FORJANDO UM GUERREIRO - MARTELO E BIGORNA

Olá povo! Saudades de mim? Achei que não! Sei que estou muito sumido do blog e que não tenho escrito nada há algum tempo, isso ocorre por um motivo bem simples: falta de assunto. Sempre que pense em escrever sobre algo o Dragus ou já escreveu, ou já está escrevendo, por isso preferi não por assunto repetido. Também como ando com uma tremenda falta de inspiração pra escrever, preferiro ficar sem escrever nada do que colocar um monte de bobagens.

Bom, hoje, finalmente, volto a publicar a saga de "Forjando Um Guerreiro". Nesse segundo e último arco da estória o protagonista (Ignus) irá descobrir mais coisas sobre si próprio e sobre pessoas que estão a sua volta.

Como sempre aviso, quem tiver preguiça de ler, ou não simplesmente não quiser, não leia, mas também não venha com comentários vazios. Para quem for ler, espero que goste.
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Retorno

Sua visão pouco a pouco ia voltando ao normal, o gosto acre invadia sua boca e nariz, deu uma cusparada para o lado para se livrar do sangue e em seguida esfregou a boca com as costas da mão completamente imunda. Apoiou-se em algo próximo, não sabia o que era, mas era um tanto macio, mas não importava direito. Agora que sua mente começava a entrar em ordem ia se lembrando dos fatos, havia ido com seu bando cumprir uma missão aparentemente simples, matar um pequeno bando mercenário com-posto de sete integrantes, só não fazia idéia de porque trinta homens foram contratados para isso.

Estavam todos bem armados e bem organizados, o plano foi revisado várias vezes, foi quando ficou sabendo que na verdade se tratava de um grupo mercenário bem mais numeroso. Chegaram rápido ao local da emboscada, só que antes de poderem agir foram atacados, não soube como começou nem como terminou tudo, pois levara um golpe pela nuca com tanta força que desmaiou em seguida.

Agora via um deles sentado em cima de algo que não conseguiu dizer o que era, tanto por culpa de sua visão ainda turva, tanto por causa da ofuscação causada pela luz do sol que vinha justo daquela direção. O homem estava de costas e bastante distraído enquanto limpava sua espada, exatamente o que precisava, aproveitou-se da distração de seu alvo e se dirigiu a ele o mais sorrateiro que pode. Seu alvo tinha grande constituição física, aparentemente seria difícil enfrentá-lo em condições normais, mas seu trabalho apenas dizia para matá-lo, então faria isso de qualquer forma. Aproveitando de um momento em que seu alvo distraidamente jogou seus longos cabelos presos de qualquer forma para trás, desferiu o golpe que seria sua sentença de morte. Assim seria caso seu alvo não tivesse sido muito mais veloz, estocando-o no abdome mesmo permanecendo de costas para ele.

- Mate-me logo... - Falou com dificuldade, observando seu inimigo se levantar.
- Por que deveria? - Perguntou seu inimigo que possuía uma voz extremamente grave.
- Faça como seus amigos fizeram com meus companheiros e me mate de uma vez! - Repetiu.
- Amigos? - Falou em tom irônico.
- Sei que quer defendê-los, mas eu vi quando fomos atacados por seu bando. - Falou enquanto tentava ver sem sucesso o rosto de seu inimigo.
- Então acha que isso tudo foi obra de um bando?
- É claro!
- Deixe-me te contar um segredo então... - Fez uma pausa e se abaixou próximo do ouvido do homem caído - Eu fiz isso sozinho!

O pavor tomou conta de seu ser, olhando para os lados viu todos os seus companheiros tombados no chão, a maioria mutilados e repletos de cortes, o cheiro de sangue era intenso e invadiu suas narinas com força. Nunca imaginara que um único homem era capaz de fazer tal coisa.

- Outra coisa que esqueci-me de mencionar, eles não estão mortos!

Mais uma vez ele olhou para seus companheiros, dessa vez aprumou melhor a visão e os ouvidos quando finalmente percebeu seus movimentos extremamente limita-dos, ouviu os gemidos de dor. Olhou em outra direção e viu um que tentava colocar se braço de volta no lugar, seus olhos esbugalhados e o pavor nítidos em sua face. O terror da cena se tornara ainda maior, como alguém conseguia ser cruel o suficiente para mutilar tantos e deixá-los vivos?

