Revelações de Jonas: Apocalipse - Cisma, 9.

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A maior vantagem que existe no sacerdócio é que por mais filho da mãe e corrupto que possa ser, centenas de anos de uma imagem honesta e pura não podem ser eliminados. Junte-se a isso um padre cujo atual dono é um ex-bandido e teremos um pouco de pessoas enganadas. Dois dias depois que Jéssica sumiu, José Antonio foi até seu banco, que ficava próximo da Igreja e trocou cartões, assinaturas e quaisquer documentos necessários.

Todos no banco sabiam do tiro que levara, e o laudo que confirmava a amnésia o auxiliou a deixar até mesmo o gerente do Banco convicto que esse reinício seria bom. E como José Antonio fez diversos empréstimos e usufruiu nesse dia dos mais variados produtos bancários, o que nunca um padre fizera pra esse gerente, sacar cinco mil reais em dinheiro era a menor das coisas.

José Antonio tinha no dia 6 de Maio de 2010 exatos quinhentos mil reais, de proventos acumulados em seus quinze anos como padre daquela igreja. Com os empréstimos quase que dobrou o valor obtido. Obviamente não era salário da Arquidiocese, mas alguma espécie de desvio de conduta. Jonas sequer se importava com isso, ele queria o dinheiro. E considerando que cinco mil reais era nem mesmo um por cento desse valor, a viagem estava completamente garantida.
- Troquei as senhas, troquei a assinatura e dei um reinício nessa vida. - Comenta enquanto senta-se no carro recém-alugado por Albano.
- Muito bom, mas pra onde vamos não acredito que precisemos de mais do que sacou.
- Para onde vamos?
- São Felix do Araguaia.
- Aonde caiu o meteoro?
- Isso se for um meteoro.

Albano mostra a notícia do jornal do dia, reclamando da violação do direito de imprensa. Apenas ao ler a matéria que Jonas entendeu que referia-se a expulsão da mídia toda da região de São Felix do Araguaia. O enorme editorial reclamava mais da postura do governo federal do que necessariamente da situação local.

Jonas amassa o jornal e o joga em um amontoado de lixo próximo do carro. Em seguida os dois dão início a viagem para Mato Grosso. Para não serem rastreados pela mídia ou por qualquer interessado Albano simplesmente guia o carro alugado até uma favela e lá o troca por outro veículo, este tão frio quanto gelo no entanto conservado visualmente o suficiente para passar pela polícia rodoviária sem chamar atenção.

Contando as paradas, e o abandono do carro para viajarem de rio, a dupla chega na região na madrugada do dia 9 de Maio, na cidade de Luciara, uma pequena cidade ribeirinha que até o incidente possuía quase cinco mil habitantes situada a pouco mais de trinta quilômetros da região da queda. Sua proximidade a tornara uma das cidades mais afetadas de todo o país, com números estimados na morte de mais da metade da população, sem contar desaparecidos.

A visão desoladora do local contrastava com a quantidade impressionante de barracas de desabrigados. Caminhões do exército e da cruz vermelha trafegavam de um lado para o outro transportando doentes e comida. Não havia uma construção sequer inteira, nem mesmo a prefeitura, construída para resistir a enchentes constantes na região, ficara de pé.

Albano e Jonas juntam-se aos membros das forças de ajuda por alguns dias, buscando enquanto isso informações e fofocas que os situassem com a região. A conversa mais interessante ocorreu quando Albano reencontrou com o repórter suicida que vira na Av. Rio Branco, semanas antes.

Carlos estava com uma equipe da Bandeirantes fazendo a cobertura do incidente bem no epicentro. Até tinha conseguido boas imagens do meteoro. Só que como aconteceu com todas as emissoras no local, foram expulsos no quinto dia da queda e, o material das filmagens apreendido pelas forças armadas para evitar que fosse divulgado por questão de segurança nacional.

Como da primeira vez em que Albano o viu, Carlos estava bêbado, mas dessa vez sua equipe o acompanhava na fossa. Eles estavam sentados nos bancos de um boteco improvisado com lona e barris de cachaça que escaparam da onda de choque. Todos brindavam a truculência dos militares e um deles estava no telefone celular conversando com algum superior, pelo que Albano identifica no tom dos lamentos.
- Eu te reconheço. - Falou Carlos, logo ao ver Albano. - É o cara que me salvou lá no Rio.
- Eu mesmo. - Respondeu o loiro, puxando um banco e sentando-se na mesa. - Por que a fossa?
- Eu sou um infeliz. - Reclama Carlos, com forte bafo de cachaça. - Há uns dias atrás fomos expulsos do local da queda... Até aí tudo bem, faz parte. Os milicos tem que trabalhar, mas nós temos também!
- Eu disse que ia dar merda. - Interrompe um dos câmeras, que parece mais sóbrio.
- Merda? - Questiona Jonas, agrupando-se.
- Os caras estão construindo um muro. - Continua o cinegrafista.
- Muro não, é cerca. - Interrompe Carlos.
- Que seja! Eles começaram a construir um troço pra impedir o povo e a imprensa de se aproximar. Daí, conseguimos entrar por um laguinho que fica há alguns quilômetros daqui. Quando estávamos perto do meteoro uns soldados nos acharam e nos obrigaram a entregar pra eles nossas câmeras.
- Quase que trouxemos uma fita... Mas... - Lamenta um segundo cinegrafista.
- Um deles carregava um imã bem potente, simplesmente passou em nosso material todo e em nós. Desmagnetizou tudo! As câmeras nem ligam mais...
- Isso é muito ruim. - Comenta Albano, fingindo beber cachaça, quando na verdade havia colocado água no copo.
- Muito. - Concorda Jonas.
- Onde fica essa abertura? - Aborda Albano, ciente que tem alguma confiança dos jornalistas. - Chegamos a pouco tempo aqui e queríamos ver o meteoro.
- Eu levo vocês até lá. - Fala Carlos. - Mas têm que me prometer deixar filmar sua invasão.
- Prometemos, mas como vai fazer sem câmera? - Mente Albano.
- Amanhã trazem mais equipamento de filmagem. Partimos em seguida.
- Que horas?
- Acho que de tarde, me procurem se eu não os encontrar. Estarei de ressaca... Provavelmente na minha tenda.
- Procuraremos.

Albano se afasta sorrindo, acompanhado de um cambaleante Jonas. Ao contrário do matador, ele esqueceu de beber água em vez de cachaça.


Continua... Aqui.

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