Contos - SdD - Triste Fim Para Um Final Feliz. Pt II.

Atendendo a alguns comentários, que lamentaram a morte ocorrida no último conto desse mesmo, fiz uma espécie de continuação. Não necessariamente vinculada a qualquer coisa, e que pode ser lida até mesmo de forma independente do outro, mas se os que não leram quiserem ler - o que duvido que muitos farão. - o link é esse: Triste Fim Para Um Final Feliz.


A lágrima.

Uma lágrima pode significar muita coisa, desde alegria até a mais profunda tristeza. Ela pode escorrer durante um reles espirro ou quando cutucamos nossos olhos. Geralmente a lágrima remete a sentimentos, e aquele momento não poderia ser diferente. Mas não era tristeza, não era remorço, não era felicidade ou infelicidade, não era pela perda indescritível que sua dona poderia sentir naquele momento.

Era ódio.

Puro e simples ódio.

"Kaira...", foram as últimas palavras que seus ouvidos divinos escutaram. Não importasse a distância, onde quer que estivesse, ela pôde escutar seu último lamento, seu último pedido de socorro. Não era como das outras vezes, em que por suas próprias mãos o guerreiro que amara tanto e tanto percorrera os mais diversos médicos. Erros bobos... Trágicos, mas tão engraçados que eram motivo de piada tanto para ela quanto para os amigos que tinham em comum. "Ele sempre foi um bobalhão...", pensava pouco antes de não sentir mais sua presença e desesperar-se. De usar todo seu poder para procurá-lo em todo o Universo em menos de um milésimo de segundo. E encontrá-lo, ainda assim, tarde demais.

Kaira. Mais que um nome, era um título. Entre os habitantes de um mundo distante e diferente de tudo que existe, "kaira" significa simplesmente "luz", e é isso o que ela é, o que faz, o que a motiva. Luz, pura e simplesmente luz, na sua mais pura concepção. Kaira é a luz dos olhos de todos, a parte na Criação que deu aos mortais, e porque não dizer aos imortais e os próprios Deuses, uma forma de enxergar algo dentro do enorme manto escuro que antes cobria toda a existência. Não era apenas iluminação física do que se pode dizer sobre Kaira. Seu significado é mais amplo, é a iluminação do pensamento, da mente, das decisões, e por que não dizer: da Alma.

Mas naquele momento a luz de Kaira estava tomada de ódio, um insano ódio.

O último dos ossos do guerreiro caía no chão quando Kaira arrebentou as paredes aparentemente indestrutíveis do saguão com a violência de um trovão. Sem dizer uma palavra observou o assassino de seu amado caminhar até um de seus outros inimigos e erguê-lo pelo pescoço. Em seguida o assassino falou algo a esse inimigo e o jogou longe.

O assassino vestia uma camisa azul escura, feita aparentemente de couro rígido tingido que possuía compridas ombreiras pontiagudas, remotamente similar a alguns tipos de toga. Sua calça era feita de um tecido branco, bastante folgado que parecia preenchido por alguma espécie de espuma, que ia até uma joelheira que se ocultava parcialmente dentro do cano alto de um par de botas feitas do mesmo material da estranha toga. Seus braços eram cobertos em parte pelo mesmo tecido da calça até chegar a um par de cotoveleiras, terminando em duas enormes manoplas feitas do mesmo material de couro azul escuro. Toda a roupa possuía detalhes em negro, que tornavam o que já era escuro mais sinistro. Seu rosto era impossível de ser visto, pois um enorme chapéu de palha o cobria e o que poderia ser visto era coberto por longos cabelos brancos, que iam até sua cintura. A única parte visível de seu rosto era seu enorme e largo sorriso.

Kaira pensou em tentar escutar o curto diálogo entre o algoz e um dos dois homens caídos, mas pouco se importava naquele momento com informações. Estava furiosa demais para dar ouvidos a qualquer coisa que fosse dita naquele momento, ela queria o sangue desse homem. O assassino se levantou e falou algo, mas Kaira foi incapaz de compreender as primeiras palavras, surda de ódio, e apenas pescou o final:
- ... tola como esse monte de ossos!

Foi demais para Kaira. Mesmo com todos os anos de experiência e sabendo que tipo de ser estava enfrentando, e principalmente, o quanto ele se valia de descontrole mental e emocional para ganhar lutas, ela o atacou. Kaira utilizou o máximo de sua velocidade e avançou violentamente na direção do assassino, e quando estava distante um centímetro dele freou bruscamente. O deslocamento de ar foi tão violento que o ar acendeu e queimou todo o saguão iluminando de laranja todos os que ali estavam.

