro exatamente o que fazia na época... Mas se tem alguém que pode ser culpado, por tudo que te aconteceu até hoje é ele.
- Não importa! - Interrompeu Ignus se levantando - Acho melhor ir acender os archotes, está começando a escurecer.

Ignus partiu sem dizer mais nada, para Haldar era evidente a amargura no rosto do garoto, que apesar da aparência, ainda era apenas uma criança. Viu a lágrima que escorreu de seu olho esquerdo permanecer em rosto, como que fosse um fio constante. Pela primeira vez compreendia o garoto, nunca imaginou que o que fora feito antes de seu nascimento pudesse se refletir assim. Não teve pena de Ignus, mas daquele dia em diante passou a respeitá-lo, pois ele mostrava uma força interior muito maior do que a força corporal que conseguira adquirir com os treinos.

Vendo o garoto agora, pensou o que Araia acharia dele se ela estivesse viva? Será que o rejeitaria? Será que o protegeria como uma mãe normalmente faz? Não soube responder, mas de uma coisa tinha certeza, nem mesmo ela, poderia dizer que seu filho se tornaria alguém tão forte.


Estava quase tudo pronto para a festa, todos se mostravam um pouco ansiosos, principalmente o pequeno Ezequiel, que estava bem agitado e ansioso, até mais do que o normal para uma criança de sua idade. Estava quase tudo pronto, com a exceção de uma coisa ou outra, agora só bastaria mesmo aguardar a chegada dos convidados.

O primeiro a chegar foi Tharion, acompanhado de sua esposa e apenas um de seus filhos. Como de costume ele e a esposa trajavam roupas pretas, ele uma blusa justa de mangas longas e uma calça com a boca bem larga, sua esposa um longo e sensual vestido, com uma fenda lateral, o filho deles usava roupas parecidas com a do ai, só que cinza escuro.

- Tharion! - Saudou-o Izac - É bom revê-los! O que houve com seu outro filho?
- Gigantus? É uma estória inusitada, Teryon o vendeu. - Disse sem demonstrar nenhum tipo de remorso, mas certo orgulho.
- Vendeu? Como assim?
- Sabe como é complicado fazer parte de uma família numerosa, além do mais, nossa tradição é bem clara que diz que nos casos em que haja vários irmãos, um tem que demonstrar sua superioridade perante o outro e perante a família, de alguma forma, certo? Foi exatamente o que Teryon fez, aproveitou um momento de descuido do irmão, levou-o até aquele homem que lhe vendeu aquele menino e vendeu-lhe Gigantus. - Explicou mostrando orgulho do filho.
- Não pai, já lhe disse, não vendi a ele, vendi para o tal do Oráculo. - Explicou Teryon que parecia indiferente a tudo.
- Realmente seu filho demonstrou grande astúcia! - Falou Izac com sinceridade - É algo que realmente dá orgulho, só espero que o meu no futuro também me dê muitos orgulhos!


Os convidados foram chegando, a reunião foi ficando animada, os empregados tinham cada vez mais trabalho. O pequeno Ezequiel brincava muito animado com as outras crianças, indiferente ao que acontecia ao seu redor. Do lado de fora os guardas conversavam sobre coisas do cotidiano, exibiam suas armas, falavam de táticas de combate, outros discutiam sobre a guerra se perguntando quando e se chegaria até o seu reino. Haldar passava as vezes para vistoriar as tropas, sempre acompanhado de Ignus que estava com o tempo livre, ou arrumava tempo para tal.

Em meio ao alvoroço da casa Izac notou o desconforto de alguns de seus convidados, que reclamavam de seus cavalos estarem presos do lado de fora. Lembrou que havia se esquecido de pedir a Alur e Ignus que guardassem os cavalos nas baias, indo rapidamente procurá-los pedindo licença aos seus convidados. Após dar as ordens aos dois, rapidamente eles começaram a guiar os animais, cada um guiando um animal pelas rédeas com todo o cuidado.

Quando faltavam apenas dois Alur decidiu apressar o trabalho, pois achava que Ignus estava indo muito devagar. Sem hesitar o garoto resolveu montar no cavalo que estava guiando e foi a trote ao estábulo. Aquilo deixou Alur furioso, que foi o mais rápido que pode até o estábulo, mas quando chegou viu o garoto sorrindo e acariciando o dorso do animal. Irritado com o ato inconseqüente dele, Alur sacou seu chicote das costas e golpeou o garoto pelas costas, que instantaneamente virou-se para Alur, olhando com grande raiva.

- O que está olhando seu moleque? - Vociferou Alur.

Ele ergueu seu chicote outra vez e golpeou o garoto novamente, mas desta vez o garôo segurou o chicote. Alur tentou puxar o chicote de volta, mas o garoto era mais forte do que Alur supunha e todos os seus esforços foram inúteis. Ignus olhava constantemente os olhos de Alur, que demonstravam grande confusão e aproveitando-se disso, Ignus deu um tranco forte o suficiente para fazer Alur soltar o chicote.

