Contos - Qualquer Coisa.

Conto de terror obviamente influenciado pelo estilo do Arthurius, do Contos Ancestrais. =p

Lembrando que recebi mais um Meme dele, e que devo postar amanhã, com as vítimas dele inclusas. =p

Se gostarem, com o tempo posto mais contos.


Vergueiro era um senhor no auge de seus sessenta anos.

Militar reformado pela Agulhas Negras era o tipo de velho mal encarado que a vizinhança de onde morava não gostava de ver enfezado. Diziam boatos contados por moradores mais antigos da vila onde residia que um dia um entregador de pizza deu o troco errado e teve que ir para o trabalho a pé porque o velho, na época com quarenta anos, deu um tiro na bicicleta do garoto enquanto ele ia embora. Como na época era o auge da ditadura militar, ninguém se preocupou sequer em averiguar algo. O rapaz nunca mais apareceu, nem no trabalho, nem em casa. Mas aparentemente era apenas boato.

Agora, aos sessenta anos o maior mal que ele podia causar eram as bolas de futebol que caíam no terreno de sua casa na Vila dos Mondegos, uma pequena vila localizada em Vargem Grande onde ele sempre morou, desde muito antes da exploração imobiliária e as favelas chegarem ali. Toda bola de futebol que caía era executada por tiros de 38 dados pelo velho homem, que depois entregava as bolas de volta as crianças com um sorriso sádico, sempre dizendo "qual das suas bolas acerto agora?".

Obviamente não era bem quisto pela vizinhança, mas ele não se importava, sabia que precisavam dele e de sua autoridade, pois não fosse sua truculência e sua antipatia, a vizinhança ao redor da vila dos Mondegos teria virado uma imensa favela. Algumas broncas e muitos tiros depois os poucos que tentaram a sorte desistiram, e a única aglomeração próxima ficava a meia hora de ônibus da vila. Mas isso não impediu que a criminalidade viesse até a vila em busca de desafios.

Primeiro assaltaram uma casa da vila, depois outra, e no final já tinham assaltado dez das trinta casas da vila. O Cel. Vergueiro, como gostava que o chamassem, sabia que sua hora chegaria e queria recebê-los apropriadamente e de modo exemplar, para que nunca mais nenhum tentasse a sorte, ou melhor dizer, o azar. No entanto, mesmo com todo o risco da vila ser taxada de "paraíso do furto", nenhum morador teve coragem de ajudar o Cel. Vergueiro na empreitada, tinham medo de serem alvejados caso falhassem.

Uma noite de 2003 o Cel. Vergueiro estava limpando sua coleção de armas quando escutou um som em sua casa. Imediatamente tratou de escolher sua espingarda de cano 12 serrado, carregada para a ocasião, e foi ao encontro de seu destino. Sua casa era completamente coberta por câmeras e os mais sofisticados aparatos de segurança da época, presente de amigos que mantinha na política (ele era antipático APENAS com os vizinhos, podia ser truculento, mas burrice é outra coisa bem diferente). Acompanhou pela câmera quando dois jovens de dezoito anos quebraram o vidro da janela da sala e entraram pela sua casa, escura naquela hora. Ele caminhou lentamente pelo corredor para surpreendê-los enquanto iam direto no chamariz que plantara contra esses idiotas, um enorme troféu dourado coberto por uma redoma que ficava na mesa dessa sala.

Como todo militar que se preza, deu o primeiro tiro de advertência, que reslavou próximo dos dois e destruiu parte do sofá da sala. Os dois tomaram um grande susto e correram. A fama do velhote maluco era verdadeira. Quando o Cel. Vergueiro ia matar os miseráveis, ele sentiu uma pontada no peito e caiu no chão com muita dor. Graças ao tiro de advertência os vizinhos chamaram a polícia que providenciou socorro para ele e no início daquela manhã estava no hospital Copa D'Or recebendo o melhor tratamento que um militar de sua patente poderia receber. Enquanto definhava na cama, certo de sua sobrevivência mas preocupado com sua casa deserta (ele era viúvo nessa época e seus filhos moravam em Brasília, todos deputados). Vociferava palavrões e maldições a sua situação, enquanto pensava consigo que daria qualquer coisa para manter qualquer estúpido longe de sua casa.

