[Conto] Além da Amizade

Por vezes nos encontramos pensando em como fomos capazes de realizar certas coisas, sejam elas simples gestos, ou atos de grande coragem, ou muita cara-de-pau mesmo. Eu por muitas vezes fiz coisas que não me julgava capaz, ou por coragem repentina ou por pura idiotice, afinal, sou humano, estou sujeito a isso.

Tinha um grupo de amigos que sempre andávamos juntos desde na adolescência, sempre nos metemos em grandes farras e grandes enrascadas, mas sempre saímos ilesos de tudo, por isso nos auto apelidamos de "Os Invencíveis", naquela época realmente éramos invencíveis. O Marcos era o intelecto da turma, o Lucas era nossa força bruta, Ramiro era o diplomata e eu o humor. Se havia algum grupo de amigos mais unidos do que nós realmente não sabíamos, mas isso pouco nos importava.

Cada um de nós, é claro, tinha sua namorada, que sempre andavam conosco para onde fôssemos, embora muitas vezes não concordassem com nossos atos. Com o tempo elas se tornaram nossas esposas e "Os Invencíveis" agora eram uma família ainda maior. Cada uma delas parecia ser justamente o oposto de cada um de nós, a esposa de Marcos não era tão inteligente quanto ele, mas era muito mais espirituosa, a de Lucas era frágil e doce parecendo até uma frágil boneca de porcelana perto do marido. A de Ramiro não era boa em se relacionar com outras pessoas, era até um pouco ácida, mas era uma pessoa uma pessoa gentil se gostasse de você. Já a minha era a mais séria e fechada de todas, sempre dizia que eu era um palhaço exagerado, acho que foi por isso que se casou comigo. Todas eram belas, atraentes e ótimas companhias.

Com o tempo os problemas e as responsabilidades aumentaram e "Os Invencíveis" não eram mais os mesmos, estávamos sendo vencidos pelo tempo e por picuinhas de família. Sempre que um de nós arrumava algum problema no trabalho, ou brigava com a esposa, ou qualquer dor de cabeça, lá ia um de nós procurar os conselhos do Ramiro, não havia ninguém melhor do que ele para ajudar alguém em dificuldades. Mas até ele tinha seus problemas e ele começou a ficar farto de sempre ajudar e nunca ser ajudado.

Marcos sempre tentava se aproximar de todos, mas sempre acontecia algo que o impedia de concretizar seus planos. Minhas piadas começaram a perder a graça, minha esposa que já não as suportava passou a odiá-las, até mesmo o pessoal pedia pra eu me calar quando tentava ensaiar alguma sátira a alguma coisa. Lucas e sua esposa pareciam os únicos felizes, tinha acabado de ter o pequeno Jonas, uma menino saudável e bem alegre. Lucas agora era personal trainner de muitas celebridades e sua esposa uma secretária executiva muito bem paga.

Quando não podíamos sair todos juntos, combinávamos com um ou outro, ou nossas esposas saiam elas mesmas para fazer algo, "coisas de mulher", dizia a minha quando perguntava o que foram fazer.

Certa vez cheguei em casa e me larguei no sofá, fora um dia muito cansativo no trabalho. Levantei-me peguei um copo de água, no momento em que o telefone tocou. Sem pressa alguma e sem nenhuma vontade de atender, tomei minha água e caminhei lentamente para o telefone, que tocava insistentemente.

- Jarbas? - Era a esposa de Lucas.
- Oi Bianca. - Respondi surpreso, ela ligava pouco.
- Como você está? - Perguntou suavemente, sua voz era tão bela quanto sua aparência.
- Um pouco cansado, acabei de chegar do trabalho, por que? - Respondi enquanto me largava no sofá.
- Nada, apenas estava querendo conversar com alguém, precisava aliviar a mente.
- Entendi, e como está o Lucas?
- Está bem, viajou ante-ontem para os Estados Unidos, está acompanhando aquele ator que faz o vilão da novela nova.
- Poxa! Que bom pra ele!
- Pois é, então, que tal marcarmos de você e a Cíntia virem jantar aqui em casa?
- Por mim tudo bem, quando?
- Hoje mesmo, depois das oito, tudo bem?
- Legal, vou falar com ela.

Minha esposa chegou alguns minutos depois e lhe disse sobre a viagem de Lucas e convite para jantar em sua casa feito pela esposa. Ela reclamou dizendo estar muito cansada, além do mais tinha muito trabalho que trouxe para terminar em casa, mas disse que eu poderia ir sem problema algum, para não fazer nenhuma desfeita, nem para desmarcar algo já confirmado. Além do mais, Bianca havia me dito que já tinha confirmado a presença de alguns outros, seria uma boa oportunidade para pormos a conversa em dia e rir um pouco um da cara do outro.

