Contos - SdD - Além... pt. V.

"Dando continuidade ao combate, e interrompendo o ritmo frenético de batalhas, uma história triste..."



O Limbo.

É segundo diversas seitas religiosas o lugar para onde todas as almas partem. Antes de irem para o céu ou inferno a alma invariavelmente passará pelo limbo. Aqueles que passaram pela experiência de quase-morte descrevem o limbo como um lugar branco e pálido sem horizonte, apenas se vê o tom branco e a si mesmo. Não há sombra no chão, nem se vê um chão, mas pisa-se nele e o sente. Se tocar o chão sentirá a consistência de algodão, fazendo até mesmo pensar que está nas nuvens ou em algo parecido.

Por sinal, quando se vê a luz, poucos segundos antes da passagem para o mundo dos mortos, o branco dessa luz é justamente a entrada para o limbo. A não ser que você seja um dos que controlam as forças que o gerem, sua entrada é definitiva. Outras vertentes assumem que o limbo é um lugar escuro, maligno, a porta de entrada do inferno e não uma área neutra entre o céu e o inferno. Outros consideram a visão do limbo algo manipulável e a pessoa o vê do modo como considera certo, ou seja, sua aparência é moldável de acordo com o que acredita que seja, ou pelo que habita o coração de quem está nele.

Era noite no limbo, e dos céus caía uma tempestade com cheiro de choro. Duas pessoas estavam em pé, diante uma da outra. De um lado, onde a chuva parecia cair mais forte, uma mulher de cabelos ruivos e roupas brancas que emitia uma fraca luz branca muito triste. Do outro, um homem de cabelos loiros e semblante melancólico e ao mesmo tempo parecendo exausto, vestindo uma túnica negra com o símbolo de uma lua crescente estampada nas costas.



- Eu sempre te amei... - Dizia o homem, olhando ternamente para a ruiva.
- Eu sei... - Respondia a mulher, segurando o choro, mas soluçando. - Nunca tive dúvidas disso...
- Então porque dúvida agora? Depois de tudo que aconteceu... É tarde demais. - Falou o homem, olhando para a chuva e voltando a olhar para os olhos da moça.
- Não é, você sabe... Porque eu queria uma chance... Uma única chance...
- Não acha mesmo que é tarde demais? Eu penso desse jeito...
- Você poderia ao menos dar essa chance! - Berrava a mulher, agora com lágrimas nos olhos.
- Definitivamente... Você não entende, mas deveria. Existem coisas definitivas e essa é uma delas... Meu tempo já passou. Se eu voltar será pior. - Respondeu o homem, começando a acariciar os cabelos ruivos com ternura, entretanto seu olhar se tornava cada vez mais distante.
- Por favor... Você precisa voltar, volte por mim...
- Impossível...

O homem parou de acariciá-la. As lágrimas agora escorriam mais e mais dos olhos da ruiva, e ela o abraçou. Ele respondeu ao afago com ternura. Os olhos se encontraram e brilharam. Lentamente lábios começaram a se aproximar, mas quando o beijo estava quase consumado o homem virou o rosto e colocou a mulher para o lado. Deu um passo largo para frente, ficando de costas para a moça.

A moça por sua vez não tornou a girar para vê-lo, permaneceu parada. Soluçava e colocava a mão no rosto, para tentar secar inutilmente suas lágrimas. Era diferente das outras vezes, pois seu amado jamais chegara tão próximo do final definitivo, nem mesmo quando acidentes ocorriam ou nas inúmeras vezes que ele se ferira mortalmente em combates. Seu olhar estava desmotivado, como se nada mais valesse a pena.
- Sabe... Anos atrás, eu percebi que não tinha como ser mais como foi outrora. - Explicou o homem. - Eu vi que apesar de termos sido muitos felizes juntos, você e eu não poderíamos nos vincular, completar um ao outro... É impossível... Somos parecidos demais nos aspectos que nos separam e ao mesmo tempo diferentes nos que deveriam nos juntar.
- Mentira... Podemos tentar de novo!
- Não podemos, e não é porque eu estou aqui que seja o motivo real de nosso distanciamento. Isso aconteceu antes, muito antes. Veja você... És como seu elemento: livre, brilhante e solta, simplesmente uma força indomável da natureza. Eu sou vítima de minha responsabilidade, do preço que me dispus a pagar, ser uma mera testemunha de tolices. E tolice maior foi a minha em pensar que depois de termos reiniciado o universo que você fosse se prender novamente a um ser com minha sina. Tolice não, egoísmo... Entenda, não há motivo pelo qual eu tenha que voltar. Você é completamente capaz de se dar bem sem minha presença, já provou isso... A saudade vai existir, mas a necessidade de minha existência se tornou nula, até perigosa. Eu quero apenas descansar.
- Não fale assim... Você não é desse jeito.
- Sou sim... Quem dentre todos me conhece melhor que você? Quem conseguiu quebrar a casca de pedra do homem de olhos azuis e piadas sem graça? Você me conheceu como ninguém mais, viu o homem dentro do irritante ser que sou. E também sabe que eu não me entrego fácil. Pelo menos enquanto vejo sentido em algo... E não vejo mais sentido... Meu retorno seria pior.
- Eu sei que você é assim... E te amo muito pelo que você é. Volte, fique ao meu lado... Você está errado, eu preciso de você.
- Eu também te amo, aliás, você foi a única mulher que amei... Mesmo quando se casou com o Rei das Sombras eu continuei te amando. E foi por te amar tanto que respeitei sua decisão, que aprendi a compreender você, e convivi com minha dor por anos até aceitar minha perda. E se você me ama, gostaria que fizesse o mesmo, que respeitasse minha decisão.
- Não dá... Dói muito...
- Feridas cicatrizam... Sei que não será fácil, mas você como Arauto da Morte deveria ter se acostumado com separações desse tipo... Pessoas vêem e vão, o mesmo se aplica a qualquer um de nós. O fim é inevitável e chegará a todos.
- Não posso aceitar isso AGORA. - Berrou a ruiva. - O que me pede dói demais. E Sayuki? Kharma? Yoshimitsu? Acha que será fácil para eles aceitar?
- Tenho certeza que não. Yoshimitsu está tentando fazer o mesmo que você nesse momento... E ele também não consegue porque eu não quero. Coloque isso na cabeça: eu quero morrer. Entenda, eu tenho que morrer. É o melhor...
- Não, você não tem que morrer... Você não pode morrer... Eu te amo tanto... Tanto...