No dia seguinte, para seu espanto, recebeu a visita de um jovem assessor de um de seus filhos. Era um rapaz no auge dos vinte anos, muito simpático de cabelos loiros encaracolados e de olhos tão azuis que pareciam brilhar. O jovem viera receber notícias do estado do pai de seu chefe para repassá-las ao filho que não podia sair de brasília naquele dia, pois era terça.
- Sabe o que eu quero? - Lamentou Cel. Vergueiro.
- Não. - Respondeu o jovem.
- Que esses vagabundos ficassem longe da minha casa! Longe! Daria qualquer coisa por isso!
- Qualquer coisa? Eu posso ajudá-lo, mas você quer mesmo isso? Conheço um jeito de fazer sua casa ficar intrasnponível, mas você precisa confiar em mim.
- Faço qualquer coisa, me diz o que tenho que fazer.

O jovem abriu sua pasta e tirou de dentro dela um envelope. "Anos atrás fiz o mesmo por seu filho... Olha como ele é feliz agora?", explicou o assessor. De dentro do envelope retirou um papel em branco, mas de bordas douradas, e uma caneta de ouro maciço com escritos em alguma coisa que Cel. Vergueiro não reconhecia e sequer se importava.
- Basta assinar em qualquer ponto do papel e terá o que deseja, uma casa intransponível enquanto estiver vivo!

Cel. Vergueiro assinou o papel e sentiu uma estranha tontura. O jovem assessor imediatamente tratou de chamar a enfermeira que veio ao socorro do velho militar. Não passou de um susto, e uma semana depois Cel. Vergueiro estava em um táxi retornando para casa. Estava preocupado se algo tivesse acontecido às suas coisas, sete dias é muita coisa em um lugar onde ninguém gosta dele e vice-versa. Assim que saiu do carro, pegou a chave de casa e tentou abrir a porta. A chave entrou pela maçaneta, girou e nada. A porta não abriu. Tentou mais uma vez, e foi inútil. Parecia que o miolo da chave estava quebrado.

Tratou de procurar um chaveiro, que tentou por horas abrir a porta, mas nada conseguia fazer funcionar o mecanismo. Juntos, o chaveiro e o velho, tentaram em vão derrubar a porta. Parecia mais uma parede de concreto que uma porta de madeira. Ao final de cinco tentativas, quando o ombro já latejava, ambos desistiram. O chaveiro disse que voltaria no dia seguinte, e aconselhou que o velho dormisse em um hotel. Cel. Vergueiro não era o tipo de homem que escutava conselhos, e depois que o rapaz foi embora pegou uma pedra e tentou quebrar a janela.

A pedra bateu violentamente no vidro, que rachou mas não quebrou. Jogou outra pedra, e o vidro estilhaçou mais ainda, mas não caía dele um caco de vidro sequer. Completamente impaciente, juntou forças do ódio, pegou uma lata de lixo cheia de um vizinho e tacou-a contra a mesma janela. A lata se espatifou e estourou que nem um balão cobrindo tudo ao redor de lixo, inclusive o velho veterano, mas o vidro continuava do mesmo jeito. Completamente destroçado e ao mesmo tempo imóvel.

Tentou diversas vezes até se cansar, gritando e xingando muito enquanto fazia, até ue finalmente desistiu. Sentou na soleira da porta quando escutou um som de passos esmigalhando o lixo e os destroços de tudo que arremessara contra sua casa inutilmente. "São duas da manhã, não tem ninguém acordado.", pensou preocupado enquanto via dois vultos se aproximando, vindos da entrada da vila. Eram os dois rapazes da semana anterior, os vermes que ousaram invadir sua casa. Cel. Vergueiro levantou-se e puxou sua arma, mas não tinha nenhuma com ele. Estavam todas dentro da casa. No entanto, os dois jovens estavam armados um com um pé-de-cabra e o outro com um revólver. Eles perceberam que o velho estava desarmado.
- E então, velho filho-da-puta, onde está a coragem? - Disse um deles.
- Seu bando de escroques, pensam que podem comigo... Pensam...

