[Conto] O Bem do Mal.

O sangue vertia pela ferida exposta e ardia ainda mais em contato com a areia. Não lembrava de seu nome nem porque acordara no meio daquele lugar. A dor só não era maior ainda porque ele sentia sede, muita sede e seus olhos apenas viam no horizonte dunas e mais dunas.

Caminhou algumas horas sem rumo, sem encontrar nem mesmo plantas que indicassem a remota possibilidade de encontro d'água. De repente, quando o sol já começava a se pôr ou algo parecido escutou o som de um carro se aproximando. Era um jipe verde-musgo aparentemente de uso militar e pilotado por um homem branco trajando um terno impecável.

- Você sabe porque estou aqui. - Disse o homem.
- Deveria saber? - Questionou.
- De fato, não deveria. Esqueci-me do que prometemos.
- O que veio buscar?
- O que imagina? Que tipo de criatura viria até esse pedaço de nada escondido em porra nenhuma?
- Uma bem... Estranha?
- Definitivamente, vocês são patéticos.
- Nós?
- Humanos.
- Meu senhor, por acaso não possui um espelho?

Sem dizer uma única palavra o homem de terno gesticulou na areia e água começou a se empoçar, mostrando seu reflexo. "É verdade", indagou enquanto o homem sem nome tentava alcançar a água que desapareceu da mesma forma que surgira.

- Você! Dê-me a água de volta! - Desesperou-se o pobre coitado, tentando espremer a areia para retirar nem que uma gota do precioso líquido.
- Porque deveria? O que ganho em troca? - Sorriu o homem, cujos olhos cintilavam vermelhos enquanto anoitecia.
- Eu estou com sede! - Berrou o desmemoriado.
- Eu também estou com sede!
- Então mate minha sede...
- Se eu matar sua sede, você não mata a minha.
- Por acaso é um vampiro? Quer meu sangue?
- Longe disso, se eu fosse um vampiro porque estaria no meio dessa merda de lugar? Para beber sangue seco? Definitivamente, seria o vampiro mais idiota desse mundo... O que desejo de você é mais refinado.
- Refinado?
- Sim, para tanto apenas precisamos esperar. Eu e você, aqui, temos uma longa noite no meio do nada até que possamos continuar nossa conversar.
- Continuar? Fala como se o conhecesse de antes...

O engomado retira do bolso do paletó um emvelope lacrado com cera vermelha. Ele manipula o papel como se fosse um vidro de perfume dos mais caros e respira fundo, saboreando-se com um aroma que o outro é incapaz até mesmo de entender o que é. Ele retorna até o jipe, recolhe um livro de capa preta e senta-se no banco do motorista para ler.
- Qual seu nome? - Pergunta o desesperado, enquanto sente suas pernas começarem a ceder ao cansaço e a sede.
- Qualquer um, já fui chamado de muitos... Me chame apenas de Homem.
- O que está lendo? - Perguntou interessado.
- Se chama "Namu Amida Butsu". - Responde. - É budismo, conhece?
- Não sei.
- É uma das milhares religiões que pregam a auto-enganação.
- Não estou interessado.
- Eu sei que você odeia religião, até terça-feira passada era ateu.
- Se me conhece tanto porque não me poupa o sofrimento e me diz logo quem sou?
- E perder o prazer de vê-lo confundir-se mais ainda? Aliás, reparo que a ferida em seu corpo piora. Deve estar infeccionando.

O homem observa a ferida na perna e sente repulsa ao reparar que a carna viva agora está escurecendo e sem tato. Sente um temor horroroso e desespera-se. Berra e pede ao visitante que ligue o carro para saírem dali. O homem apenas folheia o livro e o ignora. Ele insiste e pensa em arrancar o homem do carro. Agarra-o pelos ombros e tenta puxá-lo. O homem parece parafusado no veículo, pois não se mexe.
- O que diabos você é?
- "Que" não, mas sim "quem", eu diria. - Responde sorrindo.
- Deve ser uma alucinação, só pode ser. Qual o sentido de sua visita? Quer minha alma? Pela maneira como age creio que já é sua.
- Ótimo, isso significa que temos um trato?
- Siim, contanto que me tire daqui.

O homem arrebenta o envelope e mostra um papel de paelo grosso e em revelo com letras douradas. É um contrato de cessão que é lido com afinco, ainda que a pouca luz da noite torne tal feito um prodígio. Ele não assina, deixa apenas sua digital marcada com seu sangue que ainda escorre. O homem observa o papel com afinco, dobra-o e recolhe-o no envelope. Em sequida liga o motor do carro e pede que se junte com ele.

