[Conto] Jogo da Morte

Era fim de tarde, o sol já havia se posto e a noite já tinha tomado conta do céu quase que por completo, as luzes dos postes já estavam acesas há algum tempo, outras estavam ligadas desde sabe-se quando. A ansiedade aumentava, logo chegaria a hora, mas estavam todos atrasados. A campainha soou uma vez, duas, três vezes seguidas.

- Estão atrasados! - Disse Marcos animado, mas um pouco chateado com os amigos pelo atraso.
- Relaxa, cara! - Disse Alexandre enquanto entrava.
- Trouxemos uns salgadinhos! - Disse Fernando mostrando umas sacolas abarrotadas de sacos de salgadinhos.
- E Cerveja! - Anunciou Olavo mostrando dois pacotes de latas de cerveja.
- Vamos, andem logo, já vai começar.

Todos se dirigiram ao quarto de Marcos, estava um pouco desarrumado, mas nada com que eles já não estivessem acostumados. Fernando foi a última a entrar, fechou a porta jogou os salgadinhos no carpete e se largou pesadamente na cama de Marcos. Os outros sentaram no chão e marcos tomou seu lugar na cadeira a frente de seu computador.

Eles olhavam vidrados a tela do computador enquanto Marcos abria alguma coisa, a ansiedade só aumentou quando na tela surgiu um símbolo, então marcos aumentou a tela e afastou a cadeira para que todos pudessem ver melhor. Repentinamente uma música rápida e pesada começou a tocar, aliada a música imagens de pessoas sendo surradas e torturadas invadiam a tela na mesma velocidade alucinante da música. Após um minuto dessas cenas a imagem mostrava um palco com lindas dançarinas vestidas com roupas sensuais, um suposto apresentador trajando um impecável terno preto surgiu em seguida dançando de forma alegre o que não combinava em nada com a música. Junto com o logotipo com o nome do programa veio o refrão da música que eram homônimos; "Time To Kill Is Now" (A Hora de Matar é Agora, era a tradução do nome), era como nome programa e também era o nome da música de abertura que era executada pela banda Cannibal Corpse.

- Boa noite, carniceiros! - Saudava o alegre apresentador. - Esse é mais um... "Time To Kill Is Now" - falou em uníssono com a platéia que parecia ainda mais animada que o próprio apresentador.
- Esse cara parece o Silvio Santos! - Comentou Olavo.
- Fica quieto! - Repreendeu Fernanda batendo nele com um travesseiro.

Ao que Marcos explicou o programa era um daqueles de perguntas e respostas misturado com algumas gincanas, a diferença era oi cunho das perguntas e as gincanas praticadas. As perguntas eram relacionadas sempre a temas como morte, torturas e qualquer coisa que lembrasse sofrimento físico. Os participantes tinham fios conectados a várias partes do seu corpo, cada vez que errassem levavam um choque e cada pergunta errada o nível do choque aumentava e a platéia ia ao delírio a cada erro e os participantes ficavam cada vez mais aflitos.

As "gincanas" era o ponto alto do programa, cada uma com um tema diferente, todos direcionados a torturar os participantes como: andar descalço sobre brasas, rastejar sobre lâminas afiadas, atravessar um longo caminho enquanto tentava se esquivar de socos e pontapés, fugir de apedrejamentos, dentre outros. Quem perdesse ainda era obrigado a suportar uma sessão de tapas desferidas por alguém com uma luva repleta de espinhos finos dos dois lados.

O último quadro do programa era uma disputa contra o tempo, os participantes tinham de primeiro se livrar de uma cadeira elétrica, em seguida seriam amarrados em uma camisa de força e teriam de passar por uma pista com todas tarefas realizadas nas gincanas anteriores. Ao final de tudo anda teriam de disputar entre si as metades de uma chave que abriria a porta para a vitória e a única forma de obter a metade que estava com o outro era uma só, matando o adversário, isso se o adversário ainda estivesse vivo até o fim do percurso.

No dia na escola os amigos ainda comentavam estupefatos o que haviam visto na noite anterior, os salgadinhos e as cervejas estava intactos na casa de Marcos.

