FORJANDO UM GUERREIRO - MARTELO E BIGORNA

PEÕES

O exército marchava muito antes do esperado, naquela manhã um batedor veio com o aviso de que as tropas inimigas já estavam nos domínios do reino e haviam dizimado a tropa que guardava a fronteira. A marcha desordenada ia o mais rápido que podia, os lanceiros da linha de frente iam a pé, logo atrás uma tropa montada de e outra de arqueiros e mais um bando de guerreiros desarrumados. O comandante Slav ia de um lado a outro d pelotão em pelotão dando ordens e tentando incentivar, gritava, xingava, fazia todo o possível para elevar os ânimos de seus comandados. O restante do contingente de patente mais alta vinha por último como de costume, para tentar traçar uma estratégia rápida, simples e eficaz.

Havia tensão nas primeiras fileiras, afinal, seriam eles que enfrentariam o inimigo primeiro, a eles também era atribuído o dever de contê-los ao máximo, o que nunca era uma tarefa das mais fáceis. O equipamento que usavam não havia sido preparado adequadamente devido à urgência, muitas lanças estavam mal alinhadas, escudos não estavam bem afivelados, espadas sem fio, armaduras sem os devidos reparos e uma série de outros problemas.

Desde que houve o "Grande Holocausto dos Necromantes" como fio chamado o dia em que a maior aliança necromante foi dizimada sem uma pista sequer, todo o continente de Zeiram mergulhou em um profundo caos. Os necromantes ocupavam uma posição de muito prestígio na sociedade daquele continente, a maioria era conselheiro real ou estrategista ou ocupava algum outro cargo de confiança, quase todos pertenciam a mesma ordem, a Anima Ordo Crepusculum (Ordem do Crepúsculo da Alma). A ordem era a mais poderosa de todas, seus membros fundadores estavam entre os mais respeitados, talvez até mais do que muitos reis.

Mas agora ela fazia parte do passado, os membros que restaram dela ou foram mortos pelos membros de outras ordens, na tentativa de busca por prestígio fácil, ou então simplesmente sumiram, apenas um permanecia incólume, Teryon, filho de Tharion, que conseguia frustrar qualquer tentativa de derrotá-lo. Muitos diziam que ele como o mais poderoso dos representantes que restaram, deveria reestruturar a ordem, coisa a qual ele se recusava a fazer, mas o que ninguém sabia é que o próprio Teryon havia destruído a ordem.

Devido a isso cada reino estava tentando tirar vantagem sobre o outro aproveitando o momento de fraqueza, o que ocasionou em uma guerra generalizada, que já se arrastava por anos. E nesse exato momento mais dois reinos entrariam em confronto direto, de um lado vinha o exército de um reino que já havia vencido outros confrontos contra reinos desestruturados e que perderam sua liderança política. Do outro lado um reino que tentava se manter intacto, mas isso era utopia demais nesses dias, todas as alianças que tentaram foram frustradas, a tentativa de montar um exército e uma guarda eficiente não havia sido bem sucedida, a notícia do avanço do exército inimigo fez com que todos os planos fossem mudados às pressas, o que ocasionou em uma campanha desarrumada e uma marcha totalmente desordenada.

Toda a linha de frente parecia confusa e desestimulada, alguns poucos apenas pareciam saber o que realmente enfrentariam e estavam animados, muito poucos mesmo. O comandante Slav ia de um lado a outro em seu cavalo berrando ordens, quase ninguém conseguia entender o que era dito, a tensão era grande demais para se poder assimilar algo. De repente ao longe ouviu-se uma trombeta, um batedor correu em disparada em direção ao seu exército, os inimigos estavam próximos. Mais gritos foram ouvidos, todo o exército parou subitamente e tentaram formar uma linha de defesa sólida, lanças foram apontadas para a frente, escudos postos para proteger o corpo, a inquietação aumentou. O tropel de cavalos pôde ser ouvido com grande nitidez em meio ao silêncio quase mórbido, o exército inimigo surgiu e estagnou enquanto seus generais iam à frente negociar com os generais do outro exército. Minutos depois cada um volta para o seu lado, era evidente e até óbvio que nenhum dos lados cederia a rendição ao outro, mas as negociações antes de um combate era uma regra que sempre era seguida, mesmo ambos os lados sabendo que nunca algo se resolvia de uma negociação.

