Uma questão de Tempo


Estava mais uma vez imerso em seus livros, como já era de seu costume. Livros e mais livros e rolos de pergaminhos acumulavam-se na mesa. O candelabro já estava quase todo tomado por cera derretida que endurecera em seguida, a luz bruxuleante das chamas ficava cada vez mais fraca. O ranger da velha porta de madeira em meio ao grande silencio que tomava conta do salão, mais parecia o som de uma tempestade de relâmpagos, mas mesmo isso não tirou sua atenção do livro que agora examinava com grande interesse.

Passos decididos e ritmados se aproximaram dele, mas antes que se aproximasse interrompeu e perguntou:
- O que procura neste livro que já não saiba? - Questionou o intruso.
- Sabes muito bem o que procuro, logo teu questionamento é inútil. - respondeu com ironia.
- Se ambos obtemos a reposta, então principalmente tu irmão, deves saber melhor do que ninguém que nada podes impedir o que há de se concretizar.
- Sempre há um modo...
- Mas tu nada podes fazer. - Interrompeu.
- Por que não? Sabes muito bem que outro de nossos irmãos nos deu a chave para realizarmos atos diversos, só farei uso de meu trunfo para o bem maior.
- Disso te advirto, nosso irmão se deixou levar pela soberba, achou estar acima das regras. Não agora, mas ele há de pagar por sua falta de prudência.
- Responda-me caro irmão Ragnar, se por acaso lhe fosse dado a chance de consertar um erro, um grande erro, o que tu farias? - Perguntou com seriedade finalmente desviando o olhar do grande livro.
- Sabes muito bem que a nós isso é proibido Krizalis.
- Então fique com teu acanhamento e teu conformismo. Tenho a chave que preciso para selar a porta de um futuro ruim. Sei o que há de vir, já que tenho oportunidade, farei de tudo para impedir que isso venha a acontecer.
- E se falhardes? O que fareis irmão?

Krizalis não sabia responder, mesmo com sua vasta sabedoria a possibilidade da falha não era algo que lhe havia vindo a mente. Não podia falhar, caso contrário tudo estaria perdido, ou as coisas poderiam piorar e muito. A duvida se instalou em Krizalis, já não estava tão certo se deveria fazer o que havia planejado com tanto cuidado.

Vendo a expressão sofredora do irmão, Ragnar tentou consolá-lo e ao mesmo tempo, tentou convencê-lo um pouco mais de não cometer o erro que estaria prestes a cometer. Mas suas palavras apenas fizeram com que ele levantasse e fizesse menção de partir.

- Então vais mesmo fazer o que planejas? - Questionou Ragnar.
- Sabes que tenho que fazer isso.
- Não, sabes que não tens de fazer e não podes fazer. Irmão, o tempo é como uma árvore repleta de galhos e folhas que levam a várias direções e a frutos diferentes. Mesmo na tua posição, por que acha que conseguiria colher exatamente o fruto mais robusto e suculento da árvore?
- Disse bem irmão, o tempo é como uma árvore repleta de galhos e frutos diversos, cada um com sua particularidade. Mas como saberia se o fruto que escolhi não é o que desejo encontrar se não experimentá-lo?

A chama da vela solitária que ainda permanecia valente perante suas companheiras, que há muito haviam perdido a força, dançou uma última vez e se extinguiu, a penumbra tomou conta do grande salão. Krizalis partiu deixando a porta entreaberta, um único e tímido facho de luz penetrava nas trevas da biblioteca, iluminando uma palavra no grande livro que permaneceu aberto, que agora Ragnar contemplava com tristeza. Essa palavra era "spei", que significava esperança.

7 comentários:

  1. Bela escrita,texto inteligênte e muito bem escrito.
    Só não entendi muito a menção do titulo,com o texto.

    abraço !

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  2. Meu caro Dragus, entendo sua dificuldade, o mundo atual não nos dá motivos p confiar em ninguém. Infelizmente aumenta a ansiedade e a crise de pânico só dificulta o contato. Acredito q um profissional adequado seria bem interessante, lembre-se q ele tem um dever ético e profissional com seu cliente, podendo sofrer punições profissionais por falta de ética. Tb é importante vc entender q o psicólogo não deverá estimular a depêndencia de ninguém. Costumo dizer q meu objetivo é "perder" o cliente, pois no momento q ele fica bem, não terá mais necessidade de mim. abraços, Verônica.

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  3. oi meus queridos, tem coisa pra vcs la no meu blog

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  4. Muito legal, não sabia que o Ragnar era uma "pessoal".

    Isso já é continuação do Jorjando né?

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  5. Mais um magnífico texto. Claramente se percebe e se constrói a cena diante de nossos olhos, tal a ambientação bem descrita. Agora uma dúvida: É a esperada continuação do anterior ou um novo conto??

    Um abraço.

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  6. Mais um belo conto para os apreciadores de excelentes textos. Esse pessoal que não lê mais que 5 linhas, não sabe o que perde...

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