[Conto] Censura S/A.

Nota: conto fictício baseado no que testemunho em telejornais das emissoras com mais anunciantes... Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.

Censura S/A

Marcos sempre quis ser jornalista. Estudou muito para conseguir passar em uma instituição pública. Não apenas seu esforço foi recompensado como arranjou emprego em uma das maiores redes de telejornalismo do Brasil. Marcos tem trinta e cinco anos e vislumbrou pouco do que aconteceu durante o que chamam de Ditadura Militar, mas durante a faculdade foi bem doutrinado a respeito do AI-5 e tudo em torno do que a imprensa e os opositores do regime sofreram. Marcos odeia a ditadura como resultado, ou ao menos todo dia se diz odiá-la.

Mas no entanto Marcos sempre estranhou algumas coisas. Quando ainda era aluno fez uma matéria sobre as mazelas da faculdade e foi aconselhado pelo professor a não continuar. Insistiu, apresentou a matéria como trabalho e o professor o reprovou naquele período. Quando perguntou ao professor, ferrenho opositor da ditadura, porque foi censurado o professor, obviamente, negou todas as acusações e chamou Marcos de insensato.

Foi um fato isolado, mas marcou a faculdade do jovem repórter de modo que o restante do curso foi dedicado a matérias inofensivas. Escreveu muito sobre cachorrinhos fofos, falou bem de padarias ou fez entrevistas com os professores (claro que sem perguntar coisas capciosas). Como possuía um texto polido e de fácil entendimento no primeiro processo seletivo de que participou para a supracitada rede foi selecionado.

Ele sempre via essa empresa como um local sério e referência de qualidade, entretanto o que viu foi algo distinto. Sua primeira proposta de reportagem que denunciava um escândalo de corrupção envolvendo uma rede de supermercados teve o texto alterado e nome da empresa suprimido de todos os parágrafos. Quando fez uma matéria sobre um ministro de telecomunicações também foi rejeitado e até notificado pelo fato. Quando insistiu e quis fazer uma matéria sobre uma marca de xampus foi chamado para a sala da editoria.

A sala da editoria estava ocupada por seu editor-chefe e por dois homens de terno, supostamente advogados. Todos fumavam cigarros de palha souza-paiol (caros, diga-se de passagem) e o editor pediu com educação, mas sem cordialidade, que Marcos se sentasse.

- Jovem, há quanto tempo trabalha aqui? - Pergunta o editor.
- Seis meses. - Responde Marcos, acuado.
- Filho, você precisa aprender a escolher melhor suas matérias.
- Como assim?
- Você é visionário demais, ainda é novo. Meus amigos aqui queriam que o demitisse, mas arrisquei meu traseiro por você, entende isso?
- Senhor, eu realmente não estou entendendo.
- Estou falando de seu direcionamento. - Diz o editor, olhando acuado para um dos homens engravatados. - Está todo errado, você parece militante dos anos 70... E a ditadura acabou! Agora nós vendemos jornal.
- Jornais não seriam para informar?
- Já passamos dessa fase, nossa obrigação é vender.
- Mas...
- Filho, o que quero dizer é que temos que nos vender seja para quem compra nas bancas,quanto para quem nos patrocina. É complicado querer patrocínio quando afetamos nossos anunciantes, entende?
- Heim? - Choca-se Marcos.
- A recomendação que temos é que nossos anunciantes ou pretensos anunciantes não podem ser citados em matérias. Se forem perderemos contratos milionários, e Marcos, são os anunciantes que pagam meu salário e o seu, aliás, o de todos aqui. Você quer que perdemos nossos empregos? Eu não. Você entende?
- Entendo.
- Portanto, se quiser continuar denunciando, pode fazer em outra revista, não a minha, se quiser aceitar minhas recomendações e ser um repórter de sucesso, siga a pauta e apenas a pauta. Por sinal, um dos concorrentes de nossos anunciantes está incomodando, gostaria de fazer uma matéria sobre isso?
- Gostaria. - Responde Marcos, nitidamente contrariado, mas sentindo-se mais acuado que antes.
- Bom garoto... Mas lembre-se, não cite o nome do concorrente, quem sabe ele não pode ser nosso anunciante depois?

Marcos é dispensado e leva consigo o envelope com a pauta que precisa realizar. Ele se sente mal e o peso de tudo aquilo cai sobre seus ombros. Ele caminha sem ânimo para sua mesa e após uma rápida pesquisa na internet encontra algumas informações que precisa e realiza a matéria. O editor a recebe, elogia Marcos e a publica na primeira página como um escândalo. Duas semanas depois essa marca assina contrato com a empresa de Marcos e o escândalo desaparece.

A matéria seguinte foi a respeito de um país ditatorial. Ele inicialmente redigiu a matéria com vontade. Era o tipo e assunto que gostava. Enquanto digitava o texto percebia paralelos vergonhosos entre o país e o seu próprio. Dedicou um parágrafo inteiro a essas mazelas. No final sua matéria foi reprovada, mas não por culpa sua, pois fez tudo de acordo com o ordenado. O problema foi que enquanto redigia a matéria a maior empresa desse país assinou contrato com a empresa de Marcos.

Foi a gota d'água.

Marcos pediu demissão do jornal e foi trabalhar como taxista. Sua veia jornalística passou a ser saciada através de um blog que montou, mas já estava no terceiro. Os anteriores foram apagados quando denunciou ilicitudes do provedor onde estava hospedado.

Hoje em dia quando vê matérias a respeito da censura em outros países se lembra de sua própria história e gargalha.

Marcos vive em um país democrático... Será?

Um comentário:

  1. Marcos vive em um país que nunca soube o que é democracia. A democracia que Marcos pretende exercer, há muito tempo foi transfigurada pelo lei do mais forte ou do mais poderoso.
    Não. Não vivemos em um país democrático, a grande maioria de nós toma decisões frequentemente alicerçadas pela vontade e comodidade dos mais ricos ou mais poderosos.

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