Um general passou pela linha de frente tocando as lanças com a ponta de sua espada, deu uma guinada com seu cavalo e retornou, ficou a frente da tropa com sua espada erguida. Um soldado se ofuscou com o reflexo provocado pela lâmina, seu companheiro da esquerda inflou o peito como para se auto-encorajar, o que estava atrás deste cuspiu no chão para limpar a garganta.

- ATAQUEM!

O grito de guerra do general foi superado pelo urro de batalha de seus soldados, como lobos famintos eles avançavam em direção a sua presa, as primeiras fileiras avançaram rapidamente, assim também foi do lado inimigo e finalmente houve o choque... Escudo contra escudo, lança contra metal, contra carne, contra osso, contra o solo, contra a morte...

Logo o campo de batalha já estava tingido de vermelho, o combate estava aumentando conforme as outras linhas iam se juntando e logo veio a primeira saraivada de flechas, e quase que ao mesmo tempo o outro exército também disparou as suas... Mais dor, mais gritos, mais ferimentos, mais mortes...

A lança já havia se partido há muito no ventre de algum guerreiro de nome e face desconhecidos por Ignus, mas isso pouco lhe importava, só o que interessava agora era a matança, rápida, fria e cruel. Sua espada rasgava, estocava e mutilava sem nenhum remorso, a cada inimigo atingido um grito de triunfo, a cada vislumbre de terror em rosto inimigo um jorro de satisfação sádica, Ignus lutava com ferocidade incomparável, abria espaço entre o exército inimigo com velocidade e eficiência, cada inimigo tocado por sua lâmina jazia sem vida no chão. Mas não eram mortes simples, eram mortes cruéis e sem piedade que deixavam partes expostas, ele não atacava simplesmente por atacar, atacava para machucar, atacava para humilhar, para fazer com que seu oponente sentisse o máximo de dor possível, tanto que seus alvos nunca eram os órgãos vitais. Sentia um imenso prazer em mutilar e esquartejar, matar também lhe fazia bem, mas não tanto quanto uma mutilação, na maior parte das vezes um companheiro que vinha logo atrás dele tratava de matar aqueles a quem Ignus deixou próximo de deixar este mundo.

Os golpes inimigos quase não traziam problema, Ignus estava com alguns arranhões não muito sérios em sua armadura, além de uns poucos cortes em alguma parte do corpo. Ele viu um comandante inimigo que de cima de seu cavalo gritava ordens enquanto golpeava, abriu caminho por entre a multidão com sua espada cuja lâmina estava vermelha, matou mais cinco apenas com golpes cabeça, dois tiveram os crânios estourados pela lateral da espada de Ignus quando foram violentamente golpeados na fronte. O comandante inimigo nem teve tempo de desmontar de seu cavalo quando com um golpe perfeito Ignus decepou sua perna, abrindo um profundo corte no dorso do animal que tombou por cima de seu dono, que em seguida morreu pisoteado pela multidão.

Mais uma vez o som de uma trombeta foi ouvido, era o toque para recuar sinalizando que o primeiro confronto havia se encerrado. Enquanto ambos os lados fugiam para a segurança alguns soldados menos afortunados foram pegos pelo inimigo que também recuava, mas que vinha de direção oposta. Me poucos minutos a o exército já estava praticamente todo reagrupado, muitos estavam feridos de forma não letal, mas todos os ferimentos possuíam alguma gravidade. Ignus foi o último a se reunir ao grupo, estava matando alguns soldados inimigos que ficaram para trás.

Assim que chegou viu que muitos de seus companheiros estavam feridos, outros morriam, nada que pudesse fazer, não, havia algo. Ignus percebendo que os feridos com algum tipo mais sério de gravidade seriam um empecilho decidiu tomar uma atitude, matar. Cada companheiro que ele notava estar com algum tipo de ferimento que o impedia de ajudar na batalha Ignus matava, os companheiros observavam atônitos a forma selvagem com que Ignus atacava seus aliados.