Cel. Vergueiro sequer conseguiu terminar de falar e levou a primeira pancada com o pé-de-cabra, na cabeça. Tombou no chão cheio de dor, mas antes que pudesse gritar por socorro tomou outra pancada, na cara. O impacto foi tão violento que seus olhos saltaram das órbitas, mas sem que o velho pudesse perder a consciência. O outro bandido pegou o pé-de-cabra e deu diversas pancadas no velho até que se sua cabeça apenas restasse uma pasta de carne, cérebro e ossos. No instante em que o corpo do Cel. Vergueiro parou de debater-se, o som de portas se destrancando foi escutado. A porta da casa do velho militar se abriu por mágica, como se nunca tivesse estado trancada.

Os dois bandidos apenas sorriram, arrastaram o corpo para dentro e fizeram toda a limpeza que quiseram. No dia seguinte ninguém sabia o que acontecera, vizinhos estavam transtornados com a violência e parcialmente aliviados, pois o velho por mais trágica que tivesse sido sua morte os deixou finalmente em paz. Dentro da casa apenas restaram móveis que não puderam ser carregados.


- "Por quê! Por quê! Porquê!" - Berrava um espírito pertubado, no interior da casa, o de Cel. Vergueiro.
- Porque cada um colhe o planta. - Disse uma voz, vinda do chão.

O chão abriu e de dentro dele saiu lava e enxofre. Vergueiro tentou inutilmente proteger o nariz, mas o cheiro penetrava por seus poros. O calor era insuportável e o demônio carregava consigo um envelope, além de demonstrar um sorriso grotesco e satisfeito. Vergueiro imediatamente reconheceu o envelope como sendo aquele que assinara dias antes.
- Eu conheço isso... O assessor de meu filho me...
- Refere a mim?

A face e o corpo do demônio mudaram. Seu corpo e rosto assumiram proporções humanas e aos poucos ele foi ficando belo. Cabelos encaracolados nasciam na cabeça sem cabelos, os chifres diminuíram até sumir por completo e em questão de segundos Vergueiro estava novamente diante do assessor de seu filho.
- Nunca ouviu dizer que não se assina papel em branco? - Falou o assessor, enquanto tirava de dentro do envelope o papel, agora completamente preenchido e na forma de um contrato, pelo que Vergueiro conseguia enxergar.
- Você me enganou! Você disse que minha casa seria intransponível! Você me enganou desgraçado!
- Calma, eu não te enganei, lembra do que eu disse? "uma casa intransponível enquanto estiver vivo", foi o que fiz... EXATAMENTE o que me pediu. Sem contar que assinou um papel em branco, preenchi com minhas regras... Patético.
- Mas... Mas...

Vergueiro perdeu o ânimo e se calou. O demônio retirou de seu bolso um tridente e o enfiou no pescoço da velha alm, e o ergueu. Como se fosse uma troucha de carne, apoiou o tridente no ombro e novamente o buraco se abriu. Vergueiro gritou quando as primeiras gotas de lava tocaram seus pés que bambeavam no ar. Doía mais até que o tridente encravado no pescoço. O demônio balançou o tridente, para aumentar o sofrimento, e disse uma última palavra antes de saltar para as profundezas.
- Não se preocupe, vai piorar.

E saltou.

12 comentários:

  1. Mto bom o blog.... Texto longo mas mto bem escrito

    Bjos

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  2. boa história!
    tomara q quem manda em alguma coisa em Brasilia leia isso!

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  3. Oiiii
    adorei a postagem, apesar de não gostar muito de filme de terror...
    rs
    bjoo..parabéns!

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  4. wow... é o unico que eu tenho a dizer... q bom q eu n moro em brasilia... huahuahuau... blog original o seu.

    www.wanna-a-drink.zip.net

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  5. Ain. Que horrores!
    Fiquei mal. Mas tb! Quem mandou ele assinar um documento pro diabo?????????

    Ai, ai, ai.
    História duzinferno!

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  6. Ótima história, cara!! Muito bem escrita e, o que tenho admirado muito nos blogs, tem fundo social.

    Ressalto essa característica porque eu não consigo escrever sobre miséria, política. Parabéns, admiro pessoas que como você falam do assunto sem deixar o texto insuportavelmente político, entende??

    Beijo.

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  7. Gostei da historia
    ;D
    Eu gosto de terror

    beeeijo

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  8. mto bom o blog..
    vc que é o altor de tudo??

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  9. Bah! Apesar de longo seus textos, cê escreve bem velho!

    Boa estorinha ^^'
    http://poenaconta.blogspot.com/

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  10. Muito bom este conto,queria saber trabalhar as ações em meus contos tão bem quanto você.

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