FORJANDO UM GUERREIRO - MARTELO E BIGORNA PARTE 6

Aliança e Discórdia


- Senhor. - Chamou um soldado adentrando pela cabana.
- Sim?
- Esperamos uma ordem, senhor?

O soldado parecia impaciente, seu senhor estava sentado em pose de meditação e nada falou por algum tempo. Não conseguia compreender como ele poderia estar tão calmo em uma situação como essa, mas lá estava ele, sentado sobre sua almofada, silencioso, inerte, como um cadáver.

- Chame Ouwin e Alptraum. - Ordenou.

O soldado prestou uma rápida continência e saiu em disparada. Minutos depois dois homens adentraram a cabana improvisada no meio da floresta, um era baixo, não deveria ter nem um metro e meio de altura, quanto o outro tinha quase um e noventa. Trajava-se com roupas extravagantes, usava uma camisa branca de seda por baixo do colete de couro, todo decorado. A calça era folgada, feita de um tecido grosso que esquentava muito, mas que lhe dava bastante liberdade de movimento. Tinha um sabre embainhado que pendia frouxamente em um cinto mal afivelado. As grandes e pesadas botas de couro eram quase inteiramente rígidas, sempre escondia um punhal de prata em cada uma delas. Isso sem contar seu grande chapéu de três pontas que sempre o acompanhava, mas não hoje, não ali. O outro usava roupas simples, de tecido leve e bem folgadas, gostava de ter os movimentos bem livres. A única coisa apertada era a faixa que usava na cintura, nada mais.

- E então? - Questionou Alptraum.
- Esperava que tivessem algo a me dizer.
- Você nos lidera, não o contrário. - Ironizou Ouwin.
- Mas sabes bem, meu caro, que sempre ouço o quem têm a me dizer. - Falou em tom apaziguador.

Alptraum riu descontraído.

- Os soldados estão prontos? - Questionou.
- Todos em seus postos, apenas aguardando um sinal. - Disse Ouwin.
- Lance o aviso, Alptraum, você virá comigo.
- Como desejar. - Disse fazendo uma reverência e saindo em seguinda.

Fazendo uma simples reverência Ouwin saiu em seguida.

- Suas guerreiras estão prontas, Lady Astarte?
- Apenas esperando minha ordem. - Respondeu com sua voz doce e sensual a dama oculta sentada num dos cantos da cabana.
- Ótimo, elas chegarão por último, mas apenas para garantir que todos fiquem quietos, só deverão agir em último caso.
- Será feito.
- Meu elmo, por favor.

Ela entregou-lhe o capacete angular e pontiagudo na parte que seria a viseira, não fosse por duas fendas logo abaixo, ele seria uma peça inteiriça. A longa crina prateada caia-lhe sobre os ombros. Ele se levantou, pegou sua espada que estava apoiada em um expositor especial logo ao seu lado.

- Preparada, minha cara? - Perguntou amavelmente estendendo uma das grandes e grossas mãos.
- Sim, Lorde Artan!


Todo campo de batalha no fim é um grande campo de morte. Há morte por todo o lado. Há moribundos, que logo morrerão, ou serão mortos. Há cadáveres, há sangue, há morte. Por todos os lados... Apenas morte, desolação e dor. Mas este campo de batalha ainda não havia presenciado o fim desta contenda.

Quando os reforços inimigos chegaram o fervor aumentou ainda mais, assim como o desespero. Acuados os soldados começaram lutar de forma frenética e desesperada, e não há pior inimigo do que um inimigo desesperado e acuado. Eles estavam cientes que as chances de vitória eram poucas, agora eram ainda menores. Soldados que não tinham nada a perder eram inimigos terríveis, pois lutavam literalmente até morrer. Mas não importava, isso por si só não era garantia de vitória. Por mais que agora cada um deles estivesse conseguindo matar mais inimigos, eles ainda estavam em menor número e cada vez mais eles tinham mais ferimentos e cada momento mais tombavam, mais eram mortos.

Antes da chegada dos reforços inimigos, o castelo estava quase conseguindo se ver livre do cerco, mas agora o assédio estava aumentando e o quadro se revertendo por completo. Cada vez mais homens inimigos invadiam o castelo, cada vez mais sangue banhava o solo, cada vez mais e mais mortos se amontoavam pelo chão. Haldar liderava da maneira que podia os soldados que ainda conseguiam lutar, ele mesmo já havia perdido a conta de quantos inimigos havia matado, mas mesmo ele não achava que conseguiria agüentar muito tempo, já tinha muitos ferimentos, alguns um pouco mais sérios, estava começando a ficar cansado, a única coisa que poderia fazer era lutar, lutar até não poder mais se mover.