- O que pensa que está fazendo? - Vociferou o comandante Slav que agora se aproximava montado em seu cavalo que tinha alguns ferimentos.
- Estou nos poupando o trabalho de lidar com moribundos que nos atrapalhariam durante o combate. - Falou Ignus com estranha sinceridade.
- Quem o ordenou para que fizesse isso? - Perguntou.
- Meu próprio discernimento!

Ao ouvir aquelas palavras e ver a expressão firme e ao mesmo tempo sínica no rosto de Ignus, Slav não pode conter a raiva e avançou contra seu próprio comandado, os soldados que estavam próximos se afastaram temendo se envolver na contenda. Ignus por sua vez saiu da frente e começou a se esquivar dos sucessivos ataques que seu comandante desferia, fazendo com que a raiva e a intensidade dos golpes só aumentassem. Um general que estava próximo notou a repentina excitação e foi ver o que estava acontecendo, assim que chegou viu que Slav já havia desmontado e atacava Ignus com grande ferocidade, mas o soldado apenas esquivava e se defendia.

- O que está acontecendo, Comandante Slav? - Vociferou fazendo com que Slav parasse imediatamente.
- General... - Reverenciou e fez uma rápida continência.
- Pode me explicar por que está atacando um de seus próprios comandados? - Questionou interrompendo Slav.
- Esse desgraçado estava matando nossos próprios soldados sem nenhum motivo! - Disse com raiva apontando para Ignus.
- Isso é verdade soldado? - Questionou se voltando para Ignus que antes de respondê-lo saudou-o de forma correta.
- Sim, senhor! - Falou com assombrosa sinceridade.
- Viu o que disse...
- Cale-se! - Disse o general repreendendo Slav. - Ainda não terminei. Então diga-me, soldado, por que está matando teus próprios companheiros?
- Durante a batalha os feridos serão um fardo pelo qual não poderemos nos responsabilizar, ou cuidamos deles e morremos, ou lutamos e os deixamos morrer. - Concluiu secamente.
- Mas você matou muitos que não tinham ferimentos graves, ou não? - Questionou Slav tomado de ira.
- Sim, mas também eles não teriam muita serventia durante a batalha, pois não fariam mais do que nos retardar, assim como os outros.

A sinceridade do guerreiro era algo que não chegava a chocar o general, afinal de contas, Ignus não estava totalmente errado, os feridos apenas retardariam o avanço das tropas, isso sem contar o contingente que ficaria responsável por resguardá-los. Ponderou pouco sobre a situação e decidiu que o que Ignus fizera não era reprovável e ordenou que se sacrificassem o restante dos feridos mais graves, os feridos que ainda tinham capacidade de lutar deveriam seguir pelos flancos, dando assim espaço para que as fileiras principais atacassem com mais eficácia.

O Comandante Slav obviamente se mostrou muito irritado com a decisão do general, pois em sua opinião Ignus deveria ser punido e com exemplar rigor pelo seu hediondo ato. Ele odiava Ignus e fazia questão de que o próprio soubesse muito bem disso, antes que Ignus continuasse com seu serviço, Slav o ameaçou duramente dizendo que a vergonha que acabara de passar não ficaria sem uma resposta a altura. Outra coisa que deixava Slav ainda mais furioso com Ignus era o fato de seu irmão tê-lo acusado de ser a pessoa que o havia ferido com tamanha gravidade. Na noite da aclamação dos novos soldados Slav recebeu a notícia de que seu irmão morrera, aparentemente havia acordado de seu coma e havia cometido suicídio, mas ninguém sabia explicar o motivo, mas de qualquer forma Slav ainda culpava Ignus por tudo.


Uma trombeta soou ao longe, era o sinal de que mais um ataque viria. Os soldados se reunirão e se enfileiraram mais uma vez o mais rápido que puderam, muitos estavam sem lanças ou porque estas haviam se partido, ou porque haviam deixado no campo de batalha inimigo. Outros estavam sem escudos, mas isso não lhes preocupava tanto, preferiam ter com que atacar do que ter com que se defender.