- Aquilo só pode ser mentira! - Disse Alexandre - Quem iria para um programa desses para ser torturado e nem saber se vai sair vivo de lá?
- Eu acho que era real - Retrucou Olavo - Viu só todo aquele sangue... E no final quando aquela mulher arrancou os dedos do cara a mordidas! Falou com expressão de surpresa a ânimo, ainda mal podia acreditar no que vira.
- Eu andei pesquisando ontem e descobri que muitas pessoas que participaram desse programa estão desaparecidas. - Falou Fernanda demonstrando um certo arrepio.
- Eu falei pra vocês, a coisa é séria! - Concluiu Marcos.
- Mas como ficou sabendo desse programa? - Perguntou Olavo.
- Descobri sem querer navegando pela internet.
- Mas se esse programa é real, como ninguém prendeu os realizadores ainda? - Questionou Alexandre.
- Pelo que li eles só transmitem pela internet e nunca estão no mesmo lugar. Também não saem divulgando abertamente por ai.
- Aposto como tudo isso não passa de joga de marketing - disse Fernanda mostrando uma expressão de desinteresse repentino - repararam quanta coisa de marca tinha lá?
- Verdade, também reparei nisso - Concordou Marcos.


Os dias se passaram o assunto entre eles ainda era sobre o tal programa, como Marcos disse as exibições eram semanais e na semana seguinte lá estavam eles na casa de Marcos outra vez. Pesquisaram da forma que puderam sobre o programa, mas não conseguiram descobrir muita coisa, apenas suspeitas de fraude, como o fato de muitos dos participantes usarem nomes de celebridades ou personagens de ficção. Descobriram também que o programa era supostamente patrocinado por uma produtora de filmes de terror. Encontraram relatos na internet de alguns participantes que alegavam que tudo não passava de mera encenação, que tudo era combinado antes do programa e os participantes ensaiavam algumas coisas previamente.

Como seu circulo de amigos não se restringia a apenas eles logo boa parte da escola estava sabendo do programa e todos estavam tentando vê-lo de uma forma ou outra, seus pais por conseguinte também souberam da existência da macabra atração, a maioria, obviamente, ficou chocada com o que viu, muitos se uniram a um movimento de Pais e Amigos da Moralidade (como eram conhecidos) que tentavam inviabilizar a exibição do programa, pois sua popularidade não era grande apenas entre os adolescentes daquele bairro, várias pessoas de quase todo o país já haviam ouvido falar do estranho programa que acabou ganhando um público cativo.

Não demorou muito e a grande mídia descobriu o "fenômeno" do programa e começou a atacá-lo de diversas formas, grupos religiosos também atacavam a "atração" taxando-a de demoníaca e profana. Mas tais ataques só serviram para aumentar ainda mais a popularidade do programa. Certa vez o apresentador anunciou que o programa daquele dia seria especial, mostrariam os bastidores do programa, como ele era feito, como escolhiam os participantes, a platéia, como eram os efeitos visuais, a maquiagem... Enfim, revelando que tudo na verdade não passava de uma "brincadeira".

- Você vê livros de terror, quadrinhos de terror, filmes de terror, então porquê não um programa de entretenimento de terror!? - Questionou o irreverente apresentador quando foi em um programa de entrevistas.
- Mas você tem de concordar de que o programa exibe imagens fortes e tem um tom de realismo muito grande. - Disse o entrevistador.
- Sim tem, mas veja os filmes de hoje em dia, expõe, cada uma sua maneira, vísceras, órgãos internos, todos de forma bem realista, não é uma coisa bonita de se ver, mas é uma indústria lucrativa e que cresce bastante a cada dia. - Retrucou.
- Mas vocês não se preocupam em chocar demais a sua audiência?
- Sim nos preocupamos, quanto mais chocarmos, melhor! - Respondeu gargalhando. - Mas entenda bem - continuou - estamos apenas levando um tipo de entretenimento que já existe, de uma forma diferenciada e para um público um pouco diferente, apenas isso, não estamos matando pessoas. Veja por exemplo na sua platéia há pessoas que já participaram de nosso programa e estão vivas, inteiras e sãs para lhes contar tudo que acontece por lá.

E assim foi, eram três mulheres e dois homens que diziam ter participado do programa, enquanto relatavam o que realmente ocorria nos bastidores do programa, um "VT" com suas respectivas participações era exibido, inclusive as cenas de suas supostas mortes, um dos quais "morria" na cadeira elétrica.


Depois disso os ataques ao programa foram diminuindo, porém não sua popularidade, ganharam apoio de grandes marcas de artigos esportivos de proteção, de produtos médicos para a limpeza de ferimentos e de higienização, dentre muitos outros que poderiam ter alguma relação. Uma emissora de TV aberta e outra via cabo chegaram a propor um contrato para a exibição do programa, mas tal acordo foi prontamente negado devido as grandes restrições que deveriam ser feitas.

Mesmo com a grande notoriedade do programa e ele não sendo mais aquela grande novidade de antes, os quatro amigos continuavam se reunindo toda a semana para assistir ao seu programa favorito. Mas um belo dia uma surpresa surgiu na caixa de e-mail de Marcos, um convite...

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