Seu pupilo também não sabia mais quantos havia matado, a única coisa que sabia era que deveria matar mais e mais rápido, muito mais. Ao contrário de seu mestre, ele não se sentia cansado, se sentia cada vez mais empolgado, cada vez mais sedento. A selvageria de Ignus parecia não ter limites, cada inimigo era morto da forma mais cruel e selvagem possível, isso quando eram mortos. Ele preferia deixá-los incapacitados de lutar, cortava-lhes os braços, esmagava-lhes as pernas, arrancava os olhos. Em sua mente um guerreiro incapaz de lutar tornava-se um empecilho para os companheiros, tornando-os alvos fáceis. Para sua sorte sua estratégia funcionava, mas nesse momento isso não fazia muita diferença.

O general também havia matado um incontável número de inimigos, seu corpo cansado e repleto de ferimentos de diversos graus de gravidade estava banhado com mais sangue inimigo do que o dele próprio. Sua espada dançava no ar, mas sem nenhuma graça, apenas com violência e com uma sede de sangue insaciável. Ele também sabia controlar o próprio shii e fazia uso desse conhecimento para ignorar o cansaço, embora até mesmo esse artifício não estivesse surtindo muito efeito, estava lutando a horas, havia passado a noite anterior em claro, estava ferido.

Junto com Ignus conseguiu matar os magos inimigos, não todos, alguns conseguiram fugir, mas havia sido um combate desgastante demais. Assim que ouviram as trombetas inimigas e viram mais e mais reforços surgindo ambos começaram a matar quem quer que estivesse por perto, os soldados foram presas fáceis, já os magos resistiram mais e melhor, embora alguns fossem um pouco inexperientes e precisassem de um pouco mais de tempo para conjurar suas magias, havia outros que eram mais hábeis e conseguiam evocar seus poderes de forma quase que instantânea. Enquanto matavam um oponente, tinham, também, de desviar dos ataques constantes dos magos que se afastavam cada vez mais, já que não eram bons combatentes a curta distância, nem em lutas onde habilidade e força fossem os principais requisitos.

O general teve um pouco mais de dificuldade de esquivar dos ataques mágicos do que Ignus, por estar um pouco mais ferido, mesmo conseguindo identificar as magias através do seu shii mesmo quando estava distraído. Um das magias conseguiu lhe derrubar, mas Ignus impediu que fosse atingido fatalmente por outra magia quando estraçalhou o crânio do mago com sua espada. Não sabiam quanto tempo haviam levado para dar cabo dos magos, mas sabiam que haviam demorado demais, cada momento perdido só aumentava ainda mais a certeza da derrota.

Tarde demais eles viram que havia mais magos dentro os reforços que haviam chegado, ambos viram com clareza as diversas emanações de magia que se manifestavam em todas as direções, a situação apenas piorava. Mas os magos talvez fossem a menor das preocupações, Ignus viu em meio a confusão carros de combate, um número grande que trazia armas de todos os tipos. Vários carros vinham equipados com uma espécie de disparador múltiplo de flechas que foi acionado assim que Ignus o viu. Era uma arma terrível, apenas um disparo foi capaz de lançar um incontável número de flechas em várias direções diferentes.

O desespero novamente tomou conta do campo de batalha, varias pessoas tentavam fugir, se esquivar, mas era inútil, caso se protegessem das flechas seriam atacados pelos inimigos, caso se protegessem dos inimigos seriam feridos pelas flechas, não havia escapatória.

Um trombeta soou ao longe, mais alta e mais intensa do que as duas anteriores. Todos pararam e olharam, na direção de que vinha o som estava um homem em um imenso cavalo flanqueado por mais duas pessoas uma mais alta do que a outra. O homem da esquerda fez um sinal que foi imitado pela da direito, uma enxurrada de guerreiros pareceu surgir do nada e avançou de forma rápida e feroz contra a massa que se confrontava.

Nenhum dos lados conseguiu entender o que estava acontecendo, ninguém tinha informação de que um terceiro e exército entraria no combate, isso poderia ser bom para um dos lados, e até mesmo ruim para os dois, já que eles pareciam estar em um número maior do que a dos dois exércitos juntos. Homens vinham de todos os lados possíveis, imensos e inúmeros carros de combate despontavam na paisagem trazendo armas e mais homens.