O Comandante ordenou que toda a primeira fileira atacasse com tudo, para que rompessem qualquer tentativa de uma linha de defesa, enquanto a tropa que estaria responsável por falqueá-los iria tentar tirar-lhes a atenção do ataque principal. Antes de ordenar que se preparassem para o ataque ele pessoalmente disse que todos deveriam seguir Ignus que encabeçaria o ataque inicial, o guerreiro recebeu a ordem com certo espanto, mas logo percebeu qual era areal intenção de Slav.

- Espero que tudo seja lento e doloroso, soldado. - Disse Slav a Ignus com um sorriso malicioso nos lábios.

O grito de guerra inimigo soou mais alto do que da primeira vez, parecia uma explosão seguida pelo trovejar dos passos apressados dos guerreiros que apenas queriam o sangue inimigo. A resposta veio em forma de outro rugido de guerra, tão furioso quanto o primeiro, tão decidido como nunca. Ignus apontou a espada para frente e correu como um louco em direção a morte, viu o inimigo se deslocar formando uma longa e aparentemente impenetrável parede de escudos. Ele sorriu, uma mistura de êxtase e fúria tomaram conta de seu ser, sempre soube que Slav o mandaria para a morte, mas não imaginava que o seria uma morte desesperada, pois enfrentar de peito aberto uma parede de escudos era uma sentença de morte, mas mesmo assim ele foi.

Nos dois últimos dias Haldar se ocupara em explicar a Ignus diversas estratégias de combate em grupo, uma das mais eficazes tanto para defesa quanto para ataque era a parede de escudos, quando bem formada era impenetrável e seu avanço era arrasador. Cada um na formação da parede era responsável pela proteção de seu companheiro adjacente, ao mesmo tempo em que mantinha sua lança apontada direto para o inimigo, eram raras as paredes que não se rompiam depois da segunda investida bem feita, pois defender um companheiro e atacar ao mesmo tempo exigia grande habilidade, mas mesmo assim uma parede de escudos era algo com que se preocupar, ainda mais para um exército mal armado que tentava rompe-la com um ataque desesperado.

Enquanto corria Ignus concentrava sua mente e todo o seu espírito no inimigo que estava a sua frente, por um instante parecia que seu shii havia tomado conta de tudo, conseguia sentir com clareza a presença de cada pessoa ali presente, sabia que seu lado estava em desvantagem numérica assim como também em matéria de animo. Seu shii havia alcançado tal proporção que ele podia sentir as intenções de cada um com extrema e absoluta clareza, foi isso que o fez enxergar uma brecha, um soldado estava desconcentrado e preocupado, não sabia como podia sentir tal coisa, mas sabia muito bem o que sentia, então decidiu, seu ataque seria ali.

Começou a se dirigir na direção do soldado que havia identificado, seus olhares se cruzaram, o soldado estremeceu, seu escudo baixou um pouco saindo da formação. A lâmina larga veio como um relâmpago, rápida e fulminante, o escudo de carvalho enegrecido com piche foi dividido fazendo com que uma chuva de lascas de madeira voasse pelo ar, o braço do soldado foi violentamente arrancado pela força do golpe. O urro de triunfo de Ignus foi ouvido com clareza por todos quando sua espada parou no ventre do soldado que estava atrás do escudo do companheiro, tudo isso ainda resultado do golpe inicial. Os que estavam próximos e presenciaram a cena se amedrontaram, naquele ponto a parede se desfez, a brecha foi suficientemente grande para que o restante da tropa que seguia Ignus penetrasse trazendo perigo e morte. Uma lança quase atingiu seu ombro, mas seu estado de alerta era tamanho que conseguiu desviar o golpe usando sua espada, em seguida usou a mesma lança como guia para atingir em cheio seu portador e fazê-lo tombar.

