[Contos] Limão

- Amor?
- O que foi, querida? - Responde Ernesto, com sono e ainda babando na cama.
- Estou com desejo.
- Eu também, de dormir. - Novamente Ernesto se vira e volta a roncar.
- Amor...
- Hmm?
- Amor?
- Que foi?
- Estou com desejo! - Berra a esposa, arrancando as cobertas que cobrem Ernesto, fazendo-o tremer de frio.
- O que você quer?
- Eu quero chupar limão.
- Limão?

Ernesto senta-se na cama de sopetão. Já ouvira amigos pais comentarem de desejos estranhos de suas esposas, mas dessa vez Ana Lúcia se superara. Ela odiava completamente qualquer fruta cítrica simplesmente por suas características ácidas. De repente de madrugda decide chupar limão.
- Querida, você deseja mesmo isso? - Indaga, coçando o pouco cabelo que possui e esforçando-se para acordar.
- Quero.
- Vou na geladeira pegar um limão.

Ele se levanta e cambaleia pelo apartamento até a cozinha. Abre a porta da geladeira e procura pela fruta desejada. Nenhum sinal de limão. "Óbvio!", pensa ao lembrar que nunca compram limão, afinal de contas, até aquele dia Ana Lúcia odiava limão. Olha para o relógio da cozinha e vê que ainda são duas da manhã. Nem que queira conseguirá comprar limão. "Ela vai compreender... Não tem nada aberto a essa hora.", pensa novamente ao retornar para o quarto.

Cinco minutos depois está na rua vestindo pijamas e um roupão marrom que comprou dez anos atrás durante a lua de mel em Penedo. Ana Lúcia foi tão compreensiva quanto uma porta, e era uma porta que desejava limão. Ernesto, após ver sua esposa lacrimejar e lamentar que seu filho nasceria com cara de limão sente-se culpado e desejoso por voltar a dormir o quanto antes apenas vestiu a primeira roupa disponível e saiu.

Caminhando pela rua Dias da Cruz depara-se com um caminhão de uma rede de supermercados. Desesperado corre até o veículo berrando. O motorista vendo pelo retrovisor um louco de pijama e roupão correndo até ele não tem dúvidas: liga o motor e corre. Ernesto tem tempo apenas de proteger o rosto da fumaça que sai do escapamento.
- Filho da puta!

Desolado, pensa em desistir, mas imediatamente seu celular toca. Por um instante se amaldiçoa por ter trazido o que naquela hora é um localizador. É de casa.
- Querido, não esqueceu de nosso filho?
- Não, não esqueci. - Responde, frio.
- Que tom de voz é esse? Você não me ama? Quer que ele nasça com cara de limão?
- Não, Aninha, não quero. Mas são quase duas e meia da manhã, onde vou achar um limão a essa hora?

Ana Lúcia desliga o telefone e dá boa sorte a Ernesto.

Meia hora caminhando se passa. Nenhum caminhão aparece ou mesmo um mendigo que carregasse a preciosa fruta. Ernesto desistiu de andar sem destino e senta-se em frente ao portão de um hortomercado da Rua Magalhães Couto. Cochila cinco segundos e quando acorda vê que deixaram algumas moedinhas no bolso do roupão.
- Queria limões. - Lamenta.

De repente vê um novo caminhão estacionar em frente do mercado. Desajeitado se levanta e caminha até o entregador, que o observa com curiosidade.
- Tem limão?
- Tem cachaça? - Pergunta o entregador.
- É sério. - Fala Ernesto, irritado com uma gargalhada que escuta vir de dentro da cabine do caminhão.
- Imagino...
- Estou falando sério, eu queria um limão.
- Só um?
- Só.
- Não está meio tarde para uma caipirinha? - Responde o motorista, entrando na conversa e gargalhando.
- Eu não estou bêbado! - Reclama Ernesto.
- Eu não estou de roupão no meio da rua! - Chacota o motorista.
- Olha, minha esposa está grávida, e ela acordou com desejo de limão.
- Vai ser difícil, pois o limão não é nosso.
- Pago dez reais na fruta.
- Não disse, não é nosso. Somos muitos funcionários... Cinco.
- Cinqüenta serve?
- Serve! Moacir, pega o limão.

O carregador vai até o caminhão, abre a caçamba e entrega a fruta para Ernesto. O homem entrega cinqüenta reais, que é todo o dinheiro da casa, coloca a fruta no bolso e parte. Não existem cinco funcionários, Ernesto sabe disso, mas seu sono é muito mais valioso que qualquer outra coisa. Espera que tudo termine logo.

São três e meia da manhã quando chega em casa. Dormindo rápido ele terá perdido menos de duas horas de sono e não se sentirá tão mal na hora de ir trabalhar. Ana Lúcia pega a fruta com voracidade e a devora. Ernesto apenas se deita e fecha os olhos. De repente sente um cheiro forte de limão e a voz de Ana Lúcia em seu ouvido:
- Amor, eu quero mais!


7 comentários:

  1. Gostei do conto, heita mulher chata hein? Fazer o cara andar de madrugada atrás de limão. Prometo ñ fazer isso com meu marido. Espero q quando ficar grávida, não ter esses desejos loucos. Abraços...

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  2. eu juro que se a Julia me perturbar com esses desejos no meio da noite irei ignorar.

    A mãe de uma amiga minha quando gravida teve vontade de comer Tijolo

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  3. Ahh mas eu deixava a criança nascer com cara de limão mesmo, fácil fácil.

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  4. Antes só o limão do que um derivado... Imagina achar uma torta de limão!

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  5. Ainda bem que não tive nenhum desejo.

    Hoje estou passando para avisar que ao invés de Diário de Iza passei a ser Simplesmente Iza.

    E vamos voltar ao assunto da postagem anterior lá no Simplesmente.

    Beijos!

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  6. "O limão é até bonitinho, amor. Verde é uma cor que com certeza vai cair bem no nosso filho, se ele puxar à você, terá esse lindo par de olhos cor de limão-maduro e esse inesquecível perfume cítrico. Boa noite."

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  7. Bom...
    Eu nunca acordei marido de madrugada... aliás, não tive desejo de nada.
    Quanto ao limão... eu chupava de cinco a sete limões por dia, com sal.
    Aquele limão-mixirica (de casaca meio vermelha), sabe?
    Puts... como era bom.
    Mas, foi só durante a gravidez.

    Mas, a mulher do "causo", judiou do pobre do marido, hein?

    Beijokinhas
    *

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