Um novo cerco estava se formando rapidamente e de forma irreversível, os novos inimigos eram rápidos, habilidosos e aparentemente muito mais bem preparados e mo mais importante, não estava cansados nem feridos. Em pouco tempo os dois exércitos estavam cercados, agora um deixara de lutar contra o outro, já que o novo elemento na batalha parecia estar contra todos. O novo exército fez com que todos recuassem em direção ao castelo e lá os cercou. Houveram várias tentativas de resistência, mas todas infrutíferas, cada vez que um grupo tentava dispersas o novo inimigos, eram rechaçados por um incontável número de soldados inimigos que os desarmava e os imobilizava quase que instantaneamente. Mas não foi apenas isso que facilitou a total dominação dos exércitos, uma forte ventania começou a soprar, a velocidade dos ventos era tamanha que eles não conseguiam avançar, sua única opção foi recuar, além do fato que cada vez mais o ar parecia fica pesado e rarefeito.

Pouco menos de uma hora depois da chegada do novo inimigo, uma nova trombeta soou, um toque agudo e longo, seguido de três acordes médios, era sinal de que eles tinham intenção de fazer um reunião com os representante de cada um dos lados. Alguns minutos depois representantes de cada um dos lados, cada um portando seu estandarte veio até um ponto neutro. O exército invasor vinha com três homens, o local vinha com apenas dois, o general e Ignus. Quanto inimigo que acabara de chegar apenas um veio, e este não portava nenhum estandarte. Era um homem de estatura mediana, magro, cabelos escuros e longos que lhe caiam até pouco abaixo dos ombros, seus olhos eram igualmente negros e contrastavam com sua pele alva. Tinha uma expressão calma serena, mas que transmitia certa ferocidade no olhar. Seu traje negro não deixava duvidas de que era um necromante, isso fez com que os presentes sentissem certo arrepio, menos em Ignus, que pareceu reconhecer a figura só não sabia de onde.

- Que ultraje é esse? - Questionou furioso o representante do exército invasor assim que o necromante se aproximou deles. - Como ousam mandar apenas um representante, e que nem ao menos possui o símbolo de quem representa.

Ao ouvir isso o necromante estendeu a mão esquerda para trás, como para mostrar algo que eles não haviam notado ainda. Todos viram com clareza o brasão de que tremulava forte logo atrás dele, empunhado por um soldado.

- O que dizia...? - Perguntou o necromante em tom desafiador.
- O que querem aqui? - Perguntou o general do exército local.
- Nossa proposta é bem simples, queremos que cessem este inútil combate de uma vez por todas, nesse exato momento! - Anunciou calmamente com um tom de voz firme.
- E por que deveríamos fazer isso? - Questionou ironicamente o general do outro exército.
- Por que meu senhor não tem interesse nesse combate, e também por que isso só nos tomaria mais tempo.
- E por que seu senhor acha que deteríamos nosso avanço apenas por conta de sua vontade? - Questionou mais uma vez, mas agora com uma ponta de fúria.
- Serei bem claro, nenhum dos lados está em grandes condições de negociar, e embora vocês estejam com notória vantagem numérica contra seus oponentes, no momento nossa força é superior a dos dois juntos, não apenas um número, mas também em equipamento e levando em consideração o fato de que não possuímos em nossas fileiras nenhum homem ferido, cansado e mal alimentado.
- Pensa que isso é suficiente para...
- Ele tem razão. - Falou Ignus interrompendo o general inimigo. - Ambos estamos cercados, temos homens cansado, feridos e mal alimentados em nossas fileiras. Já eles estão descansados, possuem um número muito superior ao nosso, fora que deve ter mais gente esperando apenas um sinal deles para aparecer por aqui.
- Agora que entenderam, podemos conversar de forma civilizada? - Perguntou o necromante.
- Não antes de saber com quem estou tratando. - Falou mais uma vez com tom arrogante o general inimigo.
- Sou Teryon, estou a serviço do Lorde Artan. - Anunciou fazendo uma reverência.

Teryon. Ignus sabia que o conhecia, mas agora com a menção do nome tudo ficou mais claro. Lembrou claramente do garoto com quem conversou anos atrás após matar um dos amigos de seu pai.

