[Opinião] Cotas e o Tempo.

Esse ano foram enfiadas goela abaixo das universidades a obrigatoriedade das cotas.

Metade das vagas são de brancos e a outra metade é do "resto". E dentro desse "resto" as cotas do mesmo jeito que uma pizza foram divididas entre as cotas das raças negras, das raças indígenas, dos pobres (raça?) e dos estudantes de escola pública.

Não entendo o critério de avaliação de uma determinada instituição para definir em um candidato a qual time ele se encaixa. Conheço pessoas que nasceram como peixes fora d'água em famílias completamente negras e que não se encaixam nem na família do leiteiro ou do carteiro (para os maldosos), mas que nem por isso deixaram de passar pelas mesmas dificuldades e exclusões que uma pessoa de qualquer tonalidade sofre.

Por sinal, preconceito sofre o negro, o pardo, o mulato e até também o claro. Eu sou vítima, ainda que do lado contrário dessa moeda. Só por parecer tomar banho com água sanitária as pessoas pensam que controlo o mundo ou que nado em notas de cem dólares. Gostaria muito de ter metade do dinheiro que determinados grupos sociais pensam que possuo, pois estaria postando comendo caviar e não morando em uma casa alugada sem conexão com internet e postando de um quarto fedendo a mijo de gato onde estão meus móveis amontoados.

Agora o governo do Rio de Janeiro decidiu dar bolsas-auxílio aos estudantes de faculdades provenientes de cotas. Lindo, maravilhoso e completamente hipócrita.

Ao invés de investir no ensino público de qualidade, de dar condições ideais aos candidatos de seja qualquer origem de disputar em igualdade as vagas de vestibular (que até então eram conquistadas por mérito, não por pena) ou mesmo de fornecer bolsas de estudos aos melhores alunos das instituições para realizarem cursos pré-vestibulares o caminho escolhido é o de tampar o sol com a peneira.

O povo brasileiro é tolo por vocação e hipócrita por natureza. Quando essa brincadeira de cotas começou, por volta de 2001, a proposição era em cima da temporalidade do sistema. Ou seja, as Cotas seriam temporárias porque o ensino público melhoraria e tornariam as cotas desnecessárias. O que obviamente não acontece.

O ensino (ou melhor dizer: "encinu") publíco só piorou nos últimos anos e foi necessário o governo (nas três esferas: municipal, estadual e federal) mudar as regras de cálculo para suavizar o dano e viabilizar o prolongamento do que não deveria nem ter existido.

Nunca se deu tanto as faculdades uma responsabilidade como a de hoje em dia. Antes as faculdades eram pequenos nichos de desenvolvimento da voz político-social do país, vide o modo como a ditadura tratava os estudantes. Agora as faculdades dividem-se entre sobreviver com verbas cada vez menores e com alunos cada vez menos estruturados, vide o que acontece hoje em dia na UERJ.

A UERJ foi o berço do movimento das cotas. Hoje em dia é uma faculdade caindo aos pedaços, abandonada e entregue a própria sorte. Administrada por terceiros e que a cada dia que passa despenca mais um pouco sobre os poucos alunos que ainda restam em meio a tantas greves e problemas. Para piorar em 2009 a verba da UERJ será ainda menor.

A coisa ainda não está pior porque os alunos ditos "cotistas" que entraram na UERJ não são provenientes de escolas públicas tradicionais. São alunos que vieram de projetos públicos de ensino que hoje em dia estão caducando. São alunos que vieram de CEFETs, FAETECs, Colégios de Aplicação, Pedro II entre outros projetos que em 2001 eram potências de ensino. Hoje em dia padecem do ostracismo que se alastrou ainda mais e mais no ensino público.

Por sinal, moro na cidade Rio de Janeiro: a capital do tráfico onde existe o sistema de ciclos na rede municipal de ensino. Que é basicamente o "não sei ler e somar, mas passo... assino meu nome". O aluno que não conseguiria média para passar de ano é aprovado do mesmo jeito e jogado pro ano letivo seguinte, seguindo uma lógica que não entendo e que apenas empurra o problema para o ano seguinte e por aí vai. Quando o aluno chega ao ensino médio se souber escrever o próprio nome sem errar é um prodígio, culpa dele? Claro que não, mas culpa dos pais, do corpo docente e das escolas que deixaram essas coisas acontecerem. Principalmente dos pais, que esquecem que educar não é apenas seguir as regras da Supernanny.

Ou seja, não se investiu de maneira alguma nas bases dos estudantes que hoje adentram no regime de cotas. Mas para mantê-los estão dispostos a dar esmola.

Por que ao invés de dar esmola não decidem logo privatizar o ensino e pagar bolsas aos alunos todos? Melhores alunos ganham bolsas melhores e conqüentemente colégios melhores. Se é pra dar dinheiro a quem já está no fim do ciclo que se invista principalmente nao início. Até porque esse sistema por enquanto vai continuar favorecendo o aluno das elites das públicas. O formado em uma escola como a que existe aqui em Paquetá vai ter o mesmo destino de todos: 0 subemprego.

