[Contos] O Tempo Não Volta.

Aviso: Trata-se de um conto. Qualquer semelhança com fatos reais é mero acaso ou não... Mas antes de qualquer coisa, um conto apenas. =p


Sempre fui uma pessoa esforçada, e a foto acima do último carro que comprei é prova da recompensa material de meu esforço...

Nunca bebi, nunca fumei, mas isso não quer dizer que não tenha trepado ou arrumado uns problemas. Quando criança era o jovem padrão, exemplo em casa e peste na rua. Meu comportamento "exemplar" era oculto por boas notas na escola e pouca vida social, ao menos distante duas quadras de onde morava.

Com o passar dos anos acabei guardando dentro de mim esse pequeno monstro que mesmo vivo em meus pensamentos acabava se manifestando vez ou outra na minha vida profissional e educacional, e quando falo desses termos me refiro a faculdade. Eu fui o terror dos calouros e temido pelos cinco anos em que estive na Faculdade de Administração da UERJ, no Rio de Janeiro.

No entanto, exceto por esses detalhes, era o que chamam nas faculdades de "nerd-pop", o que é nerd por suas notas e ausências na chopada mas louco o suficiente para não ser levado ao extremo do termo e ignorado nas conversas dentro do ambiente universitário. E como toda pessoa normal, tinha amigos de fora, pois como disse acima, tinha sido uma criança modelo e como toda criança fiz amigos.

Um deles era o que chamava de "Magro". Lembram daquele seriado "Gordo e o Magro"? Não? Nem eu... Coloquei a foto ao lado para exemplificar. Eu, por outro lado, sempre fui fofinho, ou melhor dizer rolha de poço? Sempre estive acima do peso apesar de nunca ter passado por nenhum problema de saúde e mesmo depois de vários exames, todos eles inúteis a meu ver, que só comprovavam o que sempre soube: eu sou perfeitamente saudável.

Eu e o Magro éramos unha e carne, uma amizade que criamos e nutrimos desde a infância, quando tínhamos ainda seis anos, que se iniciou na igreja que meus pais freqüentavam, na Vila da Penha, um bairro daqui do Rio. Ficamos amigos mesmo, unha e carne e todo dia de missa nos encontrávamos para brincar enquanto nossos pais rezavam.

Não existia amizade mais forte que a nossa e nos julgávamos acima de tudo, mas sempre existe algo que nos coloca de volta na realidade, o tempo. Enquanto o tempo passava, nos distanciamos um do outro. A idade pesava e ir a igreja não era nosso objetivo. Ainda éramos amigos, demais, mas nosso vínculo agora estava além do local, e começamos a sair, e a freqüentar os mesmos lugares.

Veio a idade e com ela a faculdade. Conseguimos passar para a mesma instituição. Ele faria história. Mesmo com a pressão por resultados que os estudos geram, nossa amizade continuou forte até que o Magro começou a namorar, nos afastamos um pouco porque não me agradava sua parceira, mas continuamos amigos e nos encontrando.

Foi quando a mãe dele morreu. Como estava na faculdade, como disse acima, e em época de provas não pude acudí-lo quando mais precisou, depois disso a mulher que citei no parágrafo acima fez jus a minha desconfiança e o abandonou em meio a depressão da perda. O ajudei? Não. Eu estava em épocas de provas, mas mesmo assim pedi que viesse me visitar na faculdade para conversar. O tempo passou e as feridas dele cicatrizaram, e até me perdoou por estar ausente quando precisou.

Os anos passaram e continuamos mantendo contato. Ele saiu da faculdade durante uma enorme greve logo no primeiro ano do curso, eu continuei. Ele tentou achar o rumo dele, eu já tinha o meu pré-definido e uma concepção de que escolhas são únicas, sem direito a arrependimento. Dias vão e vem e no quarto ano de formados ele começa a organizar passeios na casa de um amigo em Angra dos Reis para o carnaval. Aceito o convite e pela primeira vez em minha vida durmo fora de casa. É quando ele arruma mais uma menina.

Por causa dessa menina, ele acabou se distanciando dos amigos, de mim. Ele apenas via essa garota, apenas saía levando-a consigo, não procurava mais as pessoas. Sempre que o via toda semana (pois antes do namoro apenas o via uma vez por mês), reclamava que ele estava se distanciando muito, que não o via tanto quando antes. Ele ria e ignorava, eu pelo contrário via Marina, sua namorada, com mais ódio. Até um dia em que eu e Marina brigamos feio na frente do Magro. Ele tentou fazer os ânimos se acalmarem.

Não deu.

Me afastei e segui minha vida. Procurava pelo Magro somente quando precisava ou quando nossos amigos em comum se encontravam. Com o tempo comecei a marcar encontros onde Marina não pudesse ir ou sem chamar ambos, de forma a evitar me aborrecer. Não percebia e não me importava com nada a não ser evitar essa pessoa que antes me fazia tão bem. E até me fazia, mas agora apenas em lembranças.