- Nunca ouvi falar de um necromante que se curvasse dessa forma a vontade de outra pessoa... - Disse o general inimigo.
- Algum problema com isso? - Falou Teryon de forma dura.
O general nada respondeu, a voz de Teryon soou intimamente com um desafio, mas um desafio que ele não ousou aceitar.
- Como bem sabem - começou Teryon - Lorde Artan deseja unificar os diversos reinos de nosso continente e torná-los uma única e poderosa nação. Já conseguimos reunir um bom número de governantes sobre nossa bandeira e gostaríamos que vocês se unissem a nós.
- E o que acontecerá a quem não se unir a vocês? - Perguntou Ignus.
- Absolutamente nada. - Respondeu secamente.
- Nada mesmo? - Questionou duvidoso o general inimigo.
- Nada mesmo. Mas, caso um de vocês se una a nós e o que não se aliar insistir em continuar com o combate seremos forçados a intervir, obviamente.

Ambos os lados começaram a discutir a possibilidade, Ignus e seu general rapidamente ponderaram que uma união era o melhor a se fazer, mesmo sem consultar seu governante. Só a possibilidade de acabar com uma guerra quase perdida era algo além de suas expectativas.

- Aceitamos! - Anunciou o general.
- Ótimo!

Com um simples gesto um soldado se aproximou de Ignus e de seu general e lhes estendeu um rolo de pergaminho, outro veio e pôs uma pequena mesa de armar e também trouxe pena e tinta. Era o termo formal de união, nele estava descrito de forma bem clara o que ocorreria co o reino que se unisse a causa de Artan. Era algo bem simples, eles continuariam com o comando sobre os próprios domínios, mas quem daria as ordens finais seria um conselho formado pelos representantes de todos os reinos, isso se as decisões fossem aprovadas pelos cinco líderes principais.

No geral era um termo bem justo, mesmo descrevendo muita coisa superficialmente, pois se tratava de um acordo de união, nada mais. O general após ler com atenção e ver que Ignus aprovava a decisão pegou a pena e assinou o tratado. Um dos soldados entregou outro pergaminho para o general e disse se tratar do mesmo acordo, apenas contendo uma página adicional de convocação do representante local para uma reunião com os líderes principais em um prazo máximo de uma semana. Teryon avaliou a assinatura rapidamente e devolveu o pergaminho assinado ao soldado que voltou em direção ao exército.

- Foi uma decisão sábia a se tomar, senhor General. - Disse Teryon - Mas como o senhor não é o real governante dessas terras, temo que haja algum contratempo futuro, não que isso invalide o acordo, já que na presente circunstância, o senhor é o representante legal de seu povo.

Ele se voltou em direção aos representantes do exército invasor. Esses nada falaram ou fizeram, só após quase um minuto de silêncio seu general anunciou que não aceitaria o termo de união.

- Se assim desejam... - Disse Teryon sem nenhuma emoção. - Então, em nome de meu senhor, devo pedir que se retirem agora do campo de batalha, ou seremos forçados a fazer isso.
- Não aceitarei isso, é um ultraje que tenhamos de tratar com um mero subalterno...
- E por acaso estarei eu tratando com algum nobre? - Interrompeu mais uma vez.
O general inimigo nada disse.
- Reis, nobres e membros de todos os cleros tratam com seus iguais e apenas com eles, nunca com meros servidores. Se aqui houvesse algum representante legítimo, não seria eu a tratar desse assunto.

A voz e a expressão do necromante transbordavam uma confiança e uma determinação inigualáveis, prova disso foi que o general inimigo não tentou mais questionar a autoridade que Teryon tinha no momento. O astuto necromante ficou satisfeito ao ver que agora seu pretenso oponente desviava seu olhar, mas não exteriorizou seu sentimento.

Houve um momento de silêncio e tensão. Todos ficaram se entreolhando sem saber o que deveriam fazer, nem o que viria, enquanto Teryon permanecia imóvel e com o rosto inexpressivo, aparentemente também aguardando uma reação de um dos lados.

- E então? - Disse Teryon para o general inimigo quebrando o silêncio.
- Sim? - Respondeu sem saber ao certo o que dizer.
- Já que recusaram nossa oferta creio que devam se retirar e retornar ao seu reino.
- Mas...
- Devo lembra-lhe, General, de que agora o senhor está invadindo as terras de um reino aliado ao meu, e que qualquer ato de hostilidade praticado contra
esse e qualquer outro reino amistoso ao nosso, será retaliado a altura?

