Respondendo um Comentário: Varotto e Canhotos.

Esse artigo surgiu depois de dois ótimos comentários do Varotto, leitor aqui do Pensamentos, que não respondi com a cordialidade necessária pela limitação pré-existente em um formulário de comentários e por minha própria limitação em conseguir ser cordial quando escrevo, coisa rara. =/

Para entender melhor o artigo, veja os comentários aqui: A hipocrisia do politicamente correto não tem limites...



Respondi de forma seca, acabei não sendo cordial. Não foi bronca não, é meu estilo de escrever mesmo. Desculpe a forma, mas por mais que tente mudar nunca consigo deixar de ser sisudo ao escrever. =/

Não fiquei bronqueado de forma alguma. =)

Vamos a réplica ao amigo Varotto.

"A questão é que como eu disse a colocação de uma cadeira para canhotos acaba sendo mesmo feita sob demanda porque não há como prever quantas pessoas precisarão por sala. Então é uma necessidade especial sim, no sentido de ser uma coisa que terá de ser oferecida caso a caso. E o fato é que não é necessário o candidato informar no formulário que é destro, pois para estes foram feitas quase todas as cadeiras do local, pelo simples motivo de que o número de canhotos da população é extremamente menor do que o de destros (parece que cerca de 10%)."

O problema a meu ver é justamente o nominativo dentro do formulário de inscrição. A pergunta, no local onde foi colocado, tudo junto.

Em Concursos Públicos o campo "Necessidades Especiais" é por tipificação o campo das deficiências físicas. Deram o nome "necessidades especiais" para amenizar o termo, ser politicamente correto.

Só que um dia decidiram que colocariam também no formulário a questão do canhoto. É uma inciativa louvável. Geralmente as cadeiras escolares (o padrão atual, antes eram mais justas) em que faço prova são apenas para destros, e que mal cabem as folhas de prova (e a folha de respostas) que o diga para o malabarismo que preciso fazer para conseguir apoiar minha mão na carteira por quase quatro horas. Geralmente quando presto meus concurso e vejo as carteiras como a da foto ao lado já bate um enorme desespero. Além de canhoto sou gordo do tipo barrigudo (gravidez de nove meses a nove anos), ou seja, além do esforço de precisar respirar ainda tenho que me equilibrar na carteira.

Só que quando optaram pela localização da opção, quiserem cheios de boa vontade colocar a coisa nessa área pela interpretação gramatical do termo e não por sua conotação atual. Mas aí bate na conotação.

As organizadoras de concursos criaram a estigma, pois eles que bolam e determinando como são os formulários de inscrição. Qualquer concurso que faço ou me inscrevo o trecho de "necessidade especiais" refere-se estritamente a "deficiências físicas", em que sempre exigem atestado comprobatório da necessidade. Logo, "necessidades especiais" por força do hábito virou sinônimo de "deficiente físico".

Só que ser canhoto não é uma deficiência física.

É apenas uma opção, como é ser homossexual, gostar de comer peixe cru ou mesmo de correr na praia em dias frios de manhã. Mas uma opção (provavelmente a primeira) que tomamos na infância. Só que canhotos sempre sofreram preconceito. Muitos pais forçam as crianças a mudarem sob ameaças físicas (meu avô me dizia que quando criança era canhoto e quase quebraram sua mão até aprender a usar o lado "certo", aí ficou ambidestro), afinal de contas, poucas gerações atrás canhotos eram confundidos com bruxos e queimados na fogueira. Uma segregação que passou de pai para filho até os dias de hoje, mas pelo menos sem fogueira no Brasil.

Por isso me ofendeu a situação.

Eles poderiam resolver a situação de modo mais simples, como você mesmo disse. Ao invés de pura e simplesmente enfiar o canhoto no campo de necessidades especiais (devido a conotação que já possui) colocar na parte de informações pessoais se a pessoa é canhota ou destra. Não colocar algo como "[ ] Marque se Canhoto" mas sim um "[ ] Canhoto [ ] Destro", como ocorre com perguntas sobre sexo ou estado civil (não perguntam todas as opções possíveis? Porque não fazer o mesmo com o uso da mão?). Aliás, dependendo do local de prova e das carteiras do colégio essa indicação se torna formalidade, porque as antigas carteiras escolares tinham tampos largos o suficiente para colocar o material com conforto e ainda escrever na posição que achasse melhor.

Do mesmo modo poderia ser feito em relação a composição corporal. Ser canhoto ou gordo é uma informação relevante a organização até mesmo do espaço. Um canhoto ou gordo não tem uma "necessidade especial" da forma como é descrita nos formulários (como acompanhante ou mesmo sala separada), mas apenas de um lugar para sentar diferente.

Mas é uma luta perdida. Os canhotos em geral preferem se adaptar ao que tem, e somente aqueles que podem pagar conseguem tornar sua condição menos degradante. As cadeiras atuais, de tampos menores que uma folha A4, são mais baratas e quem se importa com o conforto do estudante (o que nada tem a ver com canhoto ou não, pois mesmo as cadeiras de canhotos como a da foto acima são ESTUPIDAMENTE desconfortáveis)? Custam menos, sobra mais dinheiro para coisas importantes, como a gasolina do carro do diretor ou aquele projeto social que angaria votos e nenhum benefício.

Eu me adaptei ao mundo destro. Acho que esse artigo e o anterior foram as únicas vezes em que manifestei a fundo sobre o tema.

Não deixei de ser canhoto, mas aprendi a abrir latas - ainda que algumas vezes machuque a mão -, aprendi a usar tesouras de costura, aprendi a desenhar, aprendi a me sentar na escola, aprendi a tocar violão, aprendi a subir escadas que geralmente são construídas sempre com o corrimão na direita, aprendi a frear de bicicleta, aprendi a usar o mouse, aprendi a escrever e vou aprendendo dia a dia...

A vida é feita de sacrifícios, e esses são mínimos em comparação ao resto.

Um comentário:

  1. Também nunca me conformei com essas carteiras econômicas, são desconfortáveis e oferecem pouco espaço

    E eu não sou canhoto o/

    ResponderExcluir

Cuidado com sua postura ao comentar:
A responsabilidade pelas opiniões expostas nessa área é de de seus respectivos comentaristas, não necessariamente expressando a opinião da equipe do Pensamentos Equivocados.