Dia dos Professores... E daí?


Hoje é mais um dia dos professores.

Nesse dia obviamente pipocam homenagens, mas tirando as dedicatórias e o reconhecimento cada vez mais raro, o que se vê?

Vê-se professores cada vez mais sublocados, recebendo menos do que merecem e menos ainda do que precisam para sobreviver. Hoje em dia dar aula não é mais uma luta no sentido metafórico da coisa, é também fisicamente.

Até o início do século 20 os professores tinham em mãos instrumentos (vide foto que ilustra o artigo) para educar crianças rebeldes, hoje o papel se inverteu. As escolas se subverteram ao capital dos pais e cientes do poder de barganha de mensalidades (qual coordenador de curso nunca escutou o "eu pago essa merda!") quem apanha é o professor.

Apesar de ainda existir, principalmente por parte de autoridades governamentais, aquele ideal romântico de que professores e educadores são iguais a verdade é bem distinta.

Professor é uma carreira completamente desvalorizada em termos monetários, onde se recebe muito para pouco retorno tanto de alunos quanto de pais (ou da própria escola) e perde-se muito tempo estudando (o que para alguns pode ser prazer, mas quando se trata de pagar contas ninguém é masoquista) para receber de volta apenas porrada e descrédito.

Existem professores ruins? Claro. Existem profissionais ruins em todo e qualquer emprego. Mas seria culpa deles ou do sistema? Para muitas profissões ser professor não é opção, é castigo. O que mais vejo, por exemplo, em colégios são professores de química, física, matemática que ocupam o cargo por desespero, não por vocação. Tapando buraco e incapazes de ensinar uma criança algo como 1+1 sem deixar dúvidas.

Sei porque vivi isso.

Mas isso é culpa de quem? Óbvio que não é da profissão. Quem é bom no que faz vai conseguir dinheiro sempre, seja ele camelô, cientista... ou professor. O profissional exímio atrai dinheiro, não o contrário. Basta apenas gostar do que faz, mas o mundo não gira só desse jeito.

Sei porque tive ótimos professores e se hoje em dia escrevo com poucos erros é porque tive a sorte de ter professores que me deram base. Mas também mal faço contas sem precisar de calculadora porque passei boa parte de minha idade escolar aprendendo com professores "tapa-buraco", principalmente àquela fase em que as crianças criam laços com as matérias.

Porém, não adianta nada vocação, não adianta nada dedicação e amor ao que faz quando você se depara com a inversão de valores que citei acima. A degradação social do ambiente docente e discente é cada vez maior, e a super-proteção familiar de alunos (ou "clientes", como algumas escolas frisam) tira o tesão de lecionar. Que o diga ainda pior: dar medo de trabalhar.

Para que lecionar se o professor não pode nem mais tirar de sala sem escutar um "EU PAGO TEU SALÁRIO, VELHA(O) ESTÚPIDA(O)!" e ciente que a resposta apropriada pode gerar até mesmo processos civis e criminais. E ai, mas ai do professor que responder a altura (para não dizer que deveria colocar os pequenos marginais no lugar). Se não for demitido, pode levar tiro. Ou os dois.

Existem escolas no Rio de Janeiro que são parte do "front", onde professores não precisam apenas de amor a profissão para dar aula, precisam de coletes a prova de bala. E existem também escolas que não fazem parte do "front" e mesmo assim o professor corre o risco de ser fuzilado na saída pelo filho de algum juiz. Ou seja, vai morrer e ainda vai estar errado.

Por isso, tire esse 15 de Outubro não apenas para refletir, mas para medir seus próprios atos, ainda mais se for pai/mãe. Avalie o relacionamento de seu filho com a escola, principalmente com aquele que passa metade do dia de seu filho: o professor.

Iniba abusos, mas não apenas fiscalize o lado de seu filho (a eterna vítima), avalie também a posição do professor e, se possível, procure outros professores que também dão aula a seu filho.

INFORME-SE antes de acusar.

O fato de apenas "um" ter causado "problemas" pode não ser perseguição, mas inibição dos demais, cansados de apanhar ou simplesmente porque desistiram de dar murro em ponta de faca a toa. Ou pode ser bullying.

Se você acredita que o planeta ainda tem algum futuro, dê valor àqueles que moldam esse futuro.

Professores não são apenas educadores, são os escultores da sociedade.

Quem sabe ano que vem teremos o que comemorar?

2010 vem aí... Pense na m... que faz.