O general olhou a volta e viu seu exército totalmente cercado, tudo que fizera até aquele momento havia sido em vão. A vergonha e a frustração tomaram conta de sua mente, mas mesmo assim sai de cabeça erguida, mesmo tendo seu orgulho profundamente ferido. Deu uma ordem e suas trombetas soaram anunciando a retirada, os soldados demoraram a entender, mas pouco a pouco, homem a homem, eles começaram a se retirar do que quase se tornou o local de sua glória, mas que agora era um local de grande vergonha. A revolta nos corações de cada homem era grande, sua vontade era de voltar e lutarem até a morte, mas o sentimento de servidão era maior, tinham de honrar sua palavra para com seus superiores. E assim um a um eles se foram, envoltos pelo manto da frustração, eles partiram.


- VOCÊS O QUÊ? - Bradou em fúria o Rei.

Dentro do palácio cercado por vários guardas e armado com suas melhores armas e sua armadura aguardou o ataque que nunca veio. O som da batalha do lado de fora foi diminuindo até cessar por completo. A tensão aumentou, mas logo um mensageiro adentrou o grande salão real anunciando que outro exército havia chegado e que o exército inimigo havia se rendido e estava partindo. Todos comemoraram, mas o Rei chamou-lhes a atenção, pois não sabia das intenções do novo invasor. Logo outro mensageiro chegou anunciando que seu general estava lá e pedia uma audiência com o rei.

Acompanhado pelos outros membros do exército de patente considerável o general adentrou com um ar de satisfação no salão principal, Ignus vinha logo atrás. Após as reverências formais a notícia da aliança fora dada, porém, ao contrario do que imaginava o general o Rei pareceu não gostar nada do que acabara de ouvir.

- Então vocês simplesmente acabaram de entregar MEU reino para um bárbaro conquistador? - Vociferou o Rei tomado de ira.
- A aliança era a única possibilidade de não sairmos derrotado do campo de batalha, alteza. - Disse o general ainda ajoelhado perante o Rei que estava de pé bem a sua frente.
- Absurdo! Total e completo absurdo! - Concluiu o rei.
- Então o que deveria ter sido feito, alteza? - Questionou o general tentando ao máximo não demonstrar sua indignação.
- Ter recusado, é óbvio! Não deveriam ter entregado meu reino com tanta facilidade.

O rei era puro ódio. Olhou para o general, mas este estava ajoelhado e de cabeça baixa. Com passos largos e furiosos foi até o trono e deixou seu corpo cair pesadamente sobre o mesmo.

Por um momento que pareceu uma eternidade todos permaneceram calados, apenas aguardando o que viria e repletos de dúvidas.

- Eu não aceitarei essa aliança...
- O senhor o quê?

O Rei ergueu os olhos com grande incredulidade. Seus olhos se dirigiram quase que imediatamente para o homem que estava quase no fim da comitiva dos soldados que adentraram, viu nitidamente Ignus de pé com um olhar desafiador em sua direção. A insolência era tamanha que Rei custou a acreditar no que acabara de ouvir e ver, como um mero subalterno, um guerreiro de baixa patente ousava se manter de pé perante ele sem que lhe fosse ordenado, quem era ele que ousava interromper um rei?

Os guardas demoraram a agir e quando finalmente perceberam que Ignus estava de pé e nitidamente desafiando a autoridade do Rei, trataram de tentar contê-lo, mas foram imediatamente detidos pelo Rei que com um simples sinal com as mãos, fez com que eles retornassem as suas posições originais.

- Quem é você, guerreiro? - Questionou o rei tomado de fúria.
- Ignus, Comandante Ignus! - Respondeu fazendo questão de destacar sua patente, além de propositalmente não se dirigir ao Rei como deveria.
- Não reconheço seu nome, muito menos seu rosto como um de meus comandantes, então, quem o tornou um?
- Assumi o lugar de Slav quando este pôs em risco o plano de ataque. O General outorgou-me a função de Slav após sua morte.
- Isso é verdade, General? - Questionou o Rei.
- Sim, alteza. - Respondeu ainda de cabeça baixa.
- Agora que sei quem é, insolente, me diga por que ousou me interromper?
- Acredito que esteja completamente louco.

Todos prenderam a respiração. Olhares atônitos foram do Rei até Ignus, que sustentava desafiadoramente o olhar furioso do Rei.

