Dilemas de 2016: Segurança Pública. - A arte da prevenção.



Fato: o Rio de Janeiro não tem uma política de segurança pública dentro do exigido pelo COI.

Fato: o Rio de Janeiro não terá. E nem o Brasil.

Fato: Segurança pública será apenas proteger o turista. E quem more perto deles, por sorte não por objetivo.

Desde o final da ditadura e o advento das políticas de "peninha" social, combater o crime se tornou um dilema político-eleitoral. A maior parte dos votos não estão nas áreas mais pobres da cidade, e a fonte da violência é também nessas áreas. Dessa vez nem falarei de leis que fomentam impunidade, isso vemos todo dia no jornal.

O plano do governo de Sérgio Cabral ao implementar as chamadas Unidades Policiais Pacificadoras (UPP) ainda que consiga combater o crime a curto prazo, ele não combate a longo. Não adianta colocar a autoridade policial em uma comunidade. O morador que já foi abraçado pelo crime vai continuar praticando crimes, por um motivo muito simples: é fácil.

Não escola ou qualquer outra coisa que consiga vencer a facilidade. Ainda que venham ministros, presidentes, Unesco, Buda e Cristo, quando uma pessoa consegue ultrapassar a linha do "ganhar 450 em um dia" para "ganhar 450 em um assalto" não tem mais volta. Não tem escola que resolva, as vezes piora.

Você sentar em uma cadeira escolar e aprender pode ser mais revoltante que conhecer. Vou traçar um paralelo mostrando a lógica do porque escola não resolve:

João é casado com Maria. A ama mais do que tudo, e a considera a mulher mais fiel do mundo e se considerada estupendamente feliz com o que tem. Mas quando vai trabalhar, Maria recebe o Mário, o Fábio e o Sávio. Um dia alguém consegue fotos da festinha de Maria. João, enquanto ignorante de sua situação, é feliz. Um dia alguém bate na sua porta e entrega as fotos. Agora, João conhece a vida como ele é. Independentemente do resultado (ele pode ter um acesso e matar a esposa, ser corno manso o resto da vida ou simplesmente terminar), nunca mais verá Maria do mesmo jeito. E a felicidade? Se for masoquista sentimental gostará de ser corno.

Trace um paralelo com a ignorância. Uma pessoa que não conhece as mazelas da vida que leva não pode ficar feliz quando conhece. Você, só por estar aqui, já está fora da maioria da população miserável culturalmente (até porque mesmo que venha dessas áreas, você correu atrás). Não serve como exemplo ou regra, é exceção. Para falar em valores numéricos, segundo dados do IBGE 25% de todo o dinheiro do País está concentrado em 9 cidades, e isso se reflete em tudo.

Estudar dá trabalho. Trabalhar dá trabalho. Levar uma vida decente, e simples, dá MUITO trabalho. Ser honesto então? Impossível na terra do jeitinho. E assaltar? Claro que dá trabalho, mas se der errado, ele morre. E morrer é mais fácil que viver com a conseqüência. Se F. (assaltante de menor) rouba a bolsa de Maria com todo seu salário e morre cheirando esse dinheiro, ainda assim a maior prejudicada será Maria. Por mais vítima da sociedade que você possa considerar F., quem vai ter que rebolar para pagar as contas e sobreviver por um mês (sem contar o trauma) será Maria. F. já morreu, adeus.

Colocar uma UPP em comunidades carentes só vai fazer os antigos traficantes de hoje virarem os assaltantes violentos de amanhã. A "molecada" já se acostumou com a grana fácil e a andar armada, a comer todas as menininhas do baile funk porque tem um "38tão" na mão e granadas no pescoço como se fosse um colar de pérolas. Ainda que um ou outro queira realmente sair da vida fácil (e existem, claro), os que não querem é o maior problema.

E não é porque tem droga. O que move é poder. O criminoso tem um poder em sua comunidade que não terá em nenhum outro emprego tradicional. O cara, que geralmente tem simplesmente um séquito (leia-se: puxa-sacos, servos e, principalmente, "cocotas"), nunca em sã consciência vai aceitar se submeter a um emprego normal. Ainda mais levar bronca de "engomadinhos metidas a besta" só porque tem a alcunha de "patrão". Nunca.

O criminoso violento não tem apego a vida, mas tem pelo poder pela violência concedido, ele sabe que não tem futuro. E esse é o maior problema. Como resolver?

Dando futuro pegando no futuro. Toda criança saudável mentalmente é um diamante bruto, basta apenas lapidar. Ensinar a procurar esperança e opção quando essas parecem sumir. Escolas no modelo atual não dão mais do que informação.

Tem que criar esperança e fazer a molecada, ainda no berço, em acreditar que existe uma vida melhor e mais recompensadora. O governo do estado deveria construir ao lado das UPP algumas creches, essas mantidas e geridas pela própria polícia militar (isso não apenas diminui o preconceito contra a polícia, como humaniza-a, criando vínculos maiores entre o corpo policial e a comunidade), ensinando desde pequenos valores éticos e morais até a certeza de que obterão um emprego se eles se esforçarem. E ensinar que o esforço compensa. Colocar de volta no currículo pré-escolar disciplinas como Moral e Civíca ajudaria.

Também tem que estimular o crescimento do comércio dentro das próprias comunidades (como já ocorre na intenção em menor grau com o Portal do Empreendedor - que por sinal, está parado há quase dois meses). Já existem ONGs sérias que fazem esse serviço, tem que estimular as empresas a contratarem, mas não com incentivos fiscais ou coisa assim. Tem que incentivar formando bons profissionais, porque se quem sair dos cursos das ONGs tiver QUALIDADE ninguém deixa de CONTRATAR. Incentivo fiscal é paliativo, quando acaba a empresa demite.

E claro, tem que dar a escola não apenas a responsabilidade. Tem que dar também o poder, como era antigamente em que escolas formavam pessoas e não apenas estudantes. Criança que faz besteira tem que ser punida. Pixou a mesa? Vai lavar TODAS as mesas da sala para dar valor ao trabalho da faxineira. Fez xixi fora da tampa? LAVA o banheiro. Pichou a parede do muro? PINTA o muro. Isso significa, claro, investir também na capacitação do profissional de ensino.

E tem que ser rápido. Cada criança sem perspectiva que hoje tem 6 anos, será soldado do tráfico em 2016 com 13 anos. Se não fizermos algo HOJE, em 2016 será tarde demais.

Isso sem contar a criminalidade entre a classe média que tem aumentado porque os pais não educam por serem ausentes (fato) e não deixam as escolas ou professores educarem (fato) por medo de perder autoridade (como se tivessem).

De lambuja um pequeno vídeo, de uma realidade que não mudou até hoje, trecho de Falcão, Meninos do Tráfico:


Se conseguir assistir a seco, sem se emocionar com a história pessoal dos futuros "Beira-Mar" e "Marcola", vai entender que a coisa vai muito além de enfiar a criança na escola, como disse o artigo inteiro.

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