Contos - SdD - Tremor... pt. VIII

Agora uma grande reviravolta aconteceu. A luta contra Tempestri acabara, e tudo parecia ganho quando os restos mortais de seu companheiro recém falecido novamente ganham vida. Mas há algo errado com ele... Algo terrivelmente errado.

Partes anteriores em: Triste Fim Para Um Final Feliz.


Tremor.

Parte VIII

Sayuki, Kaira, Kharma e Yoshimitsu ainda estão complemente chocados com o que acontece. Diante deles está seu grande amigo Akkira, completamente controlado por Tempestri. A seu lado está Jamal, que parece completamente recuperado de sua luta contra o próprio Akkira, que foi a origem de todo esse problema. Na cabeça de cada um deles há o dilema de se confrontarem justamente com quem vieram salvar. Akkira apesar de estar em posição de combate parece hesitar. De repente, uma cabeça entra voando e se encaixa no ombro de Jamal, é a cabeça de Tempestri. Todos se assombram e se enojam com a cena.
- Ande, idiota... Parece de regurgitar pensamentos e mate-os de uma vez... - Ordena Tempestri, controlando os braços de Jamal como se agora fosse o dono do corpo.
- Perdoem-me, amigos... Mas não consigo resistir. - Lamenta novamente Akkira, enquanto uma aura azulada começa sair de seu corpo.

A Legião não tem tempo de pensar em algo para dizer e Akkira se transforma em areia e some. Todos procuram por Akkira, mas nada encontram. De repente Yoshimitsu vê um braço de areia se formando atrás de Sayuki, e avisa o amigo. Sayuki desvia no exato momento em que o braço de areia iria segurar sua perna, e contra-ataca. O braço se desfaz e desaparece.
- Como vamos enfrentar o Akkira? - Pergunta Sayuki a todos, usando de telepatia.
- Não sei, eu não quero enfrentá-lo, mas... Não sei... - Responde Kaira.
- Ele conhece todos nós... Todos nós. - Completa Yoshimitsu. - Mesmo que optemos por confrontá-lo, ele é um oponente perigoso só por saber o que podemos fazer.
- Não, ele não conhece todos nós. - Interrompe Kharma. - Eu posso derrotá-lo, ou ao menos ganhar tempo enquanto vocês três fogem. Eu não sou tão vinculada a ele quanto vocês que convivem com ele praticamente desde a adolescência, posso enfrentá-lo sem tantos dilemas. E olhem para vocês mesmos, estão uns trapos. Mesmo se tentarem enfrentar Akkira agora vão servir apenas como sacos de pancada...
- Concordo. - Diz Kaira. - Eu não conseguiria lutar bem contra Akkira...
- Nem eu. - Afirma Yoshimitsu.
- Eu discordo. - Fala Sayuki. - Não vou arriscar você porque o Akkira mudou de lado, eu enfrento ele sem problemas se for para proteger você.
- Tem certeza? - Pergunta Kharma.

Sayuki não tem tempo de completar a frase. Sem perceber o chão abaixo dele se enche de areia e de repente abre como uma concha e o engole. Kaira, Yoshimitsu e Kharma pensam em fazer algo mas desistem, porque podem ferir o amigo tentando salvá-lo. "Você pensa que vai me derrotar assim? Você é mesmo o Akkira?", berra Sayuki, enquanto o interior da barreira onde está se enche de areia. Yoshimitsu finalmente reconhece o tipo de magia que Akkira está usando e desespera-se. "É uma das técnicas proibidas dos Senhores do Tempo... A areia do tempo.", avisa aos demais antes de correr e mergulhar na areia.

Segundos preciosos se passam, sem que nem Kaira nem Kharma possam fazer algo. Naquele momento seus poderes são completamente inúteis por suas características destrutivas. No final desses segundos uma mão sai de dentro da areia, é a mão de Yoshimitsu. As duas correm em seu auxílio e o puxam. Yoshimitsu sai carregando consigo um Sayuki com a aparência de um velho de noventa anos. Quando ambos estão fora, a areia se reagrupa e forma novamente Akkira, que salta erguendo sua enorme espada e faz um traçado de cima para baixo, apontando para a cabeça de Yoshimitsu.

