[Autores Convidados] Rob Gordon - Sarney, Ética e Sofá.

Dessa vez vou abrir espaço a opinião, mas a de outros autores que não os do blog.

Na Blogosfera, não tem jeito, de um modo ou de outro quando escrevemos nossos blogs se tornam reflexos de nós ou ao menos uma espécie de fuga de algo, ou apenas uma janela pro mundo. Cada autor, depois de um determinado tempo, apega-se a uma temática, a um modo de encarar as coisas ou mesmo é considerado assim pelo público de seu blog, que em geral quanto mais antigo, mais acostumado torna-se disso.

Pensando nisso, e pensando no foco do meu blog, que apesar dos meus esforços não consegue fugir do tema "Opinião", decidi chamar outros autores e realizar postagens opinativas sobre situações do dia a dia. Porque do mesmo jeito que você se pergunta "como ele escreveria se fosse sobre esse assunto...", eu também me faço em relação aos blogs que acompanho.

Para o pontapé inicial escolhi Rob Gordon, cujo blog Champ-Vinyl, é minha referência de cotidiano e entretenimento (e de tops 5). Um autor que ao meu ver consegue ser tão formidável no trato pessoal quanto no profissional. Sua altura física é inversamente proporcional a sua genialidade, diga-se de passagem.

Procurei-o no MSN depois que vi umas mensagens dele no Twitter a respeito do Sarney. E perguntei se não estaria interessado em postar a respeito aqui. Me pediu para esperar, e em poucas horas me surgiu com toda a postagem (quando pensei que talvez não aceitasse, pois não é exatamente a praia dele). Agora, transcrevo aqui, sem cortes.

Minha opinião sobre o tema, óbviamente ficará restrita aos comentários, agora esse espaço é dele.

Deleitem-se, porque está melhor que muito bom.


Por Rob Gordon,

Quando fui convidado pelo Dragus para escrever um texto sobre política, tremi. Eu escrevo sobre bobagens cotidianas, e não sobre assuntos de gente grande, como política. Elaborar um texto sobre política é difícil demais. Mas, aí, lembrei que moro no Brasil e, justamente por causa disso, escrever sobre política é fácil.
Afinal, hoje em dia, você não precisa escrever um texto. Basta escrever seis letras. Sarney. Pronto. O texto sobre política está pronto. Você acha que estou exagerando? Entre no Twitter agora e faça uma busca por “Sarney”. Você achará milhares de ocorrências, sendo que a maioria delas terá a palavra “fora” antes. O Twitter está mobilizado para tirar o Sarney do Senado.

E, como o Twitter é uma amostra da nossa sociedade, isso me faz pensar que o país está totalmente imbuído com o objetivo de aprisionar (ou, até mesmo, encarcerar) o ex-presidente da república (faço questão de escrever cargos públicos em letra minúscula). Ou não. Basta uma rápida olhada pela janela ou dar uma volta pelas ruas da grande cidade para descobrir que o protesto restringe-se ao mundo virtual.

Isso pode ser entendido de uma forma. A população que usa a internet é politicamente ativa e luta pelos seus direitos, protestando e fazendo barulho. É a elite cultural do país: gente com acesso à informação, que está acompanhando o que acontece em Brasília e deseja acabar de uma vez por todas com os escândalos políticos que já devem estar até no cartão de visita do país. E, claro, isso não se estende às ruas porque a grande massa de brasileiros não sabe direito o que está acontecendo, porque mal conseguem soletrar uma manchete de jornal.

Eu, por outro lado, entendo isso de outro jeito. O protesto contra o Sarney encontra-se no Twitter por que é fácil. É estupidamente cômodo ficar sentado confortavelmente metendo o pau no político ladrão da vez (sim, hoje é o Sarney, mas amanhã será outro; mudam-se as moscas, mas a merda é a mesma, desde os tempos do Brasil-Colônia). Para que ir para a rua se você pode fazer sua parte aí mesmo, onde está, de calça de moletom, meias e tomando suco?

Esse pensamento é tipicamente brasileiro. Resta saber se o povo está tão desanimado com a situação política do país que acredita que nem vale a pena se esforçar para mudar algo, já que temos sempre aquela sensação de que tudo irá continuar como sempre foi, ou se é simplesmente mais cômodo. Eu, particularmente, acho que é uma mescla das duas alternativas. Realmente, é mais cômodo. E, quanto ao fato de termos a sensação de que as coisas sempre serão iguais... Bem, parto do princípio que isso também é conseqüência do nosso comodismo.