Os dois seres feridos tentaram inutilmente se proteger, mas o estado de ambos não os permitiu, e quando o fogo chegou apenas puderam lamentar e gritar. O corpo de Jamal desapareceu, consumido pelas chamas. Apenas uma parte de tudo aquilo conseguiu se proteger do fogo, um pequeno amontoado dos ossos do que um dia foi o guerreiro que Kaira amava, protegido por uma tênue proteção feita sabe-se lá por quem, mas eficaz a ponto de impedir a cremação dos restos mortais.

O assassino foi envolto pelo fogo e em seguida arremessado para trás pela força do deslocamento de ar. Kaira não lhe deu tempo de reação, apontou suas mãos para o algoz de seu amado e invocou um turbilhão de energia, misturando diversos tipos de luz. Em seguida começou a concentrar mais ainda esse poder e ao mesmo tempo diminuía o tamanho do turbilhão, colocando diante de suas mãos um enorme poder em uma área menor que a ocupada por uma bola de tênis. Antes que um milésimo de segundo passasse, ela girou suas mãos no ar e todo esse poder foi liberado e direcionado para um único ponto, o assassino. Ele foi completamente imprensado contra as paredes do saguão e Kaira escutou com um prazer repleto de ódio o som dos inúmeros fachos de luz dilacerando-o. Mas havia algo estranho, que Kaira somente percebeu naquele momento em que sua fúria cedera: ele não emitira um som.

"Se ele não sofreu até agora, sofrerá agora!", pensou Kaira voando contra seu inimigo e encontrando-o no meio do fogo e da poeira, completamente encravado na parede. Garras de luz se formaram em ambas as mãos de Kaira e em uma velocidade absurda começou a socá-lo. E socou, socou e socou. A cabeça do assassino batia tantas vezes na parede e em uma velocidade tão alta que demoravam dois segundos para uma marca surgir, como se o próprio tempo não conseguisse acompanhar a violência da Luz. Mesmo assim Kaira bateu mais e mais rápido, e com mais violência, até que finalmente a parede cedeu e ambos caíram em um outro saguão anexo ao que estavam.

Kaira estava tão concentrada em bater que caiu sobre o assassino e sem parar de socar rolou pelo chão. O deslocamento de ar dos golpes avulsos de Kaira eram violentos o suficiente para abalar as estruturas do salão onde estavam, derrubando bastante reboco e enormes blocos de rocha em ambos. Mas Kaira não ligava, as rochas viraram pó simplesmente se aproximando do campo de inércia que sua velocidade criara. Não demorou muito tempo e novamente o fogo tomou conta da sala, mas Kaira já estava cega de ódio o suficiente para perceber que tudo a sua frente ficara laranja. A ela bastava sentir suas garras de luz sendo encravadas, socando e dilacerando aquele maldito assassino.

Seu corpo brilhava de tal forma que nesse momento já era possível ver seu brilho vazando pelo solo em direção a superfície. Não fosse esse complexo subterrâneo localizado nos domínios de Ignus, provavelmente algum Deus já teria se aventurado em descobrir o que acontecia. Mas nenhum apareceria naquela região, porque mesmo naqueles tempos, em que Deuses eram escassos e Ignus jazia ausente, a moral do Monarca das Trevas era suficiente para espantar quaisquer eventuais heróis de quinze minutos que ousassem colocar seus divinos pés naquelas áridas terras. Mas até aquele instante não parecia que Kaira fosse precisar de ajuda, a luta estava nitidamente ganha.

Ou não.

Kaira continuava incessantemente batendo, a essa altura o chapéu de palha do assassino se despedaçara há muito tempo, e seus cabelos brancos começavam a ficar tingidos de vermelho. "Ele sangra... Mas porque não grita?", começava a se indagar Kaira entre um soco e outro. Passada quase uma hora, ao menos pelas suas contas, socando o homem ininterruptamente, ele não parecia se importar com aquilo, por sinal, Kaira percebeu que estava cavando uma cratera cada vez mais profunda e o máximo que acontecera até aquele momento foi uma pequena mancha vermelha surgir nos cabelos do assassino. Foi quando viu os olhos dele brilharem e o homem segurou o punho esquerdo de Kaira com uma força que a surpreendeu.
- Eu acho que está bom... - Disse o homem.

