[Conto] Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 1.

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Livro 1: Cisma.

RETORNO

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Seis meses antes, em algum dia de 2010...

- Eu pequei.

A pequena Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, localizada na rua Uruguaiana, na capital do estado do Rio de Janeiro, é uma espécie de ilha de passado cercada de arranha-céus e de um barulhento e conturbado centro de comércio popular, chamado usualmente de camelódromo. Exceto pelos dias de missas ou rezas o ambiente é predominantemente habitado por mendigos da região que procuram um lugar para ficar no período entre o horário que acordam e são expulsos das portas de lojas e os momentos em que as lojas fecham e podem retomar seu habitat. O cheiro de velas queimadas impregna o ar, o que de certa forma é muito melhor do que o fedor de suor que teria na ausência dessas.

O enorme homem de aparência estrangeira, mas sotaque nordestino está ajoelhado em frente do confessionário. Algumas lágrimas escapam e alcançam o chão empoeirado do ambiente. Ele confessa em voz baixa os atos e atitudes das quais se envergonha, não por tê-las executado, mas por sentir orgulho delas. Alguns poucos mendigos reparam nele, e esses que reparam o tomam como louco, afinal de contas, o confessionário está vazio.
- Se tu procuras por perdão deveria ao menos esperar alguém nesse espaço. - Diz o padre da igreja, que se aproxima do visitante e coloca amigavelmente a mão em seu ombro.
- Não procuro perdão. - Responde o homem, recompondo-se.
- Então o que o trás a casa de Deus?
- Procuro confissão. São pesos diferentes da mesma moeda. Não acredito que mereça perdão...
- Todos os homens o têm de nosso Senhor, basta apenas que peça.
- Seria muito bom... Seria sim. - Indaga, falando mais para si do que para o padre.
- Qual seu nome, meu jovem?
- Albano.
- Bonito nome, pelo sotaque veio do norte, acertei?

O padre não termina sua frase. Dois jovens atravessam o saguão com pressa e se escondem atrás da mesa do altar. Albano vê com nitidez que um deles carrega um malote de dinheiro debaixo do braço esquerdo e uma arma de calibre pt.380 na mão direita. Sem perceber nada o padre aproxima-se dos jovens sem dar-se conta do perigo que corre. Albano, em paralelo, sorrateiramente adentra pelo confessionário e prepara pra mais um dia de sangue.

Inocentemente o padre pede aos dois jovens que se retirem da casa de Deus. Dois tiros separam o padre da sua fé, e a realidade humana tornam-se claras enquanto o corpo do simpático homem tomba com um furo na testa e outro na garganta. Ele ainda tenta se apoiar na mesa, mas o esforço inútil apenas o faz levar consigo o pano que a cobria e os objetos religiosos da missa que não começaria mais em meia hora.

A comoção e o pânico são imediatos enquanto ao mesmo tempo dois homens de uma empresa de transporte de valores entram na igreja. Um deles, um homem de pele negra e com um ferimento do ombro direito, carrega consigo um fuzil. A mesa do altar tomba e os marginais improvisam uma barricada.

Barricada de madeira só funciona em filme. O segurança negro dá diversos tiros na mesa e em pouco mais de três segundos sangue escorre pelo chão. O que matara o padre ergue-se furioso, mesmo com vários furos no corpo, e tenta disparar contra os vigilantes. O outro segurança transforma o esforço em purê de miolos ao atingir sua cabeça com um tiro certeiro no meio da testa. O jovem gira no ar por instinto corporal e desaba sobre a mesa tombada, ficando numa posição nada honrosa para a imagem de Cristo, logo atrás de si.

O curto tiroteio foi suficiente para esvaziar a igreja e ao mesmo tempo enchê-la de curiosos. Pessoas com seus celulares e câmeras tiram diversas fotos. Poucos realmente choram o destino do padre. Em menos tempo do que os vigias demoraram a imprensa chega ao local. Um repórter armado com seu microfone julga imediatamente os criminosos como vítimas da sociedade e taxa os vigilantes como assassinos. Albano enquanto isso ri da sociedade e observa o corpo inerte do padre.