Não teve muito tempo para pensar em muitas coisas, nem no sofrimento dos companheiros, teve sua espada arrancada do punho junto com o próprio, quando notou era tarde demais e gritou de dor contorcendo-se no chão. O guerreiro inimigo antes de ir e deixar o mórbido cenário ainda fincou a espada arrancada no abdômen de seu pretenso atacante, agora estava preso ao chão e nada podia fazer a não ser urrar ainda mais, contorcer-se e cortar-se mais até a morte.

- Se conseguir sobreviver, diga a quem te contratou quem fiz isso. Diga que foi Ignus!


O sol já estava alto quando o soldado terminou de organizar a fila, era dia de recrutamento e muitos haviam aparecido para se candidatar ao cargo de guardas reais, inclusive muitas mulheres estavam presentes. Os portões estavam quase se fechando quando surgiram mais pessoas e os guardas foram obrigados a deixá-los entrar. Eram pessoas de todos os tipos, altas, gordas, baixas, magras, fortes, enfim, uma mistura de biotipos imensa.

Um a um eles eram passados em uma breve olhadela e selecionados pelo físico, além da própria aparência. O chefe da guarda sempre escolhia os de melhor condicionamento, além de uma boa saúde aparente. Esse primeiro passo era sempre muito valioso, pois economizava um precioso tempo com testes individuais, já que alguns ali mal conseguiriam erguer uma lança.

Era um dia quente, o chefe da guarda estava entediado e sem muita vontade de estar ali, mas mesmo assim fez seu serviço da melhor maneira que pode. Um por um ele os olhava com alguma atenção, perguntava nome e idade, depois ponderava se o aprovaria ou não. Os aprovados eram mandados para o pátio de treino, os rejeitados saiam de cabeça baixa.

- Qual é seu nome e sua idade? - Perguntou a um jovem de cabelos ralos e olhos fundos, mas de boa constituição física.
- Onacis, senhor. Tenho dezessete anos, senhor. - Respondeu com certo temor.
- Volte para casa, aqui não é lugar para você - Disse secamente.
- Você minha jovem? Nome e idade? - Perguntou a uma moça que tinha uma aparência rude, mas mesmo assim tinha alguma jovialidade no olhar.
- Norma, tenho quatorze anos, senhor.
- Por que quer entrar para a guarda real? - Questionou querendo saber os moti-vos da mulher.
- Quero ser útil ao meu reino...
- Então seja útil tosquiando lã, ou fiando-a! - Falou com grande rigidez.

O Chefe da guarda repetiu esse ritual por muitas vezes, muitos dos que dispen-sou poderiam ter capacidade de se tornarem membros da guarda do reino, mas muitos não mostravam isso nos olhos.

Depois de alguns minutos ele viu um rapaz encostado na parede, completamente largado, segurando uma bolsa e trajando um manto de viagem com capuz, que lhe ocul-tava parte da face, mas pela sombra que produzia, do que por seu comprimento. Vendo aquela cena e examinando todos os outros que permaneciam de forma correta e ordeira na fila, o chefe da guarda se sentiu insultado e foi tirar satisfação com o rapaz.

- Está cansado? - Perguntou irônico.
- Um pouco - Respondeu o rapaz com uma voz de trovão.
- Então por que não volta para casa e descansa e volta no próximo ano quando estiver com mais coragem? - Desafiou o chefe da guarda.
- Primeiro que não tenho casa e segundo, pois tem tempo que não vejo um rosto conhecido, chefe da guarda, ou ainda posso chamá-lo de Haldar?

O chefe da guarda não podia acreditar, agora que chegava mais perto e via o rosto do rapaz, reconheceu um rosto familiar que há muito não via, era Ignus seu antigo discípulo. Desde o dia quando soube do paradeiro do pai, Ignus havia desaparecido sem deixar pistas de uma possível localização, e por conta disso Haldar nunca mais ouviu falar do garoto. Agora lá estava ele, um adulto alto, decidido, forte e de muito boa apa-rência, diferente do menino de outrora que era um poço de dúvidas e incertezas. Tomado por certa emoção Haldar abraçou calorosamente o ex-discípulo e riu sonoramente, seus comandados que presenciavam a cena estranharam, pois nunca haviam-no visto ter uma demonstração de contentamento tão exagerada.

