Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 8.

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8


Jonas e Albano continuavam tediosos. Nada acontecia e nenhuma espécie de contato ocorria entre eles e o mundo espiritual. Desde o retorno de Jonas nem mesmo a voz de Tirolez se manifestara, parecia que nunca existira um mundo além do físico. A igreja permanecera fechada o tempo todo, e o incidente na região central deu mais motivos a arquidiocese em manter a mesma fechada. Primeiro o padre ressuscita, depois cai fogo dos céus. Isso é de enlouquecer os mais crentes, principalmente os também loucos.

Albano vê da fresta da janela da igreja a imensa turba de fiéis amontoados em torno da figura ilustre e isolada na qual José se transformara. Não existe nenhuma espécie de uso útil nessa situação e tanto ele quanto José estão completamente inertes nesse mundo.

O matador observa o amigo prostrado e desesperado sobre a cadeira diante da escrivaninha. Na mão direita uma caneta bic nova, sem nenhum uso e na mão esquerda um caderno de recados completamente novo. Desolado, Jonas guarda a caneta e o caderno no bolso da camisa e caminha até a porta.
- O que você vai fazer? - Questiona Albano, enquanto Jonas coloca a chave na porta.
- Vou sair. - Fala Jonas, sem hesitação ou dúvida. - Estou cansado da sua cara, cansado da minha e me sinto preso aqui dentro!
- Mas os padres mandaram você ficar aqui... Você recebeu ordens...
- "E um soldado sempre as cumpre.", já escutei essa. - Desdenha Jonas, completando a frase do amigo. - O que pode me acontecer? Me crucificarem?

Jonas abre a porta e é aclamado pela multidão. Crianças e mulheres grávidas ou com crianças de colo o cercam. Querem que toquem, querem bênçãos daquele que foi aos mortos e voltou. Jonas sente-se honrado pela fé alheia e ao mesmo tempo mal. As pessoas em torno de si não sabem a verdade. Só parte dela.

Realmente um homem morreu, mas quem voltou foi outro. De José apenas resta a carne, a forma, que nem está tão bem assim. A ferida no pescoço dói e arde ainda mais enquanto as pessoas se amontoam. De repente José se desequilibra e uma criança mais afoita arranca-lhe um pedaço da roupa. É a deixa para todos arrancarem seus troféus. Quando José sente uma moça tentar lhe arrancar as genitálias, e não conseguiria impedir porque estava imobilizado pelos fãs ardorosos, escuta o pipoco de um tiro.

As pessoas se afastam, deixando José caído no chão, com trapos em lugar de roupas, e segurando as genitálias doloridas. Albano está logo atrás dele, com sua arma erguida e aparência nada amistosa. José se arrasta de volta para dentro da Igreja, completamente arrependido do que fez. Albano o segue e trancafia a porta.
- Elas quase me arrancaram os ovos!
- Fãs: ame-os ou deixe-os levar partes suas. - Comenta Albano, sem deixar esconder o sorriso de satisfação em ver Jonas aprender a lição.
- Eu quero sair daqui. - Reclama, com a mão entre as pernas.
- Também, mas prefiro fazer isso a noite. Pouco antes de amanhecer. Você tem algum dinheiro?
- Ainda que tenha, não tenho como saber... Perdi a memória do hospedeiro.
- Então teremos que ir no Banco, encontrei umas cartas bancárias nas coisas desse José Antonio enquanto você dormia, e pelo que vi temos dinheiro para quase um ano se gastarmos pouco.
- O que pensa em fazer?
- Você gosta de floresta?

Um Mercedes Benz estaciona defronte a Igreja. Jéssica ordena ao motorista que pare e imediatamente sai do carro. Sempre com seu netbook debaixo do braço direito ela caminha rápido entre a multidão de fiéis aglomerados diante da porta da igreja. Surpreendentemente as pessoas desviam dela sem que ela precise pedir.

Ao chegar na porta a fechadura faz um sonoro clique e Jéssica entra. Em seguida a porta novamente se fecha e um novo clique é escutado. A porta está mais uma vez trancada. Ela caminha entre as cadeiras agora bagunçadas da Igreja e se dirige rapidamente até o quarto do padre José Antonio com a habilidade de quem já esteve naquele ambiente, embora nunca tenha colocado os pés ali.

