Contos - SdD - Triste Fim Para Um Final Feliz. pt. III

Akkira, um dos Deuses do Tempo estava morto. Morto a traição, logo após combater e vencer com ferocidade um de seus ex-companheiros. Kaira, sua eterna amada, escutou seu lamento e veio inutilmente socorrê-lo, ao invés disso viu o sorriso sádico de seu assassino. E ela, a Deusa da Luz, o atacou furiosa. Quando parecia estar levando a melhor no confronto, de repente algo estranho aconteceu. Tempestri demonstrou não haver se ferido, e ela não percebeu quando ele ficou mais rápido e a segurou pela cabeça. O que estaria acontecendo?


A Dor.

É uma reação humana e natural a qualquer ser vivo. Está ligada a lágrima de modo tão íntimo que em geral não somos capazes de distinguir ou separar a dor da lágrima, mas a relação não é recíproca. Não podemos rir de dor, mas podemos correr lágrimas de alegria. Existem aqueles que dizem se divertir com a dor, mas arranque-lhes um braço com uma faca cega e os verão chorar que nem crianças. A dor é maior que qualquer instinto ou desejo humano. É absoluta, e conforme dizem é uma das maiores certezas de que estamos vivos.

Mas existe algo pior que a dor em sua descrição física.

A dor da alma.

É de todas as dores, a pior. Uma dor que não podemos conter com medicamentos ou com quaisquer outros tipos de remédios sem que nos custe a própria sanidade. A dor da vergonha, a dor da perda de um ente querido, a dor de ter se sentido enganado por alguém, mesmo cientes do risco. Essas dores são impossíveis de se superar, e mesmo que o tempo feche as feridas, elas sempre hão de coçar com o passar dos anos.

E Kaira sentia essas três dores morais naquele momento.

Mas ela não teve tempo de entender ou compreender essa dor. Tempestri agarrou seus cabelos, a girou no ar, e a arremessou contra os destroços do chão. Kaira tenta desviar mas não consegue. Seu corpo não responde a tempo e ela bate com seu rosto contra as pedras. Tempestri está empolgado, agarra novamente a cabeça de Kaira e a esfrega por todo o saguão, pintando o salão com várias faixas no vermelho do sangue da Deusa da Luz.

O gosto acre invade a boca de Kaira que se desespera em constatar que algo acontecia de errado, algo que ela não tinha percebido e que pagou o preço de sua empolgação. Tempestri usou sua fúria contra ela e seu corpo divino agora estava gravemente ferido. Sentia-se zonza, não conseguia se desvencilhar de Tempestri, e uma dormência perigosa tomava conta de todo seu ser a cada segundo que passava. Ela percebe a eletricidade de Tempestri em seu corpo, sente que ele se aproveitou do tempo em que ela estava próxima, o socando, e gradativamente a feria, de modo que quando finalmente os sinais surgiram fosse tarde demais. Kaira estava profundamente ferida e só notou tarde demais.
- Dói, não? - Disse Tempestri, apertando a cabeça de Kaira firme contra a parede, e olhando a moça, fundo nos olhos. - Mas existe algo que dói mais que a morte... A vergonha.

Tempestri beija Kaira, a força. Ela tenta se desvencilhar como pode de seu beijo maldito mordendo inutilmente a boca do assassino, que parece se divertir com sua resistência. Tomada pelo nojo consegue juntar forças, transforma-se em luz e escapa do agarre e dos podres lábios de Tempestri. Infelizmente não consegue se manter intangível tempo o suficiente para que possa escapar, pois quando está se aproximando do buraco pelo qual entrou no salão volta a forma sólida e desaba no chão. A Deusa gira seu corpo rápido e vê quando Tempestri voa em sua direção, com o joelho em riste. Imóvel, ela apenas sente os ossos de sua cabeça racharem quando é acertada na têmpora direita. Kaira começa a decolar com o impacto do ataque, mas Tempestri a segura pelos pés e a gira no ar em uma velocidade comparável a dela própria. E a solta.

Kaira mergulha como um raio na parede do saguão, que nesse momento está comodamente mais resistente, o que torna tudo pior para Kaira. O impacto é tão forte que o som da pancada desloca o ar do local e arrasta os presentes por alguns centímetros. A deusa quase perde os sentidos, mas a dor não permite e ao se mover buscando por ar em meio a poeira, sente seu pescoço e sua coluna partirem. Sua vida escorre rapidamente, seu corpo tem convulsões violentas em um estado quase comatoso. Segundo após segundo a dor diminui, e tudo finalmente começa a escurecer. Repentinamente uma bondosa mão toca seu pescoço e a cura, trazendo-a de volta da escuridão. Ainda entorpecida, os olhos de Kaira procuram por quem a salvou da morte, e vê que quem fez isso foi ninguém menos que Tempestri. "Você pensa que vai morrer assim, tão fácil? Você vai sofrer muito antes, cadela luminosa...", fala Tempestri, nos ouvidos de Kaira, antes segurar seus cabelos ruivos e erguê-la novamente.

