O Último Despertar de Outono - Capítulo 5

Depois de muito, mas muito tempo mesmo (a última parte postada data de 11 de Agosto desse ano, coloco mais uma parte da história de Erik.

Para quem não se lembra, ou nunca leu, O Último Despertar de Outono é um romance que se passa durante a segunda guerra mundial, aliás, que começa poucos anos antes e tem seu ápice durante a segunda guerra. Esse capítulo, o 5º, é um dos últimos que será narrado ainda na vila de origem dos personagens principais, em breve daremos um salto de alguns anos na história e mostraremos o futuro nada promissor desse jovem que nos próximos capítulos dará seus primeiros passos rumo ao nazismo.

Até lá, segue mais um capítulo da sua vida...



O Último Despertar de Outono
Capítulo 5


A primavera chegou com força na região de Freudenstadt naquele ano de 1926. Nunca desde o fim da Primeira Guerra a região onde residiam os Shüber obtivera tantas e tão belas flores. Os dias eram mais coloridos e os bolsos de todos estavam mais cheios por causa da beleza do dinheiro suíço. Ludwig Shüber sentia-se tão bem com o modo em que as coisas estavam que se permitiu dar-se um presente. No final do mês de Junho foi até a cidade de Munique e voltou de lá com uma caminhonete de carga, que passaria a usar em substituição de sua tradicional charrete puxada a cavalo. O único serviço do animal daquele dia em diante seria servir de montaria para os passeios de Sr. Shüber por suas terras.

A chegada da caminhonete causou comoção na cidade. Era o primeiro carro particular naquelas bandas e assim que o carro foi avistado nos limites da cidade muitas pessoas, principalmente crianças e pré-adolescentes correram para ver a novidade. Alguns entre os mais velhos torceram os olhos, principalmente porque o modelo do carro lembrava muito os que invadiram a região décadas antes durante a guerra, e isso lhes trazia péssimas lembranças. Sr. Shüber pouco se importou com os olhares e dirigiu contente para sua casa. Sua esposa quase infartou ao escutar o estridente e agudo som da buzina do veículo que explodiu pela casa sem aviso, mas recompôs-se rápido para um primeiro passeio. Naquela hora, o jovem Erik estava estudando no mosteiro e pouco sabia da novidade.

O Sr. e a Sra. Shüber passaram o restante do dia no carro, em momentos íntimos, passeando pelas terras da família e comemorando o sucesso financeiro que estava se aproximando da região. De repente algo passou pela cabeça de Katharina e ela não titubeou em perguntar:
- Estava pensando em algo, esse veículo se movimenta como? - Perguntou a Sra. Shüber.
- Gasolina, minha querida, porque a dúvida? - Respondeu o marido, com um sorriso nos lábios.
- Onde vai arrumar gasolina nessa região? Estamos isolados de tudo e todos!
- Na cidade vizinha existe um posto de gasolina para os veículos novos que estão colocando, como os carros de polícia e de ambulâncias, e tenho um galão extra pra eventualidades como essa, com gasolina o suficiente para me levar até Munique... Obviamente com uma ajuda da gravidade, já que me basta descer a serra. Pensei que me faria uma pergunta diferente...
- Que tipo?
- Sobre como consegui o carro...
- Boa pergunta.
- Consegui com dinheiro que venho juntado num banco de Munique, o Bayerische Landwirthschaftsbank, e trazido para casa apenas um pequeno percentual dos ganhos que obtive com os suiços nos últimos dois anos. Ontem estava passando com minha carroça em frente a uma concessionária e vi ela maravilha de carro, não tive dúvidas e comprei-o.
- E pretendia me comentar desse dinheiro quando?
- Quando comprasse o carro, agora podemos fazer mais coisas do que antes, pois carros não cansam que nem cavalos... Podemos conhecer toda a Europa, viajar, e deixar as coisas no comando de Erik...
- Mas ele ainda é uma criança! Está louco?
- Crianças não têm os desejos dele, Katharina, você bem sabe disso... Está mais do que na hora dele aprender algo útil, ainda mais de casamento com Mandisa.
- Não sabemos nem se eles realmente casarão, apesar de se encontrarem muito não fui informada de nada além de passeios até aquele monte em nossas terras.
- Conversarei com ele.
- Para que? Vai dizer a ele que ele vai ter que casar e precisa dar logo "cabo do serviço"? Pensamento machista, eu diria.
- Não, querida, longe disso, quero apenas saber o que ele planeja, o que fará e como, pra saber se realmente estava certo por ter me deixado levar pelo álcool naquela noite e ter aceitado o acordo com os Opare.
- Finalmente admitiu-se bêbado.
- Bem, você concordou com o mesmo bafo de vinho...