- Como ousa...
- O que esperava de nós? - Interrompeu mais uma vez, fazendo com que o Rei inflasse as bochechas de raiva e seus olhos se arregalavam. - Que lutássemos até a morte quando tivemos a oportunidade de virar a situação ao nosso favor?
- Qualquer coisa, menos ter entregue o MEU REINO! - Vociferou tentando expurgar um pouco da ira que sentia.
- Seu reino? - Questionou Ignus com ar ainda mais desafiador - Se você se importa tanto assim com o "seu reino", onde você estava enquanto homens morriam inutilmente para defender o "seu reino"?

Atônito o Rei não conseguiu responder.

- Por acaso você estava em algumas das fileiras de guerreiros? O que estava fazendo para defender o "seu reino"? Estava entre homens que deram seu suor, seu sangue, sua vida, por um rei que não os valoriza?

A fúria do Rei havia alcançado o seu limite, rapidamente ele sacou a espada e tentou pô-la no pescoço de Ignus, mas este segurou a pesada lâmina antes que esta lhe oferecesse algum perigo.

- Estávamos cercados, nossos homens estava feridos, cansados e com fome. O inimigo estava em maior número, mais inimigos chegaram para reforçar suas fileiras, inimigos sadios, bem alimentados, enquanto nós estávamos sendo cada vez mais oprimidos e sendo mortos. O General e eu estávamos lá na frente lutando contra magos, os outros aqui presentes estavam, lutando contra três, quatros soldados inimigos de uma só vez. Quanto a você, estava aqui, bem guardado, seguro e confortável, enquanto seus servidores leais morriam pouco a pouco para te defender. Eu estava ao lado do General quando vimos outro inimigo chegar, vi no rosto dele a frustração de quem sabe que será derrotado, mas também vi em seu rosto a convicção de alguém que estava disposto a lutar até não poder mais erguer sua espada. No momento onde uma decisão importante teve de ser tomada o General pensou em todos nós, pensou nos soldados, nas pessoas simples que vivem nesse reino. Acha que é fácil se render assim e entregar de mão beijada um reino pelo qual você e seus iguais deram a vida? Era nossa única chance, o General fez o que deveria ser feito e cá estamos, salvos, assim como "teu reino".

O Rei o tempo todo em que ouvia o discurso cheio de rancor de Ignus forçava inutilmente sua espada para tentar ferir o guerreiro insolente, mas esta permaneceu imóvel o tempo todo. Por fim Ignus soltou a espada, atirando-a no chão, longe do alcance do Rei.

- Lorde Artan está esperando uma audiência com o "rei".

Com essas palavras Ignus se retirou do grande salão sem dizer mais nada, sem se virar, todos os olhares fixos nele.


- Meus parabéns pela coragem. - Disse com sinceridade o general.
- Só disse o que havia de ser dito. - Respondeu secamente.
- Sabe que isso não passara assim impunemente, não sabe?
- Não me importo, não reconheço a autoridade de tipos como ele. Slav e ele são do mesmo tipo.
- O que vai fazer? Desafiar publicamente um rei? - Questionou o general.
- Se for preciso.


A comitiva de Artan foi chamada para uma audiência com o Rei. Todos na cidade se curvaram quando viram o renomado Lorde Artan e sua comitiva passarem, Artan vestia sua armadura completa fazendo-o parecer maior e mais intimidador. Logo atrás dele vinham mais dois homens e uma mulher, todos muito bem trajados e com expressões altivas. A simples visão dessas quatro pessoas fez com que todos se prostrassem ainda mais no chão. Todos adentraram no grande salão e as portas se fecharam sonoramente, a vida pareceu voltar ao seu ritmo normal depois disso.

Ignus não entendeu muito bem o porquê de tamanha humilhação pública perante as quatro pessoas, embora algumas não lhe parecessem totalmente estranhas, mas o tal Lorde Artan era a primeira vez que o via depois de muito ouvir falar em seus feitos. Resolveu andar a procura de Haldar quando avistou outra figura familiar, Teryon. Estava conversando com um mensageiro que logo em seguida foi dispensado.

- Teryon? - Chamou Ignus.

O necromante se virou e após um instante de auto questionamento pareceu lembrar-se de Ignus.

