[Conto] Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 4.

Perdeu o anterior? Veja aqui.

4

Jéssica Ribeiro teve uma ótima noite. Logo depois de conversar com o recém desperto pegou seu carro e foi até a boate Le Boy, na Zona Sul da capital fluminense. Sempre gostou de boates onde não era importunada por jovens bêbados e que mesmo assim poderia arrumar alguém para uma diversão sem compromisso.

Rapidamente conheceu dois rapazes, um deles homossexual e o outro bissexual, que queriam apimentar a relação com a presença de uma terceira pessoa. Como eram extremamente belos e educados, aceitou na hora. O trio foi em seus carros até um motel próximo e depois da noite de folia Jéssica foi embora deixando os dois pombinhos dormindo. Não queria compromisso, apenas aventura.

Chega em casa sorrindo. Beija seu marido, que sequer desconfia da noite agitada da esposa, e vai direto tomar um banho. Em poucos segundos despe-se e adentra na banheira de hidromassagem. Ela tem que segurar o gozo quando se lembra da noite e o riso quando imagina como seria a reação de seu marido se desconfiasse de algo ou soubesse.

Emerson jamais reclamaria da traição, reclamaria apenas de não ter sido convidado. Jéssica e Emerson eram um casal mais moderno que a grande e esmagadora maioria, ainda mais depois do segundo filho e uma cirurgia que os deixou incapazes fazer de gerar frutos em suas escapadelas. Seus filhos, um de dois e outro de cinco anos, por sinal, nem desconfiariam da vida dos pais, e nem teriam como: viviam em colégios internos fora do Brasil.
- Encontrei o padre hoje, amor.
- Ele acreditou que você era da polícia federal? - Responde Emerson, retirando as roupas e indo até o banheiro se juntar a Jéssica.
- Claro que não, olha pra mim! - Diz, deixando parte do corpo aparecer pela espuma, excitando o marido. - Tenho cara de ser filha dele, não de agente federal... Sou gostosa demais.
- Isso com certeza... - Concorda Emerson, já completamente nu. - Por que não cantou ele?
- Ele é padre.
- Amor, estamos falando de José Antonio...

Sem deixar Jéssica falar, os lábios dele tocam os dela, suas mãos e pernas se entrelaçam e mergulham banheira. Jéssica nunca para.



José espreguiçou-se e levantou-se da cama sem notar o visitante em sua poltrona. Completamente distraído levantou-se e caminhou até o banheiro. Urina despreocupado e nem mesmo nota no reflexo do banheiro o a presença de Albano. Seu corpo ainda está lento do pós operatório e anestesiado demais pelos remédios para diminuir a dor do pescoço e da cabeça, que agora com a ausência da morfina se torna realmente presente.

Ele cospe um pouco de sangue e tosse. A dor não é exatamente uma tortura, mas o faz procurar pelos remédios que deixou no bolso da calça. As pílulas estão completamente amassadas e suas cartelas destruídas. "Droga, só dá pra usar agora... Vou ter que comprar tudo de novo.", lamenta enquanto pega duas pílulas, que desconfia serem as que precisa, e as engole com água que pega enfiando a boca na água que desce pela torneira da pia do banheiro. Quando volta a posição normal vê Albano atrás de si.
- Albano? - Espanta-se José.
- Como sabe meu nome? - Intriga-se o invasor, colocando a mão imediatamente no coldre de sua pistola.
- Sou eu. - Responde José, apontando para si mesmo empolgado.
- De onde me conhece? - Ameaça Albano, dessa vez sacando a arma.
- Sou eu, o... Fernando!

Albano calou-se por alguns segundos, então deu um tiro no ombro de José. A bala atravessou o padre e espatifou-se no espelho, destruindo o armário do banheiro. José urrou de dor e xingou Albano com palavrões nem sequer inventados. Em seguida Albano girou a arma e deu uma coronhada na cabeça de José, mas não tão forte ao ponto de ferir, apenas pra causar dor. E causou muita dor na cabeça recém operada.

Jonas cambaleou e quase caiu, mas foi amparado pelo antigo companheiro de combate e levado até a poltrona. Nenhuma palavra mais foi trocada. Albano foi até o armário da casa e achou linha de costura. José berrou dizendo que era loucura, mas Albano riu, aproximou-se dele e colocou a mão direita próximo do buraco de bala, enquanto a esquerda mantinha a arma novamente apontada.
- Você está pensando que é quem? O Rambo? - Berra Jonas, com a mão no ombro.
- Deixa de ser covarde... Foi apenas pelos velhos tempos. - Comenta Albano, colocando o kit de costura sobre as pernas trêmulas de Jonas. - Costura direito, enquanto vou na cozinha pegar gelo para conter o sangramento.
- Já te falaram que você é maluco?
- Só me falam uma vez, na outra não conseguem... Por que está de volta?
- Não sabe?
- Claro que não. Eu me exilei, lembra?
- Só não lembro por que...