A fila de pretensos candidatos a futuros guardas reais, logo foi totalmente dis-pensada, com a exceção dos que já haviam sido selecionados. A indignação foi grande, mas os protestos não foram suficientes para mantê-los no local, muitos já haviam sido escolhidos, foi o que disse Haldar em resposta as queixas.

- Olhe só para você! - Disse Haldar admirado ao ver o antigo pupilo. - Faz quanto tempo mesmo que não nos vemos...
- Muito tempo, Haldar! - Disse Ignus interrompendo.

Dois guardas foram designados por Haldar a levar o grupo selecionado até o campo de treino e lá começar a aprenderem a usar uma espada, ele logo iria supervisionar o andamento do treino. Enquanto isso guiou Ignus até um salão de conferências, lá segundo ele, poderiam conversar um pouco em paz, pois queria saber o que houve com Ignus durante todo esse tempo. Alguns criados trouxeram uma grande variedade de comida e bebida para ambos.

- Quer dizer que agora você está vivendo agora em Radrac? - Perguntou Haldar após abocanhar uma generosa porção de carne.
- Nos arredores, para falar a verdade. - Respondeu Ignus tomando um bom gole de vinho - É um vilarejo aconchegante e tranqüilo, mas mesmo assim optei por viver nos arredores dele.
- E como anda ganhando a vida?
- Como mercenário. Até que rende um bom dinheiro sabia!?
- Mas me conte, por que você sumiu depois daquele dia? - Perguntou Haldar mudando drasticamente o tom da conversa.
- É complicado de dizer... Digamos que achei melhor seguir meu próprio cami-nho.
- Eu fui procurá-lo depois que você sumiu. - Disse com certa tristeza.
- Obrigado... Nunca imaginaria isso...
- Sabe... - Interrompeu - Quando vi você sair em disparada, imaginei que fosse buscar por sua vingança...
- E fui! E te digo com toda a certeza, nunca algo me deu tanto prazer e alívio como aquilo.

A expressão de Ignus era de puro contentamento, enquanto terminava de sorver mais um gole de vinho e se preparava para comer mais um suculento pedaço da carne de javali, sua expressão demonstrava um contentamento distante, como se estivesse a vislumbrar aquele momento agora tão longínquo. Haldar enquanto degustava o líquido de sua taça examinava o ex-pupilo com atenção, vendo nele a clara expressão de satisfação que surgia em seu rosto quando triunfava em algo.

- Todos ficaram preocupados contigo, pois você não retornou naquela noite, nem nunca mais. - Disse Haldar quebrando o silêncio.
- Eu mesmo quebrei as amarras que me prendiam àquele lugar. Ali não era meu lar, nunca seria. Lá eu seria apenas um escravo até o dia em que Izac me dispensasse, ou o filho dele quando se tornasse dono de tudo. - Concluiu Ignus.