Suor, sangue e poeira se misturavam bem como madeira, metal e carne. O festival de sons era cada vez maior, a sinfonia da guerra ganhava notas improvisadas e repentinas, mesmo perdendo muitos de seus integrantes a cada momento. Ambos os exércitos estavam novamente unidos em uma massa disforme de se movimentava de forma frenética, nem mesmo as constantes saraivadas de flechas vinda de ambos os lados era suficiente para aplacar nenhum dos exércitos. Nesse ponto do combate Ignus já estava utilizando duas espadas, a segunda fora cortesia de um soldado inimigo que matara depois quase separar seu peito do restante do corpo. Várias vezes jurou ver sua espada deixar um rastro negro por onde passava, mas na deu muita importância para isso, deveria se focar no combate e apenas nisso.

Mais uma vez as trombetas soaram e cada lado recuou para a segurança, novamente os que ficavam para trás eram cruamente massacrados. Ignus foi um dos últimos a chegar, parecia contente, mas ao analisar com clareza seu grupo viu que as baixas foram muitas. O Comandante Slav estava com alguns ferimentos, nenhum muito sério, mas parecia perturbado, talvez pela perda de tantos homens, afinal, as baixas forma maiores do que qualquer um poderia imaginar. Ignus sabia que o principal erro havia sido enfrentar a parede de escudos de frente, esse detalhe foi decisivo para definir quem havia vencido esse turno do combate.

Da primeira tropa apenas vinte permaneciam com plenas condições de combate, oito estavam com ferimentos sérios, o restante havia morrido. Eles aproveitaram o tempo para reafivelar melhor os escudos e cintos, renovaram o fio das espadas e das lanças e as aljavas eram recarregadas com flechas novas. Muitos escudos foram simplesmente abandonados por não terem mais a menor serventia, o de Ignus permanecia em um estado razoável, mas preferiu cedê-lo a um companheiro, ele não gostava muito de escudos. Limpou a sujeira de sua lâmina e renovou seu fio com uma pedra de amolar, fez o mesmo com a espada que herdara do soldado que havia matado.

- Levantem-se! - Ordenava o Comandante Slav em viva voz. - Preparem-se para mais uma investida.
- Iremos investir contra eles mais uma vez? - Protestou Ignus.
- O que disse soldado? - Questionou Slav em resposta - Onde estão seus modos?
- Iremos investir contra eles novamente, senhor? - Perguntou novamente, mas pondo um tom irônico na palavra "senhor".
- Isso mesmo, algum problema, soldado?
- E se eles formarem a parede outra vez, senhor? - Questionou mais uma vez usando o mesmo tom de ironia.
- Ai vocês novamente a romperão!
- Isso é loucura! - Protestou Ignus sem se conter. - Da próxima vez poderemos não conseguir obter o mesmo êxito, perdemos muitos combatentes nessa investida desesperada contra sua parede, e você quer que repitamos esse ato de insanidade?
- O senhor tem alguma coisa contra?
- Óbvio que sim! Você está assinando a sentença de morte de todos aqui...
- CHEGA! - Vociferou interrompendo Ignus - Não irei tolerar questionamentos de um mero soldado recém admitido.

O Comandante ergueu a mão espalmada e golpeou o rosto de Ignus com as costas da mão, mas o golpe parou nas mãos firmes de Ignus que com ira esmagava o punho de seu comandante fazendo-o ajoelhar-se.

- O que pensa que está fazendo? - Berrou o Comandante em desespero.
- O que deveria ter feito desde o início! - Respondeu Ignus com um tom seco e decidido.

Seu olhar era amedrontador, todos a sua volta recuaram com medo, a situação era inusitada e absurda, mas ninguém ali ousava se interpor entre os dois. Slav estava totalmente dominado por Ignus, cada vez mais a força do aperto aumentava e os ossos da mão de Slav estalavam cada vez mais alto.

- Largue-me! - Ordenou desesperado em meio à dor.
- Por que deveria?
- Você assim como todos aqui não passa de um peão. Sou seu Comandante, você deve me obedecer!
- Peões? - Repetiu Ignus olhando para o restante do exército que apenas observava com perplexidade. - É isso que somos para você? Apenas peões que são mandados para os braços da morte?
- Largue-me...
- Cale-se! - Ordenou Ignus e sua voz soou como um trovão - Não reconheço mais seu comando.

