Monólogo de uma madrugada chuvosa.

Em uma noite fria uma mulher caminhava, só, sem rumo. Sua mente vagava por dimensões inimagináveis, seu corpo seguia sem rumo. Cansada, senta em um banco, observa a paisagem e descansa. Chove, as pequenas e frias gotas caem, uma a uma, sem cadência, vagarosamente, até aumentarem seu ritmo e dar início a caótica sinfonia criada pela natureza. Ela parte a procura de abrigo, anda corre, mas não encontra. Finalmente encontra, um banco sobre a proteção de uma bela cobertura, esta escuro ali, mas tudo que importava era o abrigo, mais nada.

Alguém se aproxima, apressado, também procura abrigo. A mulher o olha rapidamente, mas não o noto por completo, sua cautela a impede.

Homem: Boa noite! - Cumprimenta o homem percebendo a mulher solitária e acuada.

Ela nada responde, olha de relance, é um homem bem vestido, de boa constituição física, não nota muito seu rosto, mas parece belo. Sua voz era agradável, tinha um tom sedutor e ela sentiu um arrepio subindo-lhe a espinha.

Mulher: Eu não quero falar com Ninguém. - Disse tentando fazer com que o homem se calasse.

A mulher se assustou, ele chegava cada vez mais perto. Ela olhou rápido, ele estava sorrindo, um sorriso malicioso, se sentiu acuada. Tentou se afastar, mas ele já estava ao seu lado.

Homem: Tudo bem, não fale nada, então serei seu Ninguém.

A voz do homem era forte e seu tom imporioso era sedutor.

Mulher: Mas Ninguém me atrai.
Homem: Por que? - Questionou. - O que te atrai a Ninguém?
Mulher: Porque talvez seja alguém.
Homem: Ou talvez um ser abstrato intangível.
Mulher: O intangível pode ser abstrato, mas não por isso incompreensível.

Mesmo com medo ela não conseguia fugir. Ela se sentia cada vez mais atraiada por aquele estranho que para ela era Ninguém.

Homem: Para se estabelecer um diálogo é preciso duas partes: um locutor e um ouvinte, mas quando uma das partes é Ninguém, não seria um monologo? Há um diálogo com Ninguém? - Provocou.
Mulher: Talvez o monólogo de uma madrugada chuvosa me atraia. - Respondeu pela primeira vez olhando nos olhos do homem.
Homem : A madrugada é escura e chuva oculta o som dos que se ocultam nas sombras, quem sabe o inimigo não esteja próximo.

Seu olhar era penetrante, quase hipnótico, ela se sentiu anda mais atraída.

Mulher: Acredito que o inimigo sejam os pensamentos que nos inquientam, talvez esses que não te deixaram dormir até agora.
Homem: Ou talvez esteja apenas acordado aguardando minha presa que se aventura na penumbra de uma noite chuvosa.
Mulher: O que espera de aventura nessa noite? - Disse ela tentando demonstrar coragem.
Homem: Algo que preencha o vazio de meu ser, para saciar momentaneamente minha vontade insaciável. - Disse enquanto se levantava.

O homem sumiu, ela olhava para os lado mas não conseguia vê-lo.

Mulher : Vai sair? - Perguntou alto ansiosa pela resposta.


Silencio.


Ela ficou apreensiva, não sabia o que viria a seguir.

Homem: Aqui permanecerei enquanto minha caça não aparece. - Sussurrou no ouvido dela.

De um salto a mulher se ergueu, mas o homem já não estava mais atrás dela.

Mulher: Se propõe ser o caçador, mas nesse jogo quem faz as regras é a caça. - Disse tentando mais um vez demonstrar coragem,mas agora mesclada a um pouco de sua raiva.
Homem: Que regras pode ditar a caça que caminha pelo vazio da escuridão? - Caçoou observando-a atentamente.
Mulher: Pode dizer quando o jogo termina.
Homem: Mas como há de saber que o jogo começou?
Mulher: Começou... - Anunciou olhando atentamente para onde o homem estava.

Ele a encarava, seu olhar era puro desejo, ela lhe retribuiu o olhar, o sentimento era quase mutuo.

