[Conto] O Parque Sombrio - 3


Ele gostaria de uma vida normal. Não lamenta a vida que tem, mas emaranhado no amontoado de coisas velhas e cercado de ratos - seus únicos amigos. - nada parece pior do que já é. Um dia seu nome foi Evandro, hoje em dia talvez ainda sussurre em sua mente doente essa palavra. Talvez não com o mesmo sentimento que uma pessoa normal teria, mas sim com a curiosidade de quem se pergunta "quem?" a algo completamente desconhecido.

Em uma pequena caverna ele vive. Não é exatamente um palácio, muito menos possui a mesma importância que um local geológico, na verdade parece mais uma latrina. Turistas utilizam aquela área como banheiro há tanto tempo que provavelmente gerações passarão e aquele lugar continuará com o fedor de uréia e fezes. Cheiro que ele não sente ou sequer se importa. Durante o dia o ignoram vagando e durante a noite nem se incomodam em subir até sua morada mesmo quando a fogueira improvisada brilha no morro.

Entretanto, aquela noite em especial o agradava mais. Se sentia livre de sua última amarra, de seu último desejo. Os cabelos agora adornavam sua cama de jornais velhos e um sapato delicado lhe servia agora de travesseiro. Ele se enrolou em sua própria sujeira e repousou. Um sorriso em seu rosto e novamente se levanta. Ele quer mais do que apenas um brinde. Quer mais do que tocar um corpo nu. Quer mais.

E naquela noite terá muito mais...

Animais nortunos e sorturnos reagem enquanto ele corre pela mata. Os sons ecoam pela mata, atravessam os limites do Parque Darke de Matos. Uma senhora na porta de casa sente um arrepio percorrer a espinha e se tranca em casa. Ela reconhece um nome e o nome lhe trás péssimas lembranças.

Próximo a estação das barcas o gerente conta o dinheiro do faturamento do dia. Já passa de duas da manhã e Marcelo está sozinho. Sem ter o que fazer e entediado caminha até o portão da estação a tempo de ver pássaros em revoada. Escuta um som, mas é apenas o de um marinheiro que dorme na estação.
- Ufa. - Comemora, satisfeito por ser apenas seus ouvidos.

Fecha o caixa, acorda o marinheiro e despede-se. O som seco do portão fechando e do bocejo do mesmo se misturam na noite, sendo os únicos sons que Marcelo escuta nessa noite de silêncio apenas quebrado pelo grito de pássaros. Ele caminha pela praia dos Tamoios em direção a seu lar, na rua Adelaide Alambari, distante pelo menos um quilômetro e meio do trabalho.

É um caminho calmo, escuro, mas calmo. Não existe perigo nenhum e mesmo com a morte misteriosa recente não existe nada que justifique o temor. A única coisa que Marcelo teme é o vento, a voz do vento lhe traz lembranças, e a voz do vento lhe sussura um nome. Um nome que o faz temer por instinto e andar mais rápido.


Naquela noite Marcelo não chegou em casa.

Continua...


Outras Partes de "O Parque Sombrio":
- Parte 1;
- Parte 2;
- Parte 3;
- Parte 4;
- Parte 5 (novo);

Um comentário:

  1. aaai, e a outra vítima??? e o Marcelo quem é??? curiosidaaade hehehe

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