O mago consegue desviar do corte da espada, mas não do que acontece depois. A lâmina da espada poucos centímetros antes de tocar o chão brilha e ao tocá-lo uma explosão de enormes proporções acontece, atingindo a todos do grupo e afastando-os uns dos outros. Akkira continua sem dar aos demais tempo de pensar e desaparece no ar, aparecendo atrás de Kaira, que sem perceber o ataque surpresa é golpeada violentamente pela espada de Akkira e gira no ar, caindo a poucos metros de Jamal. Tempestri tenta ordenar ao corpo de Jamal que esmague a mulher, mas a força de vontade de Jamal o supera e acaba desistindo.
- Não adianta... Você pode ser nosso dono, mas não pode mudar nossa essência. A atacaria em uma luta, não dessa maneira covarde. Sou melhor do que você, e você sabe disso... - Ameaça Jamal, olhando com ódio para Tempestri.
- Se eu quisesse eu te faria atacá-la... - Provoca Tempestri.
- E porque não conseguiu? Não nos tome por idiotas, Tempestri... Eu sei que você precisa de soldados eficientes e não completos idiotas, por isso manteve nosso caráter, apenas tirou nossa capacidade de dizer um "não" e partir sua cara ao meio... Nada mais que isso. - Fala Jamal, notando que suas palavras ferem o orgulho de Tempestri. - Deixe-me prestar atenção na luta, apesar de não gostar desse tipo de combate, prefiro assisti-lo a lembrar que estou com um parasita no meu ombro.

Jamal volta a prestar atenção ao combate feroz que acontece no saguão. Nesse momento Sayuki já está recuperado e confronta-se violentamente em um combate homem a homem de espada com Akkira. A cada choque entre as lâminas o ar se desloca violentamente, empurrando pedras e, se ali tivesse alguma, até pessoas comuns seriam arrastadas. Os olhos de Sayuki imprimem ódio, os de Akkira tristeza e inconformismo. As duas espadas se chocam cada vez mais rápido. Sayuki está começando a utilizar sua velocidade absurda para ganhar vantagem.
- Eu sei que você recebeu treinamento em espada superior ao meu... Vou te vencer naquilo que sou melhor que você: na velocidade. - Diz Sayuki, enquanto dá outro golpe violento de espada, cada vez mais rápido.
- Tente a sorte... - Fala Akkira.

Subitamente Sayuki desaparece. A seguir um corte aparece na armadura de Akkira, mais um corte. Akkira parece não estar sentindo os ataques, e desaparece. Estrondos são escutados e Jamal e Kaira são os únicos no saguão que conseguem acompanhar o que está acontecendo. E pela cara de desagrado que Kaira faz, tanto Kharma quanto Yoshimitsu têm a certeza que Sayuki não está levando a melhor. Um minuto depois Sayuki reaparece, caindo no chão com o corpo repleto de cortes. Akkira aparece a seguir, com uma gema luminosa brilhando na sua manopla esquerda.

"Isso não vale...", balbucia Sayuki, cuspindo sangue. "Vale sim...", responde Akkira, criando uma lança com sua mão direita e atravessa a arma na barriga de Sayuki, o prendendo no chão. Kaira está estática, pois sabe de onde Akkira conseguiu tanta velocidade, e um pequeno sentimento de culpa começa a aflorar. Kharma reconhece a gema na manopla de Akkira e estranha. Imediatamente vai até Kaira para saber como Akkira a conseguiu.
- Ele sempre a teve. - Responde Kaira.
- Como assim? - Insiste Kharma, sem se lembrar do Akkira ter comentado a respeito...
- Quando enfrentamos as tropas de Gigantus pela primeira vez, eu me afastei de tudo e todos porque estava cansada de tantos combates... Akkira então me perguntou se tinha como eu ajudar mesmo que indiretamente, e fiz aquela gema mágica com meu dom de velocidade e entreguei-lhe... Pensei que tivesse desaparecido durante o recomeço, mas agora vejo que a guardou até agora.
- Porque não a destrói logo?
- Não posso... Depois de feita, ele teria que me entregar a gema por vontade própria, ao contrário é impossível de destruir. Eu a fiz assim para evitar que se eu fosse pega por Gigantus, acabasse prejudicando ainda mais o que estava ruim.
- Droga...

Enquanto conversam Akkira invoca mais lanças e prende Sayuki completamente no chão. Inútil, pois no segundo seguinte Sayuki se transforma em trovão e se solta, voando em direção do amigo sem nenhuma dó.Os dois se embolam e rolam pelo chão, espadas são abandonadas e uma troca de socos começa. É uma luta de homem contra homem, e naquele momento Akkira parece estar levando a pior.