- No dia seguinte escalei alguns dos guardas de Izac e fomos te procurar - Disse Haldar enquanto se servia de um pouco de hidromel - Fomos até a mansão de Raiarath, mas para nossa surpresa o que vimos foi o cadáver do pai dele estendido no chão.
- Eu cortei o pescoço do desgraçado depois que fiz o filho dele confessar o que fez a minha mãe. - Falou Ignus com um sorriso malicioso no rosto!
- Depois disso confesso que não sabia onde poderia encontrá-lo, foi então que um dos guardas que me acompanhava, mostrou-me marcas intensas de pegadas de cavalo que indicavam uma perseguição. Para o meu espanto as pegadas levavam justamente a antiga vila em que você morou quando criança. Porém o que mais me surpreendeu foi o estado em que a vila se encontrava. Assim que chegamos lá, nossas narinas foram invadidas por um forte cheiro de carne podre e queimada, em seguida, vimos todas as casas destruídas e queimadas, corpos mutilados, outros carbonizados... Mas a maior prova de que você realmente esteve ali, foi o cadáver preso ao tumulo de sua mãe com a espada que havia lhe dado.
- Casas queimadas? - Perguntou Ignus com incredulidade?
- Está me dizendo que você não queimou a vila? - Perguntou Haldar mais in-crédulo ainda.
- Não!
- Me conte o que exatamente ocorreu lá.
- Assim que cheguei lá fui até a casa de meus avós e arrastei meu avô até a praça central. Raiarath chegou em seguida, foi quando começamos a nos enfrentar, golpeei o cavalo em que ele estava, que caiu por sobre ele. Cortei uma perna dele e arrastei-o até o túmulo de minha mãe, lá fiz com que ele confessasse tudo o que fez com ela, na frente de toda a vila, foi então que o matei, da forma como você viu. - Relatou Ignus e depois tomou mais um gole de vinho para lubrificar a garganta.
- Essa parte nem precisava de explicação, mas e quanto às pessoas da vila? O que houve com elas? - Perguntou Haldar curioso bebendo mais um gole de hidromel.
- Assim que me distanciei do cemitério, alguns começaram a me seguir, dizendo que eu iria desgraçar a vida deles outra vez, e que desta vez, por ter matado o filho do cobrador de impostos a punição seria extremamente severa. Eu parei e disse que havia matado também o cobrador de impostos, foi ai que a ira deles se inflamou contra mim, os que estavam mais perto de mim, eram justamente aqueles que estavam com algo que podia ser usado como arma, e tentaram me enfrentar, mas foi inútil. Três vieram me atacar ao mesmo tempo, um deles tinha uma foice nas mãos, tomei a foice dele com facilidade e matei os três praticamente com o mesmo golpe. Os outros que assistiram a cena avançaram contra mim e eu os enfrentei também, não demorou até que o restante dos habitantes percebesse o mais novo embate e se intrometessem à medida que outros iam morrendo...
- Quer dizer que você sozinho matou todos? - Perguntou Haldar espantado, mas com uma ponta de orgulho do antigo discípulo.
- Nem eu achava que conseguiria, mas fiz, matei todos, um a um. - Falou seca-mente
- Mas o que houve com a vila?
- Ia chegar nessa parte. Enquanto lutava com os habitantes da vila, uma raiva, um ódio tamanho surgia dentro de mim, era algo que não conseguia controlar, a cada golpe que eu desferia meu shii se manifestava junto, o mais estranho é que parecia que ele estava entrando em comunhão com algo muito maior, não sei dizer como, nem o que. Foi então que algo estranho aconteceu, uma tempestade de raios começou a atingir a vila, casas pessoas animais, tudo era atingido pela fúria dos trovões, eram muitos, nunca havia visto nada parecido. Com tantos relâmpagos atingindo as casas e destruindo tudo, não demorou a começar os incêndios, mas não fazia a menor idéia de que haviam afetado toda a vila. As pessoas que eram atingidas pelas relâmpagos eram destruídas em instantes, era algo de certa forma fantástico. O mais estranho e que parecia que eles reagiam de acordo com o meu ódio.

Enquanto ouvia o relato, Haldar permanecia praticamente imóvel e mal conseguia refletir sobre o que era dito, mas essa última parte chamou-lhe muito a atenção. Desde que começou a treinar Ignus a dominar seu próprio shii, ele mesmo percebeu que Ignus possuía um potencial muito além das outras pessoas que ele já treinara. À medida que ia doutrinando o garoto e vendo sua evolução, ele podia ver que seu shii, embora destreinado, era forte e tinha uma magnitude muito maior do que se poderia imaginar.

Não era estranho ouvir relatos de pessoas com grande capacidade que conseguiram externar seu shii, mas não era comum ouvir o relato de alguém que conseguia comungar seu shii com elementos e convocá-los para seu auxílio. Haldar agora ouvindo o relato de Ignus lembrou-se daquele dia, quando ele ainda jovem fugira em disparada ao saber a localização de seu pai. Lembrou-se que algum tempo depois pode ouvir claramente o ribombar distante de trovões. Lembrou-se claramente de ver uma revoada desesperada indo em direção oposta a da vila onde Ignus morou, até mesmo os animais da propriedade de Izac estavam agitados demais. O mais estranho era que não havia nuvens, não houve vento vindo daquela direção, muito menos houve tempestade, nem durante nem depois, mas o som dos trovões era cada vez mais altos e aterrorizantes, mas Haldar nunca entendeu o que aquilo significava, só hoje podia entender a real magnitude daquilo.