Sorrateiro e alheio ao movimento de curiosos, Albano vai direto até o corpo do homem que até segundos atrás o convencia do perdão divino. "O perdão é divino, mas as balas são bem humanas...", pensa enquanto observa o corpo diante de si. Ele toca no pescoço do padre e procura por algum sinal de vida, um mínimo fio de esperança. Os olhos abertos do homem parecem condená-lo. "Se Tirolez tivesse assumido o padre não estaria morto.", diz a voz em sua mente incitando-o.

Enquanto se afasta um pesar comum, mas nada visível toma a mente de Albano. Dentro de si Tirolez berra cada vez mais alto por liberdade. Reclama por ter deixado amadores cuidarem disso. Reclama por Albano ter deixado o soldado e se tornado outro amador. Por ter morrido em vida.
- Ele está se movendo! - Berra uma mulher observando o corpo do padre.
- É um milagre! Chamem uma ambulância! Rápido. - Berra os seguranças.

A turba cerca o padre e novamente Albano se aproveita da confusão para se afastar. No entanto há alguma coisa errada, ele sabe disso. O padre estava completamente morto, não havia nenhuma pulsação naquele corpo. O que quer que esteja acontecendo naquele homem, evidentemente não é um milagre.

Ao menos não um milagre divino.



O chão nunca esteve tão vermelho. Aquele ambiente sofrido nunca parecera tão abandonado quanto naquela época. Jonas estava completamente entediado e nunca sentira tanta vontade de entrar em ação quanto naquele dia. Cada elétron de seu corpo astral ansiava por se sentir útil, e por mais treinamento que pudesse realizar naquele mundo destruído não substituía o prazer de agir.

Não conseguia mais se imaginar o mesmo moleque covarde e medroso que há pouco mais de dois anos terrestres embarcara numa missão que literalmente redefinira o destino do mundo dos vivos. Ou "dos que se diziam vivos", conforme aprendera nos meses posteriores. A Sombra tornara-se uma presença rara e o temido Devorador de Almas há muito abandonara suas correntes e se tornara figura rara. No dia anterior ao ocorrido na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, Jonas sentiu novamente a presença da Sombra. E dessa vez não existia sorrisos ou ironia em seu aspecto.
- SanoDji, amigo, trago notícias boas e ruins... - Comunica, sem dar saudações ou cortejos, o que era completamente incomum.
- Tem alguma encrenca acontecendo? - Pergunta Jonas.
- Direto como sempre, ainda impulsivo, mas direto. Sim, existe.
- Isso significa que me tornarei útil novamente?
- Sim. Sim.
- E que voltarei a Terra.
- Sim.
- Então que mal há nisso?

A Sombra não responde. Ela não queria saber qual a opinião do rapaz a respeito, muito menos queria que ele entendesse. SanoDji era apenas um tolo que precisava de uma direção. Prestativo, mas tolo. Ela novamente o usaria em seus planos, novamente se aproveitaria dele, arriscaria em definitivo a morte de mais uma alma. Não se arrependeria, ou mesmo que isso ocorresse, ninguém saberia. SanoDji era o imbecil perfeito para qualquer tipo de missão.

Nas horas seguintes a Sombra providenciou os preparativos para o retorno de seu pupilo. Tudo seria realizado da melhor forma possível e o hospedeiro ideal já estava escolhido. Se antes era preciso que Jonas habitasse o corpo de um excluído, dessa vez Jonas habitaria o corpo de um protegido, de um homem com bens e propriedades, mas de história espiritual tão podre que nenhuma boa alma se preocuparia com o destino de sua carcaça em terra.

E tão ou mais problemático quanto fora Fernando...


Continua: aqui.

Um comentário:

  1. É muito bom ver uma nova de Jonas, particularmente acho que é sua melhor criação literária. Agora é ficar no aguardo pelos próximos capítulos!

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