Quando ela está a dois palmos acima do chão, Tempestri toca o corpo de Kaira com volúpia. "Agora entendo o que ele via em você...", diz ao apalpar o seio esquerdo da deusa com um olhar completamente doentio. "Realmente, você é deliciosa...", comenta enquanto a alisa. Kaira fica ainda mais furiosa, mas não consegue se mover para reagir. Ele apenas a salvara da morte, não reparara sua espinha partida, ele era sádico, não tolo. Naquele momento ela está tetraplégica. Uma lágrima desesperada e triste escorre pelo rosto de Kaira, consternada com a situação. Seus olhos procuram pelos restos de seu amado, ela pensa no quanto foram felizes juntos, até mesmo do quanto foram infelizes juntos, e tenta no ódio buscar forças para resistir. Ela não pode morrer desse jeito, não tão fácil, não desse jeito ridículo. Ela não pode ceder, jamais.

Ela precisa vingar seu amado, e a si mesma.

O corpo de Kaira cobre-se de luz e Tempestri é jogado contra a parede. O ser maligno transpira empolgação, pois a mulher tem fibra. "Vou querer você em minha cama hoje, mulher!", provoca, enquanto o corpo de Kaira se ilumina mais e mais. A deusa não possui mais nada a perder, nada a não ser ela mesma. "Você pagará por tudo isso.", pensa Kaira enquanto invoca sua última esperança e abandona sua humanidade.

Não há mais dor naquele momento, não há paralisia, ela está acima disso. Imediatamente começam a surgir diversas "Kaira" em todo o cenário. Um poder absurdo toma conta do lugar. Tempestri parece absorto em sua própria arrogância, e estufa o peito, querendo provar algo a Kaira. A Deusa ignora seu inimigo e suas provocações, ela naquele momento está tomada por seu elemento. Ela se tornou a Luz, e dessa forma o eliminará, ou morrerá tentando.

Se alguém pudesse contar ou quisesse, contaria exatamente a presença de mil Kaira no ambiente. Todas elas invocavam em uníssono o turbilhão de energia que Kaira usara momentos antes. Todos com a mesma intensidade. Kaira apenas poderia fazer isso daquela vez, e depois não saberia o que aconteceria. E, de qualquer jeito, não importava mais o que estivesse por vir, ela tinha que fazê-lo pagar. As mil Kaira apontaram suas mãos na direção de Tempestri, que continuava gargalhando e de peito estufado esperando o ataque. Kaira não queria cometer erros e quando mandou sua magia, fez algo inusitado contra seu inimigo.

Quinhentas Kaira apontaram os turbilhões diretamente no peito de Tempestri. As demais o acertaram pelas costas, achatando-o com o poder divino liberado. Pela primeira vez em todo o combate Tempestri gritou de dor, enquanto seu corpo desaparecia cercado pela luz. Ele continuou berrando durou até seu vulto desaparecer consumido pela luz, sem deixar rastros. Kaira sentiu-se satisfeita, e, completamente exausta, sentou no chão. Precisaria de alguns segundos para se recompor e fugir. Tempestri aparentemente havia sido desintegrado por seu ataque, e os outros dois presentes estavam completamente fora de combate.

Passou pela cabeça de Kaira eliminar ali mesmo Balzac e Gigantus, mas ela tinha algo mais importante a fazer. Levantou-se e caminhou cambaleante até os restos de Akkira. Se ele tinha que ser enterrado, não seria naquele lugar. Quando tocou a espada de Akkira, sentiu uma estranha brisa. Antes que pudesse fazer algo sentiu suas costelas quebrarem e vomitou sangue, ao mesmo tempo em que voou contra a parede do saguão e seu corpo escorreu semi-consciente até o chão. Tempestri apareceu diante dela, com parte de sua armadura rasgada, e havia parado de sorrir.
- Parabéns, você conseguiu rasgar minhas roupas... - Disse Tempestri, voltando a sorrir enquanto as vestimentas se regeneravam. - E pensar que eu a queria viva para ser minha concubina...
- Mate... Me... Logo... - Balbuciou Kaira, enquanto tentava inutilmente se levantar. Seus braços e pernas estavam quebrados. - Me mate... Antes... Que...
- Antes? - Interrompeu Tempestri, indo até Kaira e a segurando apertado no rosto. - Cuspa seus dentes? Chore como uma menina? Tente me matar?

