[Conto] Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 2.

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2

O FIM DO MUNDO ESTÁ PRÓXIMO.


Essas letras estavam escritas em uma placa de madeira exposta por um mendigo próximo da igreja onde ocorrera o milagre. Se antes, durante o crime, tudo tinha potencial apenas para mais uma rotina diária de Carlos Eduardo, o repórter que estava próximo do tiroteio fazendo uma matéria completamente descartável sobre camelôs, agora ele tinha em mãos uma oportunidade única de trazer o furo daquele milagre.
- Estamos no ar? - Perguntava Carlos Eduardo, ajeitando o paletó e preparando-se para ser chamado ao vivo no plantão televisivo. Sua maior chance numa carreira de matérias onde a única parte do corpo que exibia era a mão que segurava o microfone.
- Ainda não. - Responde o homem-câmera. - Cinco, quatro, três, dois, um...
- Interrompemos nossa programação para trazer com exclusividade nosso repórter do Canal Sete para anunciar um fenômeno no mínimo inusitado. - Diz o apresentador e repórter, em rede nacional. - Estamos ao vivo e Carlos Eduardo vai explicar o que aconteceu. Carlos Eduardo, está nos ouvindo?
- Alto e claro Datena. - Responde Carlos, esforçando-se o máximo que pode. -Estamos aqui na Rua Uruguaiana, na Igreja da Nossa Senhora do Rosário onde aconteceu uma verdadeira prova da existência de Deus. Um padre, Datena, tomou um tiro no meio da testa, e mesmo depois de dada certa sua morte ele de repente se levantou.
- Levantou? - Pergunta Datena, verdadeiramente espantado. Apenas lera o teleprompt, não tinha como saber se era verdade. - Ele levou um tiro e levantou? Isso é impossível!
- Não é mais Datena. Eu mesmo vi quando o padre se movimentou pela primeira vez e quando se levantou com as mãos na testa. Foi um verdadeiro milagre.
- E onde está esse homem agora?
- Foi encaminhado pro hospital Souza Aguiar, de onde receberemos em breve o boletim médico com seu estado de saúde.
- Muito obrigado, Carlos Eduardo. Pelo menos uma vez na vida tenho que ver uma boa notícia nesse país!
- Boa noite Datena. Mais tarde trago notícias do hospital.

Datena não voltou. Nem voltaria. Milagres não dão audiência, apenas tragédias, e uma notícia de um padre que ressuscitara soava fantástica demais para ser levada a sério pelas emissoras de televisão. E isso apenas causou uma pequena revolta em Carlos, que sente escorrer pelos seus dedos a primeira chance séria de escapar do ostracismo da profissão. Ele precisava do sucesso, ansiava por ele, mas não conseguia de forma escapar.

Despede-se do câmera e caminha com humor áspero até um boteco da rua Buenos Aires. Na quinta cerveja seu humor de péssimo se torna ainda pior. Se sóbrio pensa em agredir alguém, bêbado consegue importunar os outros freqüentadores do bar até ser expulso do bar sobre ameaças de todos, até mesmo do dono. Com o olho roxo e fedendo a álcool pensa seriamente em dar cabo de sua existência e vai direto para o meio da Avenida Rio Branco.
- Nem pense nisso. - Diz alguém ao puxar Carlos pela gola da camisa.
- Me dei... Aqui... - Reclama o bêbado.
- Quer morrer, dê um tiro nos miolos, mas não atrapalhe a vida dos outros. - Fala o homem, com olhar duro e áspero. - Seja fardo apenas de você mesmo...
- Vai tomar no...
- Se completar a frase vai ter que encontrar seus dentes na praça quinze.

Carlos fica sóbrio de medo. O homem afasta-se e retoma seu caminho, ignorando o olhar do bêbado. Nunca Carlos vira um olhar como esse, e sua alma sabia que da próxima vez que o visse poderia ser a última...



Albano sempre odiava perdedores. Odiava principalmente aqueles que não sabiam dar cabo de suas existências sem atrapalhar ninguém. Nenhum suicida era digno de esforço ou mesmo de piedade, mas não era justo que suas mortes atrapalhassem ou prejudicassem terceiros. Ver aquele podre repórter tentar dar cabo de sua vida fazendo da sua morte um estorvo para todos deu-lhe vontade de simplesmente sacar sua arma e fazer um favor ao bêbado.

"Seria desperdício de bala", diz a voz de Tirolez em sua mente. Albano reluta, mas concorda. Ele sabe que deveria ter feito algo, mas deixa para a próxima, se um dia houver uma. Enquanto sobe a rua Buenos Aires em direção ao Campo de Santana torna a pensar no padre. Algo no fundo de sua alma o deixa intrigado com o levantar repentino e ele sabe que existe muito mais disso do que antes. Precisa tirar a limpo antes que enlouqueça. Não sente essa tensão desde os tempos de Regina.



