A hipocrisia do politicamente correto não tem limites...


Me inscrevi semanas atrás no concurso para o Ministério do Planejamento.

Até aí nenhuma novidade... Mas é quando me vejo num profundo dilema: me tornei uma pessoa com necessidades especiais.

Sem querer desmerecer ninguém, mas eu enxergo, escuto, falo, caminho, cago e ando como qualquer pessoa. Não sou mais ou menos "especial" que ninguém ou alguém. Apenas sou gordo, como alguns consideram como deficiência (apesar de não ganhar cotas em universidades, reserva de vagas em concursos ou nada do tipo).

No entanto, a praga do politicamente correto fez de mim uma pessoa que precisa preencher na inscrição para concursos minha situação debilitante.

Não me joguem na fogueira ainda: sou canhoto!



Tudo bem, quem é canhoto sabe o quanto a sociedade nos exclui. Eu sou tão canhoto que nas poucas vezes que tentei aprender a dirigir, pela falta total de sensibilidade do meu pé direito, eu enfiei o pé no acelerador e quase matei de medo meus pretensos instrutores.

Sério, sou daqueles canhotos que só usa o lado direito do corpo quando o esquerdo não alcança. Até pra digitar uso mais dedos da mão esquerda que da direita. Nem mesmo quando fui forçosamente obrigado a utilizar a mão direita quando fraturei a mão esquerda nos tempos de pirralho eu consegui dar alguma utilidade a esse lado. Até meu cabelo é mais fácil de pentear do lado esquerdo.

É como se existisse uma linha perfeitamente demarcada em meu corpo. Que divide o rico do pobre.

O lado esquerdo é o equivalente a zona sul carioca, que recebe todos os investimentos. Tudo ali funciona. O lado direito é a zona norte, com todos os problemas inerentes. Se surge uma coceira no lado esquerdo, prontamente o lado direito direito realiza o ato servil de me coçar. Se tenho coceira do lado direito, o esquerdo recusa-se a coçar porque rico não ajuda pobre. Só dá esmola.

Só que até então nunca tinha sido taxado de deficiente.

Entendo que fazer prova de concurso público usando cadeira de destro é uma tortura. É de certa forma uma maneira de eliminação, afinal de contas. Pense: enquanto o destro está fazendo sua prova o canhoto tem que fazer malabarismo para conseguir escrever e evitar que o instinto o faça apoiar a prova na perna - esquerda, claro. - e correr o risco de ser eliminado. Só em tempo de prova gastos com cada adaptação as carteiras escolares o destro já leva ampla vantagem com o canhoto. Se considerar o que o canhoto desvia de sua concentração para se equilibrar então a diferença se acentua ainda mais.

Mas não sou partidário e nem imagino no mais remoto pensamento que a solução dos meus problemas com meus dois lados estivesse em me taxar como deficiente físico, (o nome menos bonito que dão a coisa, e que camuflam para esconder a realidade), afinal de contas, foi de certa forma uma escolha. Em algum momento da minha vida infantil eu decidi que o lado esquerdo seria mais amado que o direito, e vivo feliz com minha escolha até descobrir que estou mais uma vez sendo segregado. E por meios oficiais.

Espero que venham logo as cotas para canhotos... Pois as cadeiras já temos.

Essa não é minha luta.

6 comentários:

  1. O negócio é requerer aposentadoria por invalidez no INSS e, quem sabe, virar presidente da república. A

    final de contas, Lula recebe aposentadoria por invalidez por ter perdido o dedo mindinho, mas trabalha e tem outra fonte de renda (o que é proibido).

    Se ele pode; você também. Ainda mais agora que você tem um documento oficial provando que você é "deficiente". (rs)

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  2. E pensar que o INSS nega aposentadorias por invalidez aos montes para pessoas sem a mínima condição de prover renda...

    E o pior, no estabelecimentos do inss tem um banner gigante dizendo "o médico não avalia se você está doente, mas se você pode trabalhar". Claro um tetraplégico pode trabalhar, ele só precisa piscar para exercer uma função, não é mesmo?

    Ah... esqueci... no estabelecimento do inss tem detector de metal, guardas encarando o público e avisos por toda parte "Desacato a autoridade publica é crime". Como se já soubesse dos abusos que fazem e da revolta que geram...

    enfim, brasil sil sil!