Aliás, o comodismo já mudou e se tornou festa. No Twitter, celebridades como Marcos Mion e Júnior começaram a elaborar protestos contra o Sarney. Não tiro o direito de um Marcos Mion expor suas opiniões – pelo contrário, luto por isso. Deixando o lado de ele fazer isso para conseguir atenção, convenhamos: a partir do momento em que um Marcos Mion, que nunca teve muito a dizer, resolve assumir a linha de frente da batalha, é que a guerra já está perdida antes mesmo de começar.

Mas não importa, é tudo festa. Sarney continua mandando e desmandando na capital do país, mas o resto da população faz piada. Tudo aqui é motivo de piada. É aquela velha história que dizem, que “o brasileiro é um povo sofrido, mas que jamais perde a alegria” e que eu, particularmente, encaro como prova de que somos um povo bobo. “O povo não é bobo?” É bobo, sim. É bastante bobo.

Aliás, cá entre nós, para que derrubar o Sarney? Para que ir às ruas e mandar o presidente do Senado para a cadeia – ou para o limbo, pois a máxima que a lei só se aplica aos pobres nasceu aqui, na Terra de Vera Cruz ou – ao menos, adiantar sua aposentadoria? Afinal, na próxima eleição, nós vamos fazer tudo de novo, e votar nas mesmas pessoas de sempre, perpetuando cada vez mais a desonestidade e a corrupção.
É engraçado isso. Nós damos a chave do galinheiro para a raposa, achamos ruim o fato de que ela come todas nossas galinhas, mas não temos coragem ou disposição para tirar a raposa dali. Ficamos sentados na varanda, olhando o galinheiro de longe e fazendo piadinhas a respeito. E, melhor ainda, se pudermos, vamos roubar a galinha do vizinho, fazendo a mesma coisa que a raposa.

Então, será que achamos ruim o Sarney estar roubando, ou achamos ruim alguém estar roubando e nós não estarmos levando nada por fora? Nem todas as pessoas que conheço devolvem dinheiro quando recebem troco a mais na padaria, e aposto que nem todas as pessoas – ou nem mesmo você – faz isso. E, meu amigo, isso que você faz e o que o Sarney – aquele cara que você andou malhando no Twitter, caso tenha esquecido – é exatamente igual. Antes de ser presidente do Senado, José Sarney é brasileiro. Ele rouba porque é presidente do Senado ou porque foi criado achando que pode levar vantagem em tudo?

E você? Você também é brasileiro. A diferença é que ele mexe com milhões e você, com centavos. Ou seja, você ainda é mais barato que ele.

Sim, sei que tem muita gente honesta no país. Muita gente mesmo. Mas, desde que se instalou a democracia por aqui, vale a opinião da maioria. E a maioria aqui está longe de ser honesta – desde roubar milhões a furar a fila do cinema, todos nós temos pecados. E o problema não é ter pecados, mas sim não se importar com eles. O problema é se achar mais esperto que os outros por causa deles.

Assim, peço desculpas a todas as pessoas honestas (eu sei que vocês estão aí, em algum lugar, tentando fazer do país um lugar melhor para se viver) por este texto. Desculpe mesmo se ofendi vocês. Já os demais, sintam-se em casa. O Cazuza uma vez pediu para que o país mostrasse sua cara, e ele mostrou. E ele tem a sua cara. Sua e do Sarney.

Por isso, se você tiver oportunidade de assumir um cargo público e encontrar a possibilidade de roubar alguns milhões, lembre-se que o máximo que vai acontecer com você é ser xingado no Twitter. Ninguém irá as ruas pedir sua cabeça.

E, mesmo se pedirem, um conselho: tente agüentar até o carnaval. Aí, o país finalmente sai as ruas, mas apenas para dançar e celebrar o fato de que o problema não é que não sabemos cuidar do nosso galinheiro, mas sim que, na verdade, não estamos nem aí para isso.

Só fingimos muito bem.

Para ver mais textos de Rob Gordon procure em: http://champ-vinyl.blogspot.com

7 comentários:

  1. O problema em geral do sofá é que ele se manifesta também nas rodas de conversas.

    O pessoal da internet tem a opinião, tem a forma de obter informação e até de disseminar ao vivo mesmo. Puxar o assunto em faculdade, etc.

    Mas política é tratado como um assunto chato, que só se discute muito pouco ou evita-se na roda de amigos (exceto se sua roda de amigos for extremamente politizada, mas daí todos também devem ter internet em casa).

    E sem essa divulgação real e independente - afinal de contas, quem detém o poder de informação já escolheu seu lado: o do próprio rabo/anunciante. - quando chega no momento de tentar mudar, a opinião predominante continua sendo aquela que a mídia com mais dinheiro manipulou.

    Mas pode ser que em 2010 mude, ou continue a mesma porcaria... Nunca se sabe.

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  2. Acredite, as pessoas honestas não se ofenderam com seu texto. Pelo menos não aquelas com algum senso crítico.