Se existe alguma beleza na Índia, Albano jamais a conheceria. Com o dinheiro que juntou nos últimos anos prestando serviços a Organização ele conseguiu sumir sem deixar pistas. As chamas ainda ardiam no prédio da Organização quando Albano desembarcou em Deli. Sem perder tempo com amenidades turísticas embarcou no primeiro coletivo com destino ao interior da cidade e de lá pegou outra série de veículos para o interior mais remoto do país.

Sua aparência estrangeira causou estranhamento nos locais, mas não se importava. Munido apenas de seu espírito e dinheiro que trocou na casa de câmbio do aeroporto ele chega finalmente ao que os locais chamam de Terra dos Deuses e que os ocidentais conhecem apenas por Himalaia. Quando as estradas terminam, Albano somente caminhou.

Foram duas semanas de caminhada, desafiando o frio e a morte, até finalmente chegar no local onde sabia a vida inteira que iria. Ele encontraria nesse local a paz que há tanto tempo anseia e que nunca deixara se aproximar. Quando sua visão começa a fraquejar e seus joelhos estão dormentes de frio finalmente vê no alto de uma montanha seu objetivo.

O templo está lá. Tudo exatamente como em todos os seus sonhos. O aspecto suave e ao mesmo tempo imponente. Sua mente pensa nas pessoas felizes que ali encontraria, na paz e no cheiro suave de mirra que tomaria suas narinas e limparia sua alma. Albano salvara a raça humana, ele impedira o hecatombe nuclear, e agora era o momento de sua recompensa.

A força extra o permite chegar. E se decepcionar.

O local está completamente abandonado. Não há qualquer vestígio da presença humana nem mesmo remotamente. Esqueletos antigos dormem inabaláveis por eras e parecem tão espantados com a presença de um vivo do que Albano com a presença de sua decepção. A quietude do local não satisfez, muito pelo contrário, faz com que Albano se odeie. Sinta raiva de ter seguido o sonho.

Ainda assim precisa se esquentar. Adentra no templo e procura por algo que providencie fogo. Encontra madeira seca, velha, mas que queima bem e na quantidade suficiente para mantê-lo vivo. A fome que sente é insignificante se comparada a sua raiva. Ele observa os corpos, os objetos destruídos e percebe que existe alguma coisa errada. Algo não se encaixa naquela imagem, algo fabricado.

Após passar quase um dia inteiro removendo neve e ossos ele descobre que o abandono ali é mais recente do que aparenta. Alguém esteve ali recentemente e fez tudo isso. Alguém que sabe dos sonhos de Albano, dos planos de Albano. Ele continua procurando e encontra uma fresta em uma parede, ao inserir sua mão nela descobre um pequeno livro. É uma carta de Regina.

"Albano, querido.

Se está lendo essa carta é porque provavelmente me mandou de volta ao plano espiritual. Se está lendo direito, nesse momento deve estar se corroendo de ódio e querendo entender como seu local de sonho sumiu.

Entenda, tolo, o mundo espiritual é muito mais abrangente e maior que o cano de sua arma. Não tem como você ir contra aqueles que sabem sempre quais passos sua sub-espécie dará. Enquanto você pensava em me matar, eu agia para tornar sua prisão na Terra o mais desagradável possível quando eu perecesse.

Isso inclui matar seu sonho.

Viva com a dor, eu estarei longe e melhor do que você.

Regina."

Albano apenas ri do conteúdo da carta. Ao contrário do que Regina supunha, a morte desses homens para alguém que matou tantos é insignificante. O importante sempre foi o local, o objetivo. Um soldado atinge sempre seu objetivo, que as pessoas estivessem mortas era um detalhe. O local estava intacto para seus propósitos e saber o que Regina fez apenas o eximiu da culpa ao invés de dá-la.

Ainda sorrindo se senta e observa atentamente o fogo diante de si.



- ...Foram quase um ano na Índia. - Responde Albano, retornando de seu transe.
- E o que fez por lá? - Pergunta Jonas.
- Meditei e evoluí. Principalmente meditei. Aprendi muita coisa sobre mim.
- Percebo, agora costuma conversar. - Diz Jonas, enquanto se ajeita na poltrona.
- E você, onde esteve?
- Perdido, sem rumo e abandonado. Não sei quanto tempo permaneci onde estava, mas o que são meses aqui lá em cima é muito tempo... Sentia um tédio enorme. Aqui me sinto útil, mas surpreendentemente me sinto também sem propósito.
- Por que?
- Porque apesar de ter voltado pra Terra percebo que existe algo mais acontecendo no plano etéreo... Algo que não podemos participar e que vai vir para cá.
- Senti a mesma coisa na Índia, por isso voltei. E talvez atraído por isso vim para essa Igreja.
- Não sabia que era tão vinculado a mim.
- E não sou, na verdade sou vinculado ao meu desejo de matar, e sei que onde vir um possuído encontrarei oportunidade de saciar meu desejo.
- O que faremos então? - Pergunta Jonas, querendo mudar de foco o assunto.
- Por enquanto apenas esperamos. - Lamenta Albano, segurando a arma com afeto quase paternal, e completamente doentio. - Algo vai acontecer. Tem que acontecer. Esse corpo sabe atirar?
- Não sei.
- Então temos que praticar...




Continua... Aqui.

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