O comandante segurou o punho quase esmagado assim que Ignus o soltou, agora estava ajoelhado no chão, contorcia-se em dor, humilhado. Aquilo o deixou furioso como nada antes o havia deixado. Mas não teve tempo de nutrir sua fúria, antes que pudesse fazer algo, Ignus decepou sua mão com um único e preciso corte.

- Imagino que agora sua mão não doa mais! - Disse Ignus por entre um sorriso enquanto contemplava satisfeito a face de dor de Slav.
- Seu... Seu... - Tentava dizer Slav, mas a dor era grande demais.
- Sabia que quem causou aqueles ferimentos no seu irmão realmente fui eu?! - Confessou Ignus com a voz baixa o suficiente pra que apenas Slav pudesse ouvir.

O ódio mais uma vez tomou conta de Slav, ouvir a confirmação da boca do próprio Ignus fez com que ele ficasse com ainda mais ódio do que já sentia, seu corpo começou a estremecer tamanha era a intensidade do que sentia. Mas sua fúria só aumentou quando com grande prazer Ignus confessou que havia matado seu irmão pouco antes da cerimônia de consagração dos novos soldados. Lágrimas escorriam, lágrimas de ódio, ódio por saber o que realmente acontecera com seu irmão e lágrimas de ódio pelo fato de agora nada poder fazer.

Em meio ao seu desespero Slav tentou atacar Ignus, mas o máximo que conseguiu foi cair com o rosto no chão, aumentando ainda mais sua humilhação. Ignus pisou em sua cabeça forçando-a cada vez mais contra o chão, ergueu sua espada e desafiou cada homem ali presente, se alguém discordasse dele e quisesse defender a honra de seu Comandante deveria enfrentá-lo, mas nenhum ousou se manifestar.

- Ouviu isso, Slav? - Perguntou Ignus chutando a cabeça de Slav com força. - Esse é som daqueles que concordam com teus métodos.
- Você... Irá para o... Inferno... - Falou com grande dificuldade, mas com voz carregada de ódio.
- Se realmente for, irei por meus próprios méritos, não pelo capricho de um idiota.

Com essas palavras Ignus selou o destino de Slav, sua espada desceu com força até pouco abaixo do pescoço e lá fincou-se com violência, mas sem atravessar corpo do comandante. Slav sentiu uma dor cegante percorrer todo o seu corpo, mas não conseguiu sequer gritar, quando ia expressar o que sentia uma segunda lâmina separou sua cabeça do corpo dando fim a sua vida. O sangue tingia o chão enquanto o corpo dava seus últimos espasmos. Os soldados recuaram ainda mais e olhavam completamente imóveis enquanto Ignus limpava a lâmina das espadas, um ensaiou uma tentativa de protesto que foi recebida com um olhar desafiador de Ignus.

Os soldados recolheram o corpo de Slav e jogaram-no na pilha dos mortos, Ignus fez questão de que a cabeça do ex-comandante ficasse ali, espetada em um chuço, para que servisse de exemplo. O burburinho se espalhou por todo o exército e chegou aos ouvidos do general, rapidamente ele montou em seu cavalo e foi conferir com os próprios olhos. Após vencer a barreira de curiosos o general viu os soldados criando uma barreira de mortos e logo atrás a cabeça de Slav fincada, o rosto de terror virado na direção do inimigo. Ignus passava instruções rápidas para alguns grupos de guerreiros, alguns outros avaliavam e redistribuíam as armas dos mortos entre os restantes. Assim que viram o general todos prestaram continência e foram dispensados em seguida com um simples gesto, Ignus ao ver o general dispensou os soldados e foi em sua direção e também lhe prestou continência.

A discussão foi bem rápida e acompanhada com grande atenção pelos outros, o general exigiu uma explicação do porquê de a cabeça do Comandante Slav estar em um chuço e haver uma pilha de mortos a frente deles. Ignus relatou tudo o que houve com detalhes e sem omitir absolutamente nada, outros soldados também foram inquiridos e confirmaram a versão de Ignus. Sem muito que fazer e não tendo muitas opões o general deu o cargo de Slav a Ignus, que agora seria responsável pela tropa que correspondia a primeira e segunda fileira.