- Sabia que o conhecia de algum lugar, embora não lembre do seu nome. - Disse com sinceridade.
- Ignus! Na época em que nos conhecemos era apenas um escravo.
- Sim, me lembro disso. Você mudou, muito.
- Pelo pouco que me lembro de você, parece não ter mudado muito, ao menos não em sua fisionomia.
- Soube pelo seu antigo dono que você fugiu, o que houve? - Perguntou curioso.
- Longa e complicada história. Mas quando se refere a "meu antigo dono", de quem fala exatamente?
- Ezequiel Vandorf, lembra-se dele?
- Sim, era apenas uma criança na época...
- O tempo passou, talvez rápido demais, mas passou, hoje tudo é diferente.
- Verdade. Mas me diga, você agora trabalha para esse tal de Lorde Artan? - Perguntou Ignus.
- Na verdade não, sou líder dos necromantes que seguem Alptraum des Meeres. Mas como Alptraum é aliado de Artan, logo...
- Entendo, mas desde quando você se tronou um negociador?
- Mesmo sendo um necromante tenho outros talentos que não a magia. Artan julga que sou bom negociador, volta e meia eu medeio algumas negociações de aliança, nem todas são bem sucedidas, é claro, mas na maioria das vezes as coisas saem da forma como queremos.
- Quem é esse que você segue, o tal Alptraum?
- Não o conhece? - Teryon pareceu meio surpreso por Ignus não saber quem Alptraum era. - Ele é um deus, lidera toda a frota naval do império que Artan está montando, além de ser governante de alguns reinos a leste daqui.
- Um deus? - Surpreendeu-se Ignus - Não sabia que os deuses estavam assim tão envolvidos em questões como essa.
- Mais até do que você pode imaginar, Artan é o único dos outros cinco governantes do império dele que não é um deus, ele é como nós.

Era difícil compreender tal coisa, como quatro deuses se curvavam ao comando de um imortal? Como era possível? Que tipo de poder exercia Artan sobre as quatro divindades? Eram coisas que Ignus não conseguia entender. Mesmo não tendo visto o rosto de Artan Ignus pode notar sua altivez, além do grande poder que transbordava dele, mas nada disso justificava como quatro deuses se submetiam a sua vontade.

- Me diga, Teryon, por que eles servem a Artan? - Questionou Ignus repleto de duvidas.

- No início também fiquei confuso como você, mas à medida que fui conhecendo Artan percebi o porquê. Ele tem uma linha de pensamento e comando bem simples e direta, suas idéias são bem claras e coesas. Mas o que mais me intriga nele é a forma como ele se dirige a alguém, ele parece penetrar no âmago da sua alma e ver o que tem nela e se dirige a você como se soubesse exatamente tudo sobre você e como você reagiria. Ele tem o dom de saber argumentar e muito bem, até hoje não o vi recorrer à violência para conseguir algo se tal coisa também puder ser conseguida através do diálogo.

- Ele parece ser alguém bem valoroso. - Falou Ignus com sinceridade.
- E é. - Concordou Teryon - Ele também é extremamente justo, algumas vezes acho que ele é piedoso até demais, mas não me intrometo nesses assuntos, a não ser que seja consultado.
- Pelo visto ele conseguiu muitos seguidores com essa forma de agir.
- Sim, é verdade, mas o que mais impressiona foi a velocidade com que conseguiu isso. Lady Astarte foi a primeira...
- Aquela mulher era Astarte, a Beleza Mortal? - Surpreendeu-se Ignus

A deusa Astarte também era conhecida como Beleza Mortal, devido a sua notória beleza e também a sua rigidez e impiedosidade para com seus inimigos. Ignus já havia ouvido falar nela e em sua lendária beleza, mas nunca imaginou que pudesse vê-la pessoalmente. No momento em que ela passou logo atrás de Artan, Ignus ficou imensamente encantando com sua divina beleza, nunca em sua vida havia visto mulher tão bela, mas não poderia imaginar que aquela mulher seria justamente a bela deusa que tanto ouviu falar antes.

- Também fiquei surpreso quando a vi pela primeira vez, não era a primeira vez que eu via uma deusa, mas era a primeira vez que via uma tão bela.
- E há algum ser nesse mundo mais belo do que ela? - Ironizou Ignus, Teryon riu levemente.