- E o que fez depois disso? Para onde foi? - Perguntou Haldar deixando transparecer ainda mais sua curiosidade, se é que isso era possível.
- Depois daquilo eu vaguei sem rumo, fiz alguns trabalhos de todos os tipos para arrumar dinheiro, dormi no meio do mato, trabalhei por comida e por abrigo, até conseguir dinheiro suficiente para conseguir comprar uma boa espada. Foi então que comecei a trabalhar como mercenário. Viajei muito, conheci outros reinos, outros continentes, até como ajudante de ferreiro cheguei a atuar, o que me deu uma boa noção de como manusear e cuidar de uma espada. Vi coisas, pessoas e lugares que nunca imaginei ver, mas cá estou eu de volta!
- E será muito bem vindo de volta, meu amigo!


Mal o dia amanheceu e Ignus já estava acordado, estava no alto de uma colina com seu antigo mestre, treinando mais uma vez como no passado. Ambos portavam suas espadas, golpeavam como se aquilo fosse um combate de vida ou morte, a fúria dos golpes era tamanha que por vezes fagulhas voavam devido ao choque das lâminas largas. Era tão cedo que o sol mal terminara de sair de seu esconderijo atrás das montanhas, mas os dois já estavam completamente ensopados de suor, como se estivessem ali há horas, porém nenhum demonstrava o menor sinal de cansaço, muito menos estavam ofegantes, a empolgação era nítida em seus olhares.

Haldar arrumou uma cama para Ignus no alojamento da guarda real, também lhe providenciou algumas roupas em melhor estado do que as que ele usava. Ignus agora faria parte da guarda real e teria uma rotina rígida de treinamentos e instruções todos os dias, até se tornar apto a desempenhar sua função, mas Haldar sabia que para Ignus isso não levaria muito tempo. Logo durante a primeira semana de treinamento alguns poucos aspirantes já se destacavam dos demais, Ignus era um deles. Sua força física, disposição, concentração e a facilidade com que aprendia as coisas, fizeram com que ele se desta-casse dos demais. Foi também graças a isso e uma boa ajuda de Haldar que em menos de um mês Ignus já havia se torna um guarda real, pois o próprio havia argumentado com seus superiores que não havia porquê manter Ignus como aprendiz por muito tempo, coisa que todos concordaram ao vê-lo.

- O uniforme lhe caiu bem, soldado! - Elogiou Haldar quando viu Ignus em seu posto em uma das guaridas em seu primeiro dia oficial de trabalho.
- É uma honra servir ao reino, senhor! - Respondeu Ignus da forma mais correta possível.

A formalidade era algo raro entre os dois, dado a afeição que ambos sentiam um pelo outro, do lado de Haldar por Ignus ser filho da mulher por quem um dia nutriu um forte sentimento, e da parte de Ignus por Haldar ter sido a primeira pessoa a tratá-lo como um ser humano. Com os outros era muito diferente, Ignus era o mais correto pos-sível, provavelmente não havia ali sequer um só que se igualasse a ele no quesito formalidade e respeito hierárquico.

Ser guarda real não era algo difícil de fazer, não depois que se pega o jeito, já que as tarefas eram quase sempre as mesmas, com raras variações. Ignus era encarregado de guardar o portão principal do palácio, papel dado a ele pelo comandante das tropas reais em pessoa. Não demorou muito para notar o quão aquele serviço poderia ser monótono, o máximo que fazia era, às vezes, verificar alguns passes, bloquear ou permitir a entrada de alguém, não muito mais que isso.

- Se você é tão bom, aplicado e valoroso como dizem, também será guardando o portão de entrada! - Era o que dizia com grande arrogância e ironia o comandante das tropas reais.

Ele não gostava de Ignus, considerava-o arrogante e muito cheio de si, sempre que podia testava-o e dava as tarefas mais difíceis ou as mais monótonas para ele, mas mesmo assim Ignus desempenhava todas as tarefas com o mesmo entusiasmo. Certo dia enquanto estava de guarda sozinho avistou um cavalo vindo ao longe, carregando um homem que parecia morto. No instante seguinte Ignus alertou os guardas da guarida e chamou por auxílio. Logo mais cinco guardas se juntaram a ele, inclusive o próprio co-mandante de tropas, que mandou que Ignus fosse preparar os médicos para auxiliarem um possível ferido.