Estudei mais ainda e consegui me formar. Chamei-o para a formatura mas sequer trocamos palavras mais cumpridas do que as que a educação exige. Brincamos friamente, trocamos um abraço e só. Na comemoração que teve depois preferi dar atenção aos outros. Ele sofreu? Não sei. Na época nem me importei e hoje nem tenho como saber.

Um ano se passou e eu contava que ele não continuaria com Marina, mas errei feio. Enquanto eu passava para um grande conglomerado financeiro com sede nos EUA, onde fui residir depois que esse ano passou, o relacionamento dos dois se tornou ainda mais forte e eles noivaram. Não mandei nem congratulações, na verdade, soube pela boca de amigos em comum que ainda tínhamos. Senti raiva, mas já estava tão distante e com tantos problemas que nem me importei.

Voltei para o Brasil em 1999 e continuei trabalhando com esforço e devido a minha capacidade de chefia e ótimo trabalho em equipe fui promovido e resido em São Paulo desde então. Magro continuou vivendo sua vida com Marina até passarem ambos em um concurso público em 2001 e finalmente se casarem. Fui no casamento, mas apenas apertei a mão do Magro, fiquei pouco para a festa e voltei para meu lar. Tiveram filhos e não pude comparecer ao batizado.

Em 2007, perto do dia das crianças, recebi uma ligação do Magro. Ele estava com uma voz traqüila e conversamos. Me surpreendi com a súbita ligação. Conversamos por horas até que ele finalmente revelou o motivo da ligação: estava fazendo uma reunião com amigos, pois tinha algo importante a anunciar.

Não fui. Precisava trabalhar e dei prosseguimento a minha vida. Como minha família reside ainda no Rio de Janeiro, no final daquele mesmo ano, em Dezembro, tirei férias e fui passar um tempo com minha família. Na casa de meus pais, peguei o telefone e quem atendeu do outro lado foi Marina. Sua voz estava desanimada e sofrida, parecia até embargada por choro:
- O que aconteceu? Porque esse tom de voz? - Perguntei.
- Foi o Marcos... Ele não te falou? - Respondeu no telefone.
- O que? o que?
- Ele morreu, semana passada... Estava com câncer.

Em um segundo toda nossa amizade passou por minha mente. Despedi-me e desliguei o telefone chocado. A fagulha dentro de mim que ainda esperava um dia reunir nossas amizades ardia em meu peito, causando uma estranha dor que nunca havia sentido antes, mesmo quando perdi parentes. Ele havia partido sem que eu me despedisse. Sem um "adeus" ou mesmo um "até breve". Simples, seco e sem chance de reatar laços a tempo.

Eu dei prioridades demais ao meu orgulho, ao meu desejo de sucesso e a briga que tive com Marina. Em face disso esqueci da minha amizade com ele a ponto de só lembrar quando perdi-o por completo. Agora estava tudo perdido. Não tinha volta, não tinha conserto, sentia uma angústia profunda e não tinha como fazer nada. Sem chão fui para meu quarto na casa de meus pais e chorei.


...


No dia seguinte soube que Marcos havia morrido de um tipo raro de câncer. Desses que só são detectados quando é tarde demais. Sei também que lutou bravamente e que nos dias após o encontro (que não fui) lamentou muito minha ausência, entretanto a respeitava. Morreu afirmando que eu não era mais seu amigo, sofrendo por isso... E eu nunca pude negar essa afirmação. Não para quem merecia escutar e morrer sem esse lamento.

Ele morreu sem que pudesse se despedir do seu primeiro amigo.

E tudo isso por causa do meu orgulho.

Agora tenho um carro, um apartamento caro, um ótimo emprego, muito dinheiro, muitos amigos e mulheres desse dinheiro, mas não tenho o mais importante, o meu primeiro amigo.

Marcos, onde quer que esteja espero que me perdoe.


17 comentários:

  1. Mais uma vez, uma clara demonstração da criatividade que teima em aparecer por aqui (ainda bem!\0/). Comovente.

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  2. Nossa!!!!!!!!
    Seu conto foi um tapa no meu rosto...
    preciso ungente procurar um amigo que tenho negligenciado......
    mais um exelente texto amigo Drago.

    []s L.Sakssida

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  3. alguma relaçao com o passado? muito triste esse conto, como nos enganamos quando vemos carros bonitos, e por isso achei q seria uma historia feliz mas nao foi... triste..

    bjs otimo texto

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  4. Gostei muito do texto, bem escrito e comovente. Me fez pensar se dou o valor que as minhas amizades realmente merecem.