- Devolva-me o chicote seu infeliz! - Ordenou Alur.
- Já chega Alur! - Bradou Ignus em resposta - Estou farto de você e de suas punições injustas!
- Injustas? Você sempre comete erros, está sempre fazendo bobagens, merecia até muito mais!
- Eu não vou aceitar isso.

Essas ultimas palavras fizeram Alur chegar ao seu limite, ouvir um garoto daquela idade dizer tais coisas para ele era inconcebível. Correu na direção do garoto para dar-lhe o um soco, mas o garoto era muito mais ágil e esquivou-se do golpe, dando um chute em seu abdome em seguida. Alur tombou tamanha foi a força e eficácia do golpe, o que só serviu para deixá-lo ainda mais irritado. Enquanto estava agachado, conseguiu derrubar o garoto puxando suas pernas, depois subiu no corpo do garoto, agarrou-lhe a cabeça e começou a bater com ela no chão. Ignus mesmo desnorteado pelos golpes na cabeça conseguiu se levantar com um movimento rápido e preciso, na direção de Alur, mas estava muito zonzo para se manter em pé, tendo que se apoiar em uma das vigas de madeira que serviam de apoio para o teto. Os cavalos começaram a se agitar e fazer muito barulho, mas nenhum deles notou. Alur se atirou no garoto para derrubá-lo mais uma vez, mas Ignus novamente conseguiu escapar correndo em outra direção. Assim que se levantou Alur começou a correr atrás do garoto, como um logo faminto, quando parou ao lado de um arado que estava encostado em uma das vigas de madeira. Com uma arma em mãos conseguiu atingir o garoto pelas costas com facilidade, derrubando-o de barriga no chão. Quando ia golpear o garoto, Ignus rapidamente se virou e acertou um chute na virilha de Alur, que largou o arado e caiu no chão urrando de dor.

O garoto lembrou-se de umas das lições que havia tido com Haldar, no instante em que erguer o arado e pensou em golpear Alur:

- Nunca golpeie um inimigo indefeso que esteja desarmado no chão. - Disse ele certa vez.
- Mas por que não? - Questionou Ignus duvidoso.
- Por quê? Por acaso você é um covarde que golpeia inimigos caídos?
- Mas e se o inimigo for perigoso, ou maior que eu?
- É covardia do mesmo jeito! Afinal de contas, que guerreiro valoroso é você, que só consegue derrotar inimigos caídos, ou desarmados? Não há vitória nisso, há beleza nisso. É muito fácil para qualquer um derrotar um oponente caído, é fácil, mas só os fracos, os covardes recorrem a tais métodos, derrubam seus inimigos, então se aproveitam de seu momento de inferioridade e golpeiam pelas costas, ou quando estão desprevenidos. O verdadeiro guerreiro se vale de sua força, derrotando o inimigo que nunca cai, derrotando aquele em que pode olhar nos olhos, no mesmo nível que ele. Se o inimigo for maior do que você, derrote-o em pé, se ele estiver armado, derrote-o desarmado, isso é ser um guerreiro de verdade! Isso é ser um guerreiro honrado!


Essas palavras agora faziam sentido, vendo Alur caído no chão e indefeso a sua mercê, lembrando-se de todas as vezes que fora pego desprevenido ou a traição, Ignus agora via o quanto todos haviam sido covardes, covardia essa que ele não iria cometer jamais.

A tensão se esvaiu de seus ombros e Ignus jogou longe o arado que estava em suas mãos, deu as costas para Alur e caminhou calmamente para fora do estábulo bastante pensativo. Incrédulo Alur observou cada movimento do garoto até ele se virar, essa era a oportunidade que esperava, a ingenuidade do garoto seria sua derrota, não poderia perder essa oportunidade, ainda mais depois de tamanha afronta de tê-lo desafiado. Alur levantou-se e conseguiu agarra o garoto pelas costas antes que ele fugisse, arrastou-o até próximo de uma das baias a começou a bater a cabeça do garoto contra portão de madeira. O garoto conseguiu se livrar da forte agarrada, após duas cotoveladas na cintura do homem. Quando se virou para ele, Ignus tomado de ira começou a golpeá-lo com socos e chutes tão rápidos e fortes, fazendo com que Alur mal pudesse se defender, apenas recuava a cada golpe. Alur não conseguia reagir apenas defendia-se a recuava, mas os golpes ficavam cada vez mais rápidos e fortes. Os cavalos estavam mais agitados que antes e faziam muito barulho, mas aparentemente ninguém notou nem mesmo Ignus e Alur que estava cada vez mais acuado, até se aproximar de uma das vigas de madeira. Quando Ignus ia dar o último golpe com o intuito de derrubar Alur de uma vez, um dos cavalos conseguiu arrombar o portão e correu em direção a eles. Ignus assim que viu o cavalo correr desesperadamente em sua direção, saiu o mais rápido que pode Alur ainda meio distraído pelos golpes notou o cavalo apenas quando este estava bem a sua frente com as patas dianteiras erguidas e acertou-lhe em cheio o peito jogando em direção a viga de madeira com força.