Notícias que mostram o que falo:

Folha:
- Aluno mata professor durante aula nos EUA;

Globo:
- Estudante leva arma em colégio que custa R$ 1.600 por mês no Itaim Bibi, em São Paulo;

Última Hora:
- Professores também são vítimas de bullying, diz investigadora;

O Dia:
- Polícia acha armas e drogas em ciep na Nova Holanda;

E um vídeo com agressão a professor:


Falta de educação não é problema do governo, bons modos não se ensinam com projeto social. Ou você é educado ou é um animal, isso vem de família.

5 comentários:

  1. Felizmente, na minha turma em particular os professores ganham bem (lol). Mesmo assim, vira e mexe tem algum/a marginal qualquer fazendo baderna (aka. mijando onde não deve, tacando papel molhado no teto da escola, quebrando mármores divisórios, xingando o professor na cara-dura, entre outros). Adorei a frase final: "Ou você é educado ou é um animal, isso vem de família". É fácil chegar no jornal, cartas dos leitores, e ler: "nossa, a educação do Brasil é uma m...", embora o maior problema não seja os professores nem o governo.

    E sim o descaso da população. (como mostrado neste post, não só a do Brasil.)

    Digo isso porque todo mês aparece notícia de escola sendo assaltada, porque há alunos que são vândalos que não pensam nos outros que usufruem do lugar (a minha escola é particular, sabem), e também porque a maioria dos pais acha que educação se aprende na escola.

    Eu achei ridículo meio Brasil (provavelmente mais) ficar comemorando que adiaram as aulas em até um mês devido à gripe suína. Agora ficam chorando que vão ter aula até o Natal.

    Sinceramente, é caótica essa mentalidade dos jovens. Não sei em quem jogar a culpa: nos pais, na televisão, ou neles mesmos. A escola não está sendo tratada como uma, e sim como um castigo não merecido.

    Gostaria de homenagear a grande maioria dos professores, principalmente da rede pública, que aguentam salários baixos e, mesmo assim, tentam dar aula a tantos alunos negligentes. Parabéns pelo dia. :)

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  2. Pois é querido...
    Eu sou do tempo em que a professora era considerada uma segunda mãe, tal o respeito que lhe era direcionado.
    E olha que já ajoelhei no milho...rsrsr
    Mas, foi o tempo em que lecionar, era um sacerdócio.
    Nos dias de hoje, exige-se cada vez mais de um professor (até para lecionar para ensino fundamental, é exigido faculdade... quando antigamente, bastava o Magistério).
    Anos e anos de especialização e qual é o retorno? Cada vez menor, ou nenhum.
    Trabalham em várias escolas, com cargas horárias pesadíssimas, para compor um salário razoável.

    Minha sobrinha e o marido dela, são professores (ela de matemática e ele de física).
    É lamentável as histórias que eles relatam... desde a falta de respeito, carros depredados, até as ameaças sofridas, por uma nota baixa, ou repreensão na sala de aula.
    Uma outra sobrinha, se especializou também, mas desistiu... não aguentou a pressão.

    Eu sou frustrada, por não ter conseguido me formar em professora... mas, hoje eu até agradeço.
    O que era sonho de infância de alguns (assim como eu), passou a ser um pesadelo para a grande maioria.
    O meu respeito à esses mestres que, com carinho compartilham da única coisa que "quanto mais se dá, mais se adquire"... o aprendizado.

    Excelente post, como sempre!
    *

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  3. Pois é. É clichê, mas lá vai: interessa ao governo um povo com educação formal e discernimento?

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  4. Acho que o mais importante é dar melhores salários aos professores, acho que estão cansados de promessas e papos motivacionais, além de tudo que você citou no post.

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  5. Olá, Dragus!

    Tenho 23 anos de serviço e até agora não tive problemas graves com alunos. Minha posição em sala de aula e tratar com regras e disciplina e também em nenhum momento humilhar. Muitas vezes falo a própria linguagem dos alunos, dos mais rebeldes, para mostrar que naquele ambiente existe um líder e é a professora. quando dizia, não era não mesmo. e eles gostavam que assim fôsse.

    Hoje, alguns professores não querem assumir seus próprios problemas em sala de aula. Por "dá c´á aquela palha" mandam para a direção, humilham e descarregam toda a sua raiva em cima do aluno.

    É verdade que somos desvalorizados, que alunos incorrigíveis existem mas, somos culpados por uma grande parcela destas mazelas. Como a maioria dos brasileiros não desenvolvemos o suficiente a capacidade de mobilização e luta. Qualquer corte de ponto nos amedronta.

    Beijos!

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