Assim que o cavalo chegou mais próximo deles, os guardas verificaram que o homem que ele carregava ainda estava vivo, mas tinha muitos ferimentos espalhados por todo o corpo, fora o fato de que todos eram muito profundos. O que mais chocou a todos foi a perplexidade no rosto do comandante, que ao ver o rosto do homem ferido reconheceu-o como sendo seu irmão. Rapidamente o levaram para tratarem dos feri-mentos, alguns enfermeiros e curandeiros já estavam a postos, mas não esperavam tratar de alguém em estado tão deplorável.

- Nunca vi alguém com tantos e tão graves ferimentos continuar vivo! - Disse um homem que fazia um preparado de ervas.
- Quem fez isso é alguém que sabe muito bem o que estava fazendo, arrisco-me até a dizer que ele fez de propósito. - Disse outro que limpava as feridas, com um líquido amarelado.
- Como assim? - Perguntou o comandante.
- Quem feriu seu irmão dessa forma, feriu com o intuito de não matá-lo, mas sim de causar-lhe dor, muita dor. - Respondeu um dos curandeiros.
- Mas quem seria capaz de uma barbaridade dessas?

A pergunta ficou no ar, sendo precedida por um mórbido silencia e uma troca de olhares entre todos os que estavam naquela sala, ninguém conseguia imaginar alguém com tamanha crueldade para fazer aquilo. Mas o silêncio não durou muito, o irmão do comandante despertou com um terrível grito de pavor, sua boca se escancarou repentinamente soltando um uivo pavoroso, que fez com todos os presentes se arrepiassem e sentissem um pouco de seu medo. Seus olhos estavam vidrados, todos os músculos de seu corpo pareciam extremamente tensos e mais ferimentos pareceram se abrir repenti-namente e medida em que gritava. O grito de pavor ecoou por todo o palácio deixando todos com grande receio.

Fora necessário que todos os presentes na sala segurassem-no e fizessem-no se deitar novamente, o que levou alguns minutos, o homem respirava ofegantemente e parecia estar vislumbrando algo terrível. Só depois de quase dez minutos ele voltou se a-calmar e parecia estar recobrando os sentidos.

- Acalme-se irmão... - Tentou tranqüilizá-lo o comandante - Diga-nos o que houve.

Por um minuto que pareceu uma eternidade o irmão do comandante das tropas reais nada disse, apenas ficou vislumbrando o teto com seu olhar estático. Sua boca se abriu lentamente, um estranho som gutural saiu enquanto seus lábios se contorciam e todo o seu rosto novamente se deformava em uma expressão pavorosa de puro pânico. Novamente ele gritou e se debateu, tomado pelo terror e mais uma vez todos precisaram segurá-lo.

- Meu irmão, o que houve? - Perguntou o comandante mais uma vez, após alguns minutos.
- Um... Demônio... - Disse com dificuldade, a voz quase não saindo devido ao pavor.
- O que lhe fizeram...
- Ele estava lá... - Interrompeu o irmão enquanto agarrava sua camisa com força - Estava parado... E a sua volta... Todos mortos... Não... Vivos... Estão todos vivos... Todos vivos...
- Como...? - Perguntou vagamente sem saber ao certo o que perguntar.
- Estavam todos mutilados, cortados e estavam agonizando. Mas ele estava lá, calmo, sentado com um imperador maligno. Nós fomos para cima dele com tudo, mas ele trucidou a todos, esquartejou um por um, mas não matou um sequer. Eu tentei acertá-lo por traz, mas ele me pegou e ele me fez isso.

Em meio ao transe enquanto despejava o pavoroso relato, o irmão do comandante rasgou a camisa o mostrou a imensa perfuração em seu ventre que estava muito mal cicatrizada. Devido à grande tensão muscular, sangue brotava não apenas desse, mas de outros ferimentos que já pareciam ter cicatrizado. Todos os presentes se chocaram com o tamanho da ferida, ainda mais pelo fato de ela estar quase cicatrizada.

- Diga-me, irmão, quem fez isso? - Perguntou mais uma vez o comandante.
- Ele disse que queria que soubessem quem fez aquilo, ele era um demônio, seu nome era Ignus... IGNUS!