Homem: Então corra, encontre abrigo, pois o manto diáfano de tua vã segurança pode não te proteger dos olhos que te espreitam. - Disse gesticulando expansivamente tetando amedrontá-la
Mulher: Não tenho medo já que você é Ninguém. - Mentiu, mas o temor se misturava com o desejo. - Afinal, como correr de Ninguém?
Homem: Então te entregas as presas de teu algoz?
Mulher : Se meu algoz for ninguém, me entrego.

O homem estava agora ao seu lado. Era alto. Ele sentia a respiração ofegante da mulher, estava tão próximo dela que seus corpos quase se tocavam, mas mesmo daquela distância, ele sentia seu coração bater acelerado.

Homem: Ninguém pode ser apenas um disfarce que oculta o derradeiro perigo, mesmo assim te entregas sem luta? - Disse enquanto caminhava para trás dela.
Mulher: Eu luto sim... Como será esse embate? - Disse virando-se para o homem. - Será fácil, um disfarce é sempre vulnerável à primeira mentira.
Homem: A vontade sera minha arma, se fordes capaz de superá-la deixa-te-ei partir sem te causar mal algum.
Mulher: Sua vontade conquistara o que nessa noite?

Ela agora se sentia mais confiante confiante. Encarava o homem nos olhos.

Homem: Tudo aquilo que desejo! - Disse com convicção.
Mulher: O que é?
Homem: O cálice da vida e da sabedoria, o cerne da existência de quem for minha presa.
Mulher: Suas vontades são ordinárias! - Provocou-o
Homem: E suas palavras são vagas! - Rebateu
Mulher: Seus desejos também! - Provocou outra vez.
Homem: O que sabe de meus desejos, ó débil ser que vaga pela noite? - Questionou elevando sua voz como um trovão.
Mulher: Diga-me o que desejas... - Disse se aproximando dele e tocando seu peito.

Por um instante os dois trocaram olhares, como iguais.

Homem: O que me pedes não queres realmente saber, então por que me questionas? - Disse se afastando.
Mulher: O que sabes sobre o que quero ou não saber? - Questionou com raiva.
Homem: Sei que sai a noite, só, e indefesa, sei que não queres saber a verdade, pessoa alguma quer. - Respondeu retomando as rédeas do embate.
Mulher: Não me importo muito com a verdade, as ilusões me alegram.

Mais uma vez ela se aproximou do homem e olhou em seus olhos, mas ainda não conseguia distinguir sua face.

Homem: Vê! - Exclamou afastando-a. - Admite que não gostas da verdade. A verdade dói, fere, como um cravo fincado em teu peito que te faz sangrar até que vejas o fim, mas nunca te deixa partir por completo, sempre a te atormentar. Então o que realmente queres, a dolorosa e impiedosa verdade, ou a doce ilusão que te mantém segura?

A mulher se afastou e sumiu nas sombras da noite, caminhando lentamente.

Homem: Por teu silêncio tomo minha vitória, e agora partirei triunfante em busca de outra presa que assim como tu há de sucumbir a minha vontade! - Disse bem alto para que ela, mesmo longe pudesse ouvi-lo.

Com isso ele, partiu. Vagou só, mas não estava satisfeito. Sentia-se frustrado.

- Sentiu minha falta?

Era a voz da mulher. Tinha vontade de olhá-la, mas não o fez. Apenas manteve-se calado.

Mulher: Não se cale, sinto que tem muito a dizer.
Homem: Então és minha presa que se calou. Iludiu-me fazendo pensar que tinha em mãos o cálice da vitória, quando apenas saboreava uma doce mentira.
Mulher: A mentira é agradável, tens que acabar o preconceito para com a mentira doce.
Homem: Bravo! - Disse ele voltando-se para ela e aplaudindo. - Devo me prostrar perante ti e admitir minha derrota perante tamanha sagacidade que sobrepujou minha vontade.

Ele humildemente se ajoelhou perante a mulher, pegou sua mão, acariciou-a por um instante e depois deu-lhe um beijo.

Mulher: Assim a caça determinou o fim do jogo, como antes já havia previsto. - Disse sentindo-se triunfante.
Homem: Apenas porquê o caçador julgou valorosa a caça e não desejas mais que sua existência tenha fim nesta noite, para que em outra possa ter o prazer de caçá-la outra vez.
Mulher: Empate?
Homem: Empate!

E assim os dois seguiram juntos noite a dentro, sem rumo, mas não mais sós.

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