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  3. Cara, me desculpe, mas eu não entendi ao certo qual foi o problema.

    Não consigo, de forma alguma, ver como sua "canhotice" estaria sendo tratada como deficiência na situação exposta.

    Só porque eles chamam de atendimento especial? Mas é mesmo "especial" na medida que eles vão ter de providenciar uma cadeira que é diferente das outras para seu conforto e que, não necessariamente, estaria disponível na sala em que você vai fazer a prova.

    Do mesmo jeito que, se você for fazer um vôo e tiver alguma restrição alimentar (comida vegetariana, kosher, sem lactose, etc.), muitas empresas prestam um atendimento "especial" providenciando uma refeição que se encaixe em suas necessidades. Mas nem por isso um vegetariano se sentiria taxado como deficiente porque teve de usar deste serviço.

    Resumo: não consigo mesmo entender que ser canhoto esteja sendo tratado como deficiência neste caso.

    Abraço!

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  4. Varotto,

    1 -É problema porque não tem a opção "destro";
    2 - O local onde foi colocada a opção, como disse no post.

    Não colocaram como observação, mas exatamente no mesmo lugar onde em concursos públicos as pessoas colocam informações sobre deficiência física.

    Se o termo "necessidade especial" não estivesse associado em concursos a "deficiência física" não me incomodaria, mas do modo como fizeram soa que o canhoto é "diferente" ao ponto de precisar de atendimento especial.

    É preconceituoso pacas, mas só quem é canhoto e já sofreu com essas exclusões percebe.

    E não estou fazendo piada, tente segurar um abridor de lata. =/

    Só não sei se você tem por hábito prestar concursos...

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  5. Cara, não quis ofender e sei que cotidianamente os canhotos acabam enfrentando um monte de problemas, como o próprio exemplo do abridor que você citou, que parecem besteira, mas acabam criando prolemas reais.

    A questão é que como eu disse a colocação de uma cadeira para canhotos acaba sendo mesmo feita sob demanda porque não há como prever quantas pessoas precisarão por sala. Então é uma necessidade especial sim, no sentido de ser uma coisa que terá de ser oferecida caso a caso. E o fato é que não é necessário o candidato informar no formulário que é destro, pois para estes foram feitas quase todas as cadeiras do local, pelo simples motivo de que o número de canhotos da população é extremamente menor do que o de destros (parece que cerca de 10%).

    Acontece que as pessoas acabam associando o termos necessidades especiais com deficiência física.

    Realmente poderiam ter criado um outro campo, com outro nome, para o caso de canhotos, obesos que precisassem de cadeiras maiores, etc. Mas talvez isso é que fosse um excesso desses tempos de patrulha politicamente correta que leva a situações como ter de chamar um anão de cidadão verticalmente prejudicado e um negro de cidadão afro-brasileiro.

    No primeiro caso taxam de ofensiva uma palavra (anão) que nunca teve essa intenção. Além do que uma pessoa pode chamar outra de anão de forma perfeitamente saudável, e chamá-la de verticalmente prejudicado de forma pejorativa (está tudo no tom empregado).

    No caso do negro a mesma coisa: a palavra pode ser usada positiva ou negativamente de acordo com o discurso. Além do que é como se eu me ofendesse se me chamassem de branco ("branco é o cacete! eu sou caucasóide!").

    Enfim, quando li o seu título eu achei que o tom do texto seria o de criticar o fato de as pessoas usarem o politicamente correto de forma extrema (como nos exemplos que dei). Mas então estou entendendo que seria o contrário: sua crítica seria ao fato de não terem criado um campo para "necessidades especiais" separado daquele que conjuga as chamadas deficiências físicas. Ou seja, que o formulário fosse mais politicamente correto.

    De qualquer forma, como deixei claro no início do meu comentário, não quis soar desrespeitoso ou ofensivo. Só deixar claro que, na minha visão, eu não entendi da mesma forma que você o motivo da bronca.

    Abraço...

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  6. Varotto, fiz da resposta uma postagem.

    Você levantou um tema sério, e acho que responder apenas aqui limita muito a coisa. =p

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