O Último Despertar de Outono - Capítulo 4

Dando continuidade a esse conto e voltando a minha programação "normal" do blog...

Nos últimos contos vimos uma pincelada de cada personagem da trama, bem de leve, diga-se de passagem. Agora que estamos mais ou menos situados na trama, e um pouco no fator histórico da coisa, vou começar definitivamente a inserir o enredo.

É desse ponto em diante que a maior parte dos problemas de Erik se iniciam... Mas não vou enrolar muito e deixar o conto pra ser lido.


O Último Despertar de Outono
Capítulo 4

- Scheiße! Não acredito... - Berrou Friedrich. - Quando minha mãe me contou não acreditei...
- Sim, Friedrich, toda a família. - Respondeu Erik, mastigando um pedaço de pão.
- Se tivesse levado-a ao celeiro até entenderia... Mas jantar? Você não percebe que ela é sangue ruim? Que sua raça não pode se juntar a nossa? Somos alemães, não cachorros...
- Se não gosta dela, deixa que paro de falar dela, mas não fale assim de Mandisa.

O tom seco na voz de Erik obrigou Friedrich a aceitar de muito mal grado o pedido do jovem. Era inaceitável a uma pessoa como Friedrich entender como um alemão de origem nobre como Erik ou sua família aceitasse tão bem o fato de dividir a mesa de jantar com a ralé, meros escravos. Quando soubera por seu pai que a família Shüber havia convidado a família Opare para um jantar, Friedrich trancou-se no quarto revoltado. Era vergonhoso demais, na concepção familiar de Friedrich, ser tão amigo de uma pessoa que se envolvia com seres tão baixos. Se fossem seres humanos, não ligaria, mas a raça da família de Opare era inferior a qualquer coisa, até mesmo que ratos. Infelizmente as palavras de Erik confirmando o jantar eram piores ainda, causando em Friedrich um asco e um nojo do qual jamais deixaria de sentir.
- Ao menos a bolinaste, não? - Perguntou Friedrich, querendo boas notícias.
- O que é isso? - Indagou Erik, sem entender o que a palavra dizia.
- Tornaste varão e provasse das carnes negras dela... Apalpaste seus quadris, suas tetas! Ao menos isso.
- Você está me incomodando, pare com isso.

Erik se levantou e se afastou de Friedrich. Sentou-se em um banco o mais longe de todos, para poder parar de escutar perguntas ofensivas a respeito de Mandisa. Friedrich foi o único a perguntar, todos os demais se preocuparam somente em condenar. Crianças tanto são capazes de atos belos quanto de atitudes cruéis. E todos naquele momento estavam sendo cruéis demais com Erik. Pior que a condenação de Friedrich, e seus palavreados preconceituosos, era o modo como o olhavam, olhares de ódio profundo, sem justificativa, apenas transmitiam o ódio de seus pais e o preconceito de uma sociedade que não aceitava determinados tipos de amizade.

Os dias continuaram do mesmo modo pelo menos por um mês. Os olhos raivosos foram substituídos por olhares vazios, pelo silêncio de quem não pode mais dirigir a palavra por causa da vergonha. Erik fora condenado por todos pelo crime de ter se envolvido com uma negra, com uma pessoa de estirpe inferior a todos os presentes, alemães nascidos e criados naquela região. Tudo isso, por incrível que pareça, era orquestrado por Friedrich, que se aproveitava de ser naquele ano o mais velho e mais forte aluno, para impor aos mais jovens o que queria deles. Friedrich naquela época estava com dezessete anos.

Obviamente Erik não desconfiava de nada, e nem poderia. Friedrich sabia ser uma pessoa bem cruel quando queria, o único que ousou discordar de Friedrich passou dois dias no hospital do mosteiro, com os ossos da face esmigalhados quando tentara sem sucesso pular um muro, pelo menos é o que dizia a versão oficial. A criança acabou saindo da escola por causa de problemas mentais adquiridos após a queda e Erik nunca mais a viu. No final desse prazo, estipulado pelo próprio Friedrich, todos começaram a perguntar roboticamente se Erik ainda se encontrava com Mandisa.