A deusa da Luz soltou-se dele sem dificuldade e se afastou voando com precaução. O homem ergueu-se do chão, levantando-se zonzo, mas aparentemente sem nenhum ferimento grave. Ele ergueu sua mão direita e um novo chapéu de palha surgiu após um flash, que tratou de vestí-lo como se a mulher não estivesse presente. A deusa não se deixou ofender, mesmo porque naquele momento ela estava levando a melhor, apesar de estar desconcertada com tudo aquilo. E esse pequeno "desconcerto" germinava uma pequena dúvida em sua mente, e um descuido desses podia ser fatal.

Sem dar ao luxo de ser confundida, Kaira concentrou-se novamente e fez surgir em suas mãos um par de bigornas de luz sólidas. Uma arma ridícula, mas que lembrava muito do guerreiro falecido. "El Cabongue!", balbuciou enquanto voou em direção de seu inimigo, que surpreso, provavelmente pelo formato ridículo do ataque foi esmigalhado violentamente sem sequer tentar desviar. E foi algo tão violento que o próprio solo do local começou a dar sinais de que não agüentaria mais e lava começou a verter pelo chão, acompanhado de um ruidoso terremoto.

De qualquer forma, o cenário em torno deles era o que menos importava, e novamente protegida pela inércia de seus ataques Kaira continuou atacando, até que de repente o homem parou de sorrir. Kaira tentou fazer algum movimento, mas para sua surpresa não foi rápida o suficiente, e antes que pudesse fazer qualquer coisa se viu sendo enfiada dentro do magma. Sua pele ardeu e doeu demais, mas maior ainda era sua raiva, e com sua velocidade submergiu o mais rápido que pôde em direção do assassino, mas nada encontrava, e continuou procurando indo até o saguão onde o corpo de seu amado jazia. Mas nada encontrou. Tomada pelo ódio de pensar que ele fugira, começou a berrar diversas vezes "Onde você está, diga... TEMPESTRI!", mas ele não aparecia.

De repente, sentiu uma mão tocar sua nuca com suavidade, afagando-lhe com ternura. Seu toque lembrava, ou melhor, era exatamente o toque do guerreiro, e ela se permitiu extasiar-se, era a presença de seu amado novamente. "Akkira...", pensava e deliciava-se com o momento. Sentia-se feliz, mesmo sem poder estar, para ao virar o rosto ver a face cruel de Tempestri sempre sorrindo, e falando com uma voz grotesca...
- BU!

Continua.
(separado porque ficaria longo demais)

10 comentários:

  1. Pô, curti...

    Aguardarei a continuação :)

    E, continue assim, vc escreve bem.

    Abraço.


    http://oenxadrista.blogspot.com/

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  2. muito bom... espero a continuação... Tu escreve bem pra caramba.

    Abraço

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  3. "Se o voto é do partido, para que tantos Deputados, Senadores, etc... Não bastaria apenas 1 representante de cada partido no "congreço"? Não seria mais barato aos nossos bolsos?"

    [[ ASSIM, EU SEI QUE MUITO TRABALHO ELES NÃO TÊM, MAS COM CERTEZA A RESPONSABILIDADE É GRANDE, EMBORA MUITOS NÃO SE CONVENÇAM DISSO. ]]

    "- Quem votou no Clodovil, votou no partido? Deveriam consultar seus eleitores...
    - Quem votou no Frank Aguiar, votou no partido? Deveriam também consultar seus eleitores..."

    [[ DEFINITIVAMENTE, NÃO! INCLUSIVE, AS PESSOAS QUE VOTAM NESTE TIPO DE CANDIDATO - NO MÍNIMO OPORTUNISTA - SÃO OS QUE MAIS RECLAMAM DA VIDA, DOS IMPOSTOS, DA VIOLÊNCIA DA CORRUPÇÃO... ENFIM... ]]

    é isso o/

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  4. Cara, senti um ar de "sacanagem" nesse "Bu" final. O pior é ter que esperar para ver o que acontece. Imagino que ela terá motivo para se assustar (rs).
    O jeito agora é esperar.

    Mais um texto cheio de criatividade e talento.

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  5. meu amor morreu :((

    Vou matar ele! Quero matar ele hein...

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  6. Lá vem merda...
    (alguém tapa a boca e diz:"explosão titânica")

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  7. Putzz!!!!!!!
    bom D+
    Adorei cara perfeito,depois de tanta adenalina esse desfecho promete muito.
    Huaeaeashh
    Continua o mais rápido possíivel.
    Você é muito bom nisso e escreve p/ Kct neste genero...

    um grande abraço amigo

    L.Sakssida

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  8. mt bom texto..
    parabén de novo!
    essa foto da lágrimaeu ja usei tb..
    rsrs
    abraço!

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  9. esse bu foi bem a cara do Ricardo.


    *se lembrando de uma foto antiga e horrorosa dele*

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