[Opinião] Transformado em estatistíca.

Já cansei de falar de violência.

Eis que agora me torno mais uma vez vítima dela.

A pior coisa que pode acontecer a uma pessoa em uma sociedade não é simplesmente ser vilipendiada pelo simples furto ou tomada de seus bens, mas quando criaturas merecedoras de empalamento em praça pública blindadas pela couraça da impunidade brasileira agem.

Dessa vez aconteceu comigo.

Estavam eu, Lara e um amigo caminhando em direção a estação praça XV das barcas. Eu carregava comigo minhas compras, alguns bens pessoais e o dinheiro necessário para pagar o aluguel de onde estou morando atualmente (que é, diga-se de passagem, o motivo pelo qual tenho postado quase nada desde o final de outubro). Enquanto passava em frente ao prédio do Fórum Central (adendo: tecnicamente o "templo da lei") três filhos da puta surgiram para estragar o raro bom dia que tive nesses tempos.

O primeiro abordou a Lara e exigiu o celular dela, um segundo veio para cima de mim. Nosso terceiro amigo passou direto, sem reação. Tentei fugir enquanto Lara era dispensada pelos criminosos. Apenas escutei a frase "se não quer morrer passa tudo".

Sabe aquela história de " tente conversar" ou " faça o que eles pedem". Sempre pensei que é baboseira, afinal de contas, essa corja de filhos da puta age de acordo com a taxa de drogas na mente ou seja lá qual merda tem na mente. Não satisfeitos em me cercar, pois ao pensar em fugir vi um terceiro assaltante se juntando ao serviço, os desgraçados decidiram também rasgar minhas roupas.

Em suma, além de levaram com eles minha pochete, setecentos reais que pagaria contas e aluguel, meu celular pessoal e o de serviço, meu relógio (o que nesse caso foi um favor, dado que não era algo confiável) e cartões de banco ainda levaram minha dignidade.

Celulares compro outro, cartões pego outro, pochete arrumo outra, mas passar a vergonha de ter as roupas rasgadas no meio da rua por três filhos da puta é degradante. É um sentimento que vai além do tradicional da impunidade, é ódio. Nunca odiei tanto o lugar onde vivo quanto hoje. Nunca odiei e odeio tanto o Rio de Janeiro quanto agora. E principalmente: nunca senti tanta vontade de fazer justiça com as próprias mãos quanto agora.

Não me sentirei satisfeito quanto for segunda-feira na delegacia fazer o boletim de ocorrência (pois onde moro não tem delegacia - moro em Paquetá). Mesmo que sejam presos, não quero apenas que paguem com a liberdade, até porque são pessoas nitidamente irrecuperáveis. Assaltante que destrói dignidade não merece mais do que sete palmos.

Não morri porque não estava sozinho, eles iriam sim me matar. Vi em seus olhos, mas hesitaram porque a Lara e meu amigo ainda estavam visíveis, ou seja, testemunhariam ou fariam algo se dessem cabo de mim.

Definitivamente, não sei nem o que dizer, até porque... Deixa pra lá. O que é deles está guardado.

Por sinal, não eram bandidos de fora, eram mendigos da região, uma praga social que no Brasil não tem solução porque vadiagem não é crime e assaltante é vítima e a vítima é o algoz.

País de merda. Gente de merda.

Obs: por algum milagre que não entendi não levaram meus documentos, mas quase levaram. Não que não quisessem, mas porque desistiram por algum motivo desconhecido.

Em breve vou colocar as fotos do post-assalto, não coloquei porque ela está sem o cabo da câmera.

Aliás, no final das contas apenas eu fui assaltado. Os outros escaparam.

Desculpem o palavreado nada florido, mas tem horas que não dá pra aguentar.

9 comentários:

  1. é por isso que eu sempre digo. Pobreza e miséria não justificam a falta de caráter. No passado, quando perdi meu pai, passamos fome, minha mãe foi explorada como empregada doméstica, trabalhando 24horas por meio salário mínimo.

    Também moro em casa alugada, pois a primeira que consegui construir foi-me roubada por um "falso amigo" de meu marido em quem ele confiava.

    Aqui, eles vem a noite, chegam quase junto comigo da faculdade. Ainda são mansos, pedem algum alimento ou coisa parecida mas, escolhem a penumbra para fazer isso. Sei do que acontece aí e já te falei que me preocupa.

    O grande problema Dragus, são os direitos humanos que para nós, seja o que nos acontecer não será levado em conta mas, aos marginais
    sempre encontram uma justificativa para os atos que cometem.