Assim que cheguei lá Marcos abriu a porta e me deu um forte abraço, tinha algum tempo que não nos víamos, lá dentro, na sala a esposa dele e Bianca conversavam as gargalhadas. Marcos estava com uma aparência péssima, mas parecia bem humorado. Comemos uma saborosa macarronada que Bianca havia feito, ela era perita em massas, tomamos um bom vinho e rimos bastante, naquela ocasião meu velho tino para piadas parecia ter voltado.

Enquanto Lucas estava fora, Bianca praticamente chamava o pessoal todos os dias, mas nunca conseguia reunir todos, eu e minha esposa mesmo, só fomos juntos umas quatro vezes, das outras ou não fomos ou algum de nós foi só. Certa vez Lucas ligou para saber como estavam as coisas e fizemos a maior farra no telefone, ele ficou super contente pelo que deu para perceber.

Na terceira semana desde que Lucas havia viajado, fomos todos informados por sua esposa que ele só retornaria em dois meses, isso mexeu um pouco conosco, mas principalmente com Bianca, que mesmo com o filho pequeno sentia falta do marido, por isso sempre arrumava um desculpa para reunir a todos. Certa vez minha esposa me disse que ela havia ligado nos convidando mais uma vez e que parecia um pouco triste, sentiu por não poder ir e pediu que ao menos eu fosse lá para vê-la e conversar com os outros, foi o que fiz. Assim que cheguei Bianca estava com um sorriso cordial no rosto, mas estava um pouco abatida, tinha acabado de por o filho para dormir e estava sozinha. Conversamos bastante enquanto ela preparava a comida, a hora passou e ninguém chegou, alguns ligaram justificando a ausência e pedindo desculpas, mas isso só a deixou mais para baixo, embora não demonstrasse.

- Se importa de jantar só nós dois? - Perguntou um pouco encabulada.
- De forma alguma! - respondi tentando ser o mais gentil possível.

Comemos na cozinha mesmo, de pé com os pratos na mão, tentei lembrar fatos engraçados e contar uma daquelas piadas antigas, mas que sempre arrancavam algum sorriso de quem ouvia. Deu certo no fim das contas, mas mesmo assim ela não estava no seu melhor dia.

- Quer falar alguma coisa? Você não está nada bem.

E realmente não estava, seu rosto juvenil e belo estava estranhamente marcado por alguma tristeza que não decifrava, embora suspeitava que fosse saudades de Lucas. Ela pediu licença e foi ao quarto, quando voltou minutos depois, estava vestindo uma linda camisola de seda, que evidenciava suas formas delicadas e perfeitas, o que só a tornava ainda mais sensual. Desviei esse pensamento, afinal ela era esposa de um dos meus melhores amigos e eu era casado, muito bem casado, mesmo com alguns problemas às vezes.

- É o Lucas. - Disse enquanto se sentava ao meu lado.
- Saudades...
- Não é bem isso. - Disse me interrompendo.
- O que há com ele? - Perguntei curioso e agora cheio de dúvida.
- Desde que ele virou personal trainner de gente famosa e importante, ele anda estranho comigo, já não é mais o mesmo.
- Ele pode estar cansado ou outra coisa, afinal de contas agora ele trabalha bem mais! - Disse tentando apaziguar as coisas.
- Ele não me procura mais, nem depois que nosso filho nasceu e saí do resguardo.
- Como disse, ele pode estar se sentindo cansado...
- Não é isso Jarbas, nosso filho já tem quatro meses, desde o meio da gravidez ele já não me procurava mais, as vezes até me tratava com indiferença! - Disse com grande rancor e vi as lágrimas brotando em seus olhos.

Sem saber o que fazer apoiei sua cabeça em meu ombro e afaguei-a suavemente, ela se aninhou em meu peito e chorou copiosamente, por muito tempo, sem saber o que fazer apenas a abracei e a manti perto de mim. Era uma sensação estranha e ao mesmo tempo boa, aquilo me fez sentir bem. Ela exalava um perfume suave e muito gostoso, seu cabelo também tinha um perfume suave e bem discreto, mas muito atrativo. Assim que ela parou enxuguei suas lágrimas e nossos olhares se cruzaram, por um momento que pareceu durar uma eternidade nos encaramos como nunca havia feito nem com minha esposa, não que nunca tenha feita tal ato, mas nunca daquela forma.

Não senti nada, nem culpa, remorso ou qualquer outra coisa semelhante. Posso ter agido por impulso ou pelo calor do momento, mas beijei Bianca apaixonadamente e fui bem retribuído até mais do que poderia sonhar. Sua boca tinha um sabor agradável, seus lábios eram macios e bastante sedutores, sua língua dança e se entrelaçava com a minha de forma que me deixava cada vez mais excitado.

Paramos de forma lenta como se não quiséssemos e na verdade, pelo menos eu não queria e senti o mesmo por parte dela. Seus olhos encontraram os meus mais uma vez, e aquele rosto quase infantil me cativou e a abracei forte mais uma vez.