- Além do mais, você o venceu em um combate limpo. - Disse o general com sinceridade. - A tradição diz que o vencedor fica com o cargo do derrotado. Mas fique alerta, Ignus, não tolerarei nenhuma falha de tua parte, pois já que reivindicaste o poder e o conseguiu, prove que realmente é melhor do que Slav.

Antes de passar alguma instrução o general questionou Ignus sobre o que ele pretendia fazer, o novo comandante disse que pretendia não avançar, mas sim forçar que o exército inimigo tomasse a iniciativa, então seriam retardados pela barreira de mortos, onde teriam de se rearmar para poderem avançar, o que daria tempo e conforto suficiente para atacarem com segurança, quando finalmente um número considerável de inimigos estivesse entre eles e a barreira, os mortos seriam incendiados por alguns soldados que estariam ocultos entre eles. Outros dois pequenos destacamentos seriam responsáveis por flanquear os inimigos e assim massacrá-los, tudo isso levaria poucos minutos, forçaria também que os inimigos que viessem em seguida estivessem desorganizados, o que os tornaria alvos fáceis.

O plano soou bom para o general e Ignus ainda disse que isso poderia se repetir mais uma vez, duas com algum sacrifício, mas sem um êxito satisfatório, coisa com que o general pareceu não se importar. Finalmente disse a Ignus que deveria seguir com seu plano até que o avanço das tropas inimigas fosse ago que não pudesse mais ser contido pelas primeiras fileiras. Nesse momento ele deveria soar um trombeta duas vezes, sendo o último toque o mais longo. Ao durante o segundo toque todos os aliados deveriam abrir passagem, dando a entender que o caminho estaria livre para o inimigo, quando na verdade o restante do exército viria com carga total. Cavalaria, carros de combate e outras parafernálias de guerra viriam como uma avalanche para açoitar o inimigo.

As instruções foram passadas assim que o general retornou ao seu posto. Logo a trombeta inimiga soou anunciando o que seria o combate derradeiro. A excitação de Ignus com a aproximação do combate era tamanha, que seu shii transbordava abundantemente, os companheiros que estavam ao seu lado podiam sentir isso nitidamente, embora não soubessem explicar o que sentiam.

O inimigo veio em uma onda frenética, os urros de guerra eram ensurdecedores. Os comandados de Ignus começaram a recuar lentamente e o engodo parecia surtir efeito. Já havia uma distância razoável entre eles e a pilha de mortos, o inimigo estava um pouco distante, mas não tardariam a chegar. A excitação tomava conta de todos de uma forma inexplicável, cada um em seu intimo esperava que o inimigo chegasse o quanto antes, todos estavam ansiosos pela matança vindoura.

A tão esperada carnificina veio da forma que ninguém esperava, Ignus só percebeu que havia algo errado tarde demais. Com seu shii elevado a uma proporção que nunca havia imaginado teve tempo apenas de notar uma grande soma energética vindo de encontro ao seu exército, no instante seguinte um grande clarão ofuscou sua visão, a explosão que veio em seguida deixou seu ouvido zunindo por algum tempo. O ataque surpresa inimigo ainda não havia cessado, em meio aos gritos de dor e terror de seus aliados Ignus conseguiu recobrar os sentidos e ver a saraivada de flechas que vinha em um mortal ângulo descendente. Seu escudo havia sido atirado para longe, em uma ação rápida usou o corpo ferido de um companheiro como proteção. Sentiu que quatro flechas atingiram o companheiro que morreu logo em seguida, não que fosse durar muito devido à gravidade dos ferimentos anteriores.

Os gritos haviam aumentado ainda mais, o pavor havia tomado conta de todo exército, os que podiam corriam desesperados e desordenados, outros tentavam socorrer algum companheiro. Ignus levantou e viu que carros de combate inimigos entre as fileiras de soldados. Do seu lado da quinta fileira em diante todos haviam parado e apenas observavam estáticos, o General estava um pouco a frente tentando ver o que se passava.