- Acho melhor você se acalmar Comandante Slav. - Disse Haldar tentando aplacar a fúria cega do comandante.
- Como quer que eu me acalme vendo meu irmão naquele estado Haldar?!

O dia já havia a muito amanhecido, mas o estado do irmão do Comandante Slav em nada melhorara. Pela madrugada começou a ter febre alta e violentas convulsões, nem mesmo todas as rezas e feitiços dos curandeiros puderam fazer algum efeito positivo, muito menos seus chás e suas infusões de odores diversos e de cores ainda mais estranhas. O tempo todo ele repetia a mesma estória e repetia o nome "Ignus", isso fez com que obviamente seu irmão logo desconfiasse do mais novo guarda real, que por alguma incrível coincidência, também se chamava Ignus.

- Você acha mesmo que foi o Ignus que fez isso com seu irmão? - Perguntou Haldar com grande incredulidade.
- Meu irmão em sei delírio repete o nome dele como o de seu algoz! - Respon-deu com ferocidade.
- Por acaso não cogitou a possibilidade de ser outro "Ignus"? Afinal, isso não se trata de uma estória de fantasia onde não existam mais de uma pessoa com o mesmo nome, deve haver milhares de "Ignus" por ai.
- "Ignus" não é um nome muito comum, Haldar. Por acaso, quantas pessoas com esse nome você conhece?

Até mesmo Haldar se viu obrigado a concordar como argumento do Comandante, mas continuava achando difícil que o Ignus que ele conhecia ter feito tal coisa, afinal ele estava no castelo há algum tempo e não tinha como ter feito tal coisa, mas mesmo usando argumento em defesa de seu ex-pupilo, o Comandante parecia irredutível em acreditar que o Ignus que ele conhecia, era o mesmo Ignus que seu irmão chamava em seu delírio.

Vendo o estado de seu irmão apenas piorar e tomado de fúria, o comandante resolveu procurar Ignus para tirar a estória a limpo, encontrou-o saindo do alojamento, seguindo em direção ao refeitório para fazer o desjejum. Antes que ele entrasse, Ignus foi violentamente puxado pelo braço pelo Comandante e chamado a se apresentar ur-gentemente na sala de conferências. Ignus olhou com grande incredulidade enquanto o Comandante apertava seu braço, mas devido a sua perplexidade não teve oura reação a não ser seguir o Comandante.

A sala de conferências não era um lugar suntuoso, era uma sala pequena, mal iluminada e que cheirava a mofo. Mapas estavam presos nas paredes, com vários pontos marcados mostrando estratégias de ataque. Vários rolos de pergaminho se amontoavam por toda a parte, todos coberto de muita poeira e parcialmente ocultos pelas várias ca-madas de teias de aranha.

- O que o senhor deseja? - Perguntou Ignus com firmeza, mas ainda confuso pela súbita convocação.
- Foi o senhor que avistou o cavalo com meu irmão, não foi? - Perguntou o Comandante tentando conter um pouco de sua fúria.
- Sim, senhor! - Respondeu com sinceridade, mas ainda sem saber onde essa conversa ia chegar.
- O que mesmo o senhor fazia antes de se tornar um guarda real, senhor Ignus?
- Fazia trabalho mercenário.
- Por acaso, meu irmão também fazia isso. Recentemente ele foi realizar um trabalho que ele disse que seria fácil, exatamente um dia antes de você chegar aqui.
- Foi algo terrível o que aconteceu com ele, senhor. - Falou com certa sinceridade.
- Sim, foi. - Disse enquanto dava a volta por trás de Ignus. - Em seu delírio, senhor Ignus, ele chama o nome de seu algoz, estranhamento quem fez isso ao meu irmão tem o mesmo nome do senhor.
- Uma estranha coincidência. - Falou secamente.
- Demais, senhor Ignus. Que os deuses queiram que o "Ignus" que meu irmão clama, não seja você, pois se for...
- Se for? - Interrompeu Ignus, desafiando o Comandante.
- Pois se for, o senhor iria preferir estar na pele de meu irmão.

Um comentário:

  1. Pô! Pura sacanagem suspender justamente no auge. Espero que a continuação não demore a figurar por aqui.

    Como sempre, muito bem escrito.

    Um abraço.

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