O rosto de Katharina Shüber corou e antes que pudesse dar qualquer declaração, ou bronca, Ludwig beijou sua boca apaixonado e ambos se entrelaçaram em um apaixonado abraço, interrompido subitamente quando o cotovelo direito, já empolgado, de Katharina esbarrou de leve na buzina, disparando seu som agudo e incômodo, dando um susto em ambos. O barulho apenas os fez rir da situação, e não deu fim a celebração que ocorreria durante pelo menos uma hora, tempo mais que suficiente para que depois pudessem ir buscar o filho no mosteiro e surpreendê-lo antes das fofocas...

Erik foi surpreendido duplamente naquele dia. Primeiro pela surpresa que seu pai lhe proporcionara, e em segundo lugar por Mandisa. Ele gostou muito mais da surpresa de Mandisa do que da do pai. Mandisa havia preparado para Erik, com uma pequena ajuda da mãe um doce típico alemão que Erik adorava, strudel de maçã. O rapaz ficou maravilhado com o sabor do doce, e elogiou Mandisa de todas as formas que podia. A menina sentia-se cada vez mais feliz na presença de Erik, e a recíproca era fato. Apesar de ainda serem apenas amigos, os olhos das duas crianças brilhavam cada vez mais a cada encontro. Seus pais não interferiam negativamente, por sinal, devido ao pacto firmado em segredo se engajavam em estimular os encontros de ambos.
- Espero que tenha gostado do doce. - Disse Mandisa, enquanto limpava a boca de Erik com um guardanapo que trouxera de casa.
- Gostar? Adorei, foi sua mãe quem fez? - Perguntou Erik, inocentemente.
- Não, eu mesma quem fiz, minha mãe ajudou, mas ela apenas deu as instruções.
- Ficou muito gostoso, muito.

Erik fartou-se do doce feito com carinho por Mandisa. Os olhos do casal brilhavam, apesar de nenhum deles ter ido além de um simples aperto de mãos. Eram inocentes demais para perceberem o carinho que nutriam um pelo outro, mas todos os mais velhos já haviam percebido, tanto os amigos de Erik quanto os de Mandisa haviam comentado algo a respeito, apesar de ambos negarem qualquer coisa além de amizade. E dessa forma quase colorida os dias passaram para ambos.


As estações do ano passaram rápido, assim como os meses e o ano. O ano de 1926, farto de dinheiro, passara e com ele a pequena cidade viu finalmente vislumbrar um cenário mais do que perfeito. Finalmente o estado maior havia notado que essa região possuía um potencial maior que o de ser esquecido e investimentos foram feitos. Não por filantropia, mas o governo precisava justificar de algum modo os impostos que passaria a cobrar dos moradores, caso contrário teria que amargar mais revoltas populares e aquele momento não era propício a mais problemas, já bastavam as estripulias organizadas pelos Nacionais Socialistas sob o comando de Hitler.

No início do ano de 1927 uma residência abandonada foi tomada pelo governo e transformada na escola da região. Era pouco, mas para muitos era melhor do que estudar no Mosteiro. Por desejo tanto do pai quanto próprio, Erik fez os exames admissionais para se nivelar ao ensino tradicional e descobriu que seu nível era apenas dois anos atrasado se comparado aos alunos de Munique. O pai sentiu-se satisfeito, pois queria que seu filho fosse mais que um mero fazendeiro, queria que Erik fosse administrador, para dar prosseguimento aos negócios da família sem ter que colocar as mãos na terra, apenas no dinheiro.

