Você tem aquilo que paga. - Enem.

Fonte da Imagem: O Pior de Tudo

Uma vez, conversando com uma diretora da Petrobrás em 2007, papeávamos sobre assuntos os mais variáveis. Eu na época filmava aulas para uma empresa parceira alguns cursos profissionais da Petrobrás, que depois minha mãe fazia a edição e entregava para a empresa que nos contratava e daí para a Petrobrás.

Estavámos eu, ela e o professor (um radialista) questionando melhorias para os cursos em si, coisas bobas como mudar as capas dos DVDs, o esquema das próprias aulas e tudo o mais. Foi quando chegamos no ponto crucial, o "sangue de cristo" (dinheiro).

Ela explicou que o processo licitatório do Brasil foi feito nas coxas para agradar mentes simplistas. Ela justificou alegando que não tem como esperar qualidade em nenhuma licitação quando o único critério a ser avaliado é preço. "Não há como funcionar um sistema que onera a qualidade em questão de valor monetário. Bens e serviços de melhor qualidade sempre são mais caros, é a realidade do mercado e do capitalismo. Empresas sérias ou não participam ou se participam perdem ou realizam o contratado com limitações", disse mais ou menos assim, pelo que lembro.

Explicando o processo licitatório (de forma geral).
Quando se faz uma licitação, o orgão federal responsável lança no diário oficial um edital com o que precisa. As empresas então se apresentam como candidatas para executar o serviço e dão seus preços. Independentemente de história, status ou idade da empresa, por motivos econômicos sempre ganha aquela que cobra menos teoricamente pelo mesmo serviço.

Orgãos e empresas públicas atualmente utilizam sistemas de pregões eletrônicos, em geral públicos - mas complicados de se acompanhar em alguns órgãos. Se quiser ver como funciona uma licitação pública você pode tentar por exemplo o do site do Banco do Brasil: BB Licitação Eletrônica - Acompanháveis.

Esse é o pulo do gato da infelicidade e a fonte de muitos problemas. Como a disputa só considera valor monetário quase sempre ocorrem dois cenários distintos e infrutíferos entre si em pregões.
  1. As empresas combinam os valores entre si, eliminando a concorrência real, pois organizadas em um cartel - obviamente ilegal e imoral - ditam preços, fazendo um rodízio entre elas. O governo (foi assim no FHC, é assim no Lula e continuará sendo sempre) - leia-se, eu e você, o contribuinte. - paga porque é obrigado a fazer, e não tem como comprovar esse hábito dentro dos parâmetros legais da coisa. Nesse interim, obviamente é que surgem os maiores problemas de corrupção, pois esses carteis premiam as bancas de avaliação dos editais em troca apenas de simpatia (culturalmente no Brasil ninguém desconfia de quem é simpático, vide Collor, Maluf, etc).
  2. Surge uma empresa/consórcio ineficiente (em geral também inexperiente e nova), que oferece preços mínimos, que enchem os olhos de eventuais bancas mas que no final das contas não consegue cumprir o que promete ou faz do modo brasileiro: nas coxas.


Foi desse modo que aconteceu o Enem. O INEP fez o processo licitatório exatamente do modo como manda a lei, onde o mesmo só pode ser rompido em caso de falha grave ou emergência. No cenário e nas regras em vigor uma empresa realmente séria não poderia de forma alguma competir.

Segurança de dados e informação não é algo que pode ser medido apenas pelo seu valor em financeiro. Uma empresa tem valores não palpáveis, como honestidade de seu corpo diretor, capacidade de gestão, organização e prazos de entrega. São valores que não tem como mensurar ou medir simplesmente com alguns cheques de grande valor.

A única forma de escapar do problema é ocorrendo o problema. O INEP jogou roleta russa. A empresa mais barata ganhou, ótimo. Se o ENEM acontecesse e tudo desse certo, o INEP ficaria feliz e todos sairiam lucrando. Se ele tivesse desde o início seguido o caminho defendido por todos, o correto, seria criticado pelos altos custos do investimento. Afinal de contas, no Brasil TUDO é paliativo, NADA é preventivo. Primeiro tem que pegar fogo para só depois se investir em combate ao fogo.


Não foi diferente com o ENEM. Como uma tragédia anunciada deu no que deu. A prova vazou. Toda pessoa tem seu preço e quanto menos tem a pessoa, menor o preço dela. Quer entender como funciona no mercado, assista "O Poderoso Chefão" e veja como existem preços e preços. A vida real é igualzinha, exceto que não se mata quem discorda, ao menos não em todo lugar.

Agora, amparados pela emergência o INEP colocou uma organizadora com experiência em concursos nacionais, conhecida e temida por muitos concurseiros - eu por exemplo. - por suas provas de conteúdo difícil e extremamente dedicadas ao ato de interpretar textos, a CESPE-UNB.

Claro, considerando o grau médio de instrução do Brasileiro e que a ferramenta de internet mais popular por aqui limita a leitura em parágrafos em 140 caracteres, é provável que a CESPE esforce-se em facilitar a prova, afinal de contas um ENEM com notas baixas em ano de eleição presidencial e estadual é muito feio para aqueles que querem usar os resultados das provas para "comprovar" seus enfadonhos investimentos em educação.

E assim vão caminhar as coisas.

O Enem deu errado porque pagou pouco (você recebe qualidade proporcional ao preço pago por ela - pague pouco e tenha um serviço horrível, sem poder exigir melhorias, pague muito/bem/justo e seja até bajulado), agora corre contra o tempo para realizar o exame e evitar novos problema, agora já sem se importar pelo preço. Afinal de contas, filme queimado não tem preço.

Enquanto isso as universidades que "aceitaram" o esquema sofrerão a longo prazo os problemas decorrentes do atraso.

Até quando?

Esse é o país da Copa e das Olimpíadas.

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