Favelização: Solução e Utopia. - Parte 3


Espero ser essa a parte final...

Quem acompanhou de alguma forma os três posts a respeito do assunto, no caso:
  • Favelização: Solução e Utopia. - Parte 1;
  • Favelização: Solução e Utopia. - Parte 2;
  • Comentando Comentários sobre Favelização.

  • ... teoricamente já deve estar ciente do tipo de visão que partilho e do que desejo realmente para a população das favelas que deseja deixar de serem apátridas (pois a verdade é que exceto pelo direito de voto não possuem nenhum direito a mais, exceto o de se tornarem estatísticas da criminalidade).

    Lembrando que:
    Utopia: u.to.pi.a feminino (plural: utopias) 1. idéia de um futuro ideal; 2. cenário, país ou Estado ideal em que tudo estaria organizado da melhor forma possível para a felicidade completa de todos; 3. sonho irrealizável.

    E agora dou continuidade a meu ideal de urbanização de favelas, o que eu esperava realmente que acontecesse, e não o que sempre acontece quando os governos anunciam milagres, obras e tudo o mais. Mas antes um pequeno adendo sobre o que penso de um determinado projeto que foi disseminado aqui no Rio de Janeiro e que virou "modelo" até algum tempo e até mesmo eu me enganei a seu respeito.

    Refiro-me a distorção chamada Favela-Bairro.


    A foto acima mostra bem o que é o Favela-Bairro, é um programa que prega a urbanização política da favela. Ele insere um determinado grau de urbanização que na verdade distoa da realidade do local quando as máquinas do governo vão embora. A foto é da Favela da Mangueira (ou comunidade, como preferirem chamar), retirada do Jardim Zoológico e mostra a dicotomia entre o modelo implementado e a realidade que continua logo acima da agora parte "nobre" da favela.

    É uma obra típica dos governos Cariocas onde o fundamento social é mascarado pela motivação puramente política e manipulação da população local com uma série de interveções de resultado rápido, no entanto não resolvem o problema social do todo, apenas de uma parte dele. O que realmente aconteceu com o programa favela-bairro, e foi de certa forma um avanço, foi:
    - Reduziram-se deslizamentos de encostas nas favelas abrangidas.
    - Algumas famílias receberam melhorias, principalmente as que moram próximas dessas encostas reformadas.
    - Colocou reboco nas casas de cimento.
    - Nada mais.

    O projeto favela bairro não urbanizou favela alguma, apenas limpou ruas que já existiam e cortavam favelas, criou umas poucas ruas e de resto não cumpriu nem 1/3 do que é anunciado. Foi, na prática, uma reles maquiagem em cima da triste realidade, onde continuavam a existir os mesmos becos escuros, sombrios e de difícil acesso que o tráfico controla e os gatos continuaram existindo, nas mais diversas espécies e distorções.

    E é claro, gerou votos, já que um dos pré-requisitos para ter um Favela Bairro é ter eleitores. Tanto é que na Ilha de Paquetá existem 3 favelas de tamanho considerável mas como o índice de eleitores de lá é baixo (sem contar a participação da Ilha na mídia), nada acontece além de expansão das favelas e desmatamento de uma área que não tem sustentabilidade nem para manter o povo que nela vive (um dia faço uma postagem apenas sobre Paquetá... um dia). Ou seja, se sua favela precisa de obras, torne todos eleitores. De dois em dois anos aparecerão membros da corja política para angariar votos em troca de uns canos e uns postes, além de cestas básicas e beijar bebês.

    Voltando ao foco inicial...


    No último artigo desenvolvi uma utopia a respeito de como evitar a criação e o estabelecimento de uma favela, e até mostrei de um modo generalizado como nasce uma tendo em vista o que vejo em minha cidade, não sei como é na sua, caso não more no Rio de Janeiro. Agora, vou propor teoricamente num universo hipotético da utopia onde a classe política é engajada com o povo e o povo não acha política algo "chato"...

    Como se remove uma favela do jeito certo?
    (a maior de todas as utopias)


    Não se remove. Ela está lá, seus habitantes estão ali e qualquer tentativa de removê-los só os fará voltar ou trazer substitutos. Favelas não surgiram por mágica, ou são históricas (como as que surgiram por culpa da Princesa Isabel - "libertar" e "dar dignidade" foram duas coisas diferentes) ou forçadas pelo meio econômico, como a necessidade da proximidade com o emprego dadas as péssimas condições dos transportes públicos.

    Se se não dá para retirar, o que fazer? Seguem abaixo as imagens - toscas - que fiz para exemplificar o procedimento e a explicação para cada uma delas. É bom levar em consideração que por se tratar de uma utopia, quando surgir algo estranho em relação a realidade é bom se lembrar que na utopia tudo funciona, até mesmo os três poderes e nenhum deles atrapalhará ou criará entraves. A realidade é bem diferente...