    Uma experiência de intercâmbio em uma cultura que entende o que significa viver em coletividade te mostra como as pessoas ao seu redor estão perdendo tempo, dinheiro, saúde, paz, felicidade e dignidade tentando garantir "o seu" como se o resto não importasse. Eu já pensava assim, mas depois do intercâmbio ficou insuportável.

    E é angustiante saber que coisas enraizadas culturalmente como esse comportamento que vc desceveu não podem ser julgados com tanta frieza, afinal a pessoa tem culpa e não tem culpa ao mesmo tempo. Como futura Geógrafa, devo dizer: Tô fudida.Geógrafa

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  3. A ética brasileira é brasileira, este é o problema.
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    Igual raciocínio se emprega aos políticos corruptos, que só são corruptos pois refletem nossa sociedade corrupta...
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    Ou todos vocês acham que eles são seres alienígenas totalmente diferentes do típico brasileiro?

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  4. A minha indignação é sobre as alianças de quem, outrora atirava pedras, e hoje ajuda a construir o castelo.
    Estou falando do nosso (éca) presidente, naturalmente.
    Sarney, Collor... o que mais está por vir?

    Os ingleses têm um ditado memorável e adequado a momentos parecidos com esse: "Politics make strange bed-fellows"... que se traduz livremente por algo como "a política forma os mais estranhos casais".

    Rob, seu texto só é capaz de ofender os "mal-acabados" que, aliás, se ofendem por qualquer coisa.

    Desculpe se acabei me excedendo e fugindo um pouquinho do tema... releve, é coisa de bruxxa velha.

    Beijokinha carinhosa para o Rob (continuo sua fã) e outra beijokinha carinhosa para o Dragus (mega parceiro).

    *

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  5. Muito bom o seu texto. Li do início ao fim e concordo com muita coisa.
    Só sinto muita pena do preconceito... não que eu não tenha os meus, mas geralmente procuro conhecer o que e de quem falo... é fato que o brasileiro é um povo que sente prazer em falar mal dos outros. Isso está em nós desde criança.
    Mas mesmo sabendo que é em vão, sugiro que procure conhecer Marcos Mion... vale à pena, até para falar mal com propriedade.
    Marcos Mion é um artista, mas não é só um artista (ou celebridade, como prefere colocar quem nada entende de arte).
    Marcos Mion também é um pai incrível e um empresário respeitado de São Paulo. Suas 5 empresas dão emprego a muita gente. Gente que ele trata com respeito e dignidade.
    O Marcos Mion da MTV é um personagem. Mas quem só consegue ler o superficial, o que está mastigado pela TV, não consegue sacar isso. Entendo... não é burrice, é falta de sensibilidade. Marcos Mion é o tipo de pessoa que se você pudesse conhecer a fundo, ou mesmo conversar por uma hora, diria o que já ouvi de muita gente: "estou com vergonha do que pensava sobre ele".
    Porque Marcos Mion tem sim muito o que dizer. Atende suas fãs na porta da MTV às 2h da manhã, depois de um dia inteiro de trabalho. Sabe o nome delas e já ajudou muitas. Marcos Mion não tem preconceito com classes, cores ou credos... Marcos Mion é um bom amigo. Daqueles que conseguem tirar o que você tem de melhor.
    Use minhas palavras como incentivo. Crescer, admitir, mudar... tudo isso só ajuda os bons... de caráter e de coração.
    No mais, parabéns pelo texto.

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  6. Giovanna, obrigado pelos elogios.

    Quanto ao seu comentário, em momento algum eu acusei a pessoa Marcos Mion. O meu problema é com a celebridade Marcos Mion. Como você mesma disse, é um personagem, concordo. Mas é um personagem criado por ele, e não pela mídia (ou seja, não é mastigado pela TV; como o personagem é dele, se alguém o mastiga, é ele).

    Aliás, o meu problema específico com a açção feita no Twitter por ele e outras celebridades é que nasceu com ar de palhaçada (no sentido de "fazer graça") e aparecer. Não vi outro propósito nisso, e, para mim, isso se confirmou quando o Ahston Kutcher se negou a participar (com uma classe e sobriedade que me deixou surpreso), e o Marcos Mion ainda respondeu fazendo gracinhas e ofendendo o cara em portugês.

    Ou seja, em momento algum a pessoa Marcos Mion esteve envolvida nisso. Sempre foi o personagem.

    Isso, claro, se existe realmente a diferença entre personagem e pessoa. Porque eu não o conheço pessoalmente, então não posso falar. Mas, volto a dizer, se existe a diferença, quem estava ali no Twitter "protestando" (aspas bem grandes) era o personagem - criado por ele.

    Obrigado pelos elogios (e desculpe o tamanho da resposta) :-)

    Beijos

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