Pondo-se de pé Ignus conseguiu por os pensamentos em ordem e ordenar aos seus comandados que se reagrupassem, embora tenha sido necessário que a ordem fosse dada mais de uma vez para que surtisse algum efeito. Antes que os que tinham condições de combate se reagrupassem decentemente, um grupo de não mais do que vinte homens surgiu entre o exército inimigo. Havia uma intensa aura a volta deles, nitidamente visível por todos, eram magos. Ignus gritou para que todos recuassem imediatamente, embora magos não fossem hábeis em combates corpo-a-corpo, àquela distância suas magias seriam fatais para seus comandados.

Todos começaram a correr em direção ao restante do exército que estava distante. Ignus seguia o grupo por último e viu quando um dos magos conjurou uma imensa bola de fogo e arremessou na direção deles. Ele parou e observou com atenção o imenso projétil flamejante que cada vez mais crescia à medida que se aproximava dele. Como quase sempre ocorria em situações como esta, sua mente trabalhou rápido, quase de forma instintiva. O mago que lançara a bola de fogo observou Ignus com curiosidade e atenção, por um momento admirou-o pela coragem que demonstrava ao ficar para traz para proteger seus companheiros.

A explosão de chamas foi tamanha que todos os envolvidos na batalha sentiram o impacto. Os companheiros de Ignus olharam incrédulos enquanto seu novo comandante era consumido violentamente pela fúria das chamas mágicas. Repentinamente em meio as imensas labaredas uma imensa onda de choque extinguiu parte das chamas, Ignus estava de pé, praticamente intocado. Com um movimento brusco e expansivo com seus braços uma onde de energia avermelhada foi violentamente arremessada em direção ao exército inimigo, à medida que avançava ela crescia mais e mais, até finalmente se chocar contra seus oponentes e se desfazer como uma forte explosão que destruiu alguns dos carros d combate que estavam na linha de frente e matar quase que instantaneamente alguns soldados inimigos. Os magos se protegeram criando uma barreira, mas que não conseguiu conter por completo a fúria do poder de Ignus.

Mais uma vez o mago que o atacou fitou-o com admiração, por um instante seu olhar cruzou com o olhar desafiador de Ignus. Teria grandes chances de acertá-lo daquela distância, até mesmo matá-lo, mas preferiu deixá-lo evadir junto com sua tropa, sua morte não tardaria, pensou enquanto via Ignus correr em direção ao seu exército. Um companheiro seu questionou sua atitude quando foi impedido de atacar, tentou argumentar mostrando o tamanho da destruição que apenas aquele homem conseguiu causar.

- Exatamente por isso deixei-o ir. - Respondeu ao seu companheiro.
- Mas mestre, ele é nosso inimigo, por que o poupa?
- Um oponente que é capaz de fazer o que fez com apenas um ataque, é alguém com quem gostaria de duelar pessoalmente.

3 comentários:

  1. (Relação ao Post no nosso Blog)Muito bom Ricardo!!! Adorei não só o texto em que você escreve muito bem e que descreve melhor ainda sobre o filme. Vou com certeza assistir o filme para depois poder comentar melhor mas já deu pra ter uma grande visão de como é o filme com o seu texto (que tenho a Honra de ter ao lado dos nossos em "Nosso Blog" da PAQUETRASH). Seja muito "Bem-Vindo meu amigo" Ricardo, Dragus e Eterno Cereal Killer. Valeu Cumpadi!!!

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  2. Fala Ricardo, seguinte além de vc postar no nosso blog criei um banner lateral pra quem quizer acessar tipo as suas criticas de filmes com notas, acho que ficou maneiro depois me fale mas queria auqe vc entrasse no blog e onde tem Paquetrash - Top Trash Dragus
    editar a postagem e vc publicar pq ficou como se eu estivesse postado o seu texto entendeu?!?!
    Bom qualquer coisa nos falamos e + uma vez valeu mesmo cumpadi!!! Abraços guilherme.

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  3. Olá!
    Gostaria de saber se aceita fazer parceria?
    Se sim entre em contato.

    Monika Baumann
    Toques de Prazer
    http://monikabaumann.blogspot.com/

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