Ele sobe e o carro anda por pouco menos de trinta segundos e revela do outro lado de um monte de areia uma estrada com um ponto de ônibus. Relutante e descepcionado consigo mesmo ele é arremessado com violência contra o chão enquanto seu até então benfeitor segue viagem e desaparece na estrada. Triste apenas senta-se em um banco do ponto de ônibus e cantarola alguma canção que deveria ser em inglês, mas parece muito mais garranchos vocais.

Passada meia hora um ônibus finalmente surge no horizonte. Empolgado ele se levanta e gesticula para o motorista. O ônibus liga a seta direciona-se e para. A porta se abre e revela um confortável ar condicionado. O motorista é um homem de pele negra e de meia idade. Veste um uniforme de camisa azul-bebê e calça negra.
- Tem o bilhete, meu senhor?
- Bilhete? Olhe para mim! Veja onde estamos! Como imagina que conseguirei bilhete aqui?
- É política da empresa, apenas deixamos entrar aqueles que portam o bilhete.
- Bilhete? Pelo amor de deus! Leve-me daqui!
- Tenha calma, homem. Qual seu nome?
- Fabiano.
- Apenas Fabiano?
- Fabiano Glauco dos Santos de Oliveira.

O homem pega um enorme livro no porta luvas e o abre. Fabiano observa com atenção enquanto o motorista analisa nome a nome. Levam mais cinco preciosos minutos até que finalmente feche o livro, abra um enorme sorriso e cordialmente observe Fabiano dos pés a cabeça.
- Aqui você não embarca.

A porta se fecha e o ônibus parte. Fabiano se agarra como pode na porta mas apenas consegue voar alguns metros e rolar pelo asfalto se machucando ainda mais. Seu corpo dói mais agora que antes, e uma raiva começa a percorrer seu corpo.
- Criolo filho da puta! - Berra Fabiano, sem se importar.

De repente no horizonte surge um enorme pau-de-arara. Um daqueles caminhões que levam pessoas do nordeste para o sudeste completamente abattorado de pessoas. O veículo mal consegue se locomover. Fabiano gesticula para o motorista, que imediatamente freia, deixando cair do veículo pelo menos dez pessoas que sobem de volta tão rápido quanto caem. Fabiano nota que o piloto do veículo é ninguém menos que o mesmo que antes o atendera.
- Você? - Espanta-se Fabiano.
- Eu! - Responde o motorista, com um sorriso mais largo que o humanamente possível.
- Como chegou aqui?
- Nunca saí daqui. Você chegou como aqui?
- Pare com isso... Seja mais direto.
- Direto? Você é cego? Tenho um caminhão cheio de gente aqui... De onde imagina que o viria, aliás, de onde imagina que eu viria?
- Você estava comigo até alguns minutos atrás.
- Eu? Deve ter sido outra pessoa.
- Não! Tenho certeza que foi você!
- Você está com insolação ou falou com meu irmão... Você falou com meu irmão?
- Eu falei com você!
- Temporada de pato. - Diz o motorista, sacando um cigarro e acendendo-o esfregando entre os dedos indicador e polegar.
- Heim?
- Temporada de pato. Essa discussão naõ leva a nada, você é teimoso que nem uma mula e eu sou apenas um motorista. Você quer uma carona ou quer discutir?
- Como sabe que quero uma carona?
- Porque você deu sinal alguns segundos atrás pedindo carona? Ou sua confusão mental é tão grande que te faz esquecer as coisas? Você tem bilhete?
- De novo essa pergunta...
- Tem ou não tem?
- Não tenho.
- Então arruma um canto lá atrás e vamos embora.
- Para onde?
- Um lugar legal.

Fabiano sobe no pau-de-arara. Ele se ajeita como pode entre uma família de pessoas de roupas caras e rasgadas. Por sinal, ele nota que todos ali são parecidos com ele em algum detalhe. São pessoas de cabelos cortados e bem vestidas, apesar de abatidas. Não possuem nenhum tipo de característica que os torne típicos daquele meio de transporte. Finalmente se dá conta que não perguntou ao motorista o destino daquele pau-de-arara.

Sua resposta vem rápido, quando uma placa na estrada surge.

Nela está escrito: 6° Círculo.

Enquanto isso no corredor em frente da porta de um pequeno quarto de um hotel escondido do nordeste duas meninas de menos de doze anos saem carregando consigo duzentos reais da carteira de um homem que poucos minutos atrás as espancava e bolinava para deleite pessoal.

Afoitas e naturalmente felizes não percebem quando um homem de terno se aproxima. Ele cruza com elas e tromba propositalmente, assustando ambas. O quarto ainda está aberto e o corpo quente de seu aproveitador ainda convulciona. Sarcástico ordena a mais alta que feche a porta e deixe o homem dormir em paz. A menina obedece e corre juntando-se a irmã. O homem dá duas balas para cada uma e se despede.

"Os fins justificam os meios!", comemora em mais uma noite produtiva no país dos pecados.

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