Invadindo o Distrito 9.


Distrito 9 estreou essas semanas nos cinemas brasileiros, isso depois de já ter estreado há semanas (muitas mesmo) lá fora e, principalmente, depois de muita gente ter baixado o filme e assistido em casa.

Um dia, quem sabe, as empresas que controlam essa mídia vão entender que os tempos de estréias segmentadas já se foram, e ou fazem estréias mundiais ou vão fatidicamente perder receita porque meio mundo já viu o filme e a outra metade não viu porque a primeira metade chutou o pau da barraca.

O filme consiste basicamente em duas histórias paralelas e misturadas pelo preconceito. Na primeira, e também o pano de fundo, os alienígenas chegaram a Terra e pedem ajuda a raça humana. Nossa tão prestativa comunidade internacional, com suas tradicionais terceiras e infinitas intenções, não apenas deixam de ajudar como expulsam os aliens da própria nave e o enviam em um terreno, chamado Distrito 9. E ali eles ficam por vinte anos, sendo excluídos da sociedade com a qual foram forçados a conviver, desejosos a cada dia da oportunidade de ir embora.

A segunda envolve o drama pessoal de Wikus, um burocrata (que pertence a uma ONG que se supõe/apresenta para ajudar os camarões, mas a verdade aparece no filme) dos tipos que muitos habitantes de comunidades carentes conhecem - e odeiam. Uma pessoa como muitas que conhece, e que geralmente vê todo dia no espelho. Nada especial e, diga-se de passagem, irritante e chato (nos primeiros minutos do filme tenho vontade de socá-lo, se fosse possível). Só que ele é infectado com um produto feito pelos camarões e começa a se transformar em um deles, dando início a uma série de problemas pessoais e, óbvio com as perseguições que isso implica já que ele se transforma em um experimento ambulante.


Antes que cheguem ao cinema pensando que assistirão algo parecido com Jornada nas Estrelas ou uma versão mais barata de aliens, tirem os cavalos da tempestade. O filme apesar de seu forte apelo científico (afinal de contas, trata de um contato alienígena) o enfoque dele é de longe a ação, mesmo que presente nos minutos finais.

O filme não coloca a humanidade como vítima, pelo contrário. No enredo do filme os vilões são os seres humanos. Somos retratados, independente da cor, gênero ou opção, como mesquinhos, egoístas e temerários, fazendo experimentos cruéis com os camarões ou tratando-os como lixo social, quando na verdade eles só estão na Terra porque os obrigamos.

Nada mais do que a verdade. Só que ninguém gosta de verdade. E se duvida de nossa capacidade de sermos cruéis, e ainda alegando boas intenções, veja esse artigo do Pk: Atrocidades da Guerra.

É a humanidade, nua, crua e jogada na nossa cara da pior forma possível. Não dá para não se revoltar com o que acontece com Wikus e perceber/constatar que não seria muito diferente no mundo real.

Mas mesmo o mote, mesmo a verdade do filme não o livra de certos erros. Ele é confuso, tem uma edição que atrapalha mais do que ajuda em muitos momentos. Ele começa como um documentário do despejo dos camarões do Distrito 9 e em algum momento do filme deixa de ser um documentário, mas você não percebe essa mudança de forma clara.

O diretor tenta usar o recurso de passar o filme como se fosse narrativa de fatos passados, mas a ausência de alguns conectores ou um simples efeito especial resolveria o problema. Ele tenta usar recursos já usados, misturando idéias/técnicas de Tarantino (Pulp Fiction) com Matt Reeves (Cloverfield) e fica muito ruim, mas ruim mesmo.

Se você se distrai com a pipoca no início do filme (ou aquele casal tarado do banco de trás) vai ter que assistir de novo para compreender a narrativa porque vai perder o tino. Outro fator que pega negativo é que o filme enfatiza tudo. Se Wikus solta um "pum", a imprensa noticia que ele soltou um pum. E a cidade inteira de Joanesburgo parece um Big Brother.

Detalhe: leiam a sinopse no final do artigo e descubram que não NADA a ver com o filme.


Outro lado ruim é que os camarões são mal explorados como raça e como personagens.

Não dá para conceber e aceitar que uma raça que viaja pelo universo, que possui as armas que possui no filme, fique tanto tempo subjugada ou que se comporte de maneira tão selvagem. Ainda que tenham dito que estavam doentes, vinte anos se passaram de humilhações e privações e tendo o arsenal deles (apresentado e usado no filme) seria suficiente para impor respeito -pelo medo - a qualquer nação. Isso sem contar que seus corpos são mais fortes e resistentes que os nossos.

Os camarões, como sociedade e indivíduos, são retratados como criaturas sem organização central, sem capacidade ou desejo de eleger um representante para negociar em nome deles como a nação que são.

Não existe isso. O tempo todo os apresentam como pobres coitados, revirando o lixo no entorno do distrito 9, procurando - provavelmente pelo fluido (o combustível de sua nave-mãe) -, perseguidos por homens que eles dividem em dois com tapas. Que tenham chegado doentes, como diz logo no início do filme, tudo bem, mas ainda assim são uma espécie superior tecnologicamente, ou seja, deveriam o ser também em comportamento e diplomacia.