    Mas, tenta esfriar um pouco a cabeça... antes de qualquer atitude.

    Eles não valem que sujemos nossas mãos...

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  2. Felizmente eu nunca passei pelo que citou, mas posso imaginar o que sente. Eu já fico altamente desconfortável com os 'guardadores' de carros, que na verdade nos exigem suborno para não fazerem nada com nosso carro. E o pior é que na minha cidade isso foi institucionalizado, virou profissão.

    Mas voltando ao assunto, infelizmente não vejo luz no fim do túnel. Estamos numa sociedade desestruturada, com um sistema educacional e legislativo falido. E infelizmente os que possuem o poder de mudar não convivem com os problemas, e consequentemente não se preocupam em resolvê-los.

    Sei do ódio que isso pode ter causado, mas tente eliminar isso, pois infelizmente este sentimento somente fará mal a você, e não a quem lhe fez isso.

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  3. É Dragus, a sensação de humilhação talvez seja a pior seqüela de um assalto, sem mortos e feridos.

    Faz um bom tempo ( mais de 10 anos )que ali nessa praça XV ,no local que hoje vemos o mergulçhão do inferno, eu quase fui vítima de um assalto... Quase... Fui salvo , por ter no pescoço um colar que um moleque me deu em uma das viradas de noites em botecos de Copacabana.
    Esse cordão com barbante preto, tinha um pingente feito em acrílico e o formato de uma bala de revolver. Quem os fabricava eram os muleques na Febem, Funabem, ou seja lá qual o nome da instituição do mal, que deveria educa-los.
    Só sei que um dos que formavam o grupo de assaltantes viu o colar e gritou para os outros me liberarem.
    Sorte minha ter esse patuá marginal na época.

    Em outro assalto sofrido, só que mais recente, envolveu também minha esposa. Estávamos caminhando para o ponto de ônibus na madrugada em Ipanema, quando fomos abrodados por 2 caras em uma moto. Um deles mantinha a mão por debaixo da blusa simulando estar armado.
    Minha esposa resistia aos puxões em sua bolsa,e eu em pânico temendo pela vida da mãe de minhas filhas, mandei ela entregar a bolsa Eu estava receoso de sermos mais uma vítima da estatística macabra

    Quando o assunto chegou aos ouvidos dos colegas de trabalho, fui alvo de chacotas que davam conta de uma possível covardia minha, por ter mandado a esposa entregar a bolsa e conservar a vida.

    Triste distorção, triste realidade de selva de pedra e habitada por predadores selvagens e hienas acomodadas.

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  4. Cara

    Ja fui assaltado três vezes. Sabe o que me deixa mais puto?

    É quando vem aquele povo metido a revolucionário-social e ainda dispara que os ladrões são vítimas da desigualdade social.

    Sim, talvez sejam. Mas não admito que, além de celular e relógio, eles ainda roubem o meu papel de vítima no assalto. Só falta neguinho dizer que você a culpa de você ser assaltado é sua.

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  5. A tal da justiça com as próprias mãos sempre me vem à mente. Quando penso no que eu faria num asituação como esta sua. Talvez eu até não ficasse com essa sede toda de vingança (mas tou dizendo talvez), mas com certeza tem coisas que me fazem pensar muito em cometer uma atrocidade para pagar outra atrocidade.
    Eu tenho uma filha, uma pequena bebe. E quando vejo essa onde estupros e assassinatos de meninas inocentes, por filhos da puta que estão apenas infestando a sociedade com suas mentes podres e irrecuperáveis, eu penso, que, numa situação, como a que aconteceu na minha antiga cidade, em que um cara estuprou e agrediu uma menina de 5 anos de idade. Se fosse minha filha, o cara com certeza não estaria preso... Pois eu estaria. Eu não ia conseguir deixar o cara ficar todo pimpão vivendo tranquilo depois de ter feito aquilo.... Se não matasse, caparia.
    Acho que tem horas que nossa justiça é um lixo, e por isso os bandidos abusam. Mas como tem vários países mundo afora que tembém tem bandidos aos montes, mesmo com uma justiça mais bem trabalhada e mais bem feita... É difícil acreditar que realmente a justiça sozinha consiga alguma coisa. Quando eu digo justiça, neste caso, estou me referindo às leis. Pois justiça de verdade é outra coisa.