- O senhor está bem? - Pergunta um médico.
- Sim, porque não estaria? - Pergunta o padre.
- Bem, senhor José Antonio, não sei se lembra, mas você levou dois tiros no final da tarde da sexta-feira passada. Passou por duas operações para retirada das balas e surpreendentemente está diante de mim conversando sem seqüelas aparentes. O senhor entende a gravidade dos ferimentos?
- Se puder me explicar...
- Foram dois tiros. Um atravessou seu pescoço e atingiu a parede atrás de você sem atingir nenhuma veia ou a traquéia. O outro tiro acertou sua testa, atravessando a área da junção entre os ossos frontal e nasal. A bala atravessou todo o seu cérebro e se alojou no osso parietal. Foi um milagre ter sobrevivido. Seu cérebro estava praticamente fragmentado quando o trouxemos para cá, vivo e respondendo aos estímulos, e em uma semana apenas precisamos drená-lo uma vez, e seu cérebro se regenerou.
- Não entendi bem.
- Você levou um tiro que atravessou sua cabeça e quase bateu as botas. Escapou por cagada, milagre ou alguma outra coisa que acredite. Como é padre, pode culpar Deus por isso...
- Sou padre?
- Uma seqüela.
- Como?
- Encontrei uma seqüela. Descanse um pouco senhor José.

Antonio deitou na sua maca e observou o teto do hospital. Sua mente divagava um pouco, mas não conseguia recuperar qualquer dado de sua vida antes de acordar. Muito pelo contrário, dessa vez ele tinha completa noção de quem era e não possuía uma mente conflitante com sua realidade. Ele não era mais o tal José Antonio, mas sim Jonas. Enviado a Terra com propósito ainda desconhecido, mas que julga ser nobre.

Ele se levanta novamente da maca e vai até a janela da enfermaria onde está. Ele reconhece o hospital onde passou anos preso para sustentar os vícios de médicos corruptos. Não fosse o maldito hospital Souza Aguiar ele ainda estaria vivo e ao lado de seus pais e sua vida teria sido no mínimo tranqüila por mais tempo. Mas também não teria salvado a raça humana dela mesma, o que pelo que via não era algo realmente bom e nem tão ruim.

O hospital sofrera reformas de fachada para parecer menos antiquado, mas seu interior era o mesmo. As mesmas infiltrações, as mesmas baratinhas dividindo espaço com doentes e doenças em quartos sem nenhuma privacidade ou dignidade, isso se é que divisórias podem ser determinantes em denominar um "quarto". O eco dos devaneios de doentes era perturbador e o olhar desolado de funcionários deixava bem claro que nada mudara. E aparentemente piorara.
- Jonas? - Pergunta uma mulher de roupa elegante, que destoa de todo o ambiente.
- Não me nome é José Antonio.

A mulher parece ter no máximo vinte e cinco anos, veste um blazer negro, provavelmente Armani - pelo que José pode notar. - tem o cabelo escovado e a pele branca de quem pega pouco sol. Usa um óculos de armação fina e debaixo do braço carrega um pequeno notebook branco do tamanho de um caderno. Quando José termina de falar ela saca esse computador com a mão direita e o abre. Após alguns segundos digita rapidamente com a mão esquerda e volta a falar.
- Eu tenho certeza que você é Jonas. - Fala, exibindo um documento aberto no Word com uma assinatura digitalizada que José reconhece.
- Se eu também fosse, que diferença faria? - Pergunta José, usando instintivamente o tom de voz cordial natural de sua voz.
- Sou Jéssica Ribeiro, pertenço a sessão A512 da Polícia Federal do Brasil. - Responde, mostrando a José sua identificação policial.
- Qual interesse poderia existir da sua parte em uma pessoas desimportante como um padre que levou um tiro na cabeça?
- Dois tiros. E você, José, morreu. Eu sei que apenas existe Jonas dentro dessa cabeça de cabelos brancos.
- Você é insistente.
- E você ainda está com problemas de adaptação ainda. - Comentou Jéssica, transparecendo naturalidade e nenhuma espécie de incômodo com a resistência de Jonas. - Vou te entregar meu cartão, me procure quando melhorar.

Jéssica entrega o cartão, desliga o computador e vai embora do hospital. José observa o pedaço de papel por menos de dois segundos antes de amassá-lo e jogar fora. Jonas não faria nada enquanto a própria sombra o procurasse. Ele desconfiava demais dos encarnados e sua experiência anterior era mais que suficiente para fazê-lo crer isso. Se tivesse que ligar para Jéssica, quem lhe daria o telefone seria a própria Sombra e não um intermediário.

No dia seguinte José recebe alta, ainda que continue sendo considerado inapto pelo enfermeiro que o tratava. Só que opinião de enfermeiro vale menos que qualquer pressão política por sua saída. Havia uma necessidade enorme por parte da igreja católica em abafar o milagre, e manter o padre em tratamento num hospital público não era a melhor forma de evitar isso. Não queriam um novo aborrecimento e não teriam.


Continua... Aqui.

Um comentário:

  1. Gostei. Espero, para a continuação, mistérios e desenlaces poderosos...

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