Uma pergunta (senão "A") é: se a nave está sem energia a vinte anos, como consegue flutuar?

Para mim são os pontos negativos mais gritantes. Existem outros, como seu final em aberto, mas hoje em dia é tradição no cinema de Hollywood, já que filmes "populares" não são mais do que séries televisivas para telas grandes e continuações eternas. Não que Distrito 9 se encaixe nessa temática, mas pelos comentários que escutei de "vai ter continuação" mesmo que a intenção não seja essa dos produtores e roteiristas, ficou a brecha.

Pelo que faturou, realmente pode ter continuação, mesmo sendo o ideal ficar sua conclusão apenas no imaginário das pessoas.

Para constar, o filme custou aos cofres da TriStar Pictures o valor arredondado de 30 milhões de dólares, na primeira semana faturou 37 milhões (em setembro já recebera mais de 100 milhões), e continua faturando pelo mundo, dado que, por exemplo, só estreou aqui agora.

Ainda assim, com esses erros bobos, é a ficção científica mais coerente dos últimos tempos, pois mostra algo do ser humano que sempre fingimos não ser e algo distinto, nosso lado como algozes e não como eternas vítimas de visitantes do espaço.

E de uns tempos para cá tem faltado um pouco dessa verdade na raça humana.

Trailer:


Ficha (Fonte: IMDB - District 9):
Diretor: Neill Blomkamp;
Roteiro: Neill Blomkamp e Terri Tatchell;
Produção: Peter "SdA" Jackson;
Estrelando (basicamente): Sharlto Copley (Wikus Van De Merwe) e Jason Cope (Grey Bradnam).
Estreou EUA: 14/08/09;
Estreou BR: 23/10/09.

Sinopse (Fonte: Severiano Ribeiro):
Alienígenas chegam a Terra como refugiados e se instalam em uma área da África do Sul, o Distrito 9, enquanto os humanos decidem o que fazer com eles. A Multi-National United (MNU) é uma empresa contratada para controlar os alienígenas e mantê-los em campos de concentração e desejam receber imensos lucros para fabricar armas que tenham como "matéria-prima" as defesas naturais dos extraterrestres. Mas a MNU falha na tentativa de fabricação das armas e descobrem que para que elas sejam ativadas, o DNA dos aliens é necessário. A tensão entre humanos e aliens aumenta quando Wikus van der Merwe espalha um misterioso vírus que modifica o DNA das criaturas impedindo a poderosa MNU de colocar em prática seus planos de exploração sobre as criaturas de outro planeta.

7 comentários:

  1. Caro Dragus, ainda não vi o filme, ao ler o post sobre D9 do co-autor do Blog Café Pingado, Pablo Gurreiro, fiquei na expectativa de ver um bom filme, confesso que ao ler sua crítica fiquei com a sensação de que é "uma boa história que foi mal contada". Mas, se ele nos faz refletir sobre a condição humana talvez (apenas talvez) seja merecido o citado título de um dos 10 filmes de ficção científica mais importantes propugnado por algumas revistas.

    Abç.

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  2. É exatamente isso,

    Uma ótima história, uma premissa maravilhosa, mas com erros de execução que minaram o filme em si.

    Mas não tira seu mérito e o choque que causa nas pessoas.

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  3. Eu não vi o filme, mas uma das minhas filhas e disse que é muito bom! hauahaua
    Brincadeira, eu vi e gostei. Só acho o mesmo que você, a ideia em si é fantástica e foi pouco explorada, do resto me diverti muito.
    Só não concordo com isso "Se Wikus solta um "pum", a imprensa noticia que ele soltou um pum. E a cidade inteira de Joanesburgo parece um Big Brother."
    Cara, o que a gente ve na TV hoje? O que aconteceu com a familía do menino do balão, é tudo Big Brother :)
    Abraço!

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  4. "Uma pergunta (senão "A") é: se a nave está sem energia a vinte anos, como consegue flutuar?"

    em se tratando de tecnologia alienígena, não vale a pena fazer essa pergunta...

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  5. Eu particularmente adorei o filme, e infelizmente(ou felizmente) não concordo com essas criticas Dragus. =P

    Hehehehehehe, é bem questão de gosto e lógica pessoal...pois algumas coisas que não fazem sentido pra uns, fazem perfeito sentido pra outras.

    Então meu conselho é: Vá ver o filme e tire sua impressão. Afinal gosto é gosto, e assim como eu gostei desse filme, eu já odiei vários filmes que a grande massa adorou e aplaudiu de pé. =P

    Bjundas a todos!

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  6. Concordo com você. Ser humano é preconceituoso e teme profundamente o diferente e o oculto. Temos dificuldades em aceitar até as diferenças entre as culturas de nossa própria raça; imagine o choque cultural de encontrar outros seres completamente diferentes? O primeiro impulso humano seria sempre o da violência. Mesmo que isso fosse dominado depois.

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