Erik se matriculou na escola e iniciou seus estudos. O regime era rígido, um reflexo do posicionamento que o povo alemão queria para seus filhos, e da vergonha que sentiam dia a dia pelas sanções impostas tanto pelos ingleses quanto por povos vizinhos. Essa sensação diária de vergonha era nítida e até mesmo a vila isolada onde Erik morava começava a dar sinais de que esse sentimento estava se alastrando. A escola apenas intensificou isso.

Sim, intensificou, pois entre um dos professores estava um simpatizante das causas dos nacionais socialistas, que acreditava com veemência que a salvação do país estava na forticação de suas bases, de sua estrutura e no pensamento da nação como unidade e não como povo. Ele não sentia-se infeliz de ter que morar e ministrar aulas em lugares tão distantes, via nisso uma oportunidade. Seu nome era Gunther Burnkhorst e dava aulas tanto de física quanto de matemática, mas na verdade o que ensinava realmente era política. Obviamente em menos de um ano a cabeça de todos os meninos daquela vila mudou sensivelmente, pois a influência de um professor é muito maior que a de pais, principalmente se o professor souber lidar com essa possibilidade, o que era o caso de Prof. Burnkhorst.

- ...E como funciona a lei da Gravidade? É como o que fizeram a nosso país. Tudo que sobe cai, um dia nossos governantes atuais hão de cair, pois enquanto rifam nosso orgulham e imbutem em nossas mentes o medo de lutar, na verdade estão colocando em prática uma outra lei física, a da Reação. Toda ação resulta em uma reação do mesmo nível, mas em sentido contrário. Do mesmo jeito que tolhem nossa vontade política, nosso orgulho, e nossas terras através da vergonha da derrota da guerra, nos inflam com o desejo de superar tudo isso e o único jeito disso é através da unidade, e não da união. Uniões são frágeis, pois o unido se torna desunido em segundos, mas a unidade não. É diferente ser unido e ser unidade.
- E o que tem a ver com física, professor? - Pergunta um aluno.
- Com tudo. Se fôssemos uma nação pela unidade, não estaríamos aqui perdendo tempo discutindo o sexo dos anjos, mas colocando em prática o que se aprende. De que adianta eu ensinar a vocês o teorema de pitágoras se o único teorema que vão acabar colocando em prática é do da aplicação de remédios nas plantações? É isso que querem ser realmente? Apenas reflexo de seus pais? Ou querem superá-los? Infelzimente para isso acontecer somente uma mudança em todo o sistema pode proporcionar... Se tudo continuar igual, posso garantir que estou diante de uma geração de fracotes e fracassados, que servem apenas para enriquecer ingleses, franceses e a corja que nos humilha todos os dias. É isso que querem ser? Escarro humano?

Tais palavras, ditas todos os dias sempre de um jeito diferente mas com objetivo igual, desencadearam uma pequena crise. Esta se resolveu com a demissão sumária do professor no ano seguinte e em uma série de surras dos pais em filhos revoltosos, que não queriam mais trabalhar nas lavouras porque consideravam um emprego digno do "escarro humano", não algo com o qual obtinham dinheiro para se sustentarem. Entretanto, era tarde demais e os castigos e as surras apenas estimularam ainda mais as idéias que se tornaram latentes. A demissão do professor deu o estímulo final aos alunos, fazendo-os compreender porque o professor costumava dizer que a verdadeira luta é travada em silêncio, e desde então passaram a se reunir em segredo, bem distantes de tudo, principalmente pais...

Continua.

5 comentários:

  1. Droga, vou ter que procurar outro lugar para morar, depois dessa, o dilúvio que vai cair... Só me salvo se for morar no Everest.

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  2. Parabéns, o texto está muito legal!!
    A 2ª Guerra é inspiração pra histórias muito bonitas!!

    *Uma dica: já leu "a menina que roubava livros"? É a história de uma criança, se passa durante a 2ª Guerra,o autor é Markus Zuzak.

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  3. A última frase diz tudo: "a luta é travada em silêncio". Aquele que fala demais, diz bobagens e nada faz...

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  4. Eu não acompanhei essa série.

    Mas me interesso no assunto, World War II é interessante.

    Vou ver se leio desde o início. ;D

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  5. Uma idéia é mais perigosa que mil espadas...

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