[Conto] Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 3.

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3


- Quatorze reais. - Diz o taxista, estacionando o carro na Rua Uruguaiana, em frente a igreja.
- Obrigado. - Responde José, entregando o dinheiro, pegando o troco e em seguida saindo do carro.

Por alguns longos segundos José Antonio, ou Jonas, observa a Igreja que por algum tempo chamará de lar. Sua mente agradece profundamente a sorte de ter sido enviado a alguém sem nenhuma espécie de problema mental ou social. Pelo olhar que recebe dos mendigos em torno da igreja, fechada por sua ausência, sente-se querido por quase todos e isso transmite uma segurança absurda.

Na prática, no entanto, a única lembrança que tinha daquela igreja não era da carcaça, era da alma. Jonas passara muito ali pouco antes de iniciar sua vida pregressa de crimes. E foi nas imediações do camelódromo da Uruguaiana que furtara sua primeira carteira. Lembranças de um passado não tão distante para quem tem ciência da eternidade da alma.
- Bom vê-lo com saúde, irmão. - Diz uma pessoa com rosto nada familiar a José, mas que parece ser um padre.
- Com certeza. - Responde, ainda absorvido pelas lembranças. - De onde o conheço? Minha cabeça não está bem...
- Ah, sim. Me falaram que está com amnésia. - Comenta o homem. - Eu sou Frei Carlos, faço parte do Convento de Santo Antônio, ali na Carioca. Fazemos um trabalho juntos de recuperação de crianças viciadas da região.
- Realmente não me lembro... Que bom que faço esse serviço caridoso. - Comenta, sem dar a mínima importância ao que o amigo da carcaça comenta.
- Vim prestar condolências e congratulações ao senhor, nós do convento esperamos com sinceridade que esteja pleno de saúde nos próximos dias para darmos prosseguimento aos serviços.
- Com certeza, quem sabe daqui a uma semana ou duas?
- Sério?
- Tudo depende do meu médico me liberar e minha cabeça ficar menos nublada.
- Fique com Deus, irmão José.
- Fique com Deus.

Frei Carlos retoma o caminho pela Uruguaiana em direção ao Convento. José o observa partir com alguma desconfiança. A voz mansa do frei de alguma forma o incomodava, mas não conseguia retirar nenhuma informação útil ou mesmo inútil sobre o corpo em que habita. Apenas sente uma pontada aguda na parte esquerda do cérebro ao se força, na área onde passou a bala. E só.

Com alguma dificuldade descobre qual a chave da porta da igreja e sem se importar com os fiéis em torno de si torna a fechar a porta logo ao entrar. A recomendação da Igreja era extremamente oportuna e usaria todo o tempo de isolamento para tentar descobrir mais sobre si.

O salão da igreja estava completamente escuro. Pesadas cortinas impediam a luz do dia de entrar pra evitar aumentar o desgaste das peças seculares do templo. Com um tatear rápido na parede acende uma fraca luz que serve apenas para evitar que atropele os bancos dos fiéis e acabe voltando pro hospital de modo ridículo. Alguns chiados de roedores, ou mesmo morcegos, ecoam enquanto caminha.

Ele chega a sacristia e da sacristia abre mais um portão, esse de ferro, que dá em um corredor com aparência aconchegante com duas portas e uma escada para o segundo andar. As portas dão para os depósitos da Igreja, onde Jonas identifica restos de móveis, material de limpeza e algumas caixas estocadas. Sem nada de interessante segue para o segundo andar.

Ao terminar de subir vê um pequeno cubículo com uma porta. Abre-a e revela seu apartamento. É um local confortável, com três cômodos e um banheiro. Um dos cômodos é uma sala de reunião com uma mesa redonda e cinco cadeiras, o outro é uma cozinha. Cozinha equipada, com geladeira frost-free, fogão, forno de microondas e um conjunto de armário embutido com bancada, bem prática.

O último cômodo é seu quarto. Como esperado no quarto há apenas um armário com mudas de roupas nada luxuosas, uma televisão de 14 polegadas em um girovisão, uma estante com livros religiosos e alguns de ficção, a cama de solteiro, um armário embutido de madeira e uma escrivaninha com uma cadeira acolchoada. Não existe luxo, mas é tudo limpo e aconchegante.

José senta-se na cama, pega um livro e liga a televisão. Nada de interessante passa, e livros religiosos nunca agradaram Jonas por soarem piegas demais, quando não hipócritas. Ele troca de canal e diverte-se em saber que na igreja existe televisão por assinatura. Em poucos minutos adormece profundamente.



Albano cansou de esperar por alguma novidade. Seus instintos sabem que José morreu no tiroteio. Ele viu e sentiu a morte do padre. Ele apenas está intrigado com quem teria tomado seu lugar. "Seria uma nova intervenção da Organização no Brasil?", indaga-se preocupado. Apesar de ter incinerado toda a sede brasileira e eliminado todos os agentes ligados a Regina, sempre existem mais agentes. Sempre existe um rato pro queijo exposto.

Ele espera o anoitecer para adentrar na Igreja. Precisou esperar uma semana passar de vigília quase ininterrupta para ver o padre voltando de táxi. Agora era tarde demais pra voltar atrás, se é que algum dia Albano voltara. Um soldado jamais recua, apenas avança contra o inimigo. É a vida, e são as ordens.

Precisamente as dezenove horas vai até o portão lateral da igreja. Bares em volta comemoram e Albano finge urinar enquanto saca uma chave mestra compatível com a porta onde está. Ele teve uma semana para vasculhar todas as entradas do prédio, e com muito dinheiro conseguira essa forma limpa e sem pistas para realizar sua tarefa.

Em poucos minutos chega até o quarto do padre. José Antonio dorme encolhido como uma criança e ronca como uma velha mal amada. Ele pensa em dar um susto no homem, mas primeiro certifica-se que não terá surpresas. Uma rápida procura visual é mais do que suficiente para dar certeza a Albano que o maior perigo do padre está em acertá-lo com a bíblia.

Com um pouco de fome vai até a cozinha do padre. A televisão alta abafa qualquer barulho feito por Albano, por menor que seja. Abre a geladeira e encontra nada de interessante, e uma semana foi muito para maior parte da comida ali dentro. Vai até os armários e encontra uma lata de feijoada e outra de almôndegas. "Definitivamente era preguiçoso...", pensa enquanto abre as latas, em seguida testa o microondas para saber quanto barulho faz.

Pouco barulho. Ao menos pouco para se destacar com o da televisão. Pega um prato qualquer e despeja as latas, com pouco mais de cinco minutos já jantou e está pronto para esperar o tempo que for preciso para conversar com o pretenso recém chegado. E se José não falar com Albano, as armas de Albano o farão.



Continua... Aqui.

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