Outra coisa que as cotas não levam em consideração: famílias falidas. Uma pessoa que tenha sido criada em berço de ouro, criado nas melhores escolas, e que por morte de progenitor aos 18 anos passe a viver na miséria não tem direito a nenhum auxílio porque o histórico escolar não permite. É como na idade média, onde se considerava que quem nascia rico morreria rico e quem nascesse pobre morreria pobre, mas em tempos onde basta uma tempestade ou uma crise econômica para colocar o mendigo e o dono da mercedez em condições de igualdade (aliás, nessa até o mendigo ganha, afinal de contas, o dono da mercedez vai ter que aprender a sobreviver).

Não é sustentando a burrice que esse país vai pra frente... É premiando o mérito e dando a todos condições iguais de concorrer desde o início.

Peixe não se dá, se pesca. No máximo que dêem a vara e o anzol.

Nos EUA a luta racial foi contra cotas, contra segregação racial/social que se manifestava até em bairros cercados destinados a classe social, grupo étnico ou simpatizante X, Y e Z... Mas sempre insistimos em copiar os erros dos outros.

Deixando claro: não sou contra as bolsas, mas sou contra o uso dela para tapar o sol com a peneira. Ao invés de dar bolsas que melhorem a infra estrutura das faculdades, que insiram bandejões ou alimentem os alunos de graça, que viabilizem material acadêmico gratuito (ao contrário do que acontece com a "geração xerox"), que reformem os alojamentos estudantis, que dêem gratuidade do transporte público, e que passem a pagar pelas monitorias em salas de aula para estimular os bons alunos. Esmola é apenas isso: ampliação da dependência.

Fontes:
O Globo:
- Alerj aprova a nova Lei de Cotas das universidades estaduais, com 4 emendas
- Incêndio em prédio da Uerj: pilares e viga ficaram prejudicados
- Incêndio atinge prédio da Uerj
- Cabral corta verbas na Educação e na Uerj. (Matéria de 2007)

Diário de Iza:
- Consciência é algo que todos deveríamos ter e não precisa ter cor;
- Uma opinião sobre a questão do negro, marrom, branco ou bege no Brasil?;

Visão Panorâmica:
- PRECONCEITOS, MODAS E A IMBECILIDADE;

Revista Veja:
- Sistema de cotas;

4 comentários:

  1. Bom, eu já cansei de falar o quanto sou contra. Para mim, cotas é um tipo de preconceito!

    1º) Cota contra negros: a minha pergunta sempre foi: Algum negro já foi impedido de entrar na faculdade pq era negro?? Até onde eu saiba não! Lógico que existe preconceito, mas tb vejo muitos negros "vítimas", isso é, tudo é preconceito! Exemplo... se alguém vira p/ mim, que sou branquela, e diz: e aí branquinha? Normal, né? Agora se a mesma pessoa, sem nenhuma maldade, vira p/ uma negra e fala: E aí, neguinha? Pronto... é ofensa... agora pergunta: Ela é o que?? Negra! E caramba, nem todo mundo tem preconceito!! Pelo contrário, não vejo diferença nenhuma! Tem dois olhos, duas pernas, um cérebro! Logo capaz de concorrer de igual p/ igual com qualquer um!

    2º) Deficientes: O que falta é estrutura!!Novamente entro na história: Já impediram de algum ser aprovado? Se sim, até eu vou protestar. Se não, não concordo com cotas!

    3º) Colégios Públicos e Pobres: Coloquei junto pq acredito que na visão das cotas seria mais ou menos isso... Talvez não pessoas miseráveis, mas aquelas que não possuem condições de pagar uma faculdade particular, o que é o caso de muitos estudantes de colégios públicos. Mas daí, não acho que cotas sejam a solução e sim a melhora do ensino (o que é óbvio e sempre discutido) e programas como o Prouni que oferecem bolsas para o ingresso em universidades particulares.

    Enfim... Daqui a pouco seram tantas cotas e afins que nem existirá mais provas... vc chega e se inscreve na sua "parcela" de vagas...

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  2. Resolvi prestar vestibular, e desistir na mesma semana, porque, o sujeito que trabalhava no setor, quis me cadastrar nas cotas.

    - Você terá 40% a mais de chance de ser aprovado.

    Eu desistir de entrar nesta instituição, afinal, pensei eu, terei que passar todo o período do curso, justificando notas, e textos.

    Passei no vestibular, mas, não porque sou "bronzeado", foi porque minhas notas foram acima de 80% da prova

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  3. As cotas raciais são estúpidas e favorecem o racismo. Há pobres brancos e pretos. Há ricos também. O ideal é não haver cotas e todos poderem ter um bom ensino público. Mas as cotas agradam ao idiotas iludidos e possibilitam ao governo tapar o sol com a peneira e não promover os investimentos necessários na educação pública.

    Infelizmente a política de cotas é apenas mais uma "bolsa qualquer coisa" e isso rende votos e faz nosso povo idiota feliz.

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  4. Esta história de ciclos está condenada por aqui.
    Inventaram essa da criança entrar no primeiro ano e na minha escola houve uma confusão.
    Veio uma criança que tinha feito o primeiro ano em outra cidade e colocaram o menino na segunda série. Ele não sabia ler e deveria ir para o segundo ano(na escola não havia) então passaram a criança para a primeira série. Imagina o trauma.
    As pessoas não estão sendo orientadas quanto ao ensino de 9 anos. Na teoria parece simples mas, na prática, poucos sabem como agir.
    Subscrevo todo seu texto.

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