[Contos] O Canalha.

O Canalha

Mais um dia de 2002...

Ele caminha por seu quarto tentando encontrar a droga do interruptor, mas todos os dias a única coisa que encontra é a tomada e o choque sempre leva do fio desemcapado do rádio relógio. Vestígios da última coisa que seu cachorro fez antes de bater as botas por causa do choque. "Quem mandou fuçar fios?", foi o que disse a sua até então esposa, que depois disso virou ex-esposa. Ela escolheu o cachorro. Melhor para ele, queria há muito tempo se livrar do tranbolho que o acompanhava.

Finalmente consegue achar o interruptor. Seu quarto fede a sexo e as duas putas que dividiam consigo o colchão velho no chão que chama de "cama" ainda roncam. Completamente nuas e despidas também da própria moral. "Ontem elas eram bonitas", lamenta enquanto amaldiçoa mais uma vez sua garrafa de Whisky por mais uma noite embrenhando-se na perdição.

Caminha trôpego até a cozinha, faminto e encontra sobre a mesa os restos de um sanduíche do bob's da noite anterior. Pensa em dar fim a sua fome com esse sanduíche, mas ao abrir a caixa do sanduíche percebe que as baratas e as formigas foram mais rápidas. Não desiste e abre a porta da geladeira. Um imenso deserto gelado. Existe em sua geladeira os itens indipensáveis ao homem trabalhador moderno: um engradado de cerveja barata, uma coca-cola de muitos anos, e uma embalagem de leite da tetrapak que parece estar ali desde que se mudou para aquele lugar. E isso significava dois anos morando nesse lugar.

Não arriscou comer nada em sua geladeira. Era mais seguro passar fome. Novamente esgueirou-se até seu quarto e viu que uma de suas meninas já havia acordado. É a pernanbucana de nome fictício Grampola, cujo pseudônimo era tão verdadeiro quanto sua identidade afirmando ter dezoito anos. Se tivesse quartorze era muito. Sua companheira, se é que se conheciam até a noite anterior, era da Baía, e ao menos não mentia muito sua idade, dizia ter desesseis anos.

Não que se importasse com idade, "pago bem, que mal tem", pensa enquanto saca de sua carteira uma nota de cem reais e entrega a Grampola. A menina retribui com um beijo e uma pequena apalpada. Finalmente ele nota que está nu. Novamente pronto, trnasa mais uma vez com Grampola. "Um brinde, pelo lugar para dormir.", diz a meretriz enquanto sua companheira pega seu dinheiro e parte sem se despedir. "Ela não curte pica", responde Grampola, parecendo ler seus pensamentos.

Terminado o coito, ambos se levantam e ele vai para o chuveiro. Grampola banha-se com ele. A presença da puta já o incomoda, ele gosta de estar só. Não entende a necessidade feminina de querer preencherem lacunas que muitos homens não querem preenchidas. Ele dá um beijo-despedida na criança e com uma educadação invejável coloca a moça porta-a-fora sem ouvir uma reclamação.

Agora está só em seu domínio. Ele, o espelho de seu banheiro diante de si e a única vez em todo o dia em que vê o canalha que é. Não que se importe, mas um pouco de verdade é o que faz sobreviver todos os dias em Brasília. No relógio já são nove horas da manhã.

Dormiu apenas duas horas, provavelmente, mas ainda é domingo. Veste-se do melhor jeito que pode e prapare-se para um novo dia. Sai de seu apartamento localizado em algum pardieiro do Nova Iguaçu, uma cidade afastada um pouco do Rio de Janeiro e pega seu carro, um Honda Civic preto com placa do governo federal. As pessoas que o vêm parado em sinais estranham ver um carro público num domingo, mas não pensam por muito tempo. Ele, por outro lado, delicia-se em ostentar o poder que adquiriu em cima desses mesmos tipos de pessoa.

Chega à capital ainda de manhã. Escuta o rádio, pois precisa de uma desculpa para seu atraso. Seu apartamento fica no início da Barra da Tijuca, próximo ao Pepe. Como tudo que tem, foi comprado com verbas do governo. Naquele condomínio ainda moram pelo menos mais vinte canalhas iguais a ele, que mamam nas mesmas tetas. O porteiro como sempre o recebe com cordialidade. Prometer um cargo público compra qualquer idiota, e nem precisa cumprir promessas. Finalmente em casa, abre a porta e finge estar cansado.

Sua esposa o recebe de braços abertos. Assim como ele, é uma pessoa da mesma estirpe. Ela odeia o marido, sabe que ele a trai, e retribui o carinho com o irmão dele. Não fazem cinco minutos que esse amante familiar saiu após uma noite de furor que envolveu todos os cômodos da casa, até mesmo o quarto da filha do casal, que dormiu a noite anterior nos avós. Ele odeia a filha, mas precisou ser pai para ser eleito. Ter um bebê em comícios emociona qualquer palanque.

Quando a criança tiver idade, a mandará para colégios da Europa e nunca mais a procurará até que tenha idade para fornicar com ela. "A menina é jeitosa", pensa sem dar importância ao peso de suas palavras, pois no fundo no fundo, não se importa com ninguém além dele mesmo. De repentes sua filha, uma menina de seis anos corre em sua direção e sua bela mulher vem até ele e o beija no rosto.
- Seja bem vindo querido. - Diz a mulher, ainda transpirando da noite de alegria. - Nossa filha está eufórica com sua vinda... Como foi o comício ontem a noite?
- Trabalhoso, muito trabalhoso...