Erik mentiu pela primeira vez para se poupar, nas seguintes viu que era novamente bem visto entre os seus amigos e que até Friedrich o tratava melhor. Friedrich voltou a falar com Erik quando teve certeza absoluta de que seu amigo falava a verdade, ou o convencera ao menos. Voltaram a ser unha e carne e a caminhar juntos pelo mosteiro para cabular aulas de religião. Como completaria 18 anos no início do ano seguinte, Friedrich estava prestes a deixar o mosteiro. Jamais optaria de forma alguma em se tornar padre ou qualquer coisa em uma Igreja que julgava apenas adubo moral. Seus olhos naquele momento vislumbravam coisas mais interessantes, algo mais amplo. Foi na manhã chuvosa de 12 de Outubro de 1926 que Friedrich revelou a Erik seus planos.

Estavam ambos sentados ao pé de um tronco de carvalho, protegidos da chuva fina, observando o tempo passar. Friedrich sentia-se melancólico e saudoso do mosteiro, coisa que jamais imaginara sentir. Erik, pelo contrário, sentia-se aliviado por finalmente se livrar de seu mais nem tão amigo. Mesmo assim escutou atentamente quando seu amigo começou a falar:
- Tenho me sentido incompleto... - Indagou Friedrich, vendo uma gota de orvalho cair das folhas do velho carvalho.
- Incompleto? - Perguntou Erik, protegendo-se do frio que começava a apertar.
- É... No final do ano deixo de vez esse local onde dediquei meu tempo desde que me conheço... E vejo que não quero ser que nem meu pai, não quero ser fazendeiro, quero algo mais...
- Algo mais? Tipo...?
- Já te falei de Mein Kampf?
- Diversas vezes...
- Eu olho para nossa pequena cidade, vejo criaturas que nem aqueles Opare e penso "eles merecem isso? merecem dividir de nosso pão sofrido? De nosso dinheiro suado? São realmente dignos de colocar os pés em nossa terra?", então sempre me vem as palavras de ordem de Hitler, de nossa superioridade perante os demais. Por essas e outras tomei uma decisão.
- Qual?
- Fugir, deixar tudo isso pra trás... Você vem comigo?
- Eu tenho apenas treze anos, meu pai não deixaria.
- Deixe de ser criança! Hoje, saia de casa as nove horas da noite e me encontre nas redondezas do bar, depois disso curtiremos a liberdade juntos! Por uma Alemanha melhor!
- Não sei...
- Às nove horas, se não for irei sem você... E terei certeza que se tornou untergebener von scheiße.

Friedrich não deu tempo para que Erik pensasse em uma resposta e correu para a chuva, desaparecendo em meio a névoa densa da tempestade que se formara. Erik também correu, mas para dentro do mosteiro. Erik nunca foi ao local do encontro, e desde então não viu mais Friedrich. E não lamentou, apesar de sempre afirmar que sentia sua falta com o sorriso mais amarelo que podia fazer. Os pais de Friedrich foram de casa em casa perguntando por seu filho, a única casa onde não foram foi na residência dos Opare. O menino não foi encontrado em lugar nenhum daquela região, até que duas semanas depois os pais de Friedrich receberam uma carta do filho e pararam de procurá-lo e a importunar a cidade com sua preocupação.

Finalmente a pressão sobre os ombros de Erik diminuíra. Logo no dia seguinte ao desaparecimento de Friedrich o jovem alemão foi correndo encontrar com sua amiga Mandisa. Precisava contar para ela a incrível novidade. Mandisa o recebeu com desconfiança, como fazia desde o jantar e por motivos aos quais Erik desconhecia por completo e que Mandisa nunca quis dizer, ao menos não até aquele dia.

Ao contrário dos dias anteriores, o sol brilhava forte como não brilhava há semanas. Estava quente e as flores todas refletiam a alegria que parecia transbordar dos olhos das duas crianças. Mandisa e Erik, guiados por suas conversas descompromissadas, caminharam felizes por entre os campos floridos até chegarem a um pequeno monte nas terras da família Shüber, de onde podia ver toda as fazendas em um raio de pelo menos dez quilômetros. Ali tinha um gramado onde os dois deitaram e ficaram observando o formato das nuvens e adivinhando formas. Não muito longe dali o Sr. Shüber e a mãe de Mandisa observavam as duas crianças brincando e olhavam satisfeitos. Um para o outro. As crianças não sabiam, mas seus destinos estavam traçados desde o jantar.



