[Luto] "Desafia o nosso peito a própria morte!"


Hoje foi confirmada a morte cerebral de Cleyde Prado Maia.

Como no trecho que coloquei acima, retirado de nosso hino, mas não com a intenção honrosa e sim com ironia e vergonha de quem desafiou e perdeu, sem conquistar nada e ao mesmo tempo tudo.

E quem é?

Ela é a mãe da adolescente Gabriela, que anos atrás foi vítima da violência cotidiana do estado de guerra civil não declarada pelas "otoridades" em que se encontra o Rio de Janeiro.

Como era de se esperar, em um país vergonhoso como o nosso ela deixa o mundo sem testemunhar sua luta render os frutos que mais desejava. Ela lutou contra a impunidade e com mobilização popular conseguiu enviar ao congresso uma série de propostas que objetivavam tão somente diminuir a sensação de impunidade cada vez mais constante.

Não conseguiu. Sua iniciativa foi colocada de lado pelo congresso em mais uma prova cabal de que o poder não emana do povo, ao contrário do que apregoa equivocadamente nossa constituição.

Morre para encontrar sua filha em algum lugar melhor que o nosso, onde talvez encontre a paz que não encontrava aqui. Morre talvez para ser poupada da vergonha que será testemunhar a derrocada da moral e do civismo brasileiro como um todo. Morre para ser feliz em algum lugar onde possa receber de volta o tanto de si que sacrificou por uma nação ingrata.

Se junta a uma enorme fileira de brasileiros que deram murro em ponta de faca por anos para apenas perder os punhos dilacerados. Entretanto padecem com o orgulho de terem tentado algo, enquanto milhares mínguam dia a dia em mesas de bar xingando e difamando políticos que depois elegerão em troca de parcos centavos na forma de bolsas ou cotas.

Evidentemente que Cleyde Prado Maia encontrará a paz e o amor que tanto deseja.

E mais evidente ainda é saber que com sua morte nosso país perdeu mais uma oportunidade de corrigir seus erros.

Quantos mais morrerão lutando sem alcançar os ideais que em nosso país parecem mais sonhos utópicos do que metas alcançáveis?

Quantos mais desistirão?

Quantos?

Descanse em paz, você é uma vencedora, pois conquistou sua vitória ao lutar. Mas perdeu sua luta contra nosso país injusto e cruel.

E quem mais perdeu foi a sociedade... E continuaremos perdendo até quando?

Para informação dos que não sabem:
Gabriela foi assassinada no dia 25/03/2003 em uma estação de metrô do Rio de Janeiro (São Francisco Xavier) e desde então, paralelo ao complicado processo judicial, sua mãe tomou para si uma odisséia pessoal visando tão somente diminuir a sensação de impunidade que já naquela época era algo preocupante.

Sua mãe iniciou um movimento chamado de Gabriela Sou da Paz e esse movimento tinha por objetivo colher assinaturas para enviar ao congresso propostas que desejavam, dentre outras coisas, diminuir essa impunidade. Em 08/03/2006 conseguiu a quantidade de assinaturas necessárias e o projeto foi encaminhado. E só.

Como numa piada sem graça a mãe de Gabriela foi vítima da impunidade e do caos da justiça, quando o processo foi misteriosamente queimado sob circunstâncias tenebrosas ou quando um dos envolvidos foi solto pela justiça por causa das brechas na lei que Cleyde combatia.

Hoje ela se vai e o projeto estagna no congresso e nenhum dos três poderes se preocupa com isso, pelo contrário, quando o STF aumenta a sensação de impunidade como no caso das algemas ou quando rasga a constituição e dá privilégios de autoridade pública a um banqueiro de caráter duvidoso dilacerando a hierarquia judiciária ao conceder Habeas Corpus por motivos misteriosos.

Fonte:
O Globo:
- Confirmada morte cerebral de Cleyde Prado, do Movimento Gabriela Sou da Paz

Gabriela Sou da Paz:
- http://www.gabrielasoudapaz.org/

4 comentários:

  1. É muito triste que a força e a luta por uma realidade melhor e menos injusta acabe sempre desta maneira. É muito difícil de se imaginar tendo filhos e os submetendo aos perigos eternor desta sociedade...
    Muito, muito triste...
    Bjs!

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  2. Pois é, uma perda irreparável para os bons.

    Supreendente e lamentável essa morta.

    Também escrevi um artigo em homenagem. E o mais incrível, é que nenhuma autoridade ainda se manifestou sobre o caso. Eles "querem é mais".

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  3. E mais batalha vai ser perdida pelo cansaço...

    Não tenho mais a dizer.

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  4. Daqui a pouco dão o nome dela pra uma rua e todos podem voltar a levar suas vidas como se nada tivesse acontecido

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