Eles permaneceram calados durante um tempo, Ignus contemplou as portas do salão real onde o rei se reunia com Artan e sua comitiva. Teryon parecia até certo ponto indiferente ao que estava acontecendo, apenas olhava a movimentação ao seu redor, mais nada. Olhou para Ignus e viu sua expressão de preocupação, analisou também a aura que seu shii emanava, era uma aura poderosa, opressora e violenta, mas que parecia perdida, repleta de questionamentos.

- O que lhe aflige? - Perguntou Teryon.

Ignus olhou para Teryon como se estivesse saindo de um transe, fez cara de que não havia entendido o que acabara de ouvir e Teryon repetiu a pergunta.

- Nada. - Mentiu.
- Seu rosto e sua aura te traem. - Rebateu Teryon.
- Isso me fez lembrar da vez que nos encontramos depois que matei um dos amigos de Raiarath, você me analisou com grande perfeição, ainda hoje parece não ter perdido esse talento.
- Ainda não respondeu minha pergunta.
- Tive uma discussão com o Rei, senti vontade de desembainhar minha espada naquele instante e decapitá-lo, mas não o fiz. - Confessou lembrando do exato momento em que discutia com o rei.

Todas as emoções pareciam retornar com força inimaginável e mais uma vez Ignus sentiu uma raiva incomensurável dentro de si.

- Entendo... - Disse Teryon enquanto via nitidamente as oscilações na aura de Ignus e se deliciando com isso.
- Devido às verdades que disse àquele covarde creio que logo serei um nômade, outra vez.
- Sinceridade nem sempre é algo que nos leva a bons caminhos, a não ser que saibamos contar a verdade.
- Você quer dizer mentir? - Questionou Ignus, sem entender ao certo o que Teryon disse.
- Não, mentiras sempre levam a verdade, de uma forma ou de outra. Falo de saber a forma correta de se contar os fatos, mas sem alterá-los, apenas se valer deles de forma que te favoreçam.
- Acho que entendo, embora deva ser complicado. - Disse Ignus visivelmente confuso pela explicação de Teryon.


Os dois continuaram a conversa por mais algum tempo, Ignus, além de outras coisas, ficou sabendo o que aconteceu com a ordem necromantica a qual Teryon fazia parte, mas lógico, não soube exatamente o que houve, já que o necromante ocultou o fato de que ele próprio havia causado a ruína de sua ordem, absorvendo a alma de todos ali. Alguns minutos depois os portões se abriram e Artan surgiu imponentemente através deles, os outros três o seguiam cada um com uma expressão mais altiva e triunfante do que o outro, transbordando uma sensação autoconfiança e respeito para todos que os observavam. Teryon se despediu de Ignus e partiu em seguida, ele ficou satisfeito em revê-lo, mesmo não sabendo exatamente o porquê, mas Ignus havia gostado de rever um rosto de sua infância que não lhe trouxesse apenas lembranças ruins.


Já era quase a hora de se recolherem quando Haldar finalmente localizou Ignus, estava no alojamento, suas poucas coisas estavam arrumadas em uma trouxa, parecia que partiria em breve. Não conseguindo conter a curiosidade Haldar questionou-o sobre o que pensava em fazer antes mesmo, até, de perguntar o que havia acontecido durante a batalha. Ignus explicou sobre a discussão que havia tido com o rei e seus motivos, explicou também tudo o que havia ocorrido durante a batalha, o que havia sentido as coisas que viu, que ouviu, tudo. Disse como conseguiu ser comandante de tropas, fazendo questão de dizer o motivo de ter matado Slav, não escondeu nada.

Depois de pensar um pouco Haldar acabou por concordar com Ignus, realmente seria difícil Ignus permanecer no reino depois daquela discussão, não haveria muito o que fazer, mas mesmo assim Haldar sugeriu que Ignus ficasse e dormisse, já que nada seria feito naquele dia, afina, o próprio Rei já havia se recolhido, sinal de que nada mais de importante seria feito naquele dia.

Haldar já estava de partida quando Ignus perguntou se ele sabia sobre o que havia sido discutido entre o Rei e Artan, mas a resposta foi negativa, haviam apenas boatos e Haldar havia descartado todos. Segundo o que ele ficou sabendo, ninguém a não ser o Rei, Artan e seus outros três acompanhantes permaneceram no salão, nem mesmo o conselheiro ficou. O que quer que tenha sido discutido lá dentro deve ter uma importância maior do que ele próprio conseguia imaginar no momento.

Um comentário:

  1. Muito bom PK, eu estava sentindo falta da continuação dessa história

    ResponderExcluir

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.