[Opinião] A culpa é das algemas...

Antes de tudo faço perguntas.

Quantas balas tem um revólver? Um fuzil?

E quantas vezes uma caneta pode assinar uma reles rubrica? Uma assinatura? E não precisa ser uma super-caneta, ou mesmo o "lápis" do Coringa, pode ser apenas uma caneta bic, daquelas de R$ 0,70.

Na visão dos nossos governantes a vilã do momento é a algema. Algemas apenas podem ser utilizadas por pessoas pobres que resistam a prisão, ou seja, só será algemado depois de tentar fugir, antes não. E claro, seguindo a teoria do mais valia, ou seja, quanto mais vale você ou sua quadrilha para a OAB maior é a possibilidade de não ser algemado.

É um precedente cruel que favorece a criminalidade. Imagine aquele preso que não é um traficante, mas um dos contatores da firma. O advogado deles. Pela interpretação atual ele não apresenta ameaça, logo, não pode ser algemado. Fica leve e solto dentro da viatura. Uma quadrilha que deseje recuperar essa fonte de informação não precisa mais carregar ferramentas pra cortar as algemas, pois com certeza o advogado não será algemado.

Algema é uma coisa muito ruim, afinal de contas, só bandido é algemado e na interpretação que o povo e a elite desse povo apenas é algemado assassino, traficante ou qualquer pessoa que se enquadre nos crimes contra a vida. O resto é apenas ilegal, mera contravenção. Ilegalidades punidas com multa são apenas "broncas". E só. Não existe da parte do povo um entendimento de que matar uma pessoa ou buzinar na porta de hospital são a mesma coisa, ou seja, crimes.

E volto ao mesmo tema da pergunta inicial:

Quem mata mais gente, um louco na rua com um revólver 38 ou um Diretor de Hospital que faz desvio de verbas da saúde?

Quem mata mais gente, o policial mal treinado portando um fuzil ou o Governador que não torna possível o treinamento/aprimoramento da polícia e autoriza pessoas despreparadas nas ruas?

Quem mata é mais perigoso, o ladrão de galinha que será preso, surrado, humilhado e nunca conseguirá sequer Habeas Corpus no STF (isso quando não são enfiados no presídio e literalmente esquecidos pela "lei") ou Daniel Dantas que comanda uma rede de corrupção de anos?

Quem mata mais, o traficante que controla o morro ou o poder público que nunca ordenou a ocupação definitiva das favelas ao invés de incursões violentas?

A única diferença entre um e outro é o crime em que se encaixam. E que os primeiros citados em minhas perguntas serão sempre algemados, enquanto os segundos? Esses nem presos permanecem, agora muito menos serão algemados. É a constatação que o Estado Democrático de Direito morreu, e já estão jogando a pá de cal em cima.

Nenhum corrupto é preso por homício doloso ou mesmo culposo quando desvia verbas. Nenhum corrupto paga pelas vidas que destrói com seus desvios, ainda que sequer se importe que o dinheiro público/particular que desvia poderia ser utilizado no bem comum. Eles não se importam, afinal de contas, a lei está do lado deles, é feita por eles e para eles.

E o povo é obrigado a ver mais uma vez algo levar a culpa, dessa vez, as algemas.

Quando no mês passado dois policiais mal treinados e com certeza em estado de pânico metralharam o carro onde estava o pequeno João de 2008 (em 2007 seu sobrenome era Hélio, hoje em dia é Roberto) qual a posição das autoridades? Como culpar os policiais não é bom, pois essa história de "tudo é culpa da PM" não cola como antes, melhor culpar alguém que não pode responder. E culpar o pequeno João Roberto também não faria bem. Como ninguém morreu pra ser culpado, o judas daquela vez foi o fuzil.

É, como escutei de policiais: um dia de manhã vem o comandante, entrega fuzis e manda que usem nas patrulhas. Apenas os policiais que vieram do exército sabem usar fuzil, os que eram civis mal deram tiros no treinamento da PM. E agora? Agora eles tem que se virar e aprender a usar antes que levem chumbo. Se não podem pagar um curso, que peçam ajuda a algum amigo.

No "final", quando aconteceu aquela terrível tragédia anunciada, o secretário de segurança culpa o fuzil. João Roberto não morreu por causa do despreparo dos policiais, nem por causa da falta de treinamento da corporação. Também não foi por descontrole psicológico ao ser jogado em ruas de uma cidade em estado de guerra sem colete e em uma viatura de papel machê (que fura até com galho de árvore). A culpa é do fuzil. O fuzil tem pernas e braços e agora dispara sozinho. É uma mágica!

Mas pelo jeito o povo gosta disso. O importante é culpar algo, não necessariamente assumir a culpa. Se não podem culpar algo que pode responder, a nova moda na política é culpar objetos.

Culparam fuzis pelo despreparo da polícia carioca, culparam as garrafas de alcóol pela falta de fiscalização e bafômetros nas polícias e Detrans e porque não culpar as algemas pelos desvios de verba? Afinal de contas, como disse acima, que mal pode fazer um simples corrupto... Nenhum, né?

Qual será o próximo objeto culpado?

Lembre-se, estamos em ano eleitoral... E as Olímpiadas são de manhã, ou seja, não tem desculpa.

Ou as Urnas são as culpadas?

2 comentários:

  1. Infelizmente, os culpados somos nós mesmos ao não votarmos; ao votarmos com displicência; ao votarmos em branco e nulo; efim, o cidadão que não qyer saber. Que acha que só reclamar resolve que apenas "se indignar" fará alguém mudar. Indignação sem ação; é pura hipocrisia.

