Diário de Guerra: Um sábado, uma guerra, uma rotina.

Mais um dia amanhece na cidade do Rio de Janeiro.

Tudo aconteceu em um sábado na cidade olímpica...

08h00min:
O despertador não tocou, aliás, não acordei com o despertador. Ao contrário da classe privilegiada eu pertenço a classe trabalhadora, trabalho de domingo a domingo faça chuva, sol ou qualquer coisa semelhante.

A noite tinha o aniversário de 15 anos de minha irmã. No dia anterior cancelei o trabalho e passei para segunda a tarde (ontem), dia em que teoricamente teria folga. Precisava comprar as roupas que usaria na festa e os presentes e para isso dormi na minha sogra de sexta para sábado ciente que dormir em Paquetá seria oneroso demais.

9h30min:
Tomei banho, vesti a roupa e fui para a luta. Não vi telejornais, e os jornais da banca falavam das futilidades de sempre. Surpreendentemente o metrô da Saens Pena está deserto, nem sei porquê.

Chego no Centro da Cidade, pego parte do material de trabalho e saio na mesma velocidade, direto para um dos meus clientes. Chego e vejo que faltam alguns CDs para reinstalar um notebook, ligo para o responsável e ele fica de me entregar o CD. Sabem quando? Isso, segunda-feira.

11h30min:
Escuto o burburinho na empresa. Vou até uma televisão e vejo uma cena de guerra. Um helicóptero está pegando fogo. Imediatamente imagino serem cenas do Afeganistão ou do Iraque, lá são locais em guerra. Não é.

Um helicóptero foi abatido em combate no Rio de Janeiro, aliás, a cidade-sede da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016 teve um helicóptero abatido por forças para-militares. Estava ali, na tela, o aparato policial em chamas, com policiais morrendo no exercício do dever a troco de nada.

A raiva que dava enquanto via a cena era impressionante. Como diria Lula: nunca na história desse país um ato de guerra foi tão e completamente ignorado.

Sim, porque logo depois o Rubinho tinha que disputar a posição na corrida - que perdeu, diga-se de passagem. - de interlargos e era muito mais importante isso do que transmitir informações sobre o estado de guerra que se instalou na cidade. Em suma, acabou o jornal, acabou a guerra ao menos na Rede Globo.

13h00min:
Saio do cliente. Vejo na Rua Humaitá o reflexo nas ruas. Sabe quando é véspera do ano novo, depois do meio dia? Aquele período em que as empresas já fecharam e as pessoas estão em casa preparando-se para festejar?

Rua Humaitá no Sábado. E eu desarmado. =(

É igual, mas não existe festa, apenas medo.

Me senti em um faroeste, mas eu não era o pistoleiro, era mais a mocinha indefesa.

Está parado, no ponto de ônibus recebendo ligações constantes. Na última fora informado que não tinha mais ônibus porque alguém falou em algum lugar que as empresas de ônibus estavam recolhendo os veículos e trancafiando as garagens. Até então tinham queimado cinco ônibus (e o meu podia ser o próximo).

Felizmente o ônibus apareceu e consegui ir para a segunda parte das compras pré-festa.

13h50min:
Cheguei ao Shopping Tijuca. As lojas estavam cheias, mas não parecia um dia de sábado, e sim uma quinta-feira. Poucas pessoas transitavam.

Fui no banheiro e escuto uma funcionária do shopping lamentando com outras funcionárias que não tinha como voltar para casa e dormiria no ali mesmo, no Shopping Tijuca. Motivo alegado: não tinha van, não tinha ônibus e havia um novo boato, o metrô fecharia as 21h00min (o que nem sei se aconteceu ou não).

A cada loja em que parávamos uma nova série de perguntas.

16h30min:
Sempre perguntavam como estavam as ruas e como chegariam em casa. Quem trabalha no Shopping tinha medo da hora de ir embora e perguntava a colegas que moravam próximo se podiam dormir em suas casas naquela noite. Tinham medo de voltar para casa.

Fui informado na última loja então que não eram cinco ônibus queimados, mas dez. Voltei para casa da minha sogra, fazendo um percurso de quatro quadras de táxi, pois era sabido também que a polícia estava no Morro dos Macacos, ou seja, o resto da cidade estava deserta.

20h30min:
Retorno ao Shopping Tijuca.

Dessa vez vou acompanhar minha esposa no encontro de aniversário com meu sogro. Se existe um termômetro do caos do Rio de Janeiro, um deles fica no Outback.

O lugar tem fila todo dia, ainda mais o do shopping tijuca. Em um sábado e as 20h30min provavelmente meu sogro ainda estaria esperando vagar lugar e teriam umas 45 pessoas na nossa frente.

Mas era dia de tiroteio no velho sudeste.

Meu sogro e os outros presentes já estavam acomodados no estabelecimento e para meu espanto tinham mesas vagas. Nunca em minha vida conseguira entrar tão rápido em um Outback. A situação para a loja estava tão ruim que até fomos bem tratados pelos atendentes (coisa que hoje em dia é uma exceção no Outback, e não mais a regra), tendo recargas rápidas de nossos refis de refrigerante e reposição ainda mais rápida de cerveja.

21h10min:
Pego um táxi para o aniversário de minha irmã.

Ela faria sua festa em um salão alugado no Clube Mackenzie no Méier. Um clube muito bom e em um bairro tranqüilo, não fosse ter um Morro dos Macacos entre a Tijuca e o Méier.

Policiais fazendo patrulha na zona norte.


O o taxista relutou muito em seguir pela rua 24 de Maio até nosso destino. Ele estava nitidamente apavorado e quando nos deparamos com caravanas de policiais e guardas municipais fazendo a vigília dos acessos e comunicações entre o Jacarézinho e o resto ele segurou o choro (mas não o tom de voz choroso).
- COMO VOLTO PRA CASA! - Lamentou o taxista, sem saber que a Marechal Rondon estava livre, seus acessos que não.

Chegamos a festa.

Obviamente a festa sofreu os ocasos da violência. Só foram os convidados que não cruzam o Morro dos Macacos e poucos corajosos - ou tolos. - como eu. De resto a maior parte preferiu ficar quietinha em suas trincheiras de casa.

E com o final da festa, terminou meu dia.

Um dia tenso.

A cidade segue se preparando para os ataques terroristas de 2014 e 2016, jogando panos quentes em tudo, e agora até helicópteros quentes... Do jeito que está nossa criminalidade não precisaremos de terroristas, teremos nossos próprios.

E por motivos fúteis.


Fonte da foto de capa: http://www.brinquedos.faroeste.nom.br

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