[Conto] Apenas um ponto.

Apenas um Ponto...

Carlos senta no sofá de casa e vislumbra com afinco o cálice cheio do vinho tinto que comprou fazem poucas horas no freeshop do aeroporto. "Meu salário inteiro... mas ao menos esse porre valerá a pena", pensa enquanto delicia-se com o primeiro gole. No instante seguinte arremessa o copo violentamente contra a parede. Carlos odeia vinhos secos, e cego pela necessidade de ultrapassar seus limites financeiros não percebeu a palavra estampada na garrafa.

Armênio, o nome que usa naquele dia, pega com cuidado o pequeno copo de plástico descartável. Uma, duas, três, vinte, dez, dois, zero. Estão todos ali. Pequenos soldados encapsulados que todos os dias travam uma batalha mordaz entre seus miolos. Soldados trazidos pelo impiedoso homem de branco que todo dia vem visitá-lo com mais um copo de plástico. Dessa vez Astrubal dará o remédio a Ernesto, o homem invisível que ocupa a cadeira do seu lado direito-bombordo (uma direção que apenas os dois conhecem).

Carlos assiste com certa raiva o telejornal. Pela centésima vez no dia é a mesma matéria que ataca o presidente, mais uma vez crianças foram mortas por traficantes e mais uma vez o preço das coisas irá subir e um novo imposto vai surgir. Sem mais o que assistir na televisão decide sair de casa para espairecer a cabeça e se distrair. Como não pode mais dirigir seu carro por causa da nova lei que não lhe permite misturar seu vinho e direção, veste-se para pegar um ônibus, deixando em casa documentos e coisas do tipo. Sairá sozinho, pois todos os amigos estão ocupados demais com suas próprias vidas para se darem a esse luxo.

Armênio assiste televisão na parede. São imagens desconexas que narram apenas para sua mente as aventuras do Grilo Falante. O Grilo falante é uma formiga de dois metros de altura e asas de pombo, muito simpático e que conta ótimas piadas. Ernesto, seu amigo invisível está sempre ao seu lado e nunca o abandonou, mesmo nas seções intermináveis de eletro choque, quando enfiam as antenas do Chapolin na cabeça e colocam na tomada. Astrúbal também está ali, todos assistem juntos a televisão.

Carlos caminha solitário pelos arredores do Parque Ibirapuera. Acompanhado sempre de sua garrafa de vinho e da sua própria voz, que canta um pouco de "I Will Survive", mas sem nenhuma afinação e muita embriaguez. Em determinado momento, quandom está se dirigindo de volta para casa dois pequenos meliantes se aproximam. São crianças de no máximo quatorze anos, mas com mais altura e mais drogas do que Carlos ingeriu vinho. Duas ameaças de assalto, facas são expostas, entretanto antes da consumação do ato um dos jovens assaltantes tomba no chão com o rosto completamente cortado pelos cacos da garrafa de vinho que fez as vias de tacape.

Armênio dorme e sonha com a paz. Ele está em paz, não importa o quanto queiram demovê-lo de sua aparente loucura. Ele quer e gosta disso tudo, gosta de viver em um mundo paralelo ao dos que lhe dão choques. Ele sonha com mulheres de sete seios e duas vulvas que perdem para ele num jogo de pingue-pongue onde a bola tem o formato de um cubo perfeitamente redondo. Ele pode voar pela terra e nadar nos céus, é o SuperArmênio. E ele salva dragões indefesos de princesas malvadas.

Carlos chega em casa com a roupa ensagüentada dos últimos minutos. Está embriagado moralmente e socialmente. Nunca sua janela esteve tão convidativa quanto naquela noite, e as sirenes da polícia vindo prendê-lo pelo assassinato de dois inocentes. Ele vê os carros estacionando em frente a sua portaria e vê os carros da imprensa. Não há muito que fazer e Carlos abre sua janela. Respira pela última vez o ar poluído daquela cidade. Contas a pagar, pivetes que lhe importunam a noite sem poder reagir, solidão total, porque continuar? Carlos se entrega ao infinito.

Armênio acorda no dia seguinte satisfeito e feliz. Não possui contas, não é importunado por ninguém e tem amigos fiéis que jamais o abandonam, além de seu próprio mundo para comandar. E novamente liga sua televisão na parede, é um especial do seu Grilo Falante favorito...

Carlos foi enterrado dois dias depois em uma cerimônia simples. Era um rico empresário, pai de duas crianças e até aquele dia nada havia acontecido de anormal em sua vida, por sinal, era uma pessoa de sucesso como outra qualquer. Não deixa legado nem mesmo carta explicando os motivos, do mesmo modo comum como levou sua vida, sempre adotando os dogmas da sociedade, Carlos somente ousou em sua partida, e ainda assim ninguém entendeu porquê.

Afinal de contas, quem era o louco?

2 comentários:

  1. Interessante esse questionamento. Quem é o louco, afinal? Queria me estender, mas deixo somente a indicação para assistir Estamira, caso não o tenha feito ainda. Muito, muito bom. Aborda justamente essa temática.

    Estamira é acima de tudo uma lição de respeito, um convite a repensar os conceitos.

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  2. Quem era o louco não dá para afirmar com categoria. Dá para dizer quem era o desesperado.

    Então Dragonildo, quanto a lei, concordo que ela é, digamos, precipitada. E vem em má hora, pois soa como uma afronta num momento em que existem mais ataques aos evangélicos do que ataques DE evangélicos.

    A crítica que eu faço, e talvez não tenha deixado claro no post, é o fato de os evangélicos ficarem tão desesperados com isso. Acho que existem mais coisas na pauta dos pastores do que só pregar contra a comunidade GLS.

    Mal escrita ou não, a lei protege e traduz um sentimento de uma minoria que infelizmente tem sido alvo de muitas ações de desrespeito e humilhação e é disso que a lei trata. Não de cercear a liberdade de expressão religiosa.

    O fato é que a literatura jurídica registra casos de processos perdidos por parte de homessexuais que sofreram violência por causa de suas determinações sexuais, pois até o surgimento da lei o fato de ser homossexual era tido como escolha (era comparado ao uso de piercings e tatuagens). Hoje é quase consenso entre os meios médico, jurídico e sociológico que não há escolha em ser gay. O cara (ou a moça) nasceu assim e pronto. Visão muito simplista, aliás.

    No meu ver, a aprovação dessa lei vai representar uma mudança importante na maneira como o homossexual é visto pela sociedade, e é esse o maior benefício.

    Como você disse, prisões não vão resolver nada, mas vendo que o topo da cadeia começa mudar seus paradigmas (mesmo que, às vezes, por trás de interesses meramente políticos) tenho um pouco mais de esperança.

    =P

    Espero ter esclarecido algo.

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    TemPraQuemQuer

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