    ResponderExcluir
  2. O problema não é a algema, é quem será algemado.

    É notório o caos que vive o Brasil na área da segurança pública. Os órgãos de segurança estão à beira de um colapso e contrariando a percepção de muitos brasileiros, a nossa Polícia Federal, que tem nos dado muito orgulho nos últimos anos, também enfrenta uma situação periclitante. As superintendências possuem uma estrutura senão adequada, ao menos razoavelmente suficiente para cumprir o seu papel. Aos que conhecem as Delegacias da Polícia Federal, principalmente na região norte do país, sabem do que estou falando.

    O que dizer então das primas pobres da Polícia Federal, aquelas que lidam em tese, com os crimes corriqueiros, aquelas que o cidadão comum recorre a qualquer hora do dia ou da noite, inclusive nos finais de semana e feriados, aquelas que por insuficiência de servidores, os policiais dobram seus plantões, sem receberem nada por isso, exceto a satisfação do dever cumprido. Isso mesmo, estamos falando das Polícias Civis.

    Temos ainda a Polícia Militar, execrada por muitos, em razão de alguns maus policiais que sujam o nome da corporação e que a imprensa e a sociedade têm a facilidade de generalizar atos isolados.

    As forças de segurança são distintas, cada uma com suas atribuições, todas buscando incessantemente cumprir seus deveres e muitas vezes, pela ausência de estrutura e logística adequadas e no afã de obtenção de resultados satisfatórios, ocorre a “invasão” de uma ou outra força de segurança na seara de uma co-irmã: É Polícia Federal investigando crime cuja atribuição é da Polícia Civil; é Polícia Civil investigando crime cuja atribuição é da Polícia Federal; é Polícia Militar querendo se aventurar na área de investigação; E o resultado é o crescimento vertiginoso da violência que estamos presenciando no nosso país.

    Percebemos um contra-senso não apenas da imprensa, notadamente o “4º Poder da República”, mas também das autoridades, principalmente aquelas ditas integrantes do primeiro escalão.

    Recentemente foi amplamente divulgado nacionalmente a barbárie de integrantes do Exército, que entregaram alguns jovens a traficantes rivais, resultando na morte desses jovens.

    Para a imprensa, para a opinião pública e para diversas autoridades, os verdadeiros criminosos são os milicos que entregaram estes jovens para traficantes rivais e não os traficantes e os demais criminosos que executaram estes jovens. Quanta hipocrisia!

    É muito mais fácil culpar esses milicos do que subir no morro e pegar os criminosos, pois a imprensa e a sociedade se contentam com uma satisfação, não se preocupam com a solução do problema.

    E como se não bastassem todas as dificuldades cotidianas enfrentadas pelas Polícias e todas as estatísticas indicando a elevação assustadora dos índices de criminalidade no Brasil, demonstrando nitidamente que estamos perdendo a guerra para o crime, vem um sapiente Senhor Ministro do Supremo, presidente da mais alta corte de Justiça do país, coberto com sua impecável toga, detentor de altíssimo conhecimento jurídico, porém um verdadeiro analfabeto quando se trata de segurança pública, dizer que o uso da algema não é mais regra, e sim exceção.

    Na verdade a pretensão do Senhor Ministro não era excepcionalizar o uso da algema. Se pudesse, talvez ele diria: “Senhores Policiais, meus amigos não devem ser incomodados e principalmente algemados. Eles colaboram com as minhas despesas, ou vocês acham que é possível levar uma vida digna com o salário de Ministro do Supremo? Se vocês continuarem assim, logo logo eu e meus pares estaremos aparecendo no Jornal Nacional usando esse adorno desconfortável. Sinto muito, mas teremos que lhes cortar as asinhas antes que venham bater às nossas portas de madrugada.”

    E para motivar esta decisão, nada melhor do anular a condenação de um pedreiro, pobre, que praticou um homicídio qualificado, pelo simples motivo de ter sido julgado algemado.

    Irônico neste caso, é que a decisão de algemar o preso partiu da magistrada de Laranjal Paulista, Glaís de Toledo Piza Peluso, filha do vice-presidente do STF, Cezar Peluso, que inclusive, criticou duramente a decisão da uíza, dizendo que tinha partido de um magistrado inexperiente, obviamente antes de saber que se tratava de uma decisão de sua filha.

    Analisemos este caso: Um preso em julgamento pelo Tribunal do Júri, onde estavam diversas pessoas, que facilmente poderiam evitar uma fuga ou imobilizar o preso, ainda assim, a magistrada entendeu, certamente por prudência, que o preso deveria ser julgado algemado.

    Imaginem o Policial, algumas vezes sozinho, efetuando uma prisão na rua, e o criminoso certamente já instruído por um astuto Advogado: “Se me algemar eu te processo. Você vai responder por Abuso de Autoridade, Danos Morais, além de um Processo Administrativo que vai lhe expulsar da corporação. Você tem família. Têm filhos. Como você vai alimenta-los. Pára com isso, toma aqui esse dinheiro e faça de conta que nunca me viu. Isso é mais do que você ganha em um mês inteiro de trabalho e ainda não vai ter que responder a nenhum processo e nem ouvir seu filho chorar de fome.”

    Se o bandido tiver a sorte de ter sido preso por um dos poucos Policiais desonestos existentes nas Polícias, certamente comprará sua liberdade.

    Entretanto, se der o azar de ser preso por um dos muitos Policiais honestos, este poderá lhe dizer: ”Me respeita vagabundo! Ta me confundindo com Ministro do Supremo?”

    Esse é o nosso Brasil!

    ResponderExcluir

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.