Sayuki bate tão rápido que é impossível acompanhar o movimento de suas mãos. A cabeça de Akkira bate de encontro ao chão na mesma velocidade e um pequeno terremoto começa por causa dessas pancadas. Akkira parece que vai tombar inconsciente quando suas mãos se transformam em puro chumbo e se choca violentamente contra os ouvidos de Sayuki, fazendo um violento ribombo. O deus do trovão se desequilibra e quase cai, quando Akkira coloca a mão no seu peito e decide dar fim a luta.
- Repudar! - Berra Akkira, para desespero dos demais.

O repudar é uma 5 maiores magias que os habitantes da lua de Drax, o mundo de origem de Akkira, possuem. Consiste em um violento tubo de energia azulada que desintegra praticamente tudo que toca, e dentro de desse túnel acontecem em paralelo sucessivas e violentas explosões. As dimensões do túnel variam entre um diâmetro total de alguns quilômetros, a até mesmo um pequeno e aparentemente inofensivo raio de apenas alguns centímetros, e dependendo de quem o use, quanto menor o diâmetro maior o dano. Akkira, dentro dos que possuem tal técnica, é superado apenas por dois outros seres quando a utiliza com carga máxima. E para azar de Sayuki, ele aparentemente usa a carga máxima fazendo um tubo que cobre exatamente todo o corpo do deus do trovão.

Quando o repudar desaparece, Sayuki está preso ao que resta do teto do saguão, inconsciente, mas ainda vivo. Akkira apenas usara o necessário para desmaiá-lo, não o suficiente para matá-lo. Kaira e Kharma permanecem imóveis, chocadas com a violência do final do combate, enquanto Yoshimitsu gesticula inutilmente alguma magia e reclama que não consegue mais fazer nada. Agora não há mais nada entre o desejo inicial de Kharma e sua realização.
- Peguem meu marido e fujam. - Fala Kharma. - O idiota não conseguiu, agora eu encaro Akkira...
- Tem certeza disso? - Pergunta Yoshimitsu, enquanto caminha até Sayuki.
- Nunca tive tanta certeza.

Kharma está preparada para enfrentar o amigo, e sabe que dentre todos ela é quem conseguiria lutar melhor contra ele. Não que fosse mais forte ou mais fraca, mas ela não nutria por Akkira o mesmo vínculo que os demais. Comparado com qualquer um, era quem menos tinha convivido com Akkira, e sem mais nenhum guerreiro da Legião em condições de combate, ela seria quem resolveria as coisas. Estava praticamente inteira, descansada e confiante. Akkira viu a movimentação e deixou que levassem Sayuki embora. Tempestri tentou ordená-lo que os matasse, mas Akkira não obedeceu, ao contrário, virou-se para Tempestri e começou a falar:
- Se os quer mortos, porque não vem aqui e faz o serviço... Ah, esqueci, você só pode vencê-los a dentadas. - Provoca Akkira.
- Estúpido! Eu sou seu dono! Mate-os! - Gritou Tempestri.
- Não... As ordens não foram essas.
- Agora são! Mate-os!
- Sim, senhor. - Concordou Akkira, sentindo sua força de vontade desaparecer e o desejo de obedecer a ordem tomar sua mente, junto com uma profunda revolta interna.

Akkira torna a olhar para onde estava Sayuki e não vê mais ninguém ali. Para seu alívio, a discussão com Tempestri deu tempo que todos fugissem, ou melhor, quase todos. Kharma havia ficado para trás. Ela estralava os punhos, e cuspia no chão. Sá faltava coçar determinadas partes do corpo e seria um guerreiro, mas Kharma ainda tinha a graciosidade feminina e ajeitou o cabelo. Akkira estalou o pescoço. Sentia-se aliviado por enfrentar alguém com quem não tinha grandes laços, e ao mesmo tempo preocupado, pois era ninguém menos que a esposa de seu maior amigo.
- Sabe que me dedicarei nessa luta mais do que contra Sayuki. - Fala Akkira, sacando novamente sua espada.
- Mentira, é mais fácil para mim enfrentá-lo do que o contrário... No fundo você sabe porque. - Responde Kharma. - Você muito mais a perder do que eu teria.
- Não... Nossa luta será de igual para igual, ao que me consta... Nada tenho a perder...
- E a amizade de Sayuki? Acha que ele vai continuar a respeitá-lo sabendo que me matou? Que matou a mãe do filho dele? Esqueceu do filho que espero?