Todos os adultos foram para a varanda interna da casa de Sr. Shüber, logo após a degustação do último pedaço do leitão que a Sra. Shüber preparara. Para sentar usavam cadeiras que tinham sido improvisadas com as da própria mesa de jantar, e copos de vinho ficavam alojados informais no chão. Erik e Mandisa adormeceram na sala, Erik na poltrona do pai, e Mandisa no sofá. Era naquele momento que os adultos conversavam, e pelos efeitos do álcool a conversa tomara um rumo inesperado, ao menos para a família Shüber:
- Como assim deseja formalizar um compromisso? São crianças Sr. Opare... - Espantou-se o Sr. Shüber, enquanto colocava um pedaço de fumo em seu cachimbo.
- Entenda, eu notei e o Sr. notou que nossos filhos se gostam, ainda não sabem, mas se gostam. E em meu povo é costume que duas famílias amigas selem essa união dessa forma. - Explicou o Sr. Opare.
- Mas em meu povo deixamos tudo acontecer naturalmente.
- Eu sei, por isso não propus antes de confirmar se nossas crianças se gostam.
- Seu casamento foi desse jeito? - Questionou a Sra. Shüber, com semblante sério.
- Nosso casamento não foi, amiga. - Interrompeu Emmy. - Ele está querendo apenas fazer as coisas entre seu Erik e minha Mandisa do jeito que acha certo... Se os dois pombinhos não se entenderem, fingimos que isso nunca aconteceu, mas fica mais fácil para ambos os lados aceitarem desse jeito do que do modo tradicional, ou seja, descobrindo de surpresa.
- Não deixa de ter sua lógica... - Balbuciou Ludwig Shüber, já com a voz embargada de sono e vinho. - Podemos tentar, se eles começarem algo, revelamos tudo e seguimos com os preparativos, caso contrário, nunca conversamos. O Erik vai se surpreender quando souber de tudo...
- Então amanhã voltarei aqui para conversarmos melhor sobre o assunto, preferencialmente sóbrios, Ludwig. - Comemorou Jonh Opare, apertando a mão de Ludwig após duas tentativas falhas, e rindo em seguida. - Certo futuro parente?
- Certo, parente!

O velho Ludwig Shüber olhou para o filho, dormindo profundamente em sua poltrona, e sorriu. Olhou em seguida para Mandisa e admirou a menina, ela parecia um anjo enquanto dormia. "Meu filho escolhe muito bem seus amores...", pensou consigo mesmo. Logo a seguir encheu novamente seu copo de vinho e tomou-o todo de uma única golada.

Continua...

16 comentários:

  1. Ah, não quis ler porque não li os anteriores... onde estão?

    Vou ler pela ordem pra poder entender!

    abcs!

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  2. Numa só palavra: Incrível.

    Perfeitamente ambientado e descrito com primor. O encerramento foi perfeito.

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  3. Aff, acho que já tenho leitura pro final de semana. não pra chegar e ler o final do conto assim...
    Já tinha entrado aqui outras vzs. Gosto do seu trabalho no blog. É agradável e gostoso de ler.
    Beijos

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  4. Belo texto, talentoso e de bom gosto!
    bj

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  5. Oie!

    Tudo bem???

    Tenha um ótimo dia dos pais!

    **Bjs!**

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  6. Pow isso eh um post ou um livro???
    haehaehae
    Mas ta bem legal.
    Coloca logo o fim ai.

    0/

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  7. Ja nais uma fez , estamos esperando a proxima postgem da serie

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  8. legal...mas nao li...qro ler os anteriores...vou add a minha lista pra visitar mais tarde..

    ateh a vista...

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  9. Conto???
    rapaz isso é um romance ou uma novela!!!
    vou ler a saga inteira e comento!!!
    []'s

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  10. Mto maneiroooooo

    játinha vindo aqui e realmente vcs são fera!!
    bjo

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  11. Muitooo bom mesmooo!!!
    Te achei na comunidade.
    bjos.

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  12. Puxa, que fôlego, vc escreve muito bem!
    abs

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  13. Pensei que irão selar tudo com uma bela xícara de chá!

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  14. "Pensei que irão selar tudo com uma bela xícara de chá!" - hauhauha XP

    Agora sim o conto está tomando uma "forma", ficou muito bom, mas vê se não leva mais 9.143.201 dias para postar o próximo.

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