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  6. Cara, antes de mais nada, eu nem te conheço mas antes de mais nada te mando tudo de bom que seja possível ( e nessa hora nos passa pouco de bom pela cabeça ) e, tu tá bem? Te pergunto por que já passei por isso e sei toda merda que é. A sensação de impotência é horrenda e a raiva que vem junto e mais uma série de conclusões que se tira, é um momento chato. Eu não consigo ir muito além, mas uma coisa te digo, eles te roubaram e como tu mesmo disse podiam ter feito pior, mas roubar tua dignidade não, simplesmente não. Eles te deram raiva, bronca e todo esse sentimento de querer fazer com que eles paguem pelo despropósito que fizeram eu também senti. Não é humano o que fizeram contig. A bronca não é nada além de justa, mas tirar dignidade cara? Esquece, se tivessem tirado tua dignidade tu não teria os colhões de dividir um momento ingrato e fudido desse com qualquer pessoa que passe pelo teu blog, por exemplo. Quem quer as coisas nos seus devidos lugares e tem coragem de contar que outra pessoa tentou desumanizar a ti, a Lara e o teu amigo é coisa de qualquer um, menos de alguém que perdeu a dignidade. Pelo contrário, essa aí tá latejando e pulsando fula da cara, querendo da maneira que for qualquer tipo de justiça e agora mesmo.

    Eu nisso tudo não tenho nem saco pra entrar na discussão da violência urbana. Eu simplesmente quero dizer, e dizer pra Lara e pro teu amigo que me solidarizo com vocês, e o que disse pra ti vale pros dois igualmente. Fica certo duma coisa, e nessa quem vê de fora ( e tá acostumado com situações desse tipo por força da quase-profissão ) pode te dizer, que não só o que tu faz aqui realça e demonstra a tua dignidade e coragem de ter pra contar e lembrar um episódio chato pra cacete que nem esse, não é pra qualquer um. Só gente com dignidade pra fazer o que tu fez aqui. Eu quero mesmo é me solidarizar, só isso, me alonguei como de costume, mas dessa vez até mesmo quem tá do lado de fora acaba indo um pouco além.

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  7. Pô, se não queria fazer aqueles gráficos não precisava rasgar suas roupas pra fingir um assalto

    Me passa um telefone pra eu falar contigo que na mudança eu me perdi com os números

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  8. Dragus, o que eu vou lhe falar vai ter que ser encarado como lei, pois eu já fui assaltado 17 vezes. Minha dignidade foi levada 17 vezes e dessas 17, 10 eu estive com uma (ou mais) armas apontadas para minha cabeça.

    Reiterando o que você disse: no Brasil, NINGUÉM MAIS ROUBA PARA COMER. Perder a grana e os outros bens é uma merda, mas saber que os fidaputa vão trocar seu celular por uma grade de cerveja, em um ingresso no baile funk ou em um kilo de maconha é a parte pior. Esses miseráveis assaltam a torto e a direito para comprar as roupas que veêm em malhação e pagar cerveja para as favelentas em algum bar trash. São uns vermes.

    É uma bosta? É.
    É humilhante? É.
    Dá ódio? Dá sim.

    Mas nunca, jamais cara, de maneira alguma ceda à raiva e parta para cima. Não se arrisque. Esses vermes atiram por diversão cara. Pense no que você tem a zelar em casa. Sei que você é um cara sensato, mas também sei que alguma hora você vai explodir e quere arrancar a cabeça do cara, mas repito, não ceda.

    Não faça feito eu, que se negou a ser assaltado dizendo "não, não dou a bolsa. Se foda!". Foi um momento de loucura que por sorte deu certo.

    Se for para bater, bata antes, e pergunte depois.

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  9. Oi Dragus!

    Olha... o símbolo da justiça (a tal imagem, com venda nos olhos e a balança), nunca se fez tão presente, como nos dias de hoje.
    A justiça é cega (surda, muda e burra).
    Num país de merda, com políticos de merda, que só fazem merda... o que esperar?

    A impotência e indignação, tomam conta da gente.

    Numa das vezes em que fui assaltada (indo trabalhar, as 5 da manhã), levaram meu relógio, vales-transporte, cigarros e uma quantia perto de R$100,00.
    Pasme... o filho da puta virou e disse:
    "- Além de magrela, é pé-rapado... só anda com mixaria, esse dinheiro não dá nem pra cachaça.

    O pior, é a justificativa de que, a pobreza, leva a esse tipo de comportamento.
    É ruim, hein !!??
    Já lavei até banheiro de madame (como renda alternativa), pra criar meu filho.

    Hoje eu sou aposentada.
    E o povo ainda me pergunta, porque vivo enfiada dentro de casa.

    Boa semana!

    PS.:Desculpe você também, o palavreado. Mas é difícil manter a postura, em situações como essa.

    *

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