[Opinião] Tristeza de rico dura pouco... No Brasil.


Ontem prenderam a dona da Daslu.

Como é de praxe em nosso país, sua condenação durou parcas e porcas vinte e quatro horas. Ela conseguiu o Habeas Corpus a que toda pessoa rica tem direito no Brasil, aos pobres e ladrões de galinha apenas lhes resta o punho rígido da lei.

Já há muito perdi toda e qualquer esperança que o país melhore pacificamente. Não acredito que algo mude realmente enquanto a balança do poder não for invertida e não me refiro a aquela ladainha de pobre contra rico. Longe disso.

Falo de um golpe moral, porque aqui no país honestidade e morosidade caminham de braços dados. O honesto sempre é uma pessoa no mínimo omissa, submissa, vassala de leis e credos que a impedem de lutar por seus direitos. A sociedade brasileira foi construída pelo lixo cultural da Europa, forjada desde seu início por pessoas que fugiam ou eram exiladas. A quem duvide: abra um livro de história e leia.

Esse caso da Daslu é apenas um alfinete no mar de ilegalidade. Se todo o dinheiro desviado no Brasil fosse utilizado/aplicado corretamente as coisas funcionariam. Mas onde a lei funciona ninguém enriquece com facilidade, a pessoa precisa aprender a se esforçar, a correr atrás, a pelo menos ler um livro e quer fazer mais do que escrever o próprio nome.

Nos acostumamos a votar sempre nos mesmos bandidos e na falta de uma mudança na política - até porque o sistema político inviabiliza qualquer tipo de mudança sem a real participação popular, o que no Brasil equivale a zero. - e em seus representantes somos sempre obrigados a cada dois anos a escolher dentre diversas opções a menos ruim. Nunca a certa, nunca a ideal, nunca a efetivamente unida aos interesses da comunidade. Muito menos uma que não tenha rabo preso com os caciques do partido (que desde resolução do TRE são os que realmente mandam nas câmaras).

Sempre elegemos o que fez mais churrascadas com líderes de comunidades, que construíram mais pontes ligando um feudo a outro (feudalismo não acabou, apenas mudou de nome), que distribua mais camisa ou mais esmolas-família. Claro, uma ou outra pessoa se destaca e foge a essa regra, mas a vida brasileira só te permite sair de seu status social de duas maneiras: guiado pela sorte ou abandonando a honestidade. Na sorte refiro-me a ganhar algum prêmio na loteria ou descobrir que é filho de rico.

A Daslu roubava porque os impostos e sobretaxas são enormes. Fez o que toda empresa faz: mascarar ganhos. Mas toda pessoa desonesta quando cresce sabe que ilegalidade não dura para sempre e que se quiser continuar precisa ser honesto de vez em quando. Ela perdeu o timing e não se legalizou a tempo. Não pagou as pessoas certas, e nem as erradas. Foi pega roubando, teoricamente pagaria por isso, mas agora estará livre.

Nessas horas penso na possibilidade da existência de Deus. Se tal caso fosse citado na Bíblia provavelmente ela pagaria com marcas terríves no corpo e tumores explodindo a cada desonestidade. Seria punida ela e também quem participou. Mas se essa idéia fosse aplicada a todo custo, o Brasil se tornaria um lugar vazio.

É o que chamam de sistema.

Daslu (organização) fazia uso indevido de brechas da lei fiscal e pagava menos imposto, provavelmente sem enriquecer nenhum político (desviar imposto é tirar dinheiro do bolso de quem utiliza/controla esse dinheiro: o político). Descoberta pelos políticos foi transformada em uma espécie de Judas da sonegação. O ladrão pune o ladrão, e como dito em um certo filme, é o sistema corrigindo o sistema mas de forma descarada e sobre pele de cordeiro. A lei cai forte sobre a Daslu enquanto essa não se adequa aos esquemas da lei e da ordem. A lei que pune o inimigo e solta o amigo. Aqui sempre existem duas leis, quem te diz qual se encaixa a você é seu advogado ou o poder de seus conhecidos.

Veja por exemplo, Daslu foi presa e condenada por sonegação. Entretanto, porém e no entanto o político dono de um humilde castelo (visto na foto ao lado) está livre, leve e solto. Vide a ironia: até entre quem detém dinheiro há exclusão social (mas no caso o sentido de social é outro, diga-se de passagem).

Sistema esse que gerou um ciclo (o da empresa sonegar e ter que subornar para continuar sonegando) foi criado por você. Você que vota mal, que aceita os candidatos impostos e não propostos. Que aceita votar sempre nos mesmos ladrões. Que se submete ou ainda pior, que se omite voluntariamente com argumentos pífios votando em qualquer um porque nada vai dar certo. Que veste a camisa da eleição comprada e se deixa levar por pesquisas de opinião vencidas sempre por quem paga mais por elas.

Você elege o legislador, você elege o executor. Não elege o judicante porque esse é e precisa ser protegido pelo legislador e do executor do crivo cruel da sociedade. Os três poderes protegem mutuamente a si próprios, coexistem porque no início de todo esse ciclo está o eleitor, que também é o contribuinte. O cara que paga e o cara que assina embaixo.

A compra de votos só funciona porque existem pessoas como você. A corrupção só funciona porque existem pessoas como você. A violência só aumenta porque existem pessoas como você.

Jesus não morreu por condenação, morreu por omissão.

A democracia premia mentirosos com votos dos omissos, os votos comprados dependem diretamente dos omissos e dos alienados.

Daslu fez por sua causa, foi presa por sua causa e foi solta por sua causa.

Culpados da sonegação e vítimas do sistema por ter se tornado parte dele sem fazer rir as pessoas certas.

Na próxima eleição decidiremos o destino do País, não repita a cagada dessa vez.

* Parte notória do texto dedicada obviamente a quem não se importa com eleições.

Um comentário:

  1. Sempre questionei essa de votar no "menos pior", e como discordo do sistema eleitoral, sempre voto nulo. Não consigo corroborar com este sistema, que propicia tudo o que falou. Caso queira ver em detalhes meus argumentos, veja http://mundiota.blogspot.com/2008/10/sistema-eleitoral.html

    []´s e parabéns pela consciência

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