Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 6.

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Matheus caminha feliz para Colônia Espiritual de Nepomuceno, que seria situada no mundo material entre as constelações de Escorpião e Sagitário. Os dias de recuperação de almas perdidas são trabalhosos, mas compensadores. Naquele dia conseguira finalmente reabilitar duas almas vindas do Oriente Médio terrestre.

Eram duas crianças repletas de ódio cultural em seus pequenos corações e haviam sido sacrificadas em nome dos interesses de uma organização terrorista. O fim súbito prendera os dois por quase dois anos no limbo e somente com muito esforço conseguira salvá-los da escuridão de suas próprias almas. E, enfim, quase quatro anos terrestres depois, os jovens Aanisan e Abbas podiam caminhar entre todos.

Sua residência se localiza em um pequeno vale poucos quilômetros distante do centro de recuperação. Lá ele mora com sua esposa Amanda, outrora habitante da Casa de Taniel na colônia Nosso Lar e desde Janeiro de 2005 sua esposa. Até hoje sente-se sublime por sua felicidade e todos os dias agradece ao Pai dos Pais pela graça recebida.
- Bom dia, minha amada. – Anuncia-se Matheus, adentrando seu lar.
- Bom dia. – Responde Amanda, que carrega em seu colo o fruto de seu amor, o pequeno Jaime. – Vejo a felicidade em seu rosto, qual boa notícia hoje?
- Abbas e Aanisan. – Fala Marcelo, exaltado. – Hoje eles saíram da recuperação e já andam entre nós.
- São os pequenos suicidas de quem me falou quando nos conhecemos?
- Eles mesmos.
- Meus parabéns!

Amanda abraça Matheus e depois o beija. Entre os dois não existe paixão, apenas um amor incondicional, fruto de diversas eras de idas e vindas entre suas encarnações até que finalmente, em 2005, suas almas atingiram um nível de pureza onde seus retornos ao planeta Terra não mais eram necessários. Assim, finalmente puderam eternizar o que já o era eterno.

Passado o primeiro beijo, trocam um segundo, mais discreto e Roberto vai ajudar nos afazeres domésticos. Com os afazeres concluídos, ambos vão dormir. E mais um ciclo na vida do casal se encerra.

Em Nepomuceno, como em todas as colônias espirituais desse grau de elevação, não existe dia e noite, existe apenas dia, uma luz eterna que jamais incomoda, jamais deixa cansaço ou mesmo qualquer agouro que causaria no mundo físico. A escuridão nunca encontra brechas onde existe a fé incondicional ao Pai dos Pais, ao menos é nisso que todos acreditam e depositam sua fé e as existências.

Por ser uma colônia muito distante das camadas mais escuras do universo sua proteção se resume a confiança em Deus, a muralha quase intransponível do Limbo e uma guarnição de pouco mais de trinta espíritos guerreiros, intitulados entre os espirituais como maximilianos.

Os maximilianos são uma casta de almas que se fortificou de modo a sobreviver aos espíritos obsessivos e os verdadeiramente malignos. Dentro da esfera dos Guiados por Capella, não as almas mais próximas de Deus depois dos anjos. São respeitados por todos e temidos pelos adversários.

O limbo é uma barreira que protege as colônias da escuridão. Poucos espíritos se aventuram no limbo, e muito menos possuem coragem – ou tolice. – suficiente para atravessar essa barreira. Apenas almas extremamente evoluídas, como os maximilianos, ou os próprios anjos conseguem transpor essas barreiras sem sofrer baixas.

Ele pousa sobre a colônia sem aviso. Ao seu lado sua sempre fiel companheira e escudeira Haiana. Ambos observam com nítido desdém a colônia em que chegaram. Um pouco de saudosismo toma a mente do homem da dupla.

Ele veste um pesado manto marrom com capuz, que oculta grande parte de seu rosto. Suas mãos são protegidas por um par de manoplas de ferro e no punho direito tem a marca de duas cobras se devorando e desenhando um numero 8. A mulher veste-se com roupas mais sensuais, usando uma roupa de nylon vermelha agarrada ao corpo, botas negras e as mesmas manoplas do homem nas mãos. Sua vestimenta se completa com uma capa e capuz similares ao do homem, mas sem cobrir seu belo rosto.