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  5. Caramba hoje é dia mesmo, ja não me basta a Taty fazer uma homenagem a minha pessoa, que ao ler, chorei um monte, venho aqui e leio isso, pronto, na hora lembrei do meu primeiro amigo, que por causa de um orgulho besta eu perdi contato com ele, me deu até um nó na garganta agora...
    Então, aproveito as lágrimas e o texto e faça do fim deste conto as minhas palavras:
    "Célio, onde quer que esteja espero que me perdoe."
    Abraços.

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  6. Quantos amigos deixamos pela estrada da vida... quantos pensam em nós com carinho e nem nos lembramos mais deles... Quantos amigos leais e sinceros deixamos que o tempo levasse e ficamos com os falsos amigos(aqueles oportunistas) Este conto mexe no baú de nossas lembranças sofridas... e nos aperta o peito...

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  7. Confesso que não consigo ler textos muito grandes, mas o seu foi tão forte que qdo dei por mim já estava no final.

    Infelizmente, antes de ser amigos, nós somos seres humanos cheios de defeitos, porem a prova maior de uma amizade, é qdo em nome dela se tolera esses defeitos.

    É realmente, a gente não pode deixar de curtir a vida ao lado das pessoas que nos fazem bem por causa de estudo e trabalho, pq com o tempo a gente percebe o q realmente vale, ou neste caso, o que valeu a pena.

    Parabéns, o melhor conto que já li aqui até hj.

    Abçs!!

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    http://emlinhas.blogspot.com/

    EM LINHAS...
    Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.

    Novo texto: Lia e As Mulheres de Hoje
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  8. Sempre bons contos por aqui. Apesar de não saber nem um pouco da sua história, Dragus, esse texto tem cara daqueles que se mistura auto-biografia com elementos fictícios.

    Uma característica de alguns contos por aqui é essa lição de vida, sempre no final. A tirar pelos comentários, muita gente cai em si e percebe, depois de uma leitura como essa, a mudança que é preciso ser feita em sua personalidade.

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  9. É de fazer parar para pensar...
    Já deixei vários amigos "passarem" por simplesmente "não ter tempo" de pegar o telefone ou mandar um e-mail...

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  10. Mto bom...
    só q meio triste...
    vc vai longe!

    um beijO.

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  11. Wol! Que lindo cara! De verdade! Tipo que todo mundo se arrepende de algumas coisas, a vida, infelizmente, é assim mesmo, como aconteceu com voce e seu amigo, agora já é tarde pra consertar. Mas o que voce pode fazer é tentar ficar em paz cntgo mesmo que no final dá tudo certo.

    Gostei do blog.

    Abs

    http://calcajeansehavaianas.blogspot.com/

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  12. Me lembrou a minissérie que está passando na 'Bobo' atualmente, cujo personagem principal reune os antigos amigos por estar doente.

    Uma passagem que me chamou a atenção foi a questão do afastamento devido a namoro, sempre achei curiosa essa temática, já a abordei num poema meu chamado "Turismo", qualquer dia posto no Poeses. Mas é de fato muito chata.

    Agora, caro Dragus, creio que seja um tanto natural essa coisa de amigos se afastarem com o tempo. É triste, mas acontece. Não que não tenhamos um pouco de culpa nisso, maas...

    =]

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  13. uauuuuuuu
    escreve muito bem!!!!
    Adoreiiiiiiiiiiiiiiiiii
    Sobre amizade , é complicado essas negligencia , são tantos valores que procuramos e esquecemos dos mais simples , que nos fazem bem , esse capitalismo , rs
    me identifiquei com o texto ,
    espero não perder um amigo pra ter que me arrepender

    Bjokas

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  14. Cara, gostei bastante do seu texto. Por falar nisso, ultimamente tenho me perguntado se realmente dou valor nas minhas amizades... Não sei, mas acho que vou passar a valorizá-las mais.

    Parabéns e tudo de bom!

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  15. Curto e grosso!

    O texto é demais!

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  16. Olha, nós temos muito em cmomum... esse lance de 'nerd-pop', as notas boas e baixa frequencia nos encontros de botecos.
    E temos em comum isso de deixar alguns amigos se afastarem.
    O seu conto me serviu de exemplo. é hora de ir atrás deles.

    Meus pêsames.

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  17. Po mano seu texto fico muito tocante, eu me lembro quando fiz meu 1º amigo de verdade, eramos cololados também, nos conhecemos na 5º serie nessa epoca eu não tinha o costume de fazer amizades pq era meio "gordinho tbm" e ficava com vergonha de me envolver com outras pessoas mas ele era gente boa e me fez sentir uma pessoa normal sem estar do lado da minha familia, Muito Bom seu texto... e sinto muito pelo seu amigo... que Deus o tenha!!!

    Me desculpe por mais cedo não tive culpa, um cabo de telefone foi arrancado por um caminhão e estou e acho que estou sem NET até agora.

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