- Lucas nunca me beijou assim. - Confessou ela.
- ... - Não soube como responder, muito menos como agira àquilo.
- Até a forma como você me abraça é diferente, é mais aconchegante e carinhoso. Lucas não, sempre foi bruto comigo, raras foram as vezes que ele demonstrou algum carinho comigo.
- Me desculpe se...
- Sem desculpas! - Disse ela após me calar com outro longo e apaixonado beijo. - Sei o quanto você e Lucas são amigos, também gosto muito da Cíntia, mas o que aconteceu hoje não é uma coisa de momento, nem motivada pela minha tristeza, se é o que pensa.
- Acho que não estou entendendo. - E realmente não estava.
- Você sempre foi quem mais me ajudou desde antes de eu me relacionar com Lucas, você que me aconselhou e me deu apoio, sempre foi quem me ajudou em tudo. Quando nos reuníamos você sempre perguntava como eu estava, se estivesse mal lá estava você para me ajudar, sempre foi assim.
- Sempre fui assim com todos...
- Sim eu sei que foi, mas comigo você é diferente, ou pensa que nunca notei como me olha às vezes!
- Não tenho culpa se você é uma mulher atraente e tão sensual.

Naquela noite voltei tarde para casa, mas voltei satisfeito e feliz, não por ter satisfeito um desejo íntimo e antigo que há muito não lembrava: de transar com Bianca. Sempre admirei sua beleza desde a adolescência. Assim que cheguei em casa certifiquei-me de que Cíntia dormia e liguei para Lucas, ele atendeu com voz de sono, mas quando reconheceu minha voz logo mudou o tom.

- E então? - Perguntou ansioso.
- Saiu tudo como combinado! - Respondi triunfante.
- Você não sabe o peso que me tira das costas. - Disse aliviado - Roberto e eu estamos muito apaixonados, ele quer que moremos juntos aqui nos Estados Unidos, mas mesmo assim gosto da Bianca e não queria magoá-la muito, pelo menos com você aí para "consolá-la", fico um pouco mais satisfeito.
- Não se preocupe, Lucas, afinal, o que não faço por um amigo?

13 comentários:

  1. [Por vezes nos encontramos pensando em como fomos capazes de realizar certas coisas, sejam elas simples gestos, ou atos de grande coragem, ou muita cara-de-pau mesmo.]

    É verdade... quando lembro de coisas que fiz e vivenciei, ou até vendo fotos de situações passadas sinto calafrios diante de certas coisas e penso: meu Deus, era eu mesmo???

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  2. Seu conto ficou bem interessante.

    Ele começou suave, da forma como muitos contos começam - bem escrito, boa transição entre os atos... E prendeu minha atenção.

    Talvez também deva citar que, por um motivo ou outro, foi uma leitura leve, fácil de digerir - talvez pela escolha das palavras, não sei.

    Agora, você conseguiu me desarmar para o final... Parabéns! Não sei se foi premeditado, mas deu muito certo!

    Ah, e fiquei um pouco perturbado com seus escritos...

    O motivo é simples: Jarbas é meu "xará" rs (me assustei ao ver meu nome em um conto!)

    Gostei muito, cara! Parabéns!

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  3. Pô...

    faz tempo q eu não acesso seu log kra...

    Seus textos continuam muito bons!

    =P

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  4. O que eu achei...?

    Hmmm... Achei curioso dar uma de Don Juan, ainda que na ficção rs

    É uma honra semi-protagonizar um de seus contos rs

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  5. Nossa. Muito bom mesmo. Esse conto terá outras partes?

    Abs

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  6. Como no primeiro comentário, a gente por vezes esquece de tudo a nossa volta e faz coisas inimagináveis... quantas vezes já me arrependi de determinados atos...

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  7. Cara! Gostei muito do seu texto, envolvente, bem escrito. Muito bom!

    sem contar o desfecho surpreendente, gostei muito!

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  8. Longo texto
    Mais esta muito bom
    Parabens pelo Blog
    Ah me diz uma coisa?
    Como e que vc fez 2 sides Bars?
    hehhe

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  9. Muito bom o conto. A postagem anterior também ficou ótima.

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  10. Saudações.
    Eu recebi essa semana o selo "Blogueiros que sabem comentar". Sei que vc já tem, mas dou mais uma indicação para vc, por estar sempre no meu blog comentando e tal.

    abs

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  11. bem legal seu blog e interessante.

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  12. Estava "fora do ar" novamente por toda a semana. E volto hoje.
    Dou de cara com um texto completamente diferente de tudo que já li por aqui. E, para minha surpresa (nem tanto, porque aqui só pinta coisa boa) gostei da levada e do desenlace. Ficou aquela "mordacidade" no ar e um "q" de humor.

    Como sempre, excelente.

    Um abraço.

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  13. bem legal seu blog, nao tem erro de portugues e nem na gramatica. mto bom

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