    Imagem 01: Antes das Obras.
    A primeira fase, e a mais importante é exercida pelos próprios moradores. Através de um senso e com a ajuda da polícia faz-se um cadastramento e em paralelo ocupa-se a favela em todas as suas entradas e saídas e impede-se a entrada de novos moradores ou mesmo de bandidos. Prendem-se os que existirem se esses não morrerem durante o processo de tomada. E quando se diz "ocupação" não é apenas entrar, atirar e ficar na porta, é ocupar desde a entrada até o miolo dela, sem dar espaço a aventureiros. Obviamente isso exigiria muitos policiais, o que poderia ser feito com auxílio da Guarda Nacional e até do Exército.

    Feito o cadastramento seria estabelecido o projeto em si. Atráves desse censo seria ponderado o apartamento de cada família e a a quantidade de espaço equivalente a sua necessidade, até um máximo de três quartos por família. Seriam também introduzidos projetos sociais de controle de natalidade e de saúde durante o projeto.

    Imagem 02: Obras de Reurbanização.
    Seria feita por etapas, e seria avaliada tanto a extenção da favela quanto suas características topográficas. Se fosse uma favela situada em um morro, por exemplo, o objetivo da obra seria remover a comunidade do mesmo mas sem retirá-la do local, como se faz isso? Cercando a área do morro com os prédios (como poderá ser visto abaixo) e dessa forma impedindo que depois do reflorestamento outras pessoas pensem em tentar subir novamente. Durante a obra famílias serão desocupadas em pequenos agrupamentos e deslocadas a hotéis próximos (sempre existem hotéis próximos) e depois realocadas nos prédios construídos.

    Os demais moradores permaneceriam em seus lares durante o decorrer das obras. Convém lembrar que a mão de obra seria predominantemente formada por moradores da favela e que esses receberiam o pagamento em forma de ajuda de custo e cestas básicas, mas o verdadeiro pagamento pelos serviços seriam suas residências definitivas (basicamente não receberiam o peixe, teriam que participar da pescaria).

    Imagem 03: Primeiro dos prédios construídos.
    A obra continha e as pessoas que antes moravam em barracos recebem seus títulos e escrituras e é cobrado delas um valor simbólico que será parcelado e adicionado ao condomínio. Nessa primeira etapa da construção as pessoas são donas de seus apartamentos, mas o condomínio pertence ao governo até o valor das casas ser quitado, do mesmo modo que ocorre com financiamentos da Caixa Econômica.

    Nesta etapa começariam a surgir o retorno do investimento. As pessoas moradoras desse condomínio pagariam um valor simbólico pelo uso da Luz e da Água, que por menor que seja é maior que o prejuízo que os gatos de luz e água causam ao erário público e por sua vez aos contribuintes. Todos estariam legalizados e pagando uma taxa condominial equivalente a quantidade de quartos que cada apartamento possuíria, isso já definido antes durante o censo.


    Imagem 04 e 05: Ocupação Social e avanços ecológicos.
    Não adianta apenas construir prédios particulares, seriam construídos nessa região hospitais públicos de qualidade ou postos de saúde, escolas e delegacias, sempre próximos do novo bairro que surgiria. Nessa etapa boa parte da favela já teria dado lugar aos apartamentos, e as pessoas continuariam executando as obras.

    Com o muro de prédios cercando as áreas antes verdes, poderiam ser implementados programas de reflorestamento em morros devastados e outras obras de caráter ecológico, visando preencher com natureza o espaço antes ocupado pelo caos social. As características do empreendimento teoricamente impediriam que novos ocupantes chegassem nessas áreas porque seria impossível adentrar nos morros desocupados sem derrubar os prédios.

    Imagem 06: Um exemplo da utopia, em seu estágio final.
    Obviamente não me preocupei com escala, o objetivo é apenas mostrar como ficaria uma área de morro anteriormente ocupada por uma favela. Com o sistema de "muralha condominial" a área verde ficaria isolada da intervenção humana - dentro de níveis toleráveis - e poderia até ser explorada como área verde condominial.



    Enfim, acabou, demorei mais a fazer porque não conseguia utilizar o Corel com a velocidade de antes e, principalmente, porque deveria ter postado há quatro dias e devido a Velox e a Oi fiquei impossibilitado e incomunicável por dias (fiquei mudo por causa de obras).