As palavras de Kharma congelaram Akkira. Foi a chance que ela tinha para começar a atacá-lo. Kharma manipulava o elemento motriz de toda a magia: a alma. Todos os seus ataques ou defesas eram focados nesse elemento. Ela era capaz de manipular a aura de sua própria alma para criar armas capazes de ferir as pessoas em sua essência. Apesar de a curto prazo ser uma arma quase ineficaz contra criaturas normais ou objetos sem vida, em seres de origem mágica ou em Deuses causava graves danos, pois geralmente esses seres eram constituídos basicamente dessa energia. Também possui técnicas que a permitiam manipular a energia da alma de outros seres e até mesmo de ir até a essência de objetos sem vida, mas tal procedimento costumava causar a si mesma quase tanto dano quanto o que queria causar. Esse poder mesclava-se facilmente com a habilidade de combate de Kharma, que era especialista em combate desarmado.

Kharma vestia-se com roupas de batalha feitas em couro rígido mesclados com uma cota de malha que vestia por baixo do couro. Não era uma armadura eficaz como a de Akkira, que cobria grande parte do corpo, mas em compensação era extremamente flexível, o que lhe dava a possibilidade de desviar dos ataques com maior facilidade e destreza e também de atacar no seu estilo sem perder precisão.

A mulher havia engravidado de Sayuki havia alguns meses. Devido ao seu estado divino, a gravidez acontecia de um modo diferente do mortal. A gestação não causa alterações no estado físico ou emocional da mãe e não possui necessariamente um útero. Sendo deuses constituídos de energia, dentro do deus que opta por quem será o mantenedor dessa energia que gerará um deus, ou mesmo optar em colocar a nova criação em uma pequena gema e deixá-la incubar até o nascimento. O tempo de gestação varia entre segundos à eras, tudo dependendo da vontade dos envolvidos e do grau de desenvolvimento que os pais desejam a seu rebento. Depois de estabelecido o prazo, ele não muda de forma alguma. E no dia do nascimento a energia sai de onde está sendo mantido e surge.

O único risco, e o maior deles, sofrem Deuses que um dia foram mortais, esses deuses específicos podem em determinadas situações deixar sua forma de energia e voltarem a ser carne. Se isso acontecer, o filho surgirá no estado equivalente ao que se encontra na gestação, podendo tanto resultar em uma barriga de três meses tanto quanto de nove meses, tudo dependendo do quão desenvolvida estiver a criança. E nesses casos o jovem pode ser destruído como acontece com qualquer bebê. Por sinal, quando em estado de energia, a destruição dos Deuses pais pode não influenciar no seu desenvolvimento. Se estiver sendo gerado em uma gema, não afeta, sendo por isso esse tipo de "gravidez" o mais utilizado pelos Deuses.

Kharma atacou Akkira manifestando uma enorme espada que feriu-lhe gravemente. Akkira girou no ar e tombou no chão, sem sequer se defender. Parecia chocado com a possibilidade de perder seu último resquício de si mesmo, e não mataria uma criança. Antes disso ele precisava constatar algo, e para tal precisaria fazer algo que poderia ser extremamente perigoso, para Kharma.
- Você afirma estar grávida, não é? - Fala Akkira, se levantando e pegando sua espada no chão. - Precisamos confirmar.
- Vai fazer o que?- Provoca Kharma, esperando que Akkira tenha receio do que pensa em fazer. - Me bater até ter certeza? Sabe dos riscos?
- Vai sim! - Interrompe Tempestri. - Akkira, eu ordeno que descubra isso do jeito mais doloroso possível para essa mulher! Vá!

O semblante de Akkira muda completamente. São três ordens para cumprir e agora isso afeta sua mente. Ele precisa cumprir alguma delas para recuperar o controle de seus atos. A opções são para derrotar seus amigos, matá-los e agora para confirmar qual o tipo de gravidez de Kharma. Apesar de todos os preceitos morais que tais decisões resultem, a escolha atual é a melhor de todas. E ele vai cumpri-la nem que morra tentando, e ele torce intimamente por sua morte.

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.