[Opinião] Ditadura, Democracia e a Hydra Brasileira.


Na mitologia greco-romana reside a lenda do Semideus Hércules. Filho de Zeus com uma humana uma das lendas mais disseminadas consta que a mulher de Zeus, Hera, apresentou diversos desafios ao semi-deus, tentando eliminar a aberração e símbolo da traição. Entre eles um dos mais intrigantes era a Hidra de Lerna.

Se você assim como muitos acredita realmente que a saída de José Sarney da presidência do senado vai salvar a raça humana ou moralizar brasília... Você está sendo enganado.

A "saída" interessa tão somente como demonstração de força da Imprensa, que nos últimos anos perdeu grande parte do seu poder de barganha desde que derrubou Collor entre a população brasileira e precisa demonstrar força. Insatisfeita, obviamente, por não estar com seu partido no poder ou sendo beneficiada por esse com os tradicionais "finjo que não vi" em torno dos abusos da indústria da fofoca paga. A Imprensa age incitando o povo e tentando simbolicamente derrubar o presidente do senado para demonstrar força.


A Hidra de Lerna era uma criatura de aparência repugnante. A descrição mais popular, e que povoa desde quadrinhos a RPGs, afirma que ela era enorme, com o corpo coberto de escamas, semelhante ao de um cavalo, um par de asas musculosas e nove pescoços com nove cabeças em formato similar ao de serpentes de onde saíam jatos de ácido.

Só que a bucólica renúncia de Sarney significa tanto quanto significou a renúncia de Severino Cavalcanti ou de Renan Calheiros.

Nada.

Aliás, apenas esquentou o café com leite (sic). Qualquer renúncia na qual o denunciado mantenha seu status e proteção anterior não significam nada. Sarney deixando de ser o que é será sbustituído por todos.

Do mesmo jeito que Renan saiu e foi acolhido pelo esquecimento da maioria da população, assim será quando Sarney sair do seu poder eterno. Ele continuará senador, e a vitória de qualquer movimento que exista será apenas simbólica. Como é simbólica nossa noção de democracia e mesmo nosso desejo de lutar por algo que não encha nossas carteiras ou rabos (não necessariamente ambos, mas um deles sempre). Corta-se uma cabeça, outra ocupa o lugar.

Seu maior poder era o de regenerar qualquer cabeça que perdia. Hércules armado com espada e escudo diversas vezes decepou a criatura, e duas cabeças tomaram o lugar. Era um inimigo formidável, o qual apenas um único ato tornou possível sua eliminação.


Outra cabeça desse esquema é o eleitor. Sempre ele. Ainda que Sarney renuncie até mesmo ao cargo do Senado se a coisa ficar ruim mesmo, ele volta. Políticos de estirpes menores voltaram. Ou até mesmo parentes, mesmo sem serem eleitos. Roseana Sarney perdeu as eleições de 2006 e por maracutaia do TSE - presidido por um parente! - tirou Jackson Lago do poder e colocou-se no lugar. Para comparar: Garotinho do Rio de Janeiro cometeu o mesmo crime do qual Jackson Lago foi acusado, mas nada o aconteceu enquanto governador.

A única forma de combater esse mal é combatendo o mal como um todo. Não tem como no sistema democrático atual evitar. Se, por exemplo, o Arthurius quiser candidatar-se a algo ele precisa:
- Filiar-se a um partido;
- Permanecer nele pelo menos um ano;
- Ser escolhido pela legenda.

Já tentei. Não consegui passar da primeira etapa. Na terceira não basta apenas ter a boa intenção, tem que ter a simpatia do partido. Se você não fizer rir, ninguém vai rir. Entende? Tem que fazer rir. Vide foto ao lado. E mesmo que o Arthurius consiga, não significa nem que será eleito e nem que conseguirá algo. Pois ele será um único em um plenário lotado. Uma cabeça honesta em meio a outras desonestas. Agulha no palheiro? Sim.

Hércules venceu a Hidra jogando sobre ela uma enorme rocha, que esmigalhou todo o seu corpo e destruiu-a completamente, antes que pudesse regenerar as partes faltantes. Dessa forma conseguiu safar-se desse trabalho. Feliz para sempre não foi, mas a Lerna teve paz.


Aonde quero chegar? Enquanto você continua no sofá, protestando por Twitter, por Blogs (e falo de mim, óbvio) e não manifestar essa insatisfação na urna, votando não mais no candidato A ou B apenas porque ele lançou um disco ou porque esteve no último BBB você vai continuar sendo uma das cabeças da Hidra.

Se vivêssemos numa ditadura clara, até compreenderia que seria difícil combater esse monstro, mas somos tanto a cabeça da Hidra quanto somos a vítima dela. Somos vítima no período de dois anos entre uma eleição e outra. Mas quando votamos, somos todos cabeças da fera. E o que fazemos?

Mordemos o próprio rabo.

Pense nisso em 2010.

Não é reclamando que Sarney, Garotinho, Collor, Lula, Dirceu, Palloci , Severino e tantos outros deixarao de voltar. É votando. É se manifestando nas urnas, já que é o máximo que nossa sociedade consegue fazer quando sai do sofá.

Ou podemos fazer mais?


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.