    A quem acompanhou, agradeço, a quem pesquisou pelo Google e leu tudo até aqui, agradeço por igual. O objeito nunca foi solucionar tudo e sim apresentar de uma maneira simples algumas utopias que poderiam solucionar o problema da favelização e apenas isso, mas que em um país como o nosso a verdade é que nada seria feito a esse respeito, mesmo porque tudo que disse nessa postagem dependeria de continuidade, de tornar as demais áreas pobres do Brasil mais dignas e isso é impossível, pois como diz um ditado popular, pau que nasce torto morre torto, ou seja, só nascendo de novo.

    E que as obras do PAC-Eleitoral de Lula/Cabral comecem... Se conseguir metade do que prometem, será um avanço maior que o nada dos últimos anos.

    10 comentários:

    1. Olá...
      Dragus...
      Venho acompanhando essa discussão por aqui...
      AInda penso na impossibilidade de em curto prazo para uma intervenção real... Em função do sistema vigente, que estimula a favelização/corrupção generalizada...
      Mas, só o fato de discutir, já da esperanças, pois assim descobrigos que ainda existem pessoas pensando em soluções...
      Abraços
      Everaldo Ygor
      http://outrasandancas.blogspot.com/

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    2. Tive que ler os outros três tópicos antes de pensar a comentar, vocês está de parabéns em toda sua tese, perdi um excelente tempo lendo tudo isso hoje a noite.

      Quando se candidatar a presidente terá meu voto xD

      Esse problema (o das favelas) é um problema muito grave e serio, acho que a única solução é a urbanização da favela, não necessariamente como você falou, com prédios e tudo o mais, acho que seria mais prudente escolher um local diferente, com melhores condições e depois de cadastrar todos os moradores, ir removendo-os por parte, e assim que terminar uma parte demolir as “lajes” e transformar a área em uma área de preservação. Mas enfim, são todas utopias.

      Acho que se o governo realmente quisesse poderia acabar com as favelas, não imediatamente, mas precisaria ser feito tudo com calma e planejamento.

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    3. Texto extensivo, mas tah bacana, vc tem precissão nas palavras, parabéns..
      Meu blog: http://cativagoogle.blogspot.com/

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    4. "Longe se vai
      Sonhando demais.
      Mas onde se chega assim?"
      Sofro muito por não ter essa resposta!

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    5. Ah sim passou a madrugada interira mais valeu a pena ne?
      hehe
      Valeu pelas dicas!

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    6. Já havia lido e até comentado os textos anteriores.
      A idéia pode até ser uma utopia mas, não está longe de ser reconhecida como solução no futuro se for possível um futuro para países em desenvolvimento. Lembra de Tomas More e sua obra Utopia? É comentada até hoje. O
      Príncipe de Maquiavel é aproveitado por muitos, até hoje.
      Seu artigo é interessante mas é uma pena que dependa da boa vontade dos governantes, dá conscientização tanto política quanto social do povo brasileiro. quanto a este aspecto só tenho a lamentar e dizer o que tu já dissestes "só nascendo de novo".
      Abraços!

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    7. acompanhei os 3 textos, certo que é uma grande utopia, em que nao se leva em consideração o dinheiro, que o principal empecilho. e tambem que o governo do estado do Rio de Janeiro nao iria aceitar ajuda da Guarda Nacional nem do exercito ja que nao aceitaram em outras vezes menos utopicas, como aqui na minha cidade existem areas pobres, mas nao favelas do tipo que tem ai, nao posso dizer muito sobre o assunto. mas as suas ideias são muito boas, parabens pelos textos

      bjaoo

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    8. É MUITÍSSIMO INTERESSANTE ESSE PASSO-A-PASSO DO PROJETO, MAS COMO REALIZAR ISSO QUANDO SE ESTÁ EM ESTADO DE SÍTIO? ESSE TRABALHO DEPENDE MUITO DA TOTAL INTEGRAÇÃO ENTRE O PODER PÚBLICO E OS MORADORES, SÓ QUE ENTRE ELES TEM OS TRAFICANTES, MOROU? PENSO ASSIM!

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    9. De fato, utopia total. Mas acho válido o esforço de escrever essas idéias, ainda que não saiam do papel jamais.

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    10. Já comentei no último post sobre o assunto, mas aproveito para dizer também que uma das coisas mais desanimadoras que me ocorrem quando este assunto vem à tona é o rótulo de fascista que qq um recebe ao verbalizar que a melhor solução, e talvez unica, para este problema é sim a remoção da favela e/ou total re-urbanização da área ocupada.
      Acham que é mais humano deixar as pessoas ali. Tudo por causa desse discurso hipócrita que os defensores dos direitos humanos teimam em fazer. Se ferra o favelado que segue a viver em condições sub-humanas pq muitas vezes eles próprios não têm consciência do quão melhor suas vidas poderiam ser pois só conhecem aquilo. E se ferra o cidadão ordeiro com todos os revezes já citados.

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