Ele afasta-se das duas e volta para o banheiro. Olha-se novamente, não vê mais ele, mas apenas fogo. Fogo? Como assim fogo? Seu apartamento está em chamas, ele corre pelo corredor procurando pela esposa que até segundos antes estava com ele. Não a vê, nem a esposa e nem a filha. O fogo começa a alcançar seus pés. É uma dor terrível.

Corre para a porta e a abre com um pontapé. Nã há saída. Do outro lado da porta não há mais o corredor de seu prédio nem algo remotamente familiar, há apenas uma profunda e enorme cratera escura. O fogo ainda consome seus pés. Sente muita dor, e decide pular. Cai no vazio e berra por muito tempo enquanto sente a dor diminuir, mas as queimaduras não cessam. De repente pisca os olhos e vê-se batendo no espelho de seu banheiro.

Ele vê seu rosto sofrido, não gosta de encarar o monstro que é. Seu reflexo, por sinal, pela primeira vez reflete sua alma. Sua pele está cheia de pústulas que doem e escoutram liberando um pus fedorento. Seus olhos estão fundos, mas tão fundos que parece que foram arrancados, mas ele consegue ver o brilho fraco de suas órbitas quase oculto. Seus cabelos tratados deram lugar a fiapos que caem com uma facilidade absurda.

Repara que todo seu banheiro está espelhado. Para onde olhe apenas existe sua própria face horrenda. Ele não gosta disso, a verdade dói. Corre para o corredor e mais uma vez o fogo começa. Corre pelo apartamento em chamas queimando mais ainda sua pele e novamente arromba a porta. A mesma cratera. O fogo aumenta. Ele mais uma vez salta e mais uma vez depois de alguns segundos está no banheiro espelhado.

Em algum lugar do inferno, o demônio ri de sua desgraça e farta-se de alegria enquanto assiste o canalha correr desesperado tentando fugir de si mesmo e cada vez mais se deformando.

No mundo dos vivos, em seu apartamento, sua esposa liga para o serviço médico cinco minutos depois que comemora o fato com seu amante. O corpo de seu marido ainda está quente no chão após o súbito infarto que teve logo após abraçar a filha que chora no sofá. Finalmente está livre dele, e agora sabe que uma polpuda soma da pensão do governo a aguarda.

Assim deveriam terminar todos os canalhas... E esse canalha? Até hoje está tentando fugir de si mesmo... Que é a única coisa da qual nunca conseguimos escapar.


13 comentários:

  1. Muito Grande o Texto, tente não deixar um livro, por que cansa a leitura!

    Mas li alguns trechos, e esse cara dançou. Ele deveria saber que tudo que a gente faz, tanto ruim quanto bom, volta pra gente nas certas proporções!

    http://blogjini.blogspot.com/

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  2. A grande verdade, é que esse camarada teve o fim que muita gente boa em certa cidade do planalto central deveria ter.

    excelente.

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  3. (continuando do que o arthirus falou)...

    O que é complicado, já que o satanás é amigo de infancia deles.

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  4. Dragus, na boa, Noites na Taverna tá perdendo pra teu conto. A parte das pústulas me enojou profundamente. Seu texto conseguiu ser mais sensitivo que um filme.

    Como disse o Arthurius, esse é o fim que vários merecem. A loucura. E o esquecimento.

    ___________________________________
    TemPraQuemQuer <<< Entra!

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  5. Hum... não é do meu feitio forjar uma opinião falsa só pra pegar média ou não pagar de mal-educado. Sou leitor regular do blog, e sempre elogio os textos, mas esse, devo dizer, definitivamente, é um pouco confuso. Especialmente na parte em que ele está morrendo. Como autor, você pode não ter percebido, mas o leitor tem grandes chances de ficar perdido. Acho que poderia ser mais claro.

    No entanto, o conteúdo do conto é bem original, criativo. E concordo; acho que assim deveriam terminar os canalhas, e todas as criaturas deploráveis.

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  6. A confusão no momento da morte é proposital. Quero chocar tanto quanto o Canalha se choca quando não descobre estar morto.

    Queria passar uma sensação de confusão mesmo no trecho, algo pseudo-cíclico mas sem ficar dando muitas voltas. =)

    Só deixo claro que ele morreu quando volto a cena para sua esposa vendo seu corpo terminar de esfriar para só então chamar uma ambulância. =p

    Abraços, e obrigado pela observação. =)

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  7. É engraçado como muita gente desejaria que fosse verdade e que acontecesse com pelo menos 100% dos políticos brasileiros.

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  8. Final mais do que merecido... ;D
    É de sua autoria?

    http://emcolapso.blogspot.com

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  9. Ah, tá explicado então. E realmente o objetivo foi alcançado, pois no trecho o leitor se depara com uma sequência de fatos psicodélicos em um texto até então normal. É um susto mesmo.

    Uma sacada bem inteligente, afinal. Ainda bem que não levou a mal minha observação, que de forma alguma foi de menosprezo.

    PK Ninguém
    É engraçado também que apesar de todo o desprezo pelos políticos, ninguém faça nada para mudar isso. Só odeiam e ponto!

    Abraços

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  10. Que maldade me fazer ler um texto desse tamanha a essa hora da madrugada (02:34)! rsrsrs

    Porém, eu li.

    Achei mto interessante o tema abordado, a exploração sexual infantil, especialmente por envolver um homem do governo.

    Mas convenhamos, algumas dessas menininhas GOSTAM. rsrsrs

    Também gostei de algumas passagens humorísticas.

    Abraço! =}

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