Mesmo com toda a balburdia do lado de dentro o do de fora, onde alguns guardas e empregados pessoais dos convidados que conversavam alto e muito animado, Haldar notou algo de errado. Quando se aproximou do estábulo ouviu os sons do combate e principalmente a inquietação dos cavalos, que estavam mais agitados do que o normal. Assim que entrou viu parte da luta de Ignus cm Alur, mas preferiu não interferir ficando deliciado com a esperteza do garoto e sua grande agilidade. Ficou com orgulho, quando viu o garoto jogar o arado para longe sem golpear Alur que estava no chão desarmado, mas antes que pudesse ir até o garoto viu a covarde reação do homem que agarrou o menino pelas costas o bateu-lhe com a cabeça várias vezes no portão de umas das baias até sangrar. Os cavalos ficaram cada vez mais agitados e Haldar não entendia o porquê, até prestou mais atenção a Ignus e viu a reação no garoto, mas notou outra coisa que não soube explicar direito, mas que em seu interior sabia exatamente do que se tratava.

Quando o cavalo quebrou a fechadura do portão, observou com grande atenção aos movimentos quase instintivos do garoto que esquivou no momento exato em que seria atingido pelo animal. Já Alur não teve a mesma sorte, atingido no peito pelos cascos do cavalo e jogado contra a viga, sua cabeça bateu em um prego que servia de apoio e teve sua cabeça perfurada. Seus olhos se estatelaram no mesmo instante, a última coisa que viram foi o cavalo patear seu corpo até derrubá-lo no chão. Ignus viu tudo, viu inclusive a parte de trás da cabeça de Alur ser rasgada pelo prego, enquanto ele caia já sem vida no chão.

O garoto não esboçou reação ao ver o homem cair morto no chão mas sabia que assim que descobrissem, ele seria culpado e também seria punido, mas agora a única coisa que havia e sua mente era alívio, um alívio mórbido que não sabia de onde vinha, mas que lhe causava grande conforto e prazer.

- É... Foi um triste acidente! Ninguém mandou ele deixar os cavalos agitados e não trancar bem a baia. - Falou Haldar enquanto entrava no estábulo.
- Então você viu tudo? - Questionou Ignus vendo que Haldar iria acobertá-lo
- Não se preocupe a culpa não foi sua. - Disse tentando acalmá-lo - Agora vamos voltar.
- Não devíamos contar logo o que houve?
- Hoje não, hoje é um dia comemorações, e notícias assim não são boas para se dar em momentos como esse. Vamos esperar até amanhã.


Conformado e sem ter idéia melhor, Ignus saiu com Haldar, após prender o cavalo em uma baia vazia, deixando o corpo de Alur para trás. Haldar lhe disse que pela manhã explicaria que viu tudo, diria que Alur deveria ter bebido demais e provocado um dos animais. Pediu para o garoto nada mencionar, para não levantar nenhuma suspeita. Quando estavam, chegando próximo ao portão viram mais um convidado chegar, estava bem atrasado, mas pelo menos havia chegado.

Entraram com grande imponência e arrogância, olhando por cima dos olhos de todos inclusive dos guardas. Estavam muito bem vestidos, trajando roupas vermelhas de um tecido muito caro e raro por aqueles lados. Ignus vinha um pouco distraído, recluso em seus próprios pensamentos e mal notou a aproximação deles. Haldar parou, para não cruzar seu caminho, mas Ignus continuou sem notar até que esbarrou em um dele e caiu no chão. Confuso mais com raiva, olhou para quem o havia derrubado e viu olhos muito mais furiosos a fitá-lo. Assim que Haldar viu o que acontecera correu para tentar apartar qualquer tentativa de retaliação, mas maior dói a sua surpresa quando viu de quem se tratava. Era na verdade o filho do cobrador de impostos, Raiarath, pai de Ignus.

10 comentários:

  1. Interessantes as narrativas.
    Lembram-me o universo de Tolkien.
    Parabéns pelo espaço.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  2. nossa, uma coia q me ficou muito clara nessa historia é q realmente as pédras podem se encontrar, com certeza....

    bjus
    se cuida
    e continue escrevendo assim

    ResponderExcluir
  3. Cara, parabens pelo conto. Ambientação excelente!

    ResponderExcluir
  4. Nossa... pra colocar um conto desse tamanho no blog tem que ser muito corajoso..
    Mas ficou ótimo... Parabéns

    ResponderExcluir
  5. É... voltarei mais vezes por aqui.

    ResponderExcluir
  6. Se você ler com atenção, as imagens saltam da imaginação. Espero ansioso pela continuação. Criatividade a flor da pele.

    ResponderExcluir
  7. Bom.

    Aguardo a parte em que o pai de Ignus e o filho discutem amigavelmente. =p

    ResponderExcluir
  8. será que ele vai pedir a mesada atrasada ???

    ResponderExcluir
  9. Pk põe logo uma versão pra impressão, é muito ruim ler pelo computador...
    ainda mais eu que sou cegueta ><
    Mas mesmo depois de muito esforço consegui ler tudo. Ai tá muito bom mesmo, parabéns.
    beijos

    ResponderExcluir

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.