O choro aumentou. A mulher não conseguia sequer manter-se de pé, tamanha a tristeza que sentia. Nunca uma despedida havia doído tanto. Era diferente, apesar de ter se casado com outra pessoa sempre amara esse guerreiro, sempre, e no fundo sabia que um dia acabariam juntos. Quando sua memória retornou por completo, o amor voltou de forma incondicional e irresistível. Não havia mais dúvidas, mas ela estava ainda dividida entre o amor por um homem sem lar e o amor por um homem que se transformara para tê-la. Eram amores diferentes e iguais. E por mais que amasse esse que partia, no fundo sabia que seria impossível demove-lo de sua decisão.

O homem continuou a caminhar sem olhar para trás. Sabia que tinha sido bem claro em suas palavras. Sentia-se grato de poder dar um ponto final a esse sofrimento antes de partir, morrer sem se despedir é pior do que qualquer coisa e ao menos teve essa chance. Ele sabia que a ruiva era bem amada, e que o que acontecia era apenas confusão mental decorrente de ter recobrado sua memória. Por sinal, era necessário a ambos acreditarem nisso, mesmo que fosse mentira. Se a verdade fosse outra, ambos sofreriam demais.

Pouco antes de desaparecer na imensidão do limbo, e tornar-se apenas uma mera lembrança no coração de todos, o homem olhou para trás e viu a ruiva pela última vez. Acenou e se despediu. Pela última vez trocaram olhares, pela última vez sentiu seus cabelos ruivos entre seus dedos. Pela última vez foi acariciada por suas mãos. Pela última vez conversariam abertamente. Pela última vez, Kaira escutaria as palavras de seu amado, mas as palavras que jamais gostaria de escutar:
- Adeus Kaira. - Despediu-se Akkira.

E ele desapareceu na imensidão...

De todas as dores, a pior é a da alma.

13 comentários:

  1. Não entendi porque o Akira quis morrer

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  2. Ótimo conto.

    Realmente qualquer ferida aberta no corpo físico pode ser tratada e curada.

    Já na alma requer muito tempo e compreensão, e as vezes elas são incuráveis.

    E despedida deixa profundas marcas.

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  3. Muito bom o texto... parabéns pelo Blog.. bem variado.. assim que eu gosto..
    http://blogdostampar.blogspot.com/
    Sérgio

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  4. De todas as dores, a pior é a da alma. e só nós podemos curar...

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  5. Nossa,esse conto ficou muito bom,aliás todos os textos que voC~e escreve são muito bons.Também não entendi porque Akira quis morrer.

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  6. concordo! de todas as dores, a pior é ada alma. Mto bom o conto, é de sua autoria?


    bjs


    www.meublog-22.blogspot.com

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  7. Isso tudo me lembra
    O INFERNO DE DANTE! Bom livro!

    Abração pra ti!
    Kemp

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  8. não trocaria uma ruiva por nada...heheheh
    nem curto mt coisa macabra, e quase desisto de ler. Mas o texto está bem escrito e AINDA BEM fui até o final pq é um bom texto e nada ver do q pensava.
    Abço.

    http://dapleura.blogspot.com

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  9. Muito bom, as dores da alma... Dores do purgatorio, logo ali, visinho ao limbo de nossos dias...
    Parabens!
    Everaldo Ygor
    Abraços
    http://outrasandancas.blogspot.com/

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  10. Absurdamente bem escrito. Talvez um dos melhores que eu vi nos últimos anos.

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  11. Esse é o tipo de coisa que se acontecesse em jogo, seria completamente diferente!

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  12. Pô! Não gostei. Depois de tanto sacrifício e luta ele simplesmente decide morrer. Foi triste.

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  13. Não gostei da decisão de akkira...
    É quase uma atitude de covardia .
    O conto ficou legal


    []s L.Sakssida

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