Assim que entra no quarto vê José Antonio deitado na cama, observando-a com um sorriso no rosto. No segundo seguinte a arma de Albano é colocada em sua nuca.
- Coragem ou tolice? - Pergunta o matador, enquanto Jéssica parece nem se importar com a arma.
- Tolice sua? - Responde Jéssica. - Vamos, atire!

Jéssica força a situação e gira o corpo rapidamente para pegar a arma. Experiente, Albano aperta o gatilho de seu revólver. A primeira bala falha, a segunda idem e assim sucessivamente todas as do tambor, enquanto Jéssica agarra o revólver e o direciona para longe.

Albano está atônito, do mesmo jeito Jonas. A chance de seis balas de um revólver falharem é mínima, quase zero, mesmo que falhem ao menos deveriam fazer algum barulho, não o simples "clique" que fez, como se não tivessem no tambor. Albano gira a arma e prepara-se para dar coronhadas.
- Não precisamos disso. - Fala Jéssica, observando Jonas. - Não temos que começar assim.
- Se não tivesse invadido a igreja... - Questiona Albano.
- Desde quando invadi? - Espanta-se Jéssica, com uma falsidade que não consegue esconder. - A porta estava aberta.
- O que veio fazer aqui?
- Procurar por vocês dois. Albano e Jonas, e talvez Tirolez também, se ele estiver me ouvindo.
- Como? - Fala Jonas, assombrado em ver o quanto Jéssica sabe.
- Quem você é? - Interrompe Albano, com o tom de voz alterado, causando medo em Jonas.
- Tirolez? - Pergunta Jéssica,
- QUEM É VOCÊ! - Berra Tirolez, erguendo Jéssica pelo pescoço. A mulher quase desmaia com tamanha a força que se manifesta no brutamontes.
- Jéssica Ribeiro... Da... Polícia Federal... - Gagueja, com dificuldades em responder.
- CONTA OUTRA CARALHO!

Tirolez sem aparentar esforço arremessa Jéssica sobre a cama e salta sobre ela. Jonas mal consegue sair do caminho segundos antes. Sem dar tempo a mulher virar-se de frente Tirolez pula em cima e a imobiliza completamente. "Sem um hotel não...", berra Jéssica antes da luz do quarto se apagar completamente.

Jonas nada enxerga enquanto escuta pancadas no armário e os grunhidos de dor tanto masculinos quanto femininos. De repente a luz reacende e Tirolez está sentado na poltrona semi-consciente e Jéssica está sentada na cama com as roupas um pouco amassadas e maquiagem borrada. Jonas vê a sombra de Jéssica mexendo-se, de uma forma que ele conhece muito bem.
- Porque não disse a verdade? - Pergunta Jonas.
- E perder a oportunidade de ver se estão atentos? - Responde Jéssica, ajeitando o batom borrado.
- Desde quando está aqui? - Questiona Albano, aparentemente no comando mais uma vez.
- Fazem dois meses. - Responde, olhando-se no espelho. - Escolhi um casal bem casado e estável. O único lado ruim foi que possui filhos... Odeio crianças, mas nada que um colégio interno não resolva. Tenho dinheiro, status, estabilidade e um belo corpo, enfim, tudo que alimenta a engrenagem que faz esse mundo atual rodar: sexo e poder.
- E porque nos procurou?
- Para dar meu telefone. Existe algo errado acontecendo, não consegui descobrir o que era e o que planejam, mas são dissidentes do grupo de Sonia, lembram dela?
- A borboleta de Angra. - Comenta Albano.
- Essa mesma. Desconfio que ainda querem fazer a mesma coisa, mas ainda não sei direito o que é... De qualquer forma, fiquem atentos e preparem-se, provavelmente os chamarei quando estiver quase sendo tarde demais.
- Só isso? - Lamenta Jonas.
- Só isso. - Responde Jéssica.

Jéssica se levanta e sai.


Continua... Aqui.

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