[Opinião] Ignorantes formando ignorantes?


Não sei até que ponto uma pessoa pode ser avaliada pelo canudo que carrega no suvaco. Conheço gente que possui muito mais conhecimento em línguas que pessoas formadas, que sabem fazer obra melhor que engenheiros e profissionais que dão banho em formandos de algumas áreas. Não vejo mérito nem demérito em possuir ou não um diploma quando a pessoa atinge seu sucesso pessoa/financeiro dentro do que conseguiu sendo digna e sem pisar em ovos.

No entanto me causa pavor que em uma época onde se discutem a inserção obrigatória de cotas na sociedade - como forma de culpar o esforçado pelo descaso público. - que dados do Censo Escolar de 2007 divulgados mostrem que uma parte significativa dos professores não deveria lecionar por falta de diploma (formação) espcífico.

Obviamente existem profissões e profissões. Querer, por exemplo, que um Olivetto - referência em Publicidade - seja graduado em Publicidade quando na prática ele é fonte para graduação (e portanto, um mestre) é leviano. Do mesmo jeito querer exigir que Bill Gates tenha a formação microsoft para trabalhar, ou afirmar que Chico Buarque obrigatoriamente tem que possuir formação em Português, Literatura, Jornalismo e Comunicação Social para ser o que é.

O quadro ao lado, do jornal Zero Hora, mostra bem o que acontece na prática...

Mas estamos falando de professores. São pessoas que precisam aprender macetes, que precisam não apenas do dom de ensinar, mas que precisam de alguma espécie de avaliação que os torne dignos da profissão. E qualquer profissão que lide diretamente com o destino alheio precisa de algum calço. Nesse caso é o diploma. Ninguém nasce professor, não é apenas um dom, mas a capacidade que vai além do conhecimento, que vem de encontro com a paciência.

É o professor a origem de tudo em nossa sociedade. Tanto pro bem e quanto pro mal.

Obviamente cada realidade tem o professor que suporta. É impossível (ou quase) conseguir que um Phd dê aula no meio da mata amazônica recebendo o suficiente para não pagar as contas, apesar das boas almas que se esforçam enquanto suas condições financeiras permitem. Do mesmo jeito é impossível aceitar que uma pessoa que não sabe corrigir quem fale "a gente vamo" - ou que fale, o que é muito mais comum do que se imagine. - ensine a crianças em capitais.

No entanto fica ainda mais clara a falta de investimento em educação pública nos anos em que existe a política de cotas. Cotas essas que quando surgiram possuíam a prerrogativa de serem temporárias, que apenas existiriam enquanto o ensino público não se igualasse ao privado. Os anos provaram o contrário. Sabem onde existe a pior formação e o pior ensino fundamental do Brasil - entre os ditos estados "ricos"?

Sim, no Rio de Janeiro. Tinha que ser no Estado que há anos é adminitrado pelo PMDB...

O mesmo estado que carrega a estigma de ser o que criou essa política tampão. Que apenas dá canudo mas não ensina pra que serve (vide novamente quadro acima, de profissionais formados que fazem outra coisa), isso quando o aluno consegue se formar e consegue se firmar no mercado de trabalho (esse muito mais cruel e ainda sem cotas).

Obviamente isso se reflete nos quebra-galhos. Professores que são formados em disciplinas e que só são professores porque não conseguem ser pesquisadores (ou seja lá que profissão), que não tem menor noção de pedagogia - que o diga simpatia, coisa que não se ensina. - e motivados pela carência de professores em determinadas áreas vão movidos pelo dinheiro "fácil" e fazem das salas de aula ambientes ainda menos estimulantes.

Daí temos... O engenheiro químico que dá aula de química; O engenheiro civil que vai dar aula de matemática; O formando de direito que vai dar aula de redação; A médica que vai dar aula de biologia; O desenhista industrial que vai dar aula de educação artística; O físico que vai dar aula de física; Aluno percebe e sente na pele quando o professor não possui didática. Eu quando aluno sabia diferenciar quem dava aula por formação - e gosto. - do que era o profissional infeliz, que incapaz de exercer outra coisa, decidiu fingir que dar aula para alunos que fingem que aprendem em um país que finge que educa.

Mas como resolver isso?

Não se resolve.

Convive-se. Estamos no Brasil, não na novela.

Na teoria a solução é simples: cursos de capactação e concursos que incluam provas práticas de ensino e a obrigatoriedade dos cursos. além da valorização do professor como profissão - leia-se, aumento de honorários/salários. - e não como quebra-galho dos desesperados, o que atrairia bons profissionais.

A prática será diferente, a solução será pela atual miríade esperança dos tolos e dos aproveitadores: investir em cotas ou na contratação de temporários por salários maiores que de consursados - diminuindo ainda mais o poder da classe. Como se a formação pedagógica fosse definida por sorteio, acaso ou favorecimento político.

Por sinal, a pior coisa que um país pode querer em um momento de transição (onde ou seremos para sempre a piada que já somos ou nos tornamos algo menos ruim) é ter professores ruins, formando profissionais piores. É quer ao invés de mudar pra melhor a longo prazo querer mudar pra pior. Nossos ricos podem se formar no exterior (por isso estão flexibilizando as regras de diplomas estrangeiros, ninguém dá ponto sem nó) e receber boas aulas, quem fica não.

Se dizem em livros. e escutei em minha faculdade, que uma pessoa aprende apenas 10% do que é ensinado, o que aprende alguém cujo mestre não tem capacidade de passar 10% do que sabe?

A culpa não é do Collor, não é do Itamar Franco, não é do FHC, não é do Lula.

É de quem não soube fiscalizar, não soube protestar: a maioria do eleitorado brasileiro.

Quem deixa comentários estúpidos em blogs fugindo da realidade com devaneios sobre coisas que levam a lugar nenhum e não pagam/cobram contas. Quem não fala de política "porque é chato", mas reclama quando "do nada" o terreno ao lado vira favela e deixaram. Quem foge de mais de três linhas de conteúdo e que sequer lê bula de remédio. - ainda que isso possa lhe custar a vida. - ou mesmo um simples manual. Quem faz com que o Twitter se transforme dia a dia no que a blogoslixo, ops blogosfera se tornou: multiplicador de lixo.

Pense nisso (diria um mestre blogueiro...), 2010 já está gargalhando da sua cara.

Fontes:
O Globo;
- Censo escolar 2007: No ensino fundamental, Rio está entre os piores do país;
- MEC: Um em cada cinco professores não pode dar aulas, diz Censo Escolar 2007.

Lembrando que o significado do termo "ignorância" não diz respeito apenas a burrice, mas também a truculência e a falta de tato, por exemplo.

Um comentário:

  1. Um texto brilhante! Mas uma verdade aterradora. Acho que a educação terá solução quando nosso povo entender que, como está, ela só atende aos interesses dos que já estão no poder. Além disso, ela deve perceber que é a única que detêm o poder de mudar isso e de dar aos seus filhos um futuro melhor e mais justo. Mas aí... começa o BBB ou a Copa e todo mundo esquece esses assuntos "menos importantes".

    Um abraço.

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