A mulher o agarra e o beija. Não há paixão, apenas desejo. Ela alisa sua face e passa os dedos sobre a cicatriz eterna no rosto daquele que a acompanha. Ela lambe os beiços e seus olhos vêem no horizonte a construção onde habitam os recém chegados.
- Apenas uma colônia? – Pergunta Haiana.
- Sim. É uma atitude cirúrgica, se nos divertimos demais vão desconfiar... Daik-Haniah ao sumir estava completamente descontrolado, mas nossa amiga Sombra impediu-o de continuar. – Responde, afastando Haiana de seu corpo e dando os primeiros passos.
- Eles já perceberam nossa chegada?
- Claro, olhe para cima.

Noite. Nunca anoitecera em Nepomuceno. A massa escura toma conta dos céus da colônia em poucos segundos. Ecos de gritos podem ser escutados de dentro do centro de recuperação. Espíritos que até segundos atrás estavam quase bons tornam a enlouquecer com a proximidade da escuridão. Seus berros chegam ao ouvido dos invasores, que gargalham e deixam seus risos ecoarem por todo o planeta.

Dois maximilianos surgem correndo em direção dos inimigos. Ambos carregam gládios, lanças e escudos e estão completamente aturdidos. Nenhum invasor fora capaz de causar tal efeito em nenhuma colônia, pelo menos nenhum do tipo tradicional. Eles apontam suas armas para os pretensos inimigos. A escuridão de ambos não é perceptível, e existe algo neles que assusta os dois soldados.
- Invasores, nós solicitamos que se retirem de nossa colônia imediatamente ou seremos forçados a....
- Dois? Apenas dois? – Lamenta Haiana, aproximando-se dos dois protetores. – Eu poderia imaginar uma tropa de anjos, uma horda de vermes do vazio... Mas dois maximilianos medrosos?
- Afaste-se mulher dos planos inferiores!

Fábio é um maximiliano das antigas. Protetor de Nepomuceno há eras e tido como um dos mais corajosos. Já ouvira falar de criaturas oriundas das profundezas que possuíam uma energia espiritual baseada na fé inversa a do Pai. Criaturas que minavam forças das mesma forma que os espíritos, mas de fontes não tão pacíficas. No entanto, para Fábio era apenas boato.

Acreditando em sua própria fé e no fio de sua lança espiritual Fábio projeta-se pra frente para atacar a invasora. Em geral agressão nunca é necessária entre espíritos, pois o temor pela morte definitiva é um fato em comum, basta apenas uns gritos, umas poses e frases de efeito para espantar invasores ou convencê-los a mudar de lado. Haiana é um tipo diferente.

Haiana ignora todas as ameaças de Fábio e gargalha dele. Fábio, por sua vez, resiste bravamente as provocações da invasora, pois sabe que a raiva é o caminho dos obsessivos. Haiana, pelo contrário, se diverte. Sempre gostou de causar esse tipo de sensação nos espíritos que seguem o caminho do Pai. A fé quebrada tem gosto para Haiana, e quanto maior a queda de uma fé, melhor.

Ela agarra a ponta da lança e a abocanha de modo sexual. Fábio tenta puxar a arma de volta, mas não consegue. Haiana continua sua prática oral enquanto Fábio sente a energia espiritual da inimiga se elevar como uma ventania. Sua visão torna-se curva e por poucos segundos pensa em largar a lança, mas sua fé não o permite desistir. Ele ao invés de tentar puxar a lança, muda o movimento e a pressiona. Com aparente sucesso.

A arma penetra pela boca de Haiana e a atravessa. Um líquido negro escorre da cabeça da mulher enquanto ela se debate descontrolada. Fábio sente culpa pelo que faz e larga a lança. Nunca destruíra um espírito antes e a sensação é péssima. Ele se culpa, sofre, e sente um estranho enjôo.

Marcos, o companheiro de Fábio, assiste a cena com temor. A mulher que até segundos atrás simplesmente chupava a ponta da lança agora jazia inerte no chão. O corpo espiritual dela, no entanto, continuava materializado, não se transformara em luz ou sombra como ocorria quando uma alma morria. Algo faltava.

Fábio sente uma dor profunda nas entranhas e no instante seguinte simplesmente não existe. Haiana renasce de dentro dele, com o corpo coberto da luz da alma de Fábio. Marcos vê a mulher diante de si e prepara-se para atacar quando também desaparece. O companheiro de Haiana simplesmente o tocara no ombro e ele deixara de existir. Simples que nem um adeus. Ou um tiro.
- Não vamos brincar com essas pobres almas. – Comenta o homem, cuja mão esquerda ainda reluz do brilho da alma destruída de Marcos.
- Que graças tem fazermos apenas isso, Mestre Niamaram? – Pergunta Haiana, enquanto faz desaparecer seu outro “eu” caído no chão.
- Você precisa aprender a controlar seu sadismo, minha filha. E não use meu nome aqui, chame-me por Daik-Haniah.
- Será difícil, mas tentarei, pai.


Amanda desperta de sobressalto. Ela já vivera tempo o suficiente com seu irmão Taniel e esse tempo a seu lado a ensinou a estar sempre de alerta. Sua primeira atitude foi estranhar a noite. Em Nosso Lar anoitecia, mas ela sabia que em Nepomuceno isso nunca acontece, somente apareciam manchas escuras no céu quando algum espírito inferior invadia a colônia, o que era raríssimo, quanto mais tudo se tornar noite.

Ela acorda Marcelo e depois pega Jaime no colo. A criança chora um pouco, reclamando da mãe, mas se recompõe em poucos segundos. Marcelo observa desesperado o céu negro e se ajoelha para rezar. Amanda junta-se a ele e implora ao Pai Celestial que nada de ruim aconteça em sua morada.

Ambos sentem a destruição de dois guardas, e Marcelo sente principalmente a morte de Marcos, com quem tinham uma relação fraternal ainda mais íntima. Marcelo chora assustado enquanto toda a colônia começa a tremer. As paredes de sua casa racham e a família é forçada a abandonar o lar. Ao chegar nas ruas vêem outros também desesperados e muitas casas abandonadas. Um maximiliano passa por eles correndo em direção as instalações de fuga.
- Rápido! Corram todos! – Berra o soldado. – Sejam rápidos... Nossa guarnição não vai contê-los por mui...

O soldado não completa a frase. Seu corpo astral desaparece no segundo seguinte. Na direção oposta para que as pessoas correm caminham lentamente Haiana e Niamaram. Os dois exibem sorrisos satisfeitos enquanto suas auras se expendem e as pessoas próximas desaparecem com as almas envoltas em estranhas chamas violetas. Amanda reconhece a cicatriz no rosto de Niamaram e rapidamente liga a marca ao dono. “Ah Taniel, porque sumiu...”, lamenta Amanda enquanto entrega Jaime para Marcelo.
- Leve nosso filho daqui. Eles estão se deliciando demais para correrem, esqueça todos. – Sussurra Amanda nos ouvidos do amado.
- Mas... Não vou deixá-la para trás. – Fala Marcelo, agarrando a esposa.
- Você conhece as pessoas daqui, você tem por quem se importa e tem conhecimentos necessários para ativar os módulos de fuga, você é o único maximiliano presente.
- Eu não sou mais...
- Não podemos fugir de nós mesmos, meu amado. Jamais.

Amanda beija Marcelo, um beijo regado a lágrimas, e corre até Niamaram e Haiana. Marcelo acena inutilmente e começa a correr. Ele precisa salvar o máximo de pessoas possível, mesmo que lhe custe a vida. Marcelo e Amanda nunca mais se veriam, em definitivo. E no fundo de si mesmo ele sabia disso.
- Niamaram! – Berra Amanda, chamando a atenção da dupla.
- Conhece-me? – Responde o homem, retirando o capuz e expondo completamente seu rosto cuja cicatriz corta o lado direito da face por completo, uma cicatriz que não parece cicatrizar jamais. – Não sei me lisonjeio ou se sinto asco...
- Porque está fazendo isso? São espíritos inocentes!
- Não existem inocentes, fêmea... Nunca existem.
- Posso matá-la? – Pergunta Haiana, ávida por causar sofrimento e não simplesmente dar cabo de espíritos.
- Faça como quiser. – Autoriza Niamaram, tornando a caminhar.
- Se meu irmão estivesse aqui você não faria isso... – Berra Amanda, tentando prolongar ao máximo a conversa.
- Irmão? Quem é seu irmão? – Pergunta Haiana, agarrando Amanda pelo pescoço.
- Taniel.

Niamaram abre um largo sorriso enquanto caminha. “Quem se importa? Eu sabia porque atacava aqui desde o início...”, pensa enquanto escuta os gritos de dor de Amanda ao ser desmembrada por Haiana. Se Amanda queria
- Eu quero Taniel, mulher... – Fala o homem de cicatriz, as últimas palavras que Amanda escuta antes de desaparecer.

Em poucas horas Nepomuceno não mais existe.




Continua... Aqui.

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