Tempestri não deixou Kaira completar sua frase e bateu a cabeça da deusa na parede. Uma nova mancha vermelha a tingiu, e em seguida o sangue jorrou através de corte no supercílio direito de Kaira. Tempestri deu outra pancada, duas, três. Sentiu algo estalar em sua mão, o crânio dela. Novamente regenerou os ossos partidos e a despertou. Não seria essa mulher quem decidiria quando morrer, e sim Tempestri quem decidiria.

Bateu mais uma vez a cabeça da mulher na parede para acordá-la.
- Decore isso... Você só morrerá quando EU quiser. - Afirmou Tempestri, com muita certeza.
- Então engole... - Disse Kaira.

Ele não viu, mas sentiu. Sem que percebesse Kaira se aproveitou da própria cura de Tempestri e com o pouco de suas forças recuperadas invocou um tentáculo de luz, que pegou a enorme espada de Akkira e atravessou as costas de Tempestri. O corpo de Tempestri foi completamente transpassado pela lâmina, ferindo a própria invocadora no processo por estar entre ele e a parede. Porém, naquele instante Kaira já estava além da dor, e não sentiu nada enquanto a lâmina atravessava sua barriga e a prendia na parede junto com Tempestri. Sem pensar nas conseqüências de seu ato, Kaira cobriu seu corpo de espinhos luminosos e abraçou Tempestri, forçando ainda mais a espada ferindo e ele ainda mais, tanto quanto a si. Ela planejava explodir ambos em um ataque suicida.

"Ai.", disse Tempestri quando seu corpo foi perfurado se transformando em uma "peneira" pelas esporas luminosas de Kaira. Sua resposta foi violenta e rápida, não dando a deusa tempo de concluir seu plano. Tempestri se cobriu de eletricidade, expulsando a espada de si e fazendo Kaira rolar pela parede para longe dele. O sangue de Kaira esguichou de seu ventre rasgado, manchando de vermelho a roupa de Tempestri. "Seu sangue sujo manchou minha roupa...", balbuciou o ser maligno, sem sorrir. Ele caminhou com frieza até Kaira para dar-lhe o que tanto buscava: sua morte.

Pegou-a no chão pelo pescoço. A mulher já não reagia de forma alguma aos impulsos de Tempestri, que fez questão de eletrocutá-la para comprovar seu estado. A deusa sequer gritou, estava abatida demais para até mesmo sofrer. O sangue escorria de seu abdômen pelo corte sofrido, e pequenos espasmos indicavam que sua hora final estava próxima. Os olhos de Tempestri brilharam, liberando dois pequenos raios de luz branca que iam lentamente de encontro aos olhos de Kaira. Em paralelo, Tempestri esmigalhava seu pescoço. Era hora de mais uma refeição de Tempestri, o destino de Kaira seria o mesmo de Akkira. Faltava pouco.

Mas ele não pôde completar sua refeição. Sentiu duas presenças chegando rapidamente em seu recinto, e foi obrigado a parar. Mais intrusos estavam se aproximando, e olhou para a abertura saguão feita por Kaira. Viu sorridente dois seres de imenso poder adentrarem na sala rápidos e nitidamente furiosos. Eram os amigos de Kaira e Akkira: o Deus Sayuki e sua esposa Karma.

Tempestri estava se divertindo muito com tudo aquilo...

Fim?

9 comentários:

  1. Huaaaaaa!!!!!!!
    Só fiquei puto pq ninguém fode o Tempestri.
    + ficou muito bom cara

    estou esperando o proximo conto

    []s Lukkas

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  2. Tempestri deu sorte só por estar enfrentando a Legião Drax à prestação!

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  3. Tempestri tem coragem de sobra, hein... Rs
    Mas gostei da qualidade dos textos. E do design. bem clean. Gostei também!
    Abraço

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  4. Já tinha comentado ...
    só esperando o proxímo conto

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  5. Coentarei sobre esta frase:

    "A dor da alma."

    Realmente, não existe dor pior que esta...

    www.krhaus.narcotico.org

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  6. grande Tempestri, adorei o texto...me prendeu rsrsrsrs

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  7. Tempestre tá assanhadinho em hauhauha!
    Mas sinto que agora ele vai se machucar mais =)

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  8. Acho que você pode renomear esse conto como o Massacre da Legião Drax...



    Continua logo Ricardo

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