[Conto] A Casa 43.

Música para escutar durante a leitura:


A Casa 43

Uma vez aprendi a me arrepender de alugar casas por impulso.

Eu fui morar em uma casa numa vila de Botafogo, no Rio de Janeiro, de número 43 Um número curioso considerando que a vila tinha apenas dez casas, inclusa essa, e apenas essa tinha essa numeração. Quando fui vê-la me apaixonei pela primeira vez e não hesitei em alugá-la de Matilde, uma senhora simpática que perdera o marido anos antes em um acidente de trabalho disseram os vizinhos.

Era uma pessoa doce, de fino trato e que ficou muito feliz por alguém ter gostado da casa. Na semana seguinte, e devido ao ótimo estado de conservação, mudei para lá. Foi uma semana de adaptação sublime, o único empecilho era dos vizinhos que de hora em hora vinham bater em minha porta preocupados com minha saúde. Porque deveriam? A casa era perfeita.

- Porque o senhor não entende...

Tudo começou ontem de manhã. Eu estava comendo meu tradicional pão com manteiga e bebendo meu café quando escutei um grito vindo do porão de minha casa. Inicialmente não dei importância ao eco insistente, mas passado menos que um gole de café me lembrei que minha casa não tinha porão.

Assustado me levantei da cadeira e observei o chão da minha cozinha. O piso estava no lugar. Pensei em chamar minha esposa, mas não era casado, por sinal, completamente só naquele apartamento. Não sabia o que fazer e procurei imediatamente por meu celular. Como sempre, estava sem sinal.

Escuto mais um grito. Meus ouvidos me levam direto para a sala. Corro e começo a arrastar móveis. Tenho a impressão de me sentir observado, mas não consigo encontrar nada além do meu reflexo no espelho. Estou apenas eu e mais ninguém. Um novo grito. Arrasto o sofá e vejo uma pequena abertura no chão de onde um dedo sujo de lama tenta encontrar a liberdade.

- Quem está aí? - Eu berro.
- Você!

A luz se apaga e me ofusca completamente a vista. Tento tatear inutilmente em busca de alguma fonte de luz, mesmo abrir a janela para deixar a luz do dia entrar. Finalmente encontro apenas uma pequena luminosidade muito distante, mas parecendo próxima. Depois de dez passos dou de encontro com uma parede invisível e percebo que a luz não vem de uma saída mas de uma reles abertura.

Teimo em olhar e vejo minha sala. Do outro lado estou eu mesmo, cruzando olhar. Meu outro eu se assusta ao me ver e se afasta, apoiando-se na parede. Cai no chão e começa a gargalhar.

- Não me deixe aqui! - Berro.
- Saia demônio! - Respondo.

No instante seguinte vejo que meu outro eu começa a se debater e a rir enlouquecido. Parece desesperado. Segundos depois começa a rasgar meu rosto com as mãos. Sinto uma dor terrível e percebo que cada corte que minha contra-parte faz também o sofro. em determinado momento meu eu segura com força a parte inferior de minha boca a mão direita e a superior com a esquerda.

Em seguida ele puxa e vejo com horror meu rosto se desfigurar e aos poucos vou me virando do avesso do mesmo modo que faço comigo. Minha contra-parte balbucia "eu interior, onde está você! Alma!". Aos poucos ele vai se despindo de minha pele através de minha boca como se fosse uma roupa ensangüentada. E eu vou me tornando exatamente igual a mim mesmo. Ou é ele que está me transformando?

Vejo meus músculos e ossos expostos de modo horroroso enquanto com o que resta da abertura da boca tento me desfazer da pele presa em meus pulsos e pés. O sangue escorre pelo chão e começo a afundar nele como um barco. O chão desaparece, tudo fica novamente escuro e quando me dou conta, estou sentado em minha cozinha caído sobre o pão que não comi.

Estou inteiro, é apenas um sonho. Me levanto e vejo que tudo na sala está exatamente do jeito que deveria, exceto por um detalhe: quando me olho no espelho vejo por um segundo meu corpo escalpelado completamente com um sorriso distorcido no que deveria ser minha face.

Não tenho dúvidas e saio de casa. No dia seguinte entrego a casa de volta a minha inquilina. Penoso por não ter dado ouvido aos vizinhos na vila a respeito dos gritos da casa.

Ela compadece e lamenta mais um abandono. No dia seguinte quando a equipe de mudança vem buscar minhas coisas reparei que uma coisa estranha. O número da casa, onde antes era 43 agora estava 44. Um vizinho ao ver a mudança no número fez o sinal da cruz e afastou-se.

Não quis saber mais sobre a casa, naquela mesma noite nunca mais voltei.

A única coisa que descobri depois é que a senhora simpática que me alugara a casa havia nocauteado o marido em um acesso de ciúmes décadas antes e o enterrara vivo no subsolo da sala. Só soube disso porque um dia estava lendo jornal no trabalho e soube que a casa de número 56 dessa Vila havia pego fogo depois que a dona Matilde desistiu de alugar a residência e decidiu morar de uma vez.

No mesmo instante senti um calafrio e fechei a página. Foi quando escutei